{"id":438,"date":"2010-09-02T19:38:00","date_gmt":"2010-09-02T22:38:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=438"},"modified":"2017-11-02T14:09:25","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:25","slug":"noites-de-insonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/09\/noites-de-insonia\/","title":{"rendered":"Noites de Ins\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<p>Nenhum pretexto tolo justifica n\u00e3o dormir uma boa noite de sono. N\u00e3o h\u00e1 culpas, n\u00e3o h\u00e1 pend\u00eancias, nem trabalho por fazer que valha o repouso. Por\u00e9m dormir n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples quanto parece. Parece haver uma conspira\u00e7\u00e3o contra o meu sono.<\/p>\n<p>O dia inteiro aguardo a noite, na esperan\u00e7a de poder ouvir algum sil\u00eancio depois que meus vizinhos forem dormir, minha mulher enfim virar para o canto e mergulhar nos seus sonhos de classe m\u00e9dia, as crian\u00e7as estiverem brincado com fadinhas e bonecas em seu sono tranquilo. Quando, por\u00e9m, tudo isso acontece \u00e9 que percebo que dormir n\u00e3o me far\u00e1 feliz. Dormir \u00e9 absolutamente necess\u00e1rio, mas viver tamb\u00e9m o \u00e9, talvez mais absurda e proeminentemente.<\/p>\n<p>Levanto-me, ent\u00e3o, de minha cama e aproveito a quietude da noite para ter uma vida independente, para poder pensar em meus pr\u00f3prios sonhos, poder tentar levar adiante algum projeto meu.<\/p>\n<p>Minha obsess\u00e3o nos \u00faltimos anos tem sido mantida em segredo de todos, principalmente de minha fam\u00edlia. Para eles eu sou apenas um homem triste e amargo, mal chegado aos quarenta anos, que n\u00e3o consegue nunca ter noites de sono inteiramente reparador, que sempre amanhece com dor de cabe\u00e7a ou com algum mau jeito nos m\u00fasculos. N\u00e3o sabem que no recinto ex\u00edguo do quarto de empregada, onde eu tive de esconder meus livros e meus discos da sanha destruidora das crian\u00e7as, eu venho mantendo nos \u00faltimos meses uma doce e estranha obsess\u00e3o que \u00e9 a verdadeira causa de minhas olheiras, de minhas dores, de meus ocasionais terrores ao ouvir certos ru\u00eddos e pensar em certas coisas.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou quando recuperei, depois de anos perdido com um amigo que n\u00e3o queria devolver, um volume de autoria de um certo Papus.<\/p>\n<p><a name=\"more\"><\/a>Foi ele que me introduziu no universo daquilo que as pessoas comuns costumam chamar de &#8220;feiti\u00e7aria&#8221; e que eu, nos meus tempos de c\u00e9tico e ateu, chamava de meras supersti\u00e7\u00f5es medievais restantes de um tempo em que a ci\u00eancia ainda n\u00e3o havia explicado sequer os mais simples dos fen\u00f4menos. Nesse universo foi que eu encontrei a grandiosidade que eu nunca pude dar \u00e0 minha vida e \u00e9 nele que eu me intrometo a cada noite, sempre \u00e0 custa de algum doloroso ritual.<\/p>\n<p>Para chegar aonde estou atualmente foi preciso que eu aprendesse muita coisa, esquecesse muitos preconceitos, preparasse muito ao meu esp\u00edrito e ao meu corpo. Sete meses os preparativos, sem contar os meses muitos em que me dediquei a estudar as bases que me ajudariam a penetrar nos antigos mist\u00e9rios.<\/p>\n<p>A primeira parte consistiu em, despreparado e ainda imaturo na Arte, evocar das trevas dos s\u00e9culos esquecidos, aquele esp\u00edrito que seria o meu protetor e o meu guia. Por entre a fuma\u00e7a perfumada do incenso, atrav\u00e9s do brilho leitoso e vil de uma turmalina cuidadosamente lapidada eu o pude ver pela primeira vez na Quarta-Feira de Cinzas de 2003. Seus olhos eram negros e imensamente expressivos, seu rosto era marcado por tra\u00e7os firmes, como se desenhados a nanquim com gestos amplos e decididos como os de um cal\u00edgrafo japon\u00eas. Ao longo de toda a Quaresma dediquei-me a meramente observ\u00e1-lo e por muito tempo pareceu-me que ele n\u00e3o me via. Somente no domingo anterior \u00e0 P\u00e1scoa foi que ele demonstrou me perceber e fui cumprimentado por seu sorriso, mostrando dentes finos, fortes, quase como garras.<\/p>\n<p>Nos dias seguintes tive de afastar-me de meu laborat\u00f3rio devido \u00e0 insist\u00eancia da fam\u00edlia em viajar no feriado. Foram dias tristes em que quase n\u00e3o pude suportar expectativa de o ver uma outra vez e, quem sabe, poder enfim falar-lhe.<\/p>\n<p>Quando voltamos para casa, n\u00e3o me deteve o fato de ser ainda P\u00e1scoa. Meus tempos de ate\u00edsmo haviam destru\u00eddo quaisquer receios quanto a essas datas. Naquela mesma noite eu reabri o meu laborat\u00f3rio e outra vez queimei o doce incenso de caf\u00e9, deixei brilhar apenas a fraca l\u00e2mpada azul e pus a turmalina diante de meu olho esquerdo aberto enquanto observava a parede coberta de livros.