{"id":430,"date":"2010-09-07T09:01:00","date_gmt":"2010-09-07T12:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=430"},"modified":"2017-11-02T14:09:24","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:24","slug":"queridos-filhos-da-patria-amada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/09\/queridos-filhos-da-patria-amada\/","title":{"rendered":"Queridos Filhos da P\u00e1tria Amada"},"content":{"rendered":"<p>V\u00e3o dizer que sou vi\u00fava da Ditadura s\u00f3 por eu dizer isso, mas a verdade \u00e9 que tenho saudades dos antigos desfiles do Sete de Setembro, dos desfiles que havia quando eu era moleque de escola l\u00e1 em Cataguases. Eram os tempos da Ditadura, sim, e muita gente sofria, mas eu era crian\u00e7a e n\u00e3o tinha que saber disso. O que me importa nessa saudade \u00e9 que, naquela \u00e9poca, o Sete de Setembro era algo bonito de se ver, e n\u00e3o esse espet\u00e1culo desorganizado e deprimente que passa agora pela porta de minha casa.<\/p>\n<p>O significado do feriado se perdeu: hoje em dia as crian\u00e7as que est\u00e3o l\u00e1 marchando nem sabem o que est\u00e3o fazendo porque praticamente n\u00e3o se ensina mais Hist\u00f3ria na escola (hoje em dia voc\u00ea nem precisa ser professor dessa mat\u00e9ria para lecion\u00e1-la, segundo decreto de nosso dign\u00edssimo governador). Ningu\u00e9m sabe que se est\u00e1 celebrando a Independ\u00eancia de nosso pa\u00eds, poucas pessoas sequer t\u00eam ideia de que &#8220;independ\u00eancia&#8221; seja algo importante e a maioria das pessoas que eu conhe\u00e7o venderiam a sua por um prato de lentilhas, cruas. N\u00e3o \u00e9 de admirar, portanto, que fiquem constrangidas, e n\u00e3o orgulhosas, de marchar pela rua no Sete de Setembro envergando o uniforme de sua escola.<\/p>\n<p>O uniforme, ali\u00e1s, \u00e9 outra raz\u00e3o pela qual o feriado perdeu sua gl\u00f3ria. Desde o fim da ditadura gostar de uniforme parece que ficou sendo um defeito de car\u00e1ter ou um fetiche sexual de minorias. As escolas v\u00e3o todas com uniformes muito chinfrins e muito iguais, em muitos casos encardidos pelo uso. Mas no Sete de Setembro de minha inf\u00e2ncia ningu\u00e9m ousava sair no desfile com um uniforme que n\u00e3o fosse impec\u00e1vel: era preciso estrear um uniforme completo, novo, cheirando a sab\u00e3o em p\u00f3 e goma ar\u00e1bica. Mesmo as escolas &#8220;da plebe&#8221; tentavam se mostrar bonitas. A minha escola tinha o uniforme padr\u00e3o das escolas estaduais mineiras \u2014 camisa branca e cal\u00e7a azul \u2014 mas a gente tentava melhorar a apar\u00eancia sempre de alguma forma: um len\u00e7o verde-amarelo no bolso (sim, a camisa tinha bolso), bot\u00f5es azuis em vez de brancos, o tecido da cal\u00e7a em tergal em vez de brim\u2026<\/p>\n<p>Mesmo assim a gente invejava as escolas que tinham uniformes especiais. O Col\u00e9gio Cataguases, com seus vistosos coletes vermelhos e suas cal\u00e7as pregueadas! O SENAI com seus jaquet\u00f5es estilo cadete, com quepes de penacho! O Carmo, com suas boinas de pompom e suas camisas de mangas compridas! O Ant\u00f4nio Amaro, todo vestido de bege e c\u00e1qui! N\u00f3s nos sent\u00edamos t\u00e3o pobrezinhos por usar camisa branca e cal\u00e7a azul, t\u00e3o comuns. Fic\u00e1vamos depois de desfilar aguardando a passagem das outras escolas, invejando o dia em que estudar\u00edamos l\u00e1.