{"id":434,"date":"2010-09-05T11:33:00","date_gmt":"2010-09-05T14:33:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=434"},"modified":"2017-11-02T14:09:24","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:24","slug":"o-lobisomem-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/09\/o-lobisomem-brasileiro\/","title":{"rendered":"O Lobisomem Brasileiro"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 que <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/09\/mula-sem-cabeca\/\">ontem<\/a> eu escrevi sobre a mula sem cabe\u00e7a, resolvi aproveitar o embalo, enquanto os dados ainda est\u00e3o frescos na mem\u00f3ria, e escrever sobre o lobisomem, com que ela possui na tradi\u00e7\u00e3o luso-brasileira, uma rela\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>O lobisomem luso-brasileiro n\u00e3o \u00e9 o mesmo lobisomem que \u00e9 visto nos filmes de terror americanos e que passou a fazer parte da tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria europeia. Na cultura pop de hoje a compara\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima que se possa fazer com ele seja a do professor Lupin, da s\u00e9rie Harry Potter, que tampouco \u00e9 uma fera irracional e sanguin\u00e1ria que se manifesta nas noites de lua cheia. Por\u00e9m, ainda assim, h\u00e1 diferen\u00e7as inconcili\u00e1veis entre os dois.<\/p>\n<p>A exemplo da mula sem cabe\u00e7a, o &#8220;nosso&#8221; lobisomem \u00e9 um instrumento de propaganda da Igreja Cat\u00f3lica, cuidadosamente desenvolvido como uma esp\u00e9cie de &#8220;propaganda viral&#8221; do sacerd\u00f3cio em uma \u00e9poca em que a Internet ainda n\u00e3o existia. Eu explico. Mais tarde. As caracter\u00edsticas cat\u00f3licas do lobisomem ficam evidentes na natureza de sua maldi\u00e7\u00e3o, no seu comportamento enquanto transformado e nos m\u00e9todos utilizados para desviar, neutralizar ou meramente sobreviver \u00e0 maldi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O lobisomem do cinema carrega consigo uma maldi\u00e7\u00e3o de forte conota\u00e7\u00e3o sexual, pois \u00e9 transmitida pelo contato sangu\u00edneo: a viol\u00eancia da mordida do lobisomem \u00e9 uma met\u00e1fora para o estupro da mesma forma como a suavidade da mordida do vampiro o \u00e9 para a sedu\u00e7\u00e3o. Ambos, lobisomem e vampiro, na tradi\u00e7\u00e3o centro-europeia e balc\u00e2nica (que \u00e9 a que chegou ao cinema) s\u00e3o seres pervertidos pelos instintos e que transmitem sua brutalidade atrav\u00e9s de atos de &#8220;contamina\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Mas o lobisomem luso-brasileiro n\u00e3o \u00e9 assim: a sua maldi\u00e7\u00e3o n\u00e3o possui um car\u00e1ter sexual e ele n\u00e3o \u00e9 violento como o centro-europeu. \u00c9 uma maldi\u00e7\u00e3o individual, uma esp\u00e9cie de predestina\u00e7\u00e3o. Trata-se do s\u00e9timo filho de um s\u00e9timo filho: uma condi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se transmite, mas com a qual se nasce, e que n\u00e3o se reverte, no m\u00e1ximo, se contorna. Ningu\u00e9m &#8220;se torna&#8221; lobisomem: ou voc\u00ea nasce para ser um ou jamais o ser\u00e1.