<\/p>\n<p>Quando terminei de repetir as f\u00f3rmulas de evoca\u00e7\u00e3o fui quase surpreendido pela facilidade e pela defini\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a de meu guia: quase como se eu o pudesse sentir ali. Ent\u00e3o ele p\u00f4s-se a falar-me pela primeira vez, com uma voz calma que ressoava nas fibras de minha alma. Disse que fora loucura minha haver negligenciado a prepara\u00e7\u00e3o e feito sua evoca\u00e7\u00e3o sem ter dispon\u00edveis os objetos m\u00e1gicos necess\u00e1rios. Quando minha voz tremeu, presa na garganta sem conseguir sair, ele me tranquilizou dizendo que era para proteger-me que ele concordaram em vir, pela primeira vez em cento e cinquenta anos.<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o tive de levar a efeito toda a prepara\u00e7\u00e3o que n\u00e3o havia anteriormente completado. Meu guia enfatizara que minha pr\u00f3pria vida estaria em risco, bem como a de quem mais houvesse na mesma casa em que fora instalado o laborat\u00f3rio, caso o canal que eu abrira fosse descoberto por larvas, vampiros, assombra\u00e7\u00f5es ou outras esp\u00e9cies de seres nocivos que abundam no al\u00e9m.<\/p>\n<p>Naquela mesma noite eu montei guarda no corredor central de minha casa, tr\u00eamulo de medo a observar as portas da sala e da cozinha, tendo apenas o meu grito para defender minha fam\u00edlia se alguma coisa viesse. E ainda mais desesperada era minha posi\u00e7\u00e3o porque mesmo se viesse eu n\u00e3o poderia sequer enxergar a amea\u00e7a.<\/p>\n<p>No dia seguinte adquiri em uma loja de apar\u00eancia suspeita um punhal com longa l\u00e2mina de prata incrustada com caracteres chineses cujo significado \u2014 segundo me disse o vendedor \u2014 eram os cinco elementos da cosmogonia oriental (a terra, o ar, a \u00e1gua, o fogo e o \u00e9ter). Achei apropriada a figura\u00e7\u00e3o, mesmo n\u00e3o tendo como confirm\u00e1-la, e este punhal se transformou na primeira espada m\u00edstica que manejei. Em um antiqu\u00e1rio encontrei uma solit\u00e1ria ta\u00e7a de cristal da Bo\u00eamia, \u00fanica restante de um jogo de copa perdido ou que se quebrara. Completei os objetos b\u00e1sicos com uma moeda de ouro do imp\u00e9rio e um galho grosso de roseira que podei no parque usando meu canivete.<\/p>\n<p>Minha esposa dormiu mais uma vez seu sono brando e inerte, uma vez mais alheia \u00e0s minhas maquina\u00e7\u00f5es. As crian\u00e7as aferrara-me \u00e0s suas cobertas e eu, lutando contra o sono que j\u00e1 quase me vencia, entrei mais uma vez em meu laborat\u00f3rio para consagrar os quatro instrumentos. Com a ajuda de meu guia eu o fiz e a partir daquela noite n\u00e3o estive mais indefeso contra o al\u00e9m. Com o galho de roseira fiz um cajado simb\u00f3lico, com o qual poderia abrir as trevas, ver a amea\u00e7a invis\u00edvel, iluminar a escurid\u00e3o. Com amoeda fiz o talism\u00e3 que pendurei em meu peito \u2014 e com ele podia estar seguro de minha materialidade sempre que a ilus\u00e3o me vencesse. Com a ta\u00e7a pude colher e aprisionar energias, positivas para meu uso, negativas para apenas neutraliz\u00e1-las. Com a espada poderia desmaterializar aberra\u00e7\u00f5es, derrotar intrusos, cortar a corrente do mal. Naquela noite meu guia me fez cavaleiro de grau menor nas batalhas terr\u00edveis do mundo eterno que ousara discernir.<\/p>\n<p>A abertura da primeira porta foi acompanhada de um longo ribombo de trov\u00e3o que se ouvi dos dois lados do v\u00e9u. Por um momento temi que minha esposa acordasse e notasse a minha aus\u00eancia, mas ela continuou dormindo e eu pude, depois de alguns minutos tensos a hesitar, dar continuidade a ritual. Pude ver al\u00e9m da primeira porta, conter minha \u00e2nsia de gritar, guardar na mem\u00f3ria o horror do primeiro c\u00edrculo e depois, cuidadosamente fechar t\u00e3o bem quanto poss\u00edvel a vis\u00e3o daquele pesadelo.<\/p>\n<p>Na noite seguinte o meu guia prometeu-me a vis\u00e3o independente. Depositei a turmalina diante do pano negro que eu pendurara, cobrindo o espelho que fixara na parede. Naquela noite, pela terceira e \u00faltima vez, ouvi a voz de meu guia falando dentro de meus pensamentos e ele me disse:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0N\u00e3o vou mais desgastar minhas energias fazendo sozinho o esfor\u00e7o de comunicar-me. A partir de hoje seguir\u00e1s os rituais apropriados das tr\u00eas portas restantes e quando tiverem sido completados, volta a seguir o que o livro recomenda. Voltar\u00e1s a ter o meu conselho quando completares todas as prepara\u00e7\u00f5es e tiveres o Espelho, o Cristal e o Cadinho.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o iniciei, bem pacientemente, a trajet\u00f3ria que me transformou nisto que agora sou. Por tr\u00eas vezes sete semanas eu me preparei de corpo e alma para abrir, da maneira mais correta, os tr\u00eas portais que restavam. Depois me restariam os tr\u00eas \u00faltimos, os que me levariam \u00e0 plenitude do conhecimento do primeiro n\u00edvel.