{"id":435,"date":"2010-09-04T11:06:00","date_gmt":"2010-09-04T14:06:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=435"},"modified":"2017-11-02T14:09:24","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:24","slug":"mula-sem-cabeca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/09\/mula-sem-cabeca\/","title":{"rendered":"Mula Sem Cabe\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>A mula sem cabe\u00e7a \u00e9 um mito de origem ib\u00e9rica que existe por quase todo o territ\u00f3rio nacional, e tamb\u00e9m por toda a Am\u00e9rica Hisp\u00e2nica (embora com menos intensidade). Um dos mitos mais ricos e complexos de nossa tradi\u00e7\u00e3o, \u00e9 tamb\u00e9m um dos mais internamente coerentes: \u00e9 poss\u00edvel explic\u00e1-lo de forma coesa, do princ\u00edpio ao fim, sob o prisma da hist\u00f3ria das ideias: essencialmente falando, a mula sem cabe\u00e7a \u00e9 um mito que pretende inculcar na mulher a submiss\u00e3o ao homem atrav\u00e9s do casamento.<\/p>\n<p>A doutrina crist\u00e3 ensina que o homem \u00e9 &#8220;o cabe\u00e7a&#8221; do lar, um ensinamento herdado da tradi\u00e7\u00e3o romana, na qual o <em>pater familias<\/em> detinha poder de vida e morte sobre todos que residiam sob o seu teto, al\u00e9m de exercer o sacerd\u00f3cio do culto heredit\u00e1rio. Somente as prostitutas e as bruxas viviam fora desta estrutura, ambas categorias odiadas e frequentemente <em>associadas<\/em>. N\u00e3o ter &#8220;um cabe\u00e7a&#8221; se transforma, sutilmente, em n\u00e3o ter &#8220;cabe\u00e7a&#8221;, dando \u00e0 figura da mula a sua caracter\u00edstica titular e mais \u00f3bvia. De razo\u00e1vel import\u00e2ncia \u00e9 a semelhan\u00e7a fon\u00e9tica entre as palavras &#8220;mula&#8221; e &#8220;mulher&#8221;, mas \u00e9 tamb\u00e9m significativo que a mula tenha sido, nos antigos tempos, o animal usado pelos padres para o seu transporte regular. Somente os bispos, e mesmo assim apenas em tempo de guerra, poderiam usar cavalos.<\/p>\n<p>Ao n\u00e3o se enquadrar no papel de esposa e m\u00e3e, permanecendo solteira, a mulher ser\u00e1 imediatamente associada aos tr\u00eas \u00fanicos papeis que lhe permite a sociedade: o de prostituta, de bruxa ou de mulher de padre. Os dois primeiros frequentemente se confundem, como vemos nas hist\u00f3rias medievais, nas quais as curandeiras populares prestam favores sexuais aos her\u00f3is tanto quanto as prostitutas conhecem unguentos. Portanto, se a mulher sem marido n\u00e3o exerce nenhuma das atividades, conservando uma apar\u00eancia socialmente aceit\u00e1vel ao n\u00e3o se deitar com homens e nem incorrer no risco de heresia ao receitar rem\u00e9dios para as doen\u00e7as do corpo (que a f\u00e9 do esp\u00edrito deveria curar, segundo a fan\u00e1tica cren\u00e7a do catolicismo medieval), automaticamente ser\u00e1 chamada de mulher de padre, visto que os padres n\u00e3o podem se casar e nem assumir publicamente nenhuma rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ser mulher de padre significa, ent\u00e3o, agir de forma perfeitamente marital, exceto pela falta de filhos, mas fora dos sacramentos e ditames da igreja, conservando uma apar\u00eancia de normalidade social que \u00e9, de fato, muito fr\u00e1gil, pois se espera que a mulher, antes mesmo que lhe terminem de crescer os pelos pubianos, j\u00e1 esteja casada e, de prefer\u00eancia gr\u00e1vida, &#8220;para que n\u00e3o peque&#8221;. A transforma\u00e7\u00e3o da &#8220;mulher&#8221; em &#8220;mula&#8221; \u00e9 um desmascaramento do car\u00e1ter antinatural de sua situa\u00e7\u00e3o diante das conven\u00e7\u00f5es sociais, uma den\u00fancia de que ela deveria ter se casado e sido m\u00e3e de uma penca de filhos em vez de ter permanecido solteira. Mulas sem cabe\u00e7a s\u00e3o todas as mulheres adultas que n\u00e3o est\u00e3o casadas, seja qual for o motivo.