{"id":425,"date":"2010-09-11T22:35:00","date_gmt":"2010-09-12T01:35:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=425"},"modified":"2017-11-02T14:09:23","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:23","slug":"a-vampira-de-leopoldina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/09\/a-vampira-de-leopoldina\/","title":{"rendered":"A Vampira de Leopoldina"},"content":{"rendered":"<p>Estamos tomando uma cerveja no Maneira Mineira quando a figura aparece outra vez, envergando o mesmo sobretudo negro de ontem. Tem os olhos mergulhados numa po\u00e7a disforme de maquiagem borrada, as orelhas pontiagudas adornadas por alguns brincos de prata, a face p\u00e1lida parece uma tela virgem perdida no meio da cabeleira solta, esvoa\u00e7ando, de cor morta e penteado inexprim\u00edvel. Ela n\u00e3o sorri, parece incomodar-se com o ru\u00eddo selvagem desta pra\u00e7a animalesca onde se acasala a juventude, mas mesmo assim t\u00e3o deslocada ela est\u00e1 aqui.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabe dizer de onde veio a monstra. Cada um que a v\u00ea chegar diz que \u00e9 de um lugar diferente. Uns dizem que vem da F\u00e1brica, outros a viram subindo da Cotegipe, outros juram que veio da Avenida Get\u00falio Vargas, h\u00e1 at\u00e9 quem a tenha visto descer do Morro da Panela. Cada noite ela parece vir de uma dire\u00e7\u00e3o diferente, mas sempre no mesmo passo mi\u00fado e nervoso, com os mesmos olhos serelepes e tristes.<\/p>\n<p>Ela passa lentamente por entre a multid\u00e3o, deixando um cheiro leve de mofo e de tra\u00e7a misturado com algum tipo de perfume barato, ou sabonete. Sempre com as m\u00e3os nos bolsos, com os dentes dentro da boca, com a boca fechada para n\u00e3o entrar mosquito, com a cara amarrada de quem detesta o que faz. N\u00f3s a apelidamos de &#8220;vampira&#8221;.<\/p>\n<p>A vampira de Leopoldina est\u00e1 sempre sozinha quando aparece, no come\u00e7o da noite. Sempre andando devagar e atentamente, observando com ast\u00facia e com melancolia enquanto as pessoas se empaturram de carne e cerveja. Depois vira uma esquina e n\u00e3o a vemos mais.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabe onde a vampira vive, ou o que faz. Ela n\u00e3o se parece com ningu\u00e9m que anda pela cidade durante o dia. Talvez exatamente por isso o apelido lhe assente t\u00e3o bem. Ningu\u00e9m imaginaria encontrar tal figura vendendo rem\u00e9dios numa farm\u00e1cia, atendendo numa loja de m\u00f3veis, ou servindo num restaurante. E por ser branca, e por ter alguma coisa que evoca beleza, ela certamente seria aceita de prefer\u00eancia em qualquer emprego desses. Ela n\u00e3o vende, n\u00e3o atende, n\u00e3o serve. Tampouco se encaixa.<\/p>\n<p>Hoje resolvi seguir a vampira at\u00e9 o seu covil. Dizem que eu sou louco. Acho que sim. Vou seguir a vampira at\u00e9 onde ela for, extorquir-lhe esse segredo. Descobrir quem ela \u00e9, apoderar-me de sua identidade.<\/p>\n<p>Para isso vai ser preciso coragem: estou aqui h\u00e1 duas horas bebendo sozinho e ainda n\u00e3o a tenho. Nem a coragem e nem a vampira.<\/p>\n<p>Tenho \u00e9 medo de que quando ela venha eu n\u00e3o consiga me levantar, de b\u00eabado ou de at\u00f4nito. Se a seguir descobrirei quem ela \u00e9, ent\u00e3o ela deixar\u00e1 de ser a vampira e o seu casaco ser\u00e1, sobretudo, apenas uma roupa velha, talvez somente isso. Quando ela deixar de ser vampira, talvez n\u00e3o me fascine, ent\u00e3o por que eu devo extorquir-lhe esse segredo? Com que direito quero me apoderar de sua identidade?<\/p>\n<p>Mas eu prometi a tanta gente, afirmei tanto meu desejo. No fundo eu queria mesmo ir com ela, at\u00e9 onde fosse, ser vampiro com ela por uma noite, descobrir o que h\u00e1 debaixo da maquiagem pesada e do sobretudo, despi-la e banh\u00e1-la de beijos. Mas ao mesmo tempo eu temo que debaixo da roupa preta e do r\u00edmel borrado n\u00e3o sen\u00e3o uma gar\u00e7onete de bar, uma vendedora de loja, uma caixa de supermercado. Ainda serei fascinado pela vampira quando a vir diante de mim, com espinhas e tudo, com seios que um dia v\u00e3o cair, ou j\u00e1 caem, com pernas que t\u00eam pelos e joelhos que se dobram como os meus, com unhas quebradas, com dentes que amarelaram de sorrisos tristes?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que ela sabe que o sobretudo e o r\u00edmel e o cabelo e o perfume que cheira a mofo e as m\u00e3os nos bolsos e os dentes dentro da boca\u2026 ser\u00e1 que \u00e9 de prop\u00f3sito que uma garota comum assim se traveste, se vampira, para ser, pelo menos na noite, algu\u00e9m diferente? Se eu soubesse disso talvez gostasse mais da vampira. Talvez eu entendesse porque pus esse casaco preto e estes \u00f3culos escuros, que fazem os outros me olharem torto e afastam meus amigos da minha mesa. Terei eu seguido a vampira ontem? Faz tantos dias que eu sonho com isso? Terei sido mordido?<\/p>\n<p>Uma nota importante. A refer\u00eancia ao fato de a personagem ter facilidade para achar certos empregos \u00e9 uma cr\u00edtica velada ao racismo inerente \u00e0 regra da &#8220;boa apar\u00eancia&#8221;. N\u00e3o me xinguem de racista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estamos tomando uma cerveja no Maneira Mineira quando a figura aparece outra vez, envergando o mesmo sobretudo negro de ontem. Tem os olhos mergulhados numa po\u00e7a disforme de maquiagem borrada, as orelhas pontiagudas adornadas por alguns brincos de prata, a face p\u00e1lida parece uma tela virgem perdida no meio da cabeleira solta, esvoa\u00e7ando, de cor morta e penteado inexprim\u00edvel. Ela n\u00e3o sorri, parece incomodar-se com o ru\u00eddo selvagem desta pra\u00e7a animalesca onde se acasala a juventude, mas mesmo assim t\u00e3o deslocada ela est\u00e1 aqui. 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