{"id":44,"date":"2013-05-09T22:15:00","date_gmt":"2013-05-10T01:15:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=44"},"modified":"2017-11-02T14:08:20","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:20","slug":"aventuras-em-rio-das-ostras-parte-iii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/05\/aventuras-em-rio-das-ostras-parte-iii\/","title":{"rendered":"Aventuras em Rio das Ostras, Parte III"},"content":{"rendered":"<p>Depois de apenas um dia e meio de praia, a segunda feira amanheceu vestida de um som t\u00e3o lindo que dava vontade de xingar, pois n\u00e3o t\u00ednhamos mais roupa limpa &#8212; e nem onde lavar. Como n\u00e3o quer\u00edamos comprar roupas novas para cada novo dia, e tamb\u00e9m porque a semana era a \u00faltima das f\u00e9rias, com muita pend\u00eancia ainda a resolver, pusemos as bagagens na mala e pegamos a estrada.<\/p>\n<p>Por v\u00e1rias vezes nos dias anteriores t\u00ednhamos visto um sinal indicando a &#8220;Estrada de Cantagalo&#8221;. At\u00e9 ent\u00e3o eu acreditava que essa era a cidade de Cantagalo, pr\u00f3xima \u00e0 divisa de Minas Gerais. Por isso, ao ver o sinal, eu sempre pensava algo como &#8220;entre por essa rua, siga uns setenta quil\u00f4metros e voc\u00ea j\u00e1 v\u00ea de longe as montanhas mineiras.&#8221; Eram aproximadamente sete e quarenta da manh\u00e3 quando tomei a &#8220;Estrada de Cantagalo&#8221;, est\u00e1vamos animados, ouvindo m\u00fasica no r\u00e1dio e comendo biscoitos e tomando \u00e1gua mineral gasosa.<\/p>\n<p>Os primeiros sinais de que havia algo errado foram quando a vegeta\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 tinha deixado de ser formada por raqu\u00edticos arbustos litor\u00e2neos e exibia \u00e1rvores mais saud\u00e1veis, come\u00e7ou a exibir novamente um padr\u00e3o de charcos e arvorezinhas de folhinhas redondas.<\/p>\n<p>&#8212; Devo ter errado algum cruzamento, estamos voltando para o litoral.<\/p>\n<p>Minha mulher demorou a acreditar, mesmo depois que passamos pelo distrito industrial de Rio das Ostras, em um momento em que, pela dist\u00e2ncia percorrida, j\u00e1 dever\u00edamos estar come\u00e7ando a subir a serra. Mais alguns quil\u00f4metros e chegamos a um posto de pol\u00edcia em uma interse\u00e7\u00e3o com duas indica\u00e7\u00f5es: \u00e0 direita, &#8220;Rio das Ostras&#8221;, \u00e0 esquerda, &#8220;Maca\u00e9&#8221;. Tomei a dire\u00e7\u00e3o de Maca\u00e9 e, poucos quil\u00f4metros \u00e0 frente, em uma barreira da pol\u00edcia feita para ajudar no socorro \u00e0s v\u00edtimas de um acidente, perguntei ao in\u00fatil soprador de apito para onde era Cantagalo e ele, solicitamente, me disse que era seguir em frente, pois ainda estava longe.<\/p>\n<p>Tenho por h\u00e1bito confiar nas indica\u00e7\u00f5es dadas pela pol\u00edcia, e foi por isso que me dei mal naquele dia: fui seguindo sempre em frente, como mandara o guarda, e quando dei por mim, j\u00e1 bem dentro de Maca\u00e9, estava no estacionamento da Petrobr\u00e1s. Tive de manobrar e retornar, com muita dificuldade, atrav\u00e9s de cruzamentos desconhecidos. Aproveitei para abastecer uma gasolina contendo ouro liquefeito, de um tipo que s\u00f3 deve existir