{"id":424,"date":"2010-09-12T22:07:00","date_gmt":"2010-09-13T01:07:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=424"},"modified":"2017-11-02T14:09:23","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:23","slug":"criminosos-em-fuga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/09\/criminosos-em-fuga\/","title":{"rendered":"Criminosos em Fuga"},"content":{"rendered":"<p>Foi numa tarde quente e ensolarada de janeiro que os dois amigos resolveram agir. Jos\u00e9 e Paulo estavam desesperados pelo calor do sol e pela \u00f3bvia aus\u00eancia de praia e cerveja ao alcance de suas m\u00e3os. Como bons mineiros pobres nascidos a centenas de quil\u00f4metros do mar, nunca haviam se banhado em \u00e1guas salgadas. Esta circunst\u00e2ncia nunca tivera nenhuma import\u00e2ncia, mas naquele dia espec\u00edfico de ver\u00e3o em Santa Maria da Mata esta constata\u00e7\u00e3o ressoava em suas mentes como um sino inc\u00f4modo que interrompe o sono na manh\u00e3 de domingo.<\/p>\n<p>Decididos a fazer algo a respeito, os dois decidiram de qualquer forma obter o dinheiro necess\u00e1rio para custear sua viagem de sonhos ao litoral. De qualquer forma mesmo. Como o trabalho duro n\u00e3o paga t\u00e3o r\u00e1pido quando os horm\u00f4nios dos dois exigiam, a promessa de fazer amor com suas namoradas nas macias areias de alguma praia os convenceu que o crime era a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel.<\/p>\n<p>O problema desta escolha era que ambos viviam em uma cidade pequena, onde todos conhecem todos. Mais que isso, sabiam muito bem que ningu\u00e9m de l\u00e1 tinha o insano h\u00e1bito de guardar dinheiro em casa. Por isso, embora o seu plano inicial fosse assaltar uma vi\u00fava desamparada, acabaram abdicando desta via f\u00e1cil, mas sem grandes recompensas, para buscarem outra mais l\u00f3gica: o banco local.<\/p>\n<p>Para uma cidade pequena como a deles at\u00e9 que a ag\u00eancia era bem grande, empregando onze pessoas, entre as quais dois seguran\u00e7as e um faxineiro. Como era a \u00fanica, todos os neg\u00f3cios do munic\u00edpio a usavam bastante, resultando em razo\u00e1vel movimento. Esta circunst\u00e2ncia fez com que nossos ladr\u00f5es pensassem que seria uma boa ideia aparecer por l\u00e1 numa segunda-feira, por volta de onze da manh\u00e3, usando meias rasgadas para cobrir seus rostos e portando armas de segunda m\u00e3o enferrujadas, manuseadas nervosa e inabilmente.<\/p>\n<p>Antes de finalmente se decidirem, passaram quase uma hora em frente \u00e0 ag\u00eancia, sem m\u00e1scaras, analisando o movimento e criando coragem. Duas vezes eles pensaram que n\u00e3o deveriam agir, duas vezes temeram que n\u00e3o conseguissem levar a termo o plano arquitetado. Mas cada vez um apoiou o outro, nas duas vezes arremataram com doses de cacha\u00e7a para ajudar at\u00e9 que, enfim, decidiram entrar.<\/p>\n<p>Cruzaram a rua e apoiaram suas costas nas paredes externas do enorme e feioso pr\u00e9dio que parecia um forno r\u00fastico com sua fachada de cimento sem acabamento e sua enorme porta de vidro escuro. Fora da vista dos seguran\u00e7as, esperaram que as ruas esvaziassem um pouco, enfiaram na cabe\u00e7a suas velhas meias rasgadas e entraram no Banco pela porta girat\u00f3ria que, de forma quase previs\u00edvel para um lugar pequeno, n\u00e3o estava com o detector de metais funcionando.