<\/p>\n<p>Quando abria cada portal era como se eu visse um recanto do pr\u00f3prio Inferno, tal o horror que teimava depois em sair de minha lembran\u00e7a. Meus terrores s\u00f3 pioravam e o meu sono era cada vez mais rarefeito. O \u00faltimo portal me p\u00f4s num estado de tal prostra\u00e7\u00e3o que at\u00e9 pensaram que eu estivesse doente. Felizmente as minhas f\u00e9rias haviam chegado, em outubro, como sempre acontece com os subalternos, e eu podia dormir durante o dia para recuperar-me \u2014 embora esse h\u00e1bito s\u00f3 fizesse minha esposa cada vez menos compreensiva.<\/p>\n<p>Meu ar alheio \u00e0s refei\u00e7\u00f5es n\u00e3o ajudava e ela \u00e0s vezes me olhavam sem ternura e sem nada entender.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Voc\u00ea tem que parar com essa mania de passar noites em claro, <em>escrevendo<\/em>\u2026<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Voc\u00ea sabe, querida, \u00e0 noite \u00e9 quando posso fazer alguma coisa. De dia nem as crian\u00e7as nem os vizinhos deixam. N\u00e3o existe mais sil\u00eancio e nem tranquilidade no mundo de hoje.<\/p>\n<p>Ela balan\u00e7ava a cabe\u00e7a e eu n\u00e3o conseguia olharem seus olhos.<\/p>\n<p>Na noite de 11 para 12 de outubro de 2003 conseguir o meu maior sucesso at\u00e9 ent\u00e3o. N\u00e3o apenas havia aberto o \u00faltimo dos quatro primeiros portais, mas havia tamb\u00e9m completado a consagra\u00e7\u00e3o de cada uma das vinte e oito l\u00e2minas que eu montaria nas lentes da L\u00e2mpada. Uma dourada para o Sol, uma azul para Merc\u00fario, uma verde para V\u00eanus, uma branca para a Lua, uma vermelha para Marte, uma amarela para J\u00fapiter e uma prateada para Saturno. Para evitar o inc\u00f4modo das velas ou das mechas de querosene eu montei a minha l\u00e2mpada como um filtro multicolorido em torno de uma l\u00e2mpada branca comum, um filtro formado por vinte e oito l\u00e2minas de vidro colorido, quatro de cada uma das cores dos sete planetas principais da Astrologia, todas unidas por uma estrutura de chumbo e grafite. Quando acendi a L\u00e2mpada pela primeira vez senti um arrepio em minha nuca, um calafrio pela minha espinha abaixo, um horror incontido regurgitando em meus test\u00edculos. Um segundo depois o ar estava permeado de algo que parecia uma fuma\u00e7a colorida, mas eu logo descobri que era o et\u00e9reo oceano de energia m\u00edstica que flu\u00eda.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabia o que fazer, n\u00e3o esperava por esta revela\u00e7\u00e3o t\u00e3o inesperada e a longa aus\u00eancia de meu guia n\u00e3o me ajudava a descobrir. Desliguei a L\u00e2mpada prendendo a respira\u00e7\u00e3o, sem saber o que pensar, se a energia vinha ou ia, se me abandonava ou se me seguia.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o t\u00e9rmino da prepara\u00e7\u00e3o da L\u00e2mpada os dias seguintes foram intensos e quase insones para mim. Sentia muito perto o momento em voltaria a falar com o meu guia, pressentia sua proximidade como algo inevit\u00e1vel para todo sempre em minha vida. O ritual do livro determinava como inst\u00e2ncia seguinte a consagra\u00e7\u00e3o do Espelho, atrav\u00e9s do qual eu poderia ter acesso ao meu guia sem precisar penetrar no al\u00e9m e sem que ele precisasse desperdi\u00e7ar sua preciosa ess\u00eancia em esfor\u00e7os imensos para me atingir. Cada dia passava lentamente, como se as horas estivessem agarradas teimosamente aos ponteiros negros do rel\u00f3gio. Quando a noite chegava eu dedicava-me intensamente a cada passo, pronunciando cada s\u00edlaba como dela dependesse a coes\u00e3o do Universo. Ao pronunciar a \u00faltima, exalei um longo suspiro sabendo que atingira a culmina\u00e7\u00e3o de sete meses de preparo e que, ao descerrar o pano que eu pusera sobre o Espelho \u00e0 guisa de cortina, eu talvez contemplasse o meu pr\u00f3prio fracasso, condenando-me a retornar ao in\u00edcio, correndo por mais sete meses risco de ser descoberto pelos renegados do al\u00e9m e ver a minha pr\u00f3pria sanidade em risco.<\/p>\n<p>Aquela noite, de 30 para 31 de outubro, foi particularmente extraordin\u00e1ria. Um sil\u00eancio p\u00e9treo se abatera sobre a vizinhan\u00e7a, quebrado apenas por distantes latidos de c\u00e3es, ocasionais gatos pelos muros e os carros que passavam, naquela noite com menor frequ\u00eancia que o normal. Descerrei acortina com m\u00e3os tr\u00eamulas e contemplei o espelho sob a luz multifacetada da L\u00e2mpada, absorvendo o perfume de incenso do L\u00edbano, firmemente segurando em minha m\u00e3o direita a espada, com o galho de roseira na esquerda, a ta\u00e7a diante de meus olhos e a moeda do Imp\u00e9rio pendurada em meu pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>O espelho, no come\u00e7o, pareceu ser um espelho, protegido dos raios da l\u00e2mpada pela cortina amontoada, mas refletindo o meu rosto iluminado de sete cores. Ent\u00e3o percebi que ela n\u00e3o era mais um espelho, que havia se tornado opaco e muito escuro e que de dentro da profundeza do negro pareciam se destacar dois min\u00fasculos pontos claros, que logo pareceram tr\u00eas e no momento seguinte eram os olhos e a face de meu Guia.