{"id":437,"date":"2010-09-02T23:04:00","date_gmt":"2010-09-03T02:04:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=437"},"modified":"2017-11-02T14:09:24","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:24","slug":"semente-do-mal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/09\/semente-do-mal\/","title":{"rendered":"Semente do Mal"},"content":{"rendered":"<p>O feiticeiro se debru\u00e7ava sobre os incun\u00e1bulos, obcecado com os astros, sentindo a passagem dos decanatos enquanto aguardava o momento prop\u00edcio para dar prosseguimento \u00e0 sua Grande Obra, quando uma batida \u00e0 porta se fez ouvir, interrompendo a sua concentra\u00e7\u00e3o. Praguejando contra dezenas de gera\u00e7\u00f5es de habitantes daquela miser\u00e1vel cidade, aonde fora esconder o seu focinho da ignor\u00e2ncia supersticiosa dos inquisidores, abandonou o contemplar dos planetas na noite l\u00edmpida de inverno e desceu as escadas penosamente at\u00e9 a porta de madeira firme, cuja aldraba em forma de lobo produzia aquele triste e amortecido bater.<\/p>\n<p>Era uma velha que vivia na redondeza. Ou melhor, a coitada se parecia e se comportava como tal, mas diziam que era ainda relativamente jovem. A pobreza e a solid\u00e3o em um mundo cruel \u00e9 que lhe haviam cobrado tal duro pre\u00e7o, a ponto de seu rosto estar precocemente retalhado de rugas e seu cabelo parecer um telhado salpicado de neve no come\u00e7o do inverno. Quase toda noite aquela pobre alma batia \u00e0 porta do feiticeiro, pedindo-lhe a caridade em nome de Jesus. Sempre lamurienta, repetindo que era pobre e n\u00e3o tinha ningu\u00e9m no mundo que lhe pudesse valer. O feiticeiro n\u00e3o dava nada, nunca, mas ela sempre voltava a pedir, no desespero t\u00edpico desses mortos de fome.<\/p>\n<p>Mas naquela noite o negro cora\u00e7\u00e3o do feiticeiro foi tocado de uma forma quase inesperada para algu\u00e9m t\u00e3o alheio ao mundo e suas dores. Em lugar de esbravejar com a mendiga e bater a porta em sua cara, a convidou que entrasse:<\/p>\n<p>\u2014 Entra, pobre velha. Est\u00e1 frio demais ao relento para que a tua pobre alma perambule por essas estradas vazias.<\/p>\n<p>\u2014 Agrade\u00e7o muito que Jesus vos tenha tocado essa noite, meu bom homem, mas de nada me vale entrar em um abrigo se as for\u00e7as j\u00e1 me fogem de fome. No frio pelo menos morro mais depressa.<\/p>\n<p>\u2014 Pois por esta noite eu salvo a tua vida, pobre velha. Eu fiz um caldeir\u00e3o de guisado para o meu jantar e ainda sobra bastante. Como a fome n\u00e3o exige muito do cozinheiro, creio que n\u00e3o vais importar-te de comer do horr\u00edvel manjar com que me alimentei.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi preciso dizer duas vezes para que a desamparada mulher achasse, perto do fog\u00e3o, uma tigela vazia, que mergulhou no caldeir\u00e3o, extraindo uma generosa medida do guisado, que se p\u00f4s a sorver com uma sofreguid\u00e3o sincera, de quem realmente tinha a fome no encal\u00e7o.<\/p>\n<p>Quando terminou a sua boca desdentada iniciou uma ladainha de incr\u00edveis agradecimentos, em nome de todos os anjos e santos, ao seu salvador. De quem ela dizia que, apesar da p\u00e9ssima fama e das muitas decep\u00e7\u00f5es antes sofridas, era um homem bom.<\/p>\n<p>O feiticeiro, evidentemente, n\u00e3o teve apre\u00e7o por isso. A humanidade que ainda possu\u00eda n\u00e3o era desse tipo meloso e exagerado que caracterizava a gente humilde de antigamente. Depois de tolerar por breves minutos toda a gratid\u00e3o da pedinte, molhada de l\u00e1grimas, ele a mandou calar-se. Nada feito, por\u00e9m. Ordenou-lhe calar-se. Nada mesmo. Foi preciso uma amea\u00e7a, de expuls\u00e3o, para que ela aceitasse parar. Mas n\u00e3o sem lamentar-se:<\/p>\n<p>\u2014 Como \u00e9 humilhante a vida da mulher sozinha nesse mundo! Se eu tivesse marido ou filhos que me valessem eu n\u00e3o precisava pedir.