<\/p>\n<p>Uma vez que a condi\u00e7\u00e3o \u00e9 pessoal e intransfer\u00edvel, verifica-se que \u00e9 poss\u00edvel evit\u00e1-la de todo: basta que nunca haja um &#8220;s\u00e9timo filho de um s\u00e9timo filho&#8221;. Nos dias de hoje isto j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um problema, visto que as fam\u00edlias n\u00e3o procriam tanto (isso certamente explica a raridade de lobisomens atualmente), mas at\u00e9 meados do s\u00e9culo XX n\u00e3o era incomum as fam\u00edlias chegarem a essa quantidade de crian\u00e7as, ou a n\u00fameros ainda mais incr\u00edveis: a minha av\u00f3 paterna teve nada menos do 22 irm\u00e3s e cinco irm\u00e3os, e o caso dela nem foi t\u00e3o extraordin\u00e1rio assim. O meu av\u00f4, que n\u00e3o era de brincar muito, nas raras vezes em que o fazia mencionava que &#8220;antigamente se rezava muito a ora\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Bento: um fora, um dentro&#8221;.<\/p>\n<p>Se havia tanta fam\u00edlia com tanto filho no mundo, ent\u00e3o a possibilidade de haver um &#8220;s\u00e9timo filho de um s\u00e9timo filho&#8221; era real e presente, sendo necess\u00e1rio evitar essa condi\u00e7\u00e3o a todo custo. N\u00e3o era incomum que o s\u00e9timo filho fosse morto, ainda era menos incomum que fosse entregue \u00e0 Igreja para ser feito padre, n\u00e3o era raro que fosse castrado e criado como mulher. O mundo antigamente era muito violento e cruel, muito al\u00e9m do que n\u00f3s supomos. Na Argentina, onde a lenda do lobisomem chegou muito cedo, pela boca de escravos brasileiros fugidos, s\u00e9timos filhos eram abandonados em encruzilhadas, sendo acolhidos por fam\u00edlias hisp\u00e2nicas, desconhecedoras da tradi\u00e7\u00e3o luso-brasileira, ou criados por miss\u00f5es da Igreja. A situa\u00e7\u00e3o se tornou muito grave em certa \u00e9poca, a ponto do presidente Hip\u00f3lito Yrigoyen ter se disposto a <a href=\"http:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Lobis%C3%B3n#Ahijado_presidencial\">apadrinhar os s\u00e9timos filhos<\/a> e conceder-lhes bolsas de estudo integrais. Formalmente, o primeiro batismo de s\u00e9timo filho tendo o presidente por padrinho s\u00f3 aconteceu em 1907, mas o costume se tornou t\u00e3o arraigado que em 1973 o presidente Per\u00f3n oficializou-na forma do decreto 848 que automaticamente tornou &#8220;afilhado do presidente&#8221; todo s\u00e9timo filho.<\/p>\n<p>Havia outras formas de ser lobisomem, todas relacionadas a algum tipo de condi\u00e7\u00e3o impura na origem da crian\u00e7a: filho de padrinho com madrinha, filho de tio com sobrinha, filho de padre. Por esta \u00faltima raz\u00e3o surgiu a complementaridade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mula sem cabe\u00e7a, que raramente encontrar\u00e1 o lobisomem na condi\u00e7\u00e3o transformada. A condi\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, s\u00f3 se manifestava a partir da puberdade, ou melhor, a partir dos <strong>treze<\/strong> anos. A crian\u00e7a, que at\u00e9 ent\u00e3o fora normal em todos os aspectos (no m\u00e1ximo apresentando uma magreza ou uma palidez ligeiramente maior do que a regra), passa a sofrer terrores noturnos nas noites de ter\u00e7a para quarta e de sexta para s\u00e1bado, que v\u00e3o se tornando progressivamente mais intensos (talvez \u00e0 medida em que os sinais da maturidade sexual v\u00e3o se desenvolvendo) at\u00e9 ocorrer a completa transforma\u00e7\u00e3o do amaldi\u00e7oado em um grande c\u00e3o ou lobo ou, mais raramente, on\u00e7a. Deve-se notar que n\u00e3o h\u00e1, na lenda luso-brasileira, rela\u00e7\u00e3o alguma entre a transforma\u00e7\u00e3o e a lua cheia. Por fim, nas regi\u00f5es onde o mito do lobisomem n\u00e3o concorre com a mula sem cabe\u00e7a de forma frequente, a transforma\u00e7\u00e3o ocorre nas noites de ter\u00e7a para quarta e de quinta para sexta feira.