<\/p>\n<p>Animal h\u00edbrido, <em>portanto contr\u00e1rio \u00e0 natureza<\/em>, a mula \u00e9 est\u00e9ril, como a tradi\u00e7\u00e3o requer (ou melhor, deseja) que sejam as mulheres fora do v\u00ednculo familiar. A prostituta n\u00e3o tem o direito a ter filhos: deve entreg\u00e1-los a orfanatos porque n\u00e3o tem &#8220;condi\u00e7\u00f5es morais&#8221; de cri\u00e1-los. Isso quando os tem, pois se imagina que ela pratique abortos e outros m\u00e9todos inconfess\u00e1veis para evitar a concep\u00e7\u00e3o. Por n\u00e3o possuir quem sustente suas crias em um mundo macho, a mulher\/mula &#8220;sem cabe\u00e7a&#8221; precisa negar-se \u00e0 maternidade, uma vez mais praticando atos inaturais. Da mesma forma se suspeita que fa\u00e7a a mulher adulta que n\u00e3o se casou.<\/p>\n<p>Existem duas formas de libertar diretamente a mula de sua maldi\u00e7\u00e3o: ambas significativamente ligadas ao aspecto sexual. A primeira \u00e9 &#8220;derramar algumas gotas&#8221; de sangue do monstro, o que equivale a um defloramento simb\u00f3lico, assim comprovando que, afinal, a mulher <strong>n\u00e3o era<\/strong> sexualmente ativa. A segunda \u00e9 retirar-lhe o cabresto que lhe foi posto pelo amante ileg\u00edtimo, ato igualmente emblem\u00e1tico que representa a sua submiss\u00e3o ao macho. Ao revelar-se, de fato, aceit\u00e1vel perante a norma social, inocente da acusa\u00e7\u00e3o de perda da pureza, ou, alternativamente, ao transigir diante do papel social que lhe \u00e9 destinado, a mula se liberta da maldi\u00e7\u00e3o e pode viver como uma mulher normal. Esta liberdade, entretanto, existe dentro de certas limita\u00e7\u00f5es residuais, entre as quais a mais significativa \u00e9 que a sua liberta\u00e7\u00e3o dura apenas enquanto viva na mesma par\u00f3quia que o seu libertador, o que implica na necessidade de manuten\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo matrimonial. Em alguns casos a crendice menciona que a maldi\u00e7\u00e3o reverte se morrer o libertador.<\/p>\n<p>A mula nunca \u00e9 vista como inocente na tradi\u00e7\u00e3o popular. Tanto assim que uma maneira de romper o encanto \u00e9 que o seu amante a renegue e amaldi\u00e7oe sete vezes antes da missa matinal durante setenta e sete dias. Tendo feito isto, o padre se livra da acusadora presen\u00e7a da mula rondando sua par\u00f3quia, mas a alma da mulher \u00e9 imediatamente condenada ao inferno por ter seduzido o sacerdote. A mulher seduz o sacerdote, nunca o contr\u00e1rio, numa curiosa invers\u00e3o de papeis, t\u00edpica das sociedades mis\u00f3ginas, que colocam a culpa na parte mais fraca. Mesmo com a ascend\u00eancia pol\u00edtica e moral que o padre tem sobre os ignorantes, \u00e9 a mulher (quase sempre analfabeta e supersticiosa) quem lhe seduz e amea\u00e7a de perdi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A maldi\u00e7\u00e3o da mula \u00e9 bastante semelhante \u00e0 do lobisomem em seu <em>modus operandi<\/em>, sendo inclusive significativo que a mula jamais encontre um lobisomem em suas andan\u00e7as, a n\u00e3o ser na quaresma, \u00e9poca terr\u00edvel na qual tudo de ruim acontece no mundo. Os lobisomens se transformam nas noites de ter\u00e7a para quarta feira e nas noites de sexta para s\u00e1bado, enquanto as mulas se transformam nas noites de quinta para sexta feira e nas noites de domingo para segunda, em geral ap\u00f3s a \u00faltima missa (este segundo dia de transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 un\u00e2nime na tradi\u00e7\u00e3o). Durante a quaresma ambos os monstros campeiam livremente pela noite, inclusive desobrigados, segundo algumas fontes populares, do fardo de percorrerem sete cemit\u00e9rios, sete encruzilhadas e sete adros de igreja ou sete cruzeiros; tornando-se, assim, muito mais perigosos.