<\/p>\n<p>Suas palavras rolaram suaves e em um volume muito baixo, para que somente eu as escutasse.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Vejo que conseguiste ultrapassar as quatro portas iniciais \u2014 disse ele \u2014 e que j\u00e1 possuis tudo que o livro, at\u00e9 agora, prescrevia.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Sim \u2014 murmurei, mas minha voz n\u00e3o sa\u00eda, embora meu guia parecesse me compreender.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Ent\u00e3o j\u00e1 sabes que a quinta, a sexta e a s\u00e9tima portas te aguardam, e nelas a materializa\u00e7\u00e3o de tua inicia\u00e7\u00e3o na Arte.<\/p>\n<p>Engoli em seco e aguardei que ele terminasse.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0As quatro primeiras portas lhe mostraram os quatro elementos. A primeira mostrou-te a terra, que se conquista pela espada. A segunda, amais branda, mostrou-te a \u00e1gua, que n\u00e3o se conquista, mas ela ta\u00e7a podes manipular. A terceira mostrou-te o ar, cuja for\u00e7a \u00e9 lenta, mas inexor\u00e1vel e s\u00f3 pode ser resistida pela vida, representada pelo galho. A quarta, a mais poderosa, mostrou-te o fogo, que conquista o metal e nele forja o que deseja. Com estas quatro portas aprendeste teus limites: podes enfrentar as for\u00e7as da terra, podes utilizar os poderes da \u00e1gua, podes resistir ao \u00edmpeto do ar, mas s\u00f3 podes sobreviver \u00e0 pot\u00eancia do fogo.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0E agora? \u2014 perguntei, outra vez apenas prisioneiro de meus pensamentos.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Agora adentrar\u00e1s as tr\u00eas \u00faltimas portas. Uma em cada semana para que tenhas tempo de recuperar-te ap\u00f3s cada uma. N\u00e3o voltarei a procurar-te, sen\u00e3o depois que me puderes achar.<\/p>\n<p>Mais uma vez eu fui deixado s\u00f3. Meu guia n\u00e3o deixou sinal algum. Apenas no livro de Papus encontrei alento: ali estava o ritual a prosseguir, os \u00faltimos passos rumo \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o do n\u00edvel elementar. Antes de faz\u00ea-lo, minha primeira provid\u00eancia foi providenciar batentes de corti\u00e7a para a \u00fanica porta do cub\u00edculo, para que minhas murmura\u00e7\u00f5es n\u00e3o pudessem ser ouvidas por ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>No dia seguinte, 31 de outubro, comecei o ritual da abertura de minha boca, para que minhas palavras se pudessem ouvir.<\/p>\n<p>Durante sete noites a contar daquela eu me entreguei a evoca\u00e7\u00f5es e ora\u00e7\u00f5es terr\u00edveis como nunca antes eu ousara. O t\u00e9rmino das minhas f\u00e9rias n\u00e3o me impediu de dar prosseguimento a tudo. De minha boca abandonaram-me palavras que me amedrontavam quando meus ouvidos percebiam-nas, embora minha alma n\u00e3o se assustasse em pens\u00e1-las e minha garganta as propelisse t\u00e3o gentil e cuidadosamente quanto um silvo de cobra. Ao final da s\u00e9tima noite eu consegui abrir a boca e dizer a palavra-teste, que n\u00e3o ouso mais dizer nem mesmo imp\u00f4r ao papel, e comandar com o galho de roseira em minha m\u00e3o esquerda:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Que as trevas se abram!<\/p>\n<p>E as trevas se abriram e eu vi ao meu redor uma mir\u00edade de min\u00fasculos seres disformes, apenas com rostos caninos e olhos que pareciam de serpentes. Eu mal os via, pois n\u00e3o pudera ainda abrir os meus olhos espirituais e s\u00f3 conseguia enxerg\u00e1-los enquanto dan\u00e7avam no ar pr\u00f3ximo ao t\u00eanue brilho fantasmag\u00f3rico emanado do galho de roseira, iluminados pela luz sobrenatural da L\u00e2mpada. Depois de alguns minutos eu n\u00e3o consegui mais sustentar no ar o meu bra\u00e7o e eles desapareceram \u2014 mas n\u00e3o sem me deixar apavorado at\u00e9 a mais profunda medula de meus ossos:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0As larvas! As larvas! \u2014 murmurei em desespero \u2014 as larvas j\u00e1 me descobriram.