<\/p>\n<p>O principal sintoma da condi\u00e7\u00e3o &#8220;lobis\u00f4mica&#8221; \u00e9 o sonambulismo, ou alternativamente a ins\u00f4nia. O amaldi\u00e7oado dorme sempre muito mal e padece de sono diurno (sendo, portanto, um mau empregado para se ter a seu servi\u00e7o). Ele tem uma tend\u00eancia quase irresist\u00edvel a sair de casa \u00e0 noite, especialmente nas noites de transforma\u00e7\u00e3o, perambulando de prefer\u00eancia pelos lugares ermos, por onde costumam andar os animais.<\/p>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o do lobisomem ocorre necessariamente em um espojadouro ou em uma encruzilhada. Ali ele rolar\u00e1 na poeira e se transformar\u00e1. Para quem n\u00e3o sabe, um espojadouro \u00e9 um trecho de terra onde os animais se deitam e se esfregam para co\u00e7ar-se ou para dormir. Com o tempo a terra ali fica mais macia e se desprende uma poeira fina. Como a transforma\u00e7\u00e3o do lobisomem depende da disponibilidade de um espojadouro, pingar \u00e1gua benta ou p\u00f3 de h\u00f3stia em tais lugares impede que sejam utilizados, o que evita o inc\u00f4moda da &#8220;corrida do lobo&#8221; pelas redondezas (mas aumenta significativamente o sofrimento do amaldi\u00e7oado e a viol\u00eancia de sua transforma\u00e7\u00e3o seguinte).<\/p>\n<p>Uma vez transformado, o lobisomem, antes de fazer qualquer outra coisa, precisa cumprir a sua sina. A palavra &#8220;sina&#8221; \u00e9 cognata de &#8220;sinal&#8221;, ou seja, trata-se de uma manifesta\u00e7\u00e3o ritual de alguma coisa. A sina do lobisomem \u00e9 visitar sete cemit\u00e9rios, sete encruzilhadas, sete vilas e sete orat\u00f3rios. As tradi\u00e7\u00f5es variam quanto \u00e0 ordem ou quanto a obrigatoriedade dos itens, sendo sempre tr\u00eas as categorias visitadas; mas cemit\u00e9rios (ou adros de igreja) e encruzilhadas est\u00e3o sempre na lista. A corrida come\u00e7a sempre \u00e0 meia noite, quando ocorre a transforma\u00e7\u00e3o, e terminar\u00e1, mesmo que incompleta, quando o galo cantar pela primeira vez (o que ocorre entre as duas e as quatro da manh\u00e3, dependendo da regi\u00e3o e da ra\u00e7a do galo).<\/p>\n<p>O lobisomem luso-brasileiro raramente buscar\u00e1 ferir um ser humano, exceto se encontr\u00e1-lo no meio da estrada, e n\u00e3o \u00e9 carn\u00edvoro. A lenda raramente o menciona alimentando-se enquanto transformado, e quando o faz ele se alimenta exclusivamente de excrementos de animais (&#8220;bosta de galinha&#8221;, segundo dizia a minha av\u00f3). Na verdade parece haver muito pouca delibera\u00e7\u00e3o nos atos praticados pelo lobisomem; que estar\u00e1 a maior parte do tempo preso \u00e0 obriga\u00e7\u00e3o de correr por encruzilhadas, cemit\u00e9rios, igrejas etc.; ou mesmo &#8220;maldade&#8221;: em vez disso, o &#8220;corredor&#8221; (como \u00e0s vezes o chamam em Portugal) \u00e9 um pobre diabo sofredor, digno de pena e de riso.