<\/p>\n<p>O feiticeiro, que j\u00e1 estava a ponto de subir as escadas do observat\u00f3rio para continuar contemplando as estrelas, voltou-se e a encarou, co\u00e7ando a barba desgrenhada:<\/p>\n<p>\u2014 Realmente achas que estar\u00e1s melhor no mundo se tiveres um filho?<\/p>\n<p>\u2014 Oh, meu bom homem, falas como se isso ainda fosse poss\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 coisas que s\u00e3o poss\u00edveis, e h\u00e1 coisas que n\u00e3o s\u00e3o. Entre as que n\u00e3o s\u00e3o poss\u00edveis, h\u00e1 algumas que talvez o sejam, para quem est\u00e1 disposto a pagar o pre\u00e7o devido.<\/p>\n<p>\u2014Oh, o que eu n\u00e3o daria por um filho!<\/p>\n<p>Ela se recolheu a um canto, ainda perto das brasas, pronta a dormir bem pela primeira vez em semanas. O feiticeiro subiu suas escadas e deixou-a l\u00e1, choramingando como um gato doente.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, quando ele desceu, ainda estava enrodilhada no canto como uma trouxa de roupa suja. Devia ser cruel a perspectiva de ter que deixar um lugar onde se acendia fogo \u00e0 noite. Pela primeira vez em anos o feiticeiro sentiu-se humanamente comovido e contemplou no fundo negro de sua alma perdida a perspectiva de, mesmo de um jeito mau, fazer algo de bom no mundo. Contemplou-a, com desapego, mas com solidariedade. N\u00e3o sabia o que dizer, porque havia anos que n\u00e3o sabia dizer nada agrad\u00e1vel a ouvidos humanos.<\/p>\n<p>\u2014 Velha, aonde vives?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tenho lar desde que o Senhor de La Rochelle expulsou-me quando enviuvei sem filhos.<\/p>\n<p>\u2014 Sabes fazer algum servi\u00e7o dom\u00e9stico?<\/p>\n<p>\u2014 Cozinhar, lavar, varrer, cuidar de horta.<\/p>\n<p>O vis\u00edvel brilho nos olhos da velha sugeria que, com arg\u00facia t\u00edpica dos desesperados, ela adivinhava o que o feiticeiro diria a seguir.<\/p>\n<p>\u2014 Velha, Posso permitir que durmas dentro de minha torre todas as noites, desde que cozinhes para mim e me mantenhas uma horta. Tamb\u00e9m varras o ch\u00e3o quando eu mande, como eu mandar.<\/p>\n<p>\u2014 Oh, senhor! Eu vos serei grata at\u00e9 no para\u00edso!<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o come\u00e7a agora.<\/p>\n<p>O primeiro teste: o feiticeiro deu-lhe moedas, com ordem de ir \u00e0 cidade e buscar sementes para a horta. Se ela n\u00e3o retornasse, ele estaria pelo menos livre de que voltasse a mendigar \u00e0 sua porta. Se voltasse, talvez merecesse o bem que ele lhe fazia.<\/p>\n<p>Ela voltou. Mesmo desvalida e morta de fome, a mendiga voltou com exata quantidade de sementes e com o troco devido. O feiticeiro refletiu, com a barba desgrenhada voejando ao vento, que teria de manter a palavra, e isso o divertia at\u00e9.<\/p>\n<p>A mendiga ficou trabalhando na habita\u00e7\u00e3o escura do habitante mais nefasto daquela regi\u00e3o. Alquimista para os poucos mais letrados, feiticeiro para os que temiam a Deus em sua ignor\u00e2ncia. Ela lhe cozinhava e mantinha uma horta not\u00e1vel por crescer primeiro que todas as outras.<\/p>\n<p>Uma tarde, o feiticeiro estava comendo com voracidade um cozido de nabo com carne de porco enquanto a velha, respeitosamente de p\u00e9, aguardava o fim do repasto para servir-se das sobras do caldeir\u00e3o. Enquanto raspava a tigela com um p\u00e3o e lambia dos dedos a gordura, o feiticeiro, naquele dia especialmente bem humorado, come\u00e7ou a conversar com a pobre mulher, coisa que raramente fazia:<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o tens estado feliz com a horta que plantas?