<\/p>\n<p>A partir daquele dia, embora o meu corpo j\u00e1 estivesse ficando exausto da fadiga de sete meses de pouqu\u00edssimo sono noturno, eu tive de me dedicar ainda mais, pois ao falhar em dominar a Arte eu me condenaria a uma morte que n\u00e3o seria r\u00e1pida o bastante para poupar-me de excruciantes dores e que ainda me lan\u00e7aria na maldi\u00e7\u00e3o ign\u00f3bil de me incorporar ao ex\u00e9rcito de formas inferiores que pululam nas camadas mais baixas do tecido espiritual da terra.<\/p>\n<p>No dia 7 de novembro comecei o ritual de abertura de meus olhos, para que eu pudesse enxergar, sem esfor\u00e7o de magia, n\u00e3o apenas as amea\u00e7as horr\u00edveis do et\u00e9reo, mas tamb\u00e9m a presen\u00e7a salutar de meu Guia.<\/p>\n<p>Por outras sete noites eu me assustei comigo mesmo, repetindo ora\u00e7\u00f5es nascidas em l\u00ednguas mortas, escritas em algaravias esquecidas, traduzidas de tabletes de argila e papiros para a l\u00edngua d\u00fabia dos romanos, ve\u00edculo dos padres e dos bruxos. Dei vida com minha voz repleta de pavor a cantos imemoriais, concebidos em um tempo em que o pr\u00f3prio conceito de beleza ainda n\u00e3o fora descoberto.<\/p>\n<p>Cada estrofe, cada Am\u00e9m, cada frase pag\u00e3 que eu proferia era como se um peso de muitas toneladas fosse deslocado em algum lugar na dist\u00e2ncia. Eu ouvia o seu baque contro o ch\u00e3o, sentia o ar deslocado por seu movimento. E de repente, na \u00faltima noite, eu descobri que parte do que eu lera agora n\u00e3o era mais a tradu\u00e7\u00e3o inexata de um escriba romano inculto mas o pr\u00f3prio original na l\u00edngua horr\u00edvel da Sum\u00e9ria, com suas vocais fechadas e sua sucess\u00e3o de s\u00edlabas simples que rugiam na boca como tartamudeio de um monstro. Outra parte surgia, em suspeitos garranchos marrons que pareciam marcados a sangue, no hier\u00e1tico decadente do Baixo Imp\u00e9rio do Egito \u2014 \u00e9poca de desespero em que os homens se voltaram para os esquecidos mist\u00e9rios pr\u00e9-hist\u00f3ricos e monstruosidades outras que haviam sido expulsas, por quase tr\u00eas mil\u00eanios, para os confins do mar de areia que os Eg\u00edpcios chamavam simplesmente de L\u00edbia.<\/p>\n<p>O horror da descoberta foi ainda coroado pela s\u00fabita percep\u00e7\u00e3o de que eu jamais estaria sozinho outra vez.<\/p>\n<p>No dia 14 de novembro iniciei a \u00faltima semana de provas, reunindo minhas \u00faltimas for\u00e7as, tentando n\u00e3o enxergar os abismos entre os quais cambaleava, passei a trabalhar a abertura de meus ouvidos. E a lembran\u00e7a do ex\u00e9rcito de larvas a me espreitar\u2026<\/p>\n<p>\u00e0quela altura eu j\u00e1 mal conseguia tocar o Livro, que j\u00e1 n\u00e3o era o inocente volume escrito por Papus, traduzido por n\u00e3o sei quem, impresso em 1976 por uma editora cujo nome n\u00e3o declinarei. Eu n\u00e3o percebera no in\u00edcio, mas acada ritual que eu completava era como se o livro tamb\u00e9m se completasse em um processo de retorno a uma esp\u00e9cie de estado ideal em que ele deveria estar. As suas p\u00e1ginas, \u00e0 medida que eu as passava, retornavam \u00e0s l\u00ednguas mortas, cap\u00edtulos desapareciam, outros surgiam. Das entrelinhas brotavam novos rituais e de repente era como se fosse um outro livro: um livro cujas p\u00e1ginas anteriores eu n\u00e3o ousava sequer folhear por medo de descobrir por onde <em>realmente<\/em> estivera andado. Em vez disso refugiava-me na ilus\u00e3o de que as p\u00e1ginas que eu ainda estava lendo eram as mesmas que Papus escrevera.<\/p>\n<p>Quando completei o terceiro dia de rituais, t\u00e3o logo de minha boca saiu o \u00faltimo Am\u00e9m, ouvi interromper-se o sil\u00eancio da noite. Houve um rugido absurdo como o de trezentos e sessenta e cinco gritos de pavor, depois um zumbido furioso, como se milh\u00f5es de abelhas rondassem minha casa, mas eu sabia que se fossem abelhas eu n\u00e3o ouviria por causa da corti\u00e7a que pusera nos batentes da porta.<\/p>\n<p>Custou-me quase uma hora sair daquela quarto. Quando consegui, ainda o fiz com muito medo, se n\u00e3o do que poderia se abater sobre mim, por certo pelo que poderia encontrar l\u00e1 fora.<\/p>\n<p>Minhas crian\u00e7as pareciam estar em seguran\u00e7a, dormindo tranquilas e inocentes em suas camas. Minha mulher ressonava discretamente abra\u00e7ada ao travesseiro.<\/p>\n<p>Eram duas horas e trinta minutos da manh\u00e3 do dia 17 de novembro quando deitei minha cabe\u00e7a no travesseiro.<\/p>\n<p>A noite de 20 de novembro foi a \u00faltima em que entrei no meu laborat\u00f3rio como um simples aprendiz. O \u00faltimo ritual era bem simples e n\u00e3o resultou em nada extraordin\u00e1rio. At\u00e9 me senti melhor e de \u00e2nimo recarregado. Depois de apenas meia hora de recita\u00e7\u00f5es esquisitas, depositei sobre a mesa que servia de altar os quatro objetos, apaguei al\u00e2mpada e fui dormir mais cedo do que fizera durante sete meses:trinta minutos do dia 21.