<\/p>\n<p>Os dois guardas eram duas criaturas desesperadoramente pacifistas. Um deles era um negro alto e gordo, com apar\u00eancia bonachona e uma tremenda voz trovejando que trazia ecos aos ouvidos quando falava alto, mas falava quase sempre em voz baixa e educadamente. O outro era um magricela sardento e ruivo que parecia um morto-vivo e cujos olhos verde-cinzentos estavam constantemente isolados dentro de profundas olheiras. Nenhum dois tinha o porte ou o treinamento para enfrentar situa\u00e7\u00f5es de tens\u00e3o extrema. O ruivo magricela molhou as cal\u00e7as antes mesmo de ver os rev\u00f3lveres ou ouvir o grito de assalto, indo refugiar-se no banheiro t\u00e3o logo viu os mascarados entrarem. O negro gordo teve a necess\u00e1ria presen\u00e7a de esp\u00edrito, mas n\u00e3o a agilidade exigida: tentando mover-se rapidamente para tr\u00e1s de uma das pilastras de concreto para poder reagir, levando j\u00e1 sua arma \u00e0 m\u00e3o, trope\u00e7ou em um carpete e caiu pesadamente ao ch\u00e3o, sobre sua protuberante barriga, perdendo imediatamente os sentidos e ficando l\u00e1 a retorcer-se como uma baleia encalhada.<\/p>\n<p>Os funcion\u00e1rios estavam todos muito bem treinados para casos de assalto. Provavelmente tinham ouvido muitas hist\u00f3rias de colegas de profiss\u00e3o mortos estupidamente em tentativas de assalto e reagiram como um bando de zebras quando o le\u00e3o ataca: deixaram cair qualquer coisa que tivessem \u00e0 m\u00e3o e abandonando o pr\u00e9dio rapidamente, aproveitando as amplas sa\u00eddas de fundos, levando consigo a maioria dos poucos clientes. O terreno dos fundos, lamacento ap\u00f3s as chuvas, era escorregadio e trai\u00e7oeiro, proporcionando hil\u00e1rias cenas de pessoas desesperadas que se estabacavam atarantadamente. Mais al\u00e9m, na pantanosa margem do rio, toda aquela gente se enredou nos espinheiros e arbustos, finalmente desaparecendo entre os bambuzais.<\/p>\n<p>Este sucesso inicial maravilhou os dois ladr\u00f5es. Nem mesmo em seus sonhos eles imaginaram que pudessem ser t\u00e3o descolados. Tudo que tinham a fazer era pular por sobre os balc\u00f5es e ensacar todo o dinheiro que pudessem carregar. De prefer\u00eancia antes que a pol\u00edcia conseguisse chegar.<\/p>\n<p>Encontrando mais do que haviam esperado, os dois encheram os sacos e bolsos e deixaram o banco sentindo seu plano plenamente realizado. Correram pela rua principal abaixo como adolescentes que roubaram goiabas do quintal do vizinho e cruzaram a ponte quase querendo jogar dinheiro fora, pelo prazer insano de fazer isso. Entraram em seu carro e se prepararam para fugir.<\/p>\n<p>As primeiras nuvens escuras apareceram no horizonte exatamente neste momento. O carro que usariam para a fuga era um velho Fusca retirado de um desmanche de ve\u00edculos, uma pobre sombra do carro que um dia fora, uma geringon\u00e7a que mal conseguia se mover. O velho carro, que funcionara surpreendentemente bem no trajeto entre o ferro-velho e a porta do Banco, recusou-se a pegar por um bom tempo e, quando enfim funcionou, tremeu e sacudiu-se como se tivesse o Mal de Parkinson. Por fim, rendeu as for\u00e7as do motor de arranque e da bateria, deixando os dois passageiros sozinhos na rodovia, a meros duzentos metros dos limites urbanos.<\/p>\n<p>&#8212; Que fazemos agora? &#8212; perguntou Paulo.<\/p>\n<p>&#8212; Achar um lugar para esconder at\u00e9 a pol\u00edcia passar.<\/p>\n<p>&#8212; Esconder? Onde? Todo mundo aqui conhece a gente!