{"id":428,"date":"2010-09-08T20:03:00","date_gmt":"2010-09-08T23:03:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=428"},"modified":"2017-11-02T14:09:23","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:23","slug":"ta-dominado-ta-tudo-dominado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/09\/ta-dominado-ta-tudo-dominado\/","title":{"rendered":"\u2018T\u00e1 Dominado, \u2018T\u00e1 Tudo Dominado!"},"content":{"rendered":"<p>Em 2003 j\u00e1 era dif\u00edcil ter paz sonora neste mundo em que o ru\u00eddo supre a car\u00eancia de aten\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo face \u00e0 indiferen\u00e7a de uma sociedade numerosa e ap\u00e1tica. Sete anos depois, mesmo o horrendo sucesso \u00abmusical\u00bb tendo sido esquecido, as ideias e os sentimentos continuam atuais como nunca:<\/p>\n<p>O meu vizinho de frente comprou um toca-discos. Seria um acontecimento banal se hoje em dia este simples eletroeletr\u00f4nico n\u00e3o se tivesse transformado num equipamento perigoso que pode ser usado para o mal. E infelizmente a pot\u00eancia do aparelho \u00e9 inversamente proporcional \u00e0 cultura e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o do propriet\u00e1rio.<\/p>\n<p>N\u00e3o o vi chegar, por isso assustei-me quando ouvi aqueles ru\u00eddos e batidas que faziam fundo \u00e0 voz amarfanhada de algu\u00e9m que declarava sem miseric\u00f3rdia que eu estava dominado, que todos est\u00e1vamos dominados!<\/p>\n<p>A princ\u00edpio pensei que hav\u00edamos sido invadidos, quem sabe por alguma ra\u00e7a de b\u00e1rbaros, por dominadores marcianos ou mercen\u00e1rios ianques. Ou ent\u00e3o que o crime organizado resolvera, enfim, substituir o confuso e obsoleto poder p\u00fablico. Ap\u00f3s o susto inicial, reuni coragem e cheguei a janela. Meu vizinho, juntamente com alguns amigos estava sentado \u00e0 cal\u00e7ada enquanto um toca-discos reluzindo de novo se exibia de dentro de sua sala para a rua vociferando amea\u00e7adoramente em centenas ou milhares de watts P.M.P.O.<\/p>\n<p>Por horas a mesma m\u00fasica se revezou consigo mesma na prefer\u00eancia daqueles rapazes, atritando com a minha sensibilidade at\u00e9 o limite extremo. Eram j\u00e1 sete e meia da noite de s\u00e1bado e eu n\u00e3o suportava mais que gritassem que eu estava dominado porque me considero um sujeito indom\u00e1vel, ou sonho s\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Sa\u00ed ent\u00e3o de casa, como se for \u00e0 rua fosse uma atitude capaz de contornar o intoler\u00e1vel da situa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que n\u00e3o era plaus\u00edvel ir at\u00e9 o vizinho e pedir-lhe a fineza de ouvir a sua &#8220;m\u00fasica&#8221; em volume urbanamente aceit\u00e1vel porque hoje em dia as pessoas n\u00e3o s\u00e3o mais razo\u00e1veis, parece que se tornaram incapazes de compreender qualquer coisa que lhes diminua o terreno e um pedido dessa natureza poderia ser respondido com grosseria, com uma agress\u00e3o ou com um recrudescimento do j\u00e1 insuport\u00e1vel volume.<\/p>\n<p>Minha \u00fanica possibilidade de n\u00e3o ser dominado seria ter for\u00e7a suficiente para derrot\u00e1-los a todos em uma luta corporal e destruir o demon\u00edaco instrumento de \u00f3dio que me impedia de gozar do \u00f3cio de s\u00e1bado dentro de minha pr\u00f3pria casa. Claro que eu tamb\u00e9m poderia fugir, e foi o que tive de fazer.<\/p>\n<p>Eram cerca de oito horas e trinta minutos quando cheguei ao centro da cidade, andando, \u00e9 claro, sem a mais t\u00eanue sombra de pressa. No meio da avenida encontrei um amigo e nos sentamos para tomar umas cervejinhas em um barzinho sossegado ao som da boa e velha MPB, que anda ganhando mofo e perdendo qualidade a cada novo fen\u00f4meno n\u00e3o descoberto que faz concurso p\u00fablico em vez de gravar outro disco. Mas a companhia foi somente por uma cerveja, pois meu amigo era casado recente e sua esposa n\u00e3o aceitaria facilmente que permanecesse pelas ruas at\u00e9 altas horas sozinho no s\u00e1bado.