<\/p>\n<p>Tal como a mula sem cabe\u00e7a, o lobisomem pode ser redimido parcialmente de sua condi\u00e7\u00e3o caso algu\u00e9m lhe tire sangue enquanto estiver transformado. Caso isto aconte\u00e7a a transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o mais ocorrer\u00e1 enquanto estiver vivo o benfeitor (mas os demais sintomas da maldi\u00e7\u00e3o continuar\u00e3o), mas existe um perigo relacionado ao sangue: se ao ferir o lobisomem voc\u00ea se sujar com o seu sangue, voc\u00ea passar\u00e1 a se transformar em lugar dele enquanto estiver vivo o lobisomem original. Neste caso, a \u00fanica maneira de livrar-se da maldi\u00e7\u00e3o adquirida \u00e9 matando o amaldi\u00e7oado (ou suicidando-se, o que lhe enviar\u00e1 de volta a maldi\u00e7\u00e3o). Uma outra maneira de se evitar a maldi\u00e7\u00e3o \u00e9 confiar \u00e0 guarda da Igreja a crian\u00e7a que se teme crescer como lobisomem. Sob a prote\u00e7\u00e3o direta de Deus, a maldi\u00e7\u00e3o n\u00e3o se manifestar\u00e1 \u2014 ou se manifestar\u00e1 em condi\u00e7\u00f5es controladas, dentro do claustro.<\/p>\n<p>Quando analisamos este aspecto, em especial, notamos como a Igreja Cat\u00f3lica conseguiu engenhosamente utilizar a supersti\u00e7\u00e3o do lobisomem (de origem romana, relacionada \u00e0 festa da Luperc\u00e1lia) para construir seu poder: ao amaldi\u00e7oar o s\u00e9timo filho (ou os filhos de incesto, ou filhos de padre) e apresentar-se como solu\u00e7\u00e3o para o problema, a Igreja garantia para si um fluxo cont\u00ednuo de candidatos \u00e0 vida religiosa. \u00c9 preciso explicar isso \u00e0 luz do momento hist\u00f3rico vivido por Portugal entre os s\u00e9culos XV e XVII, para entender porque isso foi feito.<\/p>\n<p>Na Idade M\u00e9dia vigorava em Portugal um costume chamado &#8220;morgadio&#8221;, ou seja, o direito de primogenitura feudal. Somente um dos filhos de um senhor feudal poderia herdar seus bens im\u00f3veis. Geralmente era o filho mais velho, mas era permitido ao pai indicar outro filho caso o mais velho n\u00e3o se mostrasse digno. Aos demais filhos restava a carreira militar, um posto na Igreja ou uma &#8220;sinecura&#8221; no governo. As Grandes Navega\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, jogaram tudo de pernas para o ar: os filhos sem heran\u00e7a passaram a contar com a possibilidade de virem para as col\u00f4nias tentar a sorte e, com isso, quem n\u00e3o estivesse disposto a enfrentar o sofrimento da castidade, poderia ter outra op\u00e7\u00e3o de vida. Mas diante da perspectiva de viver uma vida de maldi\u00e7\u00e3o humilhante, na qualidade de lobisomem, pelo menos os s\u00e9timos filhos se sentiriam tentados a entrar para o sacerd\u00f3cio, garantindo a continuidade da Igreja. Desta forma, o mito do lobisomem, tal como ele se apresenta na tradi\u00e7\u00e3o brasileira, n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o uma estrat\u00e9gia de &#8220;marketing&#8221; primitiva que a <span>ICAR<\/span> desenvolveu para evitar a &#8220;fuga de c\u00e9rebros&#8221; naquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>Claro que a lenda \u00e9 mais complexa do que isso, claro que existem outros aspectos a considerar, mas <em>este aspecto<\/em>, em especial, merece ser considerado, especialmente quando comparamos o lobisomem e a mula sem cabe\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 que ontem eu escrevi sobre a mula sem cabe\u00e7a, resolvi aproveitar o embalo, enquanto os dados ainda est\u00e3o frescos na mem\u00f3ria, e escrever sobre o lobisomem, com que ela possui na tradi\u00e7\u00e3o luso-brasileira, uma rela\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3xima. 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