<\/p>\n<p>Os dias seguintes foram de restabelecimento. Sentia-me mais cansado do que nunca e sabia que era preciso retomar as minhas for\u00e7as antes do \u00faltimo passo. Por uma semana deitei-me cedo, caminhei pela manh\u00e3, nadei \u00e0 tardinha na piscina do clube, fiz sauna antes de voltar para casa, barbeado e feliz.<\/p>\n<p>Tive tr\u00eas memor\u00e1veis noites de amor com minha mulher, como n\u00e3o as tivera em meses. Levei as crian\u00e7as para passeios no parque, tomei sorvete com elas na pra\u00e7a. Eu teria facilmente esquecido tudo, deixado aquelas noites de auto-infligida ins\u00f4nia serem perdidas na lembran\u00e7a. Eu n\u00e3o queria, nem residualmente, transformar a minha vida em um pesadelo e, se dera prosseguimento aos rituais apenas para completar minha prote\u00e7\u00e3o, eu ent\u00e3o me senti protegido. Parecia que tudo estava finalmente arranjado.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o verdadeiro pesadelo come\u00e7ou.<\/p>\n<p>No dia 30 de novembro de 2003 o meu filho mais velho, na flor de seus oito anos, perdeu a sua vida de um modo est\u00fapido em um brinquedo do parque de divers\u00f5es que se instalara na cidade.<\/p>\n<p>A min\u00fascula montanha-russa tinha vag\u00f5es em vez de carrinhos, vag\u00f5es que corriam sobre trilhos de metal seguros apenas pela gravidade. Bastou um r\u00e1pido descontrole para que velocidade demais se acumulasse na decida e o vag\u00e3o n\u00e3o conseguisse fazer a curva: caiu do trilho com meu filho dentro, esmagou o seu cr\u00e2nio contra o ch\u00e3o na frente de dezenas de pessoas.<\/p>\n<p>O horror que se seguiu quase me p\u00f4s em desespero. Eu n\u00e3o podia acreditar no que acontecera, era como se houvesse perdido contato com alguma forma de profunda inspira\u00e7\u00e3o que eu um dia tivera.<\/p>\n<p>No s\u00e9timo dia ap\u00f3s sua morte, ao voltar para casa, a B\u00edblia que minha esposa sempre mantinha aberta sobre um pedestal de madeira havia tido suas p\u00e1ginas viradas pelo vento. Ela estava aberta em algum ponto do Livro dos Ju\u00edzes que eu n\u00e3o me recordo mais e nem tenho coragem de tentar procurar. Ali estava escrito o pre\u00e7o que pagara o homem que reerguera, contra a vontade de Deus, a cidade id\u00f3latra de Jeric\u00f3: o filho mais velho ao completar os alicerces e o filho mais novo ao assentar os port\u00f5es.<\/p>\n<p>Durante quase dois minutos eu me mantive ext\u00e1tico diante da B\u00edblia, observando as suas p\u00e1ginas como se ali se revelassem as entranhas de minha pr\u00f3pria alma. Por todos os dias anteriores eu conseguira manter uma m\u00e1scara de quase indiferen\u00e7a diante da trag\u00e9dia. Naquele momento eu n\u00e3o pude mais.<\/p>\n<p>Minha esposa tamb\u00e9m n\u00e3o p\u00f4de. Eu a perdi no momento em que ela entrou em nosso quarto e viu uma foto de nosso filho em um porta-retratos. Por mais que eu tentasse argumentar, n\u00e3o havia como negar que ela tinha raz\u00e3o ao dizer que aquela casa havia se tornado para ela um pesadelo. Eu ainda tentei dizer que a acompanharia aonde quer que ela fosse, que estaria ao seu lado absolutamente em qualquer situa\u00e7\u00e3o, mas isso s\u00f3 serviu para faz\u00ea-la chorar mais:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Que esp\u00e9cie de marido voc\u00ea tem sido para mim, Paulo?H\u00e1 quase dois anos que a nossa vida se transformou numa esp\u00e9cie de peso que n\u00f3s dois carregamos. Eu quero ser livre de novo, Paulo. Quero ser feliz! Quero encontrar algu\u00e9m que goste de passear, que n\u00e3o tenha longas noites de ins\u00f4nia e depois passe dias mal-humorado\u2026<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Querida\u2026 \u2014 foi tudo que pude dizer.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0N\u00e3o diga nada, meu bem. N\u00e3o \u00e9 que eu n\u00e3o te ame mais, mas o fato \u00e9 que eu preciso. Preciso viver! Diabos, eu tenho apenas 32 anos e nos meus \u00faltimos dez anos eu tenho sido uma m\u00e3e de fam\u00edlia ocasionalmente feliz. Voc\u00ea n\u00e3o acha que eu mere\u00e7o mais?<\/p>\n<p>Apesar da dor profunda em que meu cora\u00e7\u00e3o estava imerso, consegui manter a calma e gra\u00e7as ao amor profundo que ainda tinha por Cl\u00e1udia eu consegui for\u00e7ar a minha m\u00e3o a assinar os pap\u00e9is do div\u00f3rcio, em 29 de dezembro de 2003. No dia 30, ter\u00e7a-feira, um caminh\u00e3o demudan\u00e7a parou diante de nossa casa e eu consegui segurar minhas emo\u00e7\u00f5es o suficiente para ainda ajudar Cl\u00e1udia a empacotar o que quis que fosse seu.<\/p>\n<p>Quando ao final da tarde ela partiu eu me vi sentado no ch\u00e3o nu do que fora a nossa sala de visitas. Apenas minha imensa estante, que estivera por sete anos cheia apenas de cristais e bibel\u00f4s, fora deixada. Em cada c\u00f4modo a mesma desola\u00e7\u00e3o: um m\u00f3vel, se muito, e eu deixado abandonado com meus livros, com meus discos, com m\u00f3veis de que absolutamente fizera quest\u00e3o ou que ela positivamente rejeitara.