<\/p>\n<p>Desfilar n\u00e3o era para qualquer um: era algo que intimidava. Intimidava tanto que era preciso convencer os alunos a aceitarem passar por isso. Os argumentos em geral eram na forma de pontos extras. Certa vez passei de ano por causa de um ponto extra obtido em Matem\u00e1tica gra\u00e7as ao Sete de Setembro (sim, no meu tempo ainda existia a reprova\u00e7\u00e3o, e ela era vista como falha do aluno e n\u00e3o como incompet\u00eancia do professor). Desfilar intimidava porque era quase um rito de passagem, uma esp\u00e9cie de &#8220;baile de formatura&#8221; simulado: eram os machos mostrando seus penachos paras as f\u00eameas, uma esp\u00e9cie de dan\u00e7a de acasalamento em forma de marcha \u00e0 frente pela avenida. Escorregar, trope\u00e7ar, dar uma topada ou perder o ritmo eram vergonhas que marcavam para todo o sempre.<\/p>\n<p>Desfil\u00e1vamos diante das autoridades e diante de um grande p\u00fablico, para o qual eram montadas arquibancadas de madeira ao largo da Avenida Astolfo Dutra. As arquibancadas ficavam lotadas, principalmente dos pais dos alunos que desfilavam, mas tamb\u00e9m de militares aposentados, patriotas de fim de semana e garotas querendo ver-nos em nossas vistosas vestes patri\u00f3ticas. Desfil\u00e1vamos cantando, para manter o passo firme no ritmo ditado pelos pulm\u00f5es: &#8220;N\u00f3s somos da P\u00e1tria a guarda, fieis soldados por ela amados. Nas cores da nossa farda rebrilha a gl\u00f3ria, fulge a vit\u00f3ria.&#8221; Alguns pervertiam esses versos para xingar os militares: &#8220;Os filhos da puta, os guardas, fieis ferrados, morrendo aguados. Nos cascos de suas patas rebrilha a gosma, foge a hist\u00f3ria&#8221;. N\u00e3o se pensava em marchar ao som de m\u00fasica popular, como est\u00e3o fazendo nesse momento l\u00e1 fora. Muito menos ao som de m\u00fasica estrangeira. Afinal, \u00e9 o Sete de Setembro e n\u00e3o o Quatro de Julho (que vai acabar sendo feriado do jeito que o pessoal anda lambendo as botas dos ianques).<\/p>\n<p>Sab\u00edamos que se algu\u00e9m nos pegasse cantando isso haveria problemas. Naquele tempo ainda havia censura e hist\u00f3rias feias sobre o regime. Mas mesmo assim n\u00f3s gost\u00e1vamos da P\u00e1tria, que jogava futebol t\u00e3o bem e era t\u00e3o injusti\u00e7ada na Copa do Mundo. E desfil\u00e1vamos com orgulho nossos uniformes limpinhos, come\u00e7ando \u00e0s sete da manh\u00e3 e terminando \u00e0s onze. Depois encontr\u00e1vamos nossos pais no fim da Avenida e \u00edamos comer pasteizinhos na Pra\u00e7a Santa Rita antes de ir para casa.<\/p>\n<p>Hoje, bem, hoje ser patriota saiu de moda e uniforme \u00e9 coisa de sauna gay. O desfile que passa pela minha porta tem uns poucos gatos pingados usando os mesmos uniformes do ano inteiro e caminhando aos trope\u00e7\u00f5es, sem nem tentativa de marchar. Ningu\u00e9m canta nada, a multid\u00e3ozinha vai aos trancos e barrancos, tendo que ser praticamente tangida por uma professora, ou ser\u00e1 pastora, atrav\u00e9s da rua. Pouca gente assiste, separada por uma mera corda e ningu\u00e9m guarda no \u00e1lbum com orgulho uma foto sua em uniforme de Sete de Setembro.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tenho nenhuma moral para atribuir a essa cr\u00f4nica. N\u00e3o estou aqui para dizer que o mundo melhorou e nem que piorou, apenas desfilando minhas saudades e dizendo que hoje ningu\u00e9m d\u00e1 import\u00e2ncia suficiente \u00e0 Independ\u00eancia ou \u00e0 P\u00e1tria para sequer comprar um uniforme novo para o Sete de Setembro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>V\u00e3o dizer que sou vi\u00fava da Ditadura s\u00f3 por eu dizer isso, mas a verdade \u00e9 que tenho saudades dos antigos desfiles do Sete de Setembro, dos desfiles que havia quando eu era moleque de escola l\u00e1 em Cataguases. Eram os tempos da Ditadura, sim, e muita gente sofria, mas eu era crian\u00e7a e n\u00e3o tinha que saber disso. 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