<\/p>\n<p>&#8212; Bem, tem aquela chacrinha ali\u2026<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o, n\u00e3o! Nada a ver. `T\u00e1 muito perto da cidade, e pior ainda: perto demais de nosso carro. A pol\u00edcia vai saber que estamos por perto e vai fu\u00e7ar em cada buraco desse pasto\u2026<\/p>\n<p>&#8212; Bem, pode ser que o carro pegue se a gente empurra\u2026<\/p>\n<p>Quando achavam que n\u00e3o havia mais esperan\u00e7a, veio um \u00f4nibus e eles tiveram, no ato, a mesma ideia: acenaram que parasse e subiram, levando o dinheiro do assalto dentro das mochilas. Ningu\u00e9m dentro do \u00f4nibus, que vinha direto, suspeitava de coisa alguma.<\/p>\n<p>&#8212; Agora &#8212; cochicho Paulo ao amigo &#8212; a gente vai at\u00e9 Santana e compra um carro usado l\u00e1. Depois a gente liga pras namoradas e pede que esperem a gente em Cabo Frio.<\/p>\n<p>&#8212; S\u00f3 tem um problema, Paulo.<\/p>\n<p>&#8212; Que problema?<\/p>\n<p>&#8212; A gente esqueceu que esse raio de \u00f4nibus passa por um posto da Guarda Rodovi\u00e1ria! Logo ali! &#8212; e Jos\u00e9 apontou com o bei\u00e7o de baixo para al\u00e9m do morro seguinte.<\/p>\n<p>&#8212; Oh, merda! Que bobagem nossa! A gente tinha que estar fugindo pro outro lado desde o come\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8212; A gente tem que descer.<\/p>\n<p>O \u00f4nibus convenientemente parou cerca de trezentos metros depois, j\u00e1 dentro dos limites da cidadezinha vizinha. Os dois desceram r\u00e1pido, quase se esquecendo de pagar ao trocador. Quando desceram, acabou surgindo outro problema:<\/p>\n<p>&#8212; Paulo, estou com uma fome braba agora. Por que a gente n\u00e3o compra um pouco de p\u00e3o e salame naquela padaria para levar pro lanche? A gente n\u00e3o vai longe sem comer.<\/p>\n<p>&#8212; Z\u00e9, mas que burro que voc\u00ea \u00e9! Veio de barriga vazia para uma fuga destas?<\/p>\n<p>&#8212; Bem, ela n\u00e3o `tava vazia de manh\u00e3 quando sa\u00ed de casa, mas a gente ficou um temp\u00e3o olhando o movimento sem criar coragem\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o havia a menor chance de fugirem famintos. O pr\u00f3prio Paulo teve de admitir que tamb\u00e9m mal se aguentava, de forma que tiveram de comer. Compraram dez p\u00e3es murchos e meio quilo de salame fatiado para comerem com uma garrafa de refrigerante barato. Pagaram com um pouco do dinheiro roubado, tentando esconder o quanto suas mochilas estavam cheias de notas de baixo valor.<\/p>\n<p>De posse da comida, tinham de descobrir um meio de escape &#8212; o que n\u00e3o era f\u00e1cil, visto que n\u00e3o tinham nenhum plano desde o momento em que o carro morrera, e talvez desde antes. N\u00e3o podiam seguir \u00e0 direita porque havia um posto de Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria al\u00e9m do monte, n\u00e3o podiam entrar na cidade porque a pol\u00edcia de l\u00e1 certamente j\u00e1 fora alertada do roubo em Santa Maria e n\u00e3o podiam voltar porque certamente j\u00e1 estavam sendo procurados pelo caminho. De forma que estavam encurralados no curto trecho de cinco quil\u00f4metros entre duas cidadezinhas, unidas por uma estrada e separadas por um rio que eles n\u00e3o podiam cruzar a nado.<\/p>\n<p>A \u00fanica coisa que podiam fazer era pular a cerca e subir pelo pasto acima, para longe dos lugares habitados, na esperan\u00e7a de se perderem nas macegas. Nem isso, no entanto, acabaram por fazer, j\u00e1 que alguns bois e touros de longos chifres pastavam por l\u00e1. Eles poderiam ter tentado, talvez matando algum que os atacasse, mas n\u00e3o tinham muitas balas e nem coragem de matar t\u00e3o belos bichos.<\/p>\n<p>Assim, acabaram decidindo esconder-se debaixo da ponte que cruzava o riacho que desaguava no grande rio. Desceram vinte metros desde a frente da padaria, ladearam a encosta e entraram por uma moita de capim-navalha para chegar a um lugar mais ou menos \u00famido e silencioso sob as pilastras da ponte. Ali, em companhia do mau cheiro do polu\u00eddo curso d&#8217;\u00e1gua e da desagrad\u00e1vel presen\u00e7a de baratas, come\u00e7aram a comer sua refei\u00e7\u00e3o de campe\u00f5es. L\u00e1 ficaram por cerca de duas horas, na esperan\u00e7a de que a noite ca\u00edsse e eles pudessem sair andando pacificamente pela estrada e atravessar algum dos obst\u00e1culos que tinham no caminho.<\/p>\n<p>Mas isto n\u00e3o aconteceu. Depois de finalmente consertarem seu \u00fanico carro de patrulha, os policiais de Santa Maria vieram pregui\u00e7osamente pela estrada, pedindo informa\u00e7\u00f5es e seguindo as abundantes pistas. No momento em que sa\u00edram, j\u00e1 haviam recebido dezenas de informes com sugest\u00f5es de linhas investigativas, de forma que tiveram de testar v\u00e1rias, perdendo mais algumas horas seguindo ind\u00edcios falsos, at\u00e9 finalmente se convencerem de que os meliantes haviam seguido mesmo o menos prov\u00e1vel dos caminhos.<\/p>\n<p>O delegado de Santa Maria era um bigodudo senhor de meia idade que viera para o interior em busca de paz e sossego para esperar a aposentadoria, mas por muito tempo fora um dos &#8221; dur\u00f5es&#8221; da pol\u00edcia da capital. Descobriu rapidamente a identidade dos ladr\u00f5es, acuou suas fam\u00edlias e namoradas, obteve fotos e depoimentos e seguiu com seus policiais em busca dos foragidos.<\/p>\n<p>Achou-os, ainda comendo sandu\u00edches frios de salame e tomando tuba\u00edna morna debaixo da ponte. Pela apar\u00eancia de seus rostos amassados e seus cabelos suados e despenteados, o delegado percebeu que os dois ot\u00e1rios estavam quase felizes por serem aliviados do trabalho de estarem fugindo. Renderam-se calmamente, mesmo porque uma rea\u00e7\u00e3o teria sido suicida, uma vez que suas armas, mais tarde ao serem testadas, mascaram cinco das seis balas que tinham no tambor.<\/p>\n<p>Levados \u00e0 delegacia municipal, foram ali mantidos por tempo suficiente para que todo mundo pudesse ir l\u00e1 rir deles. O delegado ainda foi bacana de argumentar com o juiz local que relevasse o crime, suspendendo a deten\u00e7\u00e3o em troca de uma pena alternativa, mas os dois preferiram ir para o pres\u00eddio &#8212; que ficava em outro munic\u00edpio &#8212; do que terem que passar tr\u00eas semanas capinando canteiros e arrancando ervas dentre os paralelep\u00edpedos da cidade, alvo da chacota dos amigos e conhecidos.<\/p>\n<p>Foram condenados a quatro anos, a pena m\u00ednima para assalto a m\u00e3o armada. A total inoper\u00e2ncia de seu plano convenceu o juiz de que eram dois idiotas em vez de dois fac\u00ednoras. Ap\u00f3s oito meses de cana sa\u00edram para cumprir a pena em liberdade e fizeram o que de melhor poderiam fazer: sumir no mundo. Jos\u00e9 entrou num \u00f4nibus para Belo Horizonte, Paulo num para o Rio de Janeiro. E nunca mais se viram, nem se escreveram e nem voltaram a Santa Maria, onde o caso virou lenda.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi numa tarde quente e ensolarada de janeiro que os dois amigos resolveram agir. Jos\u00e9 e Paulo estavam desesperados pelo calor do sol e pela \u00f3bvia aus\u00eancia de praia e cerveja ao alcance de suas m\u00e3os. Como bons mineiros pobres nascidos a centenas de quil\u00f4metros do mar, nunca haviam se banhado em \u00e1guas salgadas. 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