{"id":418,"date":"2010-09-18T15:04:00","date_gmt":"2010-09-18T18:04:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=418"},"modified":"2017-11-02T14:09:23","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:23","slug":"uma-luz-rosada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/09\/uma-luz-rosada\/","title":{"rendered":"Uma Luz Rosada"},"content":{"rendered":"<p>Acabei de abotoar o cinto e tomei o resto da \u00e1gua mineral gelada para tentar ainda relaxar. N\u00e3o seria dif\u00edcil aquela noite, n\u00e3o era nunca muito dif\u00edcil, mas a cada noite eu sentia que o controle das coisas me escapava, como se uma m\u00e3o invis\u00edvel estivesse puxando a corda que Deus me havia dado. Eu era um ladr\u00e3o, n\u00e3o tinha vergonha disso, e estava prestes a cometer outro roubo.<\/p>\n<p>Desci do carro e comecei a caminhar. Meus sapatos de sola de borracha macia rangiam gostosamente no ch\u00e3o e os meus \u00f3culos falsos, emoldurados por uma peruca despenteada, me davam um ar de universit\u00e1rio nerd voltando do laborat\u00f3rio tarde da noite. Passei por uma patrulha da guarda do Campus e os cumprimentei com gestos claros, sem medo. Eu queria que vissem o meu rosto, mas simplesmente n\u00e3o o achassem importante. Cheguei ent\u00e3o ao Museu de Hist\u00f3ria Universal, onde a Caixa da Quimera estava exposta. A misteriosa pe\u00e7a interessava a muita gente, e me pagavam bem para que eu a subtra\u00edsse da ci\u00eancia e a entregasse a um comerciante escuso que a levaria para um milion\u00e1rio exc\u00eantrico.<\/p>\n<p>Depois de tantas semanas infiltrado no campus, conhecia cada palmo dele, sabia onde passar, sem ter que ser visto pelas rodinhas de maconheiros ou por eventuais casais inflamados. Entrei pelo jardim que conduzia ao Museu de Ci\u00eancias Naturais e logo estava em um lugar convenientemente discreto, onde havia preparado, noite ap\u00f3s noite, a minha invas\u00e3o. Abri a tampa da grade e me arrastei para dentro do por\u00e3o.<\/p>\n<p>A pequena lanterna me ajudou a localizar os interruptores certos. Propina nas m\u00e3os certas me haviam mostrado at\u00e9 coisas que eu n\u00e3o precisava saber sobre aquele pr\u00e9dio que eu invadia t\u00e3o respeitosamente. Desligados os alarmes, passeei pelos corredores na penumbra como o h\u00f3spede de uma casa de monstros.<\/p>\n<p>A Caixa estava em um pedestal simples, de feltro verde que imitava veludo. Voc\u00eas j\u00e1 devem saber de que se trata o artefato porque venho descrevendo-o, sob o nome posti\u00e7o de um professor que n\u00e3o existe. V\u00ea-la me deixou ligeiramente tenso, como se ela emanasse algo mais que antiguidade e cheiro de formol. Peguei-a, pus na bolsa e me esgueirei para fora, t\u00e3o f\u00e1cil quanto entrara naquele templo do saber.<\/p>\n<p>Em casa, recostei-me no sof\u00e1 a espera da visita do Portador. Contemplava a caixa curioso, revirando-a nas m\u00e3os como se fosse um Cubo de Rubik. O que ser\u00e1 que Don Fabrizio deseja com esse exemplar esquisito de arte sem\u00edtica antiqu\u00edssima? Por que magnatas querem ex\u00f3ticas obras de arte? N\u00e3o as comem, n\u00e3o transam com elas, n\u00e3o podem ostentar em suas casas. Qual o sentido de ter consigo algo essencialmente in\u00fatil, sem afeto, sem beleza?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o notei uma ligeira luminesc\u00eancia que surgia de um furo min\u00fasculo como um poro, pouco menos que o buraco que teria sido feito por uma fina agulha. Aquela luz morta e pungente tentava sair. Olhei atrav\u00e9s do pequeno furo.<\/p>\n<p>Uma m\u00e3o forte me puxou para tr\u00e1s, separando-me da caixa. Olhei para cima e meus olhos ainda imersos em seiva rosa-acinzentada viram o corpo descomunal de Guido Feltri. Estava adiantado, o s\u00edmio.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Don Fabrizio n\u00e3o vai gostar de saber.