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o abri, pela primeira vez em mais de um m\u00eas, o meu laborat\u00f3rio criminoso em que manipulava sem per\u00edcia as for\u00e7as do al\u00e9m. Ali estava tudo como deixara, inclusive alista dos \u00faltimos itens que faltavam para completar a minha entrada, como iniciado, no inumer\u00e1vel quorum dos magos.<\/p>\n<p>Naquela noite entrei naquele quarto pela \u00faltima vez na qualidade de mortal comum. Mantendo aberta a porta eu vesti sobre minhas roupas a capa de tecido simples, joguei o capuz sobre rosto e descalcei os meus sapatos.<\/p>\n<p>Sem os livros, que j\u00e1 transferira de volta \u00e0 estante da sala, o quarto parecia ser bem maior, grande o bastante para que eu riscasse entre o altar e a parede um c\u00edrculo de giz bastante grande para que eu pudesse estar de p\u00e9, com folga, dentro dele. Ent\u00e3o pus o punhal ao alcance de minha m\u00e3o direita, preso ao cinto. Tomei em minha m\u00e3o esquerda o galho de roseira, cingi em meu pesco\u00e7o a medalh\u00e3o feito com a moeda imperial e, pela primeira vez em muitos meses, peguei em minhas m\u00e3os o peda\u00e7o de turmalina verde que, no come\u00e7o de minhas jornadas no mist\u00e9rio, servira para suprir-me com a vis\u00e3o que eu ainda n\u00e3o possu\u00eda.<\/p>\n<p>Ao alcance de minha m\u00e3o esta um dos interruptores que acendiam a L\u00e2mpada. Atr\u00e1s de mim o espelho que eu poderia usar contra o mal. Ent\u00e3o eu pus o incenso, acendi a L\u00e2mpada, acompanhei com o cajado o c\u00edrculo de giz e pronunciei, de mem\u00f3ria, a palavra horr\u00edvel dos Sum\u00e9rios:<\/p>\n<p>ABZU<\/p>\n<p>Um bafo frio de um vento vindo de s\u00e9culos muito mortos soprou na minha face, um som fino de muitas vozes perdidas na dist\u00e2ncia se fez ouvir e no espa\u00e7o de um minuto uma neblina lentamente acumulou-se, em meus olhos ou talvez mesmo no quarto, o c\u00edrculo brilhou bruxuleantemente e logo desapareceu: eu havia penetrado temerariamente, desamparado, despreparado, no pr\u00f3prio universo paralelo a que chamam de Al\u00e9m.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei exatamente o que foi que me levou a cometer uma tal loucura. Talvez eu estivesse querendo me matar, punir-me pelo complexo de culpa que me consumia desde a morte de meu filho. Ou talvez fosse uma m\u00f3rbida curiosidade que me levava a querer ver tudo de uma vez enquanto tinha coragem e n\u00e3o me destru\u00edam.<\/p>\n<p>Quando a neblina dissipou-se eu estava de p\u00e9 em um lugar escuro, entre \u00e1rvores frondosas e perfumadas que balan\u00e7avam ao sopro discreto da brisa. Nenhum ru\u00eddo perturbava a harmonia daquelas am\u00e1veis trevas. No topo de um monte pr\u00f3ximo um cavalo de pelo branco pastava sob a luz tenra daquele luar alien\u00edgena.<\/p>\n<p>Pela segunda vez apenas, fiz a minha voz ouvir-se fora da realidade:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Onde est\u00e1s, meu guia? Onde est\u00e1s?\u2026 ou me abandonaste?<\/p>\n<p>Minas palavras sa\u00edram suaves de minha boca, quase com um pedido de licen\u00e7a ao mundo silencioso em que eu estava, mas logo a seguir elas ribombavam pelo ar como uma explos\u00e3o, espantavam os morcegos e os p\u00e1ssaros que se ocultavam nos galhos das \u00e1rvores, alertavam os coelhos e outros animaizinhos que punham cabe\u00e7as at\u00f4nitas para fora de suas tocas.<\/p>\n<p>O cavalo me olhou, depois calmamente desceu do monte e desapareceu. Mas de sua intelig\u00eancia nenhum outro sinal eu pude ver, pois nunca mais o vi.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Eu abri os sete portais, meu guia! Eu fui bem-sucedido nas provas, eu enxerguei o que n\u00e3o existia, ouvi o que ningu\u00e9m dizia, digo o que ningu\u00e9m no mundo sabe. E aqui estou, dentro dos limites que eu n\u00e3o deveria ter cruzado! Venha, pois eu vim por ti!<\/p>\n<p>Mas nenhuma voz respondeu na escurid\u00e3o, a n\u00e3o ser que as nuvens que devagarinho abra\u00e7avam a lua pudessem ser contadas como tal.<\/p>\n<p>Retirei de meu bolso a bela turmalina lapidada e atrav\u00e9s dela eu olhei tudo em volta. Em v\u00e3o. Em vez de ver as \u00e1rvores, os animais, as nuvens, a imensa e redonda lua\u2026 tudo que eu via era o branco est\u00e9ril da parede.<\/p>\n<p>Guardei a turmalina e gritei para a imensid\u00e3o silenciosa, mas dessa vez a minha voz foi morrendo, cada vez mais t\u00eanue at\u00e9 que nem eu mesmo a ouvia mais. Os animais foram aos poucos retornando para as suas tocas.<\/p>\n<p>Mas ent\u00e3o eu percebi que n\u00e3o mais estava s\u00f3. As nuvens rodopiavam em torno da lua, como mariposas em volta da luz, mariposas de olhos de serpente, de focinhos caninos e torsos humanos. Aluz se aproximou cada vez mais, revelando em sua face manchada de negroas cicatrizes de um rosto, o rosto de meu filho.