<\/p>\n<p>Fomos juntos at\u00e9 a esquina, onde nos despedimos e voltei a andar a esmo pela rua, buscando distra\u00e7\u00e3o e companhia. Minutos depois estava no centro nervoso da noite cataguasense e n\u00e3o estava bem. Perambular pelas ruas \u00e0 noite perdeu o sentido: em vez de ser divertido, tornou-se um desprazer perigoso. Ao virar uma esquina dei de frente com tr\u00eas rapazes enrolando um \u00abbaseado\u00bb. Fingi que n\u00e3o vi \u2014 mas vi \u2014 e continuei andando para n\u00e3o chamar a aten\u00e7\u00e3o. Na esquina meninas precoces contavam aventuras sexuais em alta voz para quem quiser ouvir. Um grupo de b\u00eabados dizia vulgaridades a mulheres vulgares que passavam desfilando carne e produtos de beleza enrolados em tecidos da moda. Ambos os lados obedeciam ao script da moda: o fino \u00e9 ser grosso.<\/p>\n<p>Carros passavam desobedecendo as mais elementares leis de tr\u00e2nsitom roncando motores turbinados e executando sons tribais em alto volume, em suas cavernosas equipagens de som. Animais no cio passavam neles, batendo a m\u00e3o do lado de fora e urrando. Garrafas de cerveja voaram pelo ar no meio de uma briga e uma clareira se abriu na selva para dois s\u00edmios se digladiarem usando garrafas quebradas como clavas. A chegada da pol\u00edcia foi recebida com vaias, que resultaram em golpes de cassetete que fizeram os corajosos brig\u00f5es ca\u00edrem de quatro (mesmo com o risco de n\u00e3o conseguirem mais levantar). Bastou uma breve demonstram de poder para os her\u00f3is chamarem os pol\u00edcias de \u00abdoutor\u00bb, na subservi\u00eancia conveniente dos que j\u00e1 assimilaram o tipo marginal: sabem-se culpados.<\/p>\n<p>A pol\u00edcia foi embora levando para um passeio ao xadrez os brig\u00f5es. Um pouco mais tarde seus ricos pais os tiram de l\u00e1, devidamente humilhando os soldados que cumpriram seu dever. E o mundo segue com seus ru\u00eddos.<\/p>\n<p>Depois da passagem da viatura o agito foi voltando aos poucos, at\u00e9 atingir de novo o n\u00edvel extremo de antes. \u00c9 preciso isso. Somente o barulho pode expressar a alma de uma juventude que n\u00e3o consegue ouvir o pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o, imerso nesse po\u00e7o de mediocridade e insensatez. \u00c9 preciso fazer barulho, muito barulho. Sem barulho n\u00e3o se existe, sem sufocar a voz alheia n\u00e3o se atrai a aten\u00e7\u00e3o, sem animalizar-se n\u00e3o h\u00e1 socializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na m\u00fasica animalesca (n\u00e3o mais tribal, mas realmente animalesca), raiva, acasalamento e auto-realiza\u00e7\u00e3o oral. Ao fundo repica a batida insolentemente pr\u00e9-fabricada que d\u00e1 cobertura \u00e0 bo\u00e7alidade de algu\u00e9m que decreta a perdi\u00e7\u00e3o: \u00ab\u2018T\u00e1 dominado! \u2018T\u00e1 tudo dominado!\u00bb N\u00e3o h\u00e1 mais esperan\u00e7a: eles venceram. Est\u00e1 tudo dominado pela mediocridade. Resta-nos o conformismo ou o suic\u00eddio.<\/p>\n<p>Sem conseguir encontrar ningu\u00e9m conhecido e mais uma vez sozinho na floresta perigosa da noite, n\u00e3o tenho rem\u00e9dio sen\u00e3o voltar para casa cedo. Pelo menos nos bairros os ru\u00eddos insuport\u00e1veis s\u00e3o proibidos ap\u00f3s \u00e0s dez horas da noite, assim posso estar seguro contra a domina\u00e7\u00e3o se ficar escondidinho dentro de casa. Sem sequer a curiosidade de olhar o mundo por uma greta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2003 j\u00e1 era dif\u00edcil ter paz sonora neste mundo em que o ru\u00eddo supre a car\u00eancia de aten\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo face \u00e0 indiferen\u00e7a de uma sociedade numerosa e ap\u00e1tica. Sete anos depois, mesmo o horrendo sucesso \u00abmusical\u00bb tendo sido esquecido, as ideias e os sentimentos continuam atuais como nunca: O meu vizinho de frente comprou um toca-discos. 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