{"id":436,"date":"2010-09-03T11:51:00","date_gmt":"2010-09-03T14:51:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=436"},"modified":"2017-11-02T14:09:24","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:24","slug":"aprendiz-de-feiticeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/09\/aprendiz-de-feiticeira\/","title":{"rendered":"Aprendiz de Feiticeira"},"content":{"rendered":"<div class=\"epigraph\">Escrito originalmente em 1999 ou 2000, um de meus primeiros experimentos em prosa.<\/div>\n<p>Em sua calma sensualidade, a m\u00e3o sobre o peito e a inoc\u00eancia no rosto, ela balbucia uns segredos inconclusos. Bela Adormecida t\u00e3o recentemente apresentada \u00e0 ingratid\u00e3o do mundo, murmura festividades verbais inconsequentes que flutuam sem compor ordem na confus\u00e3o improvisada de seus pensamentos. Ela n\u00e3o sabe, mas sente, que as palavras s\u00e3o armadilhas em que sempre ca\u00edmos.<\/p>\n<p>H\u00e1 t\u00e3o pouco tempo ela atingira a feminilidade que ansiosamente desejava, h\u00e1 t\u00e3o pouco tempo o seu corpo luminoso adquirira a opacidade necess\u00e1ria \u00e0 presen\u00e7a e a tangibilidade requerida pelo afeto mundano\u2026 Os seus dons quase perfeitos de in\u00e1bil sedutora ainda eram t\u00e3o felizes imprevistos em sua polidez de quem mal adquiriu o controle de si mesma\u2026 A manh\u00e3 finalmente escancarada pelos passos dos vizinhos e pelo sol no corredor, Catarina insiste fechando os olhos \u00e0 luz que a agride, \u00e0 luz que bem algum lhe faz. Mas n\u00e3o h\u00e1 como fechar-se ao amanhecer, ainda que nenhum galo habite a germina\u00e7\u00e3o do novo dia, os cabelos desfeitos n\u00e3o s\u00e3o suficiente prote\u00e7\u00e3o contra a realidade que teima em existir, apesar do arrependimento, desprovida de afeto ou preocupa\u00e7\u00e3o. A aridez das cortinas brancas n\u00e3o a socorre com qualquer consolo, o seu aceno seco a fustiga ainda mais com a luz ardente e as sombras projetadas nelas n\u00e3o trazem da realidade mais que a lembran\u00e7a, porque o apartamento est\u00e1 vedado a estranhos e Catarina quer saborear sua derrota na paz de seu lugar.<\/p>\n<p>E faz a cama mantendo sua classe, despe o pijama estampado de ursinhos e elefantinhos e, n\u00e3o se importando se o ch\u00e3o resfria os seus p\u00e9s, ela segue o caminho de seu dia: um banho quente de chuveiro, um gole de ora\u00e7\u00e3o e um caf\u00e9 com p\u00e3o e ei-la pronta. Quando ainda est\u00e1 vindo nua do banheiro, a sua nudez fragment\u00e1ria ao sol, os cabelos transformados numa aur\u00e9ola esvoa\u00e7ante, a ligeira intumesc\u00eancia do abd\u00f4men\u2026 Lembra-se das noites a beber sozinha, o pr\u00edncipe montara seu cavalo branco e se fora, talvez at\u00e9 fosse um sapo\u2026 O cavalo branco era t\u00e3o bonito que Catarina n\u00e3o percebeu inteiramente quem era quem o montava. Perdida agora no mundo, sem pr\u00edncipe, sem m\u00e3os agudas capazes de lhe dar destino. Pesada, foi achada em falta. Um gosto c\u00edtrico desmancha o h\u00e1lito nauseabundo do jejum e o gosto de sangue, inc\u00f4modo e grosso.<\/p>\n<p>Aprendiz de feiticeira, queimara a m\u00e3o quando brincava e agora est\u00e1 sozinha em uma casa menos amiga. \u00c9 a sua casa, mas isto implica em solid\u00e3o. No banheiro, firma a m\u00e3o na pia e olha no rosto as marcas da noite, enquanto o crucifixo negro pendeu no ar casualmente livre e sem outro significado. Apagara do rosto, com \u00e1gua fria, e indiferen\u00e7a, a brasa restante da beleza e cuspira na pia a saliva espessa de um sono pesado. As dores dos novos dias est\u00e3o chegando, Catarina quer aproveitar a sombra, enquanto n\u00e3o vem o vento estrondando portas e rasgando cortinas. Ainda h\u00e1 al\u00edvio no urso de pel\u00facia, mas n\u00e3o houve nunca salva\u00e7\u00e3o, agora h\u00e1 al\u00edvio nas p\u00edlulas paliativas, mas n\u00e3o haver\u00e1 mais. Sente o vento entrar por alguma fresta e sabe que uma chuva vem. Fecha os olhos. N\u00e3o h\u00e1 mais mundo. N\u00e3o h\u00e1 mais dor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrito originalmente em 1999 ou 2000, um de meus primeiros experimentos em prosa. Em sua calma sensualidade, a m\u00e3o sobre o peito e a inoc\u00eancia no rosto, ela balbucia uns segredos inconclusos. 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