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o as \u00e1rvores perderam seu perfume, perderam sua inoc\u00eancia. E de repente as \u00e1rvores eram milhares de pessoas vestido capuzes sobre os olhos, todos armados de galhos de diversas madeiras em suas m\u00e3os esquerdas, todos olhando fixamente para a imensid\u00e3o e cada um gritando em mais desespero em sua l\u00edngua original. E eram gritos que varavam s\u00e9culo se permaneciam como punhais a perfurar os meus ouvidos, e todos tinham suas m\u00e3os direitas erguidas para o alto e manchadas de negro e quando eu olhei a minha pr\u00f3pria m\u00e3o ela estava manchada do sangue de meu filho.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o do alto do monte surgiu um homem vestido de branco, o meu Guia! Ele desceu silenciosamente em minha dire\u00e7\u00e3o. Quando estava bem diante de mim abriu a boca e me congratulou em uma l\u00edngua que eu sabia ser t\u00e3o antiga e complexa, perversa quanto os monumentos megal\u00edticos. Uma l\u00edngua que se falara antes da escrita, uma l\u00edngua que nenhuma escrita jamais pudera domar. Mas que, apesar disso, eu automaticamente entendia poisos meus ouvidos haviam sido abertos:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Bem-Vindo! Ao mundo eterno da M\u00e1gika, ao mundo aonde o poder os conduz!<\/p>\n<p>De repente; num momento de inspirada sinceridade que somente meu amor de pai, e de filho, poderiam provocar; abri os bra\u00e7os e lhe implorei que recebesse-me. Ent\u00e3o num abra\u00e7o o estreitei e era como se o seu corpo fosse feito de um p\u00e2ntano pestilento, est\u00e9ril e movedi\u00e7o. Num instante de lucidez que Deus me concedeu eu olhei para baixo e vi morrendo os \u00faltimos gr\u00e3os do brilho do c\u00edrculo. Eu vi que estivera prestes a pisar fora, prestes a perder-me nas dobras das trevas por toda a eternidade.<\/p>\n<p>Mas em vez disso eu dei um passo atr\u00e1s e ergui o galho de roseira com a minha m\u00e3o esquerda, alcan\u00e7ando o interruptor.<\/p>\n<p>A luz multicolor morreu de um golpe s\u00f3 e o cen\u00e1rio alien\u00edgena se desfez em gr\u00e3os min\u00fasculos que rodopiaram como areia fina num redemoinho \u00e0 minha volta.<\/p>\n<p>O meu Guia deu-se conta do que eu fizera e aparentemente perdeu toda compostura e sabedoria. Demonstrando uma for\u00e7a sobre-humana ele me for\u00e7ou a afastar-me e recomp\u00f4s-se, mas alguma coisa j\u00e1 n\u00e3o era a mesma pois a luz m\u00edstica j\u00e1 n\u00e3o favorecia. Guardei o galho de roseira e saquei de meu punhal, temendo j\u00e1 por minha vida. Mas no mesmo instante em que o fiz, antes que o pensamento acabasse de se completar, a minha m\u00e3o arrancou o pano negro que cobria o Espelho.<\/p>\n<p>Um raio de intensa luz se abriu no ar e um ru\u00eddo poderoso sacudiu-nos. O Espelho parecia suspenso no ar, o meu Guia n\u00e3o tinha mais nenhuma iniciativa, apenas uma express\u00e3o de terror no rosto de cera.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Traidor! Traidor! \u2014 ele berrava, possesso de uma raiva que parecia nem mais ser humana.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o eu pude ver que ele flutuava pelo ar, irresistivelmente arrastado pela presen\u00e7a do Espelho. Ent\u00e3o eu consegui sorrir.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Por que fazes isso comigo? \u2014 ele perguntou, j\u00e1 com a voz empastada de desespero \u2014 eu fui teu Guia, eu seria teu Guia, eu te levaria a todos os mist\u00e9rios!<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Realmente n\u00e3o tenho certeza. Mas acho que nem pensei se fazia ou n\u00e3o. As coisas foram acontecendo e eu estou gostando. Acho que estou fazendo isso por vingan\u00e7a! Estou fazendo por meu filho!<\/p>\n<p>No momento em que o corpo suspenso de meu guia atingiu o espelho ouvi no ar o barulho de milhares de vidra\u00e7as se quebrando, o grito de gera\u00e7\u00f5es de magos desesperados, a for\u00e7ada passagem de milhares de almas do presente para o al\u00e9m. O meu Guia lentamente desapareceu pelo espelho adentro, deixando atr\u00e1s de si apenas um perfume de incenso do L\u00edbano no ar\u2026<\/p>\n<p>Olhei para o ch\u00e3o e pisei fora do c\u00edrculo. Acendi aluz material e olhei para o espelho. Uma figura furtiva tentava se esconder da luz de 60 velas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o eu percebi a finalidade mais nobre de meu punhal e o cravei firmemente contra a face do espelho.<\/p>\n<p>Cataguases, setembro de 2004<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nenhum pretexto tolo justifica n\u00e3o dormir uma boa noite de sono. 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