<\/p>\n<p>\u2014 Estou feliz como Deus me permite, senhor.<\/p>\n<p>\u2014 Uma vez me disseste que estarias bem melhor nesse mundo se tivesses tido um filho.<\/p>\n<p>\u2014 Certamente que sim, senhor.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o tenho uma proposta a fazer-te, minha velha. Posso dar-te um filho, se o queres, conquanto aceites dar-me o que eu quero.<\/p>\n<p>\u2014 Oh, meu senhor. Fico lisonjeada que minhas carnes sofridas ainda atraiam vossos olhos, mas de nada adiantaria eu ceder-vos meu corpo, porque meu seio n\u00e3o vai mais gerar filhos.<\/p>\n<p>Ao simplesmente imaginar-se a copular com a velha o feiticeiro teve uma repulsa quase incontrol\u00e1vel. Mas estava acostumado a imagina\u00e7\u00f5es piores do que aquela.<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00e3o se trata disso, velha. Eu bem sei que pelos m\u00e9todos dados por Deus tu n\u00e3o ter\u00e1s filho algum.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o de que falais?<\/p>\n<p>\u2014 De m\u00e9todos n\u00e3o dados por Deus.<\/p>\n<p>A velha ficou em sil\u00eancio. Seu cora\u00e7\u00e3o temente a Jesus se confrangia de imaginar que tipo de artes obscuras aquele homem t\u00e3o mal afamado talvez tivesse em mente. Mas o desejo de ter um filho var\u00e3o que lhe valesse na vida falava mais alto:<\/p>\n<p>\u2014 Eu aceitaria mesmo isso, sendo para ter um filho de meu sangue.<\/p>\n<p>\u2014 Oh, o teu sangue ele certamente ter\u00e1.<\/p>\n<p>Naquela noite, pela primeira vez, a velha p\u00f4de subir ao alto da torre e conheceu uma mir\u00edade de instrumentos e livros que tinham uma apar\u00eancia, uma presen\u00e7a, um efl\u00favio, um miasma\u2026 certamente malignos.<\/p>\n<p>O feiticeiro tomou uma semente de repolho do envelope e a p\u00f4s na m\u00e3o da mulher, a m\u00e3o esquerda. Pegou ent\u00e3o o outro bra\u00e7o e abriu uma ferida no punho, cuidadosamente fora do alcance das veias, e deixou que gotejasse o sangue ralo da velha sobre a semente enquanto repetia palavras rudes, esquecidas dos homens que vivem durante o dia:<\/p>\n<p>\u2014 In nomine Ignis, Terrae, Aquae et Aeris. Homunculus creandum est.<\/p>\n<p>A chama do candeeiro subiu por um momento, soprou um vento g\u00e9lido pelas frestas das janelas, o feiticeiro derramou \u00e1gua e terra sobre a semente e levou a m\u00e3o da mulher sobre a chama, queimando-a levemente. Ent\u00e3o deu um grito alto, dizendo:<\/p>\n<p>\u2014 Anima vilis, in semen fixat.<\/p>\n<p>E soprou sobre a semente, fazendo a mover-se quase imperceptivelmente. Por fim apagou o candeeiro e conduziu a aterrorizada mulher para baixo, onde lhe instruiu:<\/p>\n<p>\u2014 Planta a semente amanh\u00e3 \u00e0 sexta hora. Em uma cova feita retirando seis p\u00e1s de terra e coberta com seis. Cada dia durante seis dias, regar\u00e1s a cova com sangue de teu sangue. Quando germine a planta, dever\u00e1s cuid\u00e1-la da mesma forma, at\u00e9 estar em ponto de colheita. Ent\u00e3o me chamar\u00e1s quando o repolho avermelhar, para que eu fa\u00e7a o que precisa ser feito. E se assim n\u00e3o fizeres, exatamente, um dia te arrepender\u00e1s amargamente.<\/p>\n<p>Mesmo sem entender quase nada, mesmo tendo a pavorosa sensa\u00e7\u00e3o de estar colaborando com uma obra do dem\u00f4nio, a velha aceitou o trato e dedicou-se a cumprir o que o mago determinara. Cavou cuidadosamente uma cova na horta, contando seis colheres de terra sem que ficasse muito funda. P\u00f4s a semente nela e cobriu com seis colheradas de terra e estrume. Depois, mesmo com horror, deixou de seu sangue sobre ela.