<\/p>\n<p>Uma vez transformada, a mulher se apresenta como uma mula de tamanho padr\u00e3o, pelo negro ou castanho muito escuro, com a cabe\u00e7a ausente ou em chamas, com cascos de ferro ou de bronze (mas sempre certamente de algum metal capaz de fazer mis\u00e9rias com o corpo que ela atingir com um coice) e um suor de cheiro forte, mas n\u00e3o exatamente desagrad\u00e1vel (uma alus\u00e3o ao cheiro da vulva?). A mula percorre um roteiro predeterminado (conforme acima) sempre trotando com grande intensidade, como um cavalo passando sobre uma ponte de madeira ou sobre um lajedo. Ocasionalmente ela relinchar\u00e1 de forma assustadora, ou chorar\u00e1 tristemente. Estas ocasi\u00f5es est\u00e3o normalmente associadas aos pontos obrigat\u00f3rios aos quais deve chegar: chorando ao passar pelo cemit\u00e9rio ao lembrar-se do inferno para onde vai ap\u00f3s morrer, relinchando amea\u00e7adoramente diante da igreja, por ira do padre que a p\u00f4s a perder, novamente chorando na encruzilhada, na esperan\u00e7a de que algum viajante solit\u00e1rio a salve.<\/p>\n<p>Mas a mula n\u00e3o tem controle sobre o seu corpo, visto que n\u00e3o tem cabe\u00e7a. Rendida aos seus instintos, tal qual a mulher sexualmente ativa que se renega o papel exclusivo de m\u00e3e, ela ataca quem se aproxime, fazendo com que aqueles que a poderiam querer salvar a evite. Tal como a prostituta \u00e9 evitada por homens de bem devido ao risco da doen\u00e7a ven\u00e9rea, tal como a mulher do padre \u00e9 evitada pelos homens por receio do poder de seu amante, numa \u00e9poca em que a Igreja controlava a sociedade. Quem a surpreender dever\u00e1 ocultar-se (para que o padre n\u00e3o saiba da quebra do segredo e n\u00e3o &#8220;queime o arquivo&#8221;?), tendo especial cuidado em n\u00e3o permitir que ela veja nada que brilhe (ou o padre usaria de sua influ\u00eancia para extorquir o ouro e a prata do homem rico que a visse?).<\/p>\n<p>A recompensa por libertar a mula \u00e9 tom\u00e1-la para si como amante, mas n\u00e3o mulher. Recompensa que n\u00e3o envolve responsabilidade, visto que ao ser abandonada ela retorna \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de monstro noturno. A mula liberta viver\u00e1 sob a permanente chantagem de seu libertador, obrigada a fazer-lhe todas as vontades sob pena de ele reneg\u00e1-la, trazendo de volta a maldi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como a maioria dos mitos brasileiros, a mula sem cabe\u00e7a expressa a ideologia de uma sociedade violenta, opressiva e fan\u00e1tica, na qual as pessoas estavam obrigadas a cumprir de forma estrita os papeis que a tradi\u00e7\u00e3o lhes reservava. Sendo qualquer desvio da norma punido com maldi\u00e7\u00f5es constrangedoras ou dolorosas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mula sem cabe\u00e7a \u00e9 um mito de origem ib\u00e9rica que existe por quase todo o territ\u00f3rio nacional, e tamb\u00e9m por toda a Am\u00e9rica Hisp\u00e2nica (embora com menos intensidade). Um dos mitos mais ricos e complexos de nossa tradi\u00e7\u00e3o, \u00e9 tamb\u00e9m um dos mais internamente coerentes: \u00e9 poss\u00edvel explic\u00e1-lo de forma coesa, do princ\u00edpio ao fim, sob o prisma da hist\u00f3ria das ideias: essencialmente falando, a mula sem cabe\u00e7a \u00e9 um mito que pretende inculcar na mulher a submiss\u00e3o ao homem atrav\u00e9s do casamento. A [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[181],"tags":[79,24,148,97,17,41,12,11,96,10],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/435"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=435"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/435\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4530,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/435\/revisions\/4530"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=435"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=435"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=435"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}