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Que n\u00e3o saiba, ent\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Perfeitamente.<\/p>\n<p>Ele me atingiu, o brutamontes. N\u00e3o vi com o que foi. Vi foi o meu corpo distender-se pelo ch\u00e3o enquanto outro homem, que entrava, berrava em uma voz que deveria ser alta, se eu a estivesse ouvindo com meus ouvidos materiais, mas que me soava ent\u00e3o mais plana que um velho disco de vinil desgastado:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Porco Dio, Guido. Tu sei una bestia!<\/p>\n<p>Os dois homens olhavam assustados em minha dire\u00e7\u00e3o. N\u00e3o para o meu eu que sangrava no ch\u00e3o, mas para um outro eu, esse que eu realmente era. Olhavam-me de jeito t\u00e3o curioso que eu tive vontade de brincar. Olhei fixamente neles e disse: &#8220;Buuu!&#8221;<\/p>\n<p>Os dois sa\u00edram correndo como dois moleques que viram assombra\u00e7\u00e3o. Deixaram a caixa cair ao ch\u00e3o, com o que ela se abriu e muito mais daquela estranha luz rosa inundou o ambiente.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte despertei atarantado, com estranhas formiga\u00e7\u00f5es nas extremidades. Imaginei-me, \u00e0 princ\u00edpio, em um quarto de hospital, ou no c\u00e9u, mas depois notei que era apenas a forte luz do sol que passava pela janela e atingia diretamente os meus olhos.<\/p>\n<p>Levantei-me da posi\u00e7\u00e3o em que estivera ca\u00eddo a noite toda. Havia sangue no ch\u00e3o, meu sangue. Uma po\u00e7a imensa que certamente teria me matado. Mas ao procurar em meu corpo, n\u00e3o vi nada. A caixa estava ca\u00edda ao p\u00e9 da mesa, fechada por uma m\u00e3o invis\u00edvel ou por um mecanismo qualquer.<\/p>\n<p>Por uma estranha raz\u00e3o, perdi a vontade de ter o dinheiro que ela poderia me proporcionar. Devolvi-a no mesmo dia, dizendo t\u00ea-la achado perto de casa. A minha hist\u00f3ria de que os respons\u00e1veis haviam sido Guido e o outro n\u00e3o pareceu ter credibilidade alguma, at\u00e9 que os guardas do campus se lembraram de t\u00ea-los visto correndo como loucos pela rua que leva ao Centro Velho, passando em frente ao port\u00e3o principal.<\/p>\n<p>Acabei absolvido no processo, mas n\u00e3o do inqu\u00e9rito mais rigoroso: aquele que surgiu dentro de mim por causa daquela caixa. Por causa dela eu resolvi levar a s\u00e9rio o meu papel de aluno e um dia me habilitarei a um mestrado em Hist\u00f3ria Antiga. Ent\u00e3o, finalmente, terei aquela caixa em minhas m\u00e3os, e todas as ferramentas e conhecimentos existentes sobre ela. Talvez consiga descobrir se o que aconteceu comigo foi real, ou foi sonho, ou se foi uma terceira e mais perigosa coisa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acabei de abotoar o cinto e tomei o resto da \u00e1gua mineral gelada para tentar ainda relaxar. N\u00e3o seria dif\u00edcil aquela noite, n\u00e3o era nunca muito dif\u00edcil, mas a cada noite eu sentia que o controle das coisas me escapava, como se uma m\u00e3o invis\u00edvel estivesse puxando a corda que Deus me havia dado. Eu era um ladr\u00e3o, n\u00e3o tinha vergonha disso, e estava prestes a cometer outro roubo. Desci do carro e comecei a caminhar. Meus sapatos de sola de borracha macia rangiam gostosamente [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[149],"tags":[24,32,17,60,12,10],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/418"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=418"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/418\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4542,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/418\/revisions\/4542"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=418"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=418"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=418"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}