<\/p>\n<p>E por seis dias retornou, sempre pingando um pouco de sangue, mesmo que estranhasse a demora da germina\u00e7\u00e3o daquela semente. Por fim, ao s\u00e9timo, uma tenra folhinha saiu da terra escura. A pobre mulher, presa f\u00e1cil do encanto do que lhe prometera o feiticeiro, continuou regando com sangue de seu sangue a misteriosa planta que crescia. Enfim, ao d\u00e9cimo oitavo dia o repolho come\u00e7ou a assumir uma cor diferente do verde p\u00e1lido a que ela estava acostumada. Inicialmente pensou que fosse um tipo de repolho roxo que s\u00f3 mudava de cor muito tardiamente, mas a cor que ele ganhava, de forma t\u00e3o inatural, era um rosado p\u00e1lido que aos poucos escurecia, e parecia cada vez mais com a cor de sangue vivo, e as nervuras da folha, em vez de quase invis\u00edveis, saltavam como veias, quase parecendo pulsar com o movimento da seiva, cuja apar\u00eancia a velha nem ousava imaginar.<\/p>\n<p>Foram ainda cinco semanas e um dia at\u00e9 finalmente o repolho parecer que era vermelho, todo vermelho. Chamou ent\u00e3o o feiticeiro para que o visse e fizesse o que devesse fazer. Ele contemplou a sua obra, com orgulho e admira\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 Nunca imaginei que desse certo com o sangue de uma mulher. Decerto este sucesso tem algum significado que escapou aos alquimistas do passado.<\/p>\n<p>\u2014 O que tem dentro desse repolho, senhor?<\/p>\n<p>\u2014 Um filho para a senhora, pobre velha, se eu consegui fazer o que tentei fazer.<\/p>\n<p>O feiticeiro acercou-se do misterioso p\u00e9 de repolho e executou, ajudado por seu punhal de prata, o mais estranho parto que j\u00e1 se imaginou neste mundo, fazendo nascer de entre as folhas uma crian\u00e7a min\u00fascula, pequena a ponto de caber na m\u00e3o aberta de sua m\u00e3e adotiva.<\/p>\n<p>\u2014 Eis teu filho. Cuida bem dele, para que te ampare na velhice.<\/p>\n<p>A velha contemplava a criaturinha que se mexia entre seus dedos, com um espanto incomensur\u00e1vel. Sentia no fundo de sua alma que estava perdida, que Deus em algum lugar estava irado com o tremendo sacril\u00e9gio que fora feito naquela horta, em plena luz do dia. Mas por outro lado tinha toda a alegria da maternidade, que nunca pudera imaginar.<\/p>\n<p>\u2014 Como darei de mamar, senhor? Meus peitos murchos n\u00e3o t\u00eam leite!<\/p>\n<p>O feiticeiro a encarou, com um sorriso obscuro nos l\u00e1bios:<\/p>\n<p>\u2014 Mas tens o que ele quer, velha. N\u00e3o te preocupes.<\/p>\n<p>A velha ent\u00e3o levou a sua teta mole \u00e0 boca do monstrinho, imaginando o que poderia acontecer, se talvez o feiticeiro lhe teria, tamb\u00e9m, produzido o milagre da lacta\u00e7\u00e3o. Sentiu ent\u00e3o uma pontada no mamilo, como se duas agulhas estivessem sendo fincadas ali e olhou, assustada, para a cara do min\u00fasculo ser que nelas se dependurava: a criaturinha tinha os olhos abertos e um sorrisinho torto na boca que lambia o l\u00edquido vermelho que escorria das feridinhas. Lambia com avidez, grunhindo de satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O feiticeiro se debru\u00e7ava sobre os incun\u00e1bulos, obcecado com os astros, sentindo a passagem dos decanatos enquanto aguardava o momento prop\u00edcio para dar prosseguimento \u00e0 sua Grande Obra, quando uma batida \u00e0 porta se fez ouvir, interrompendo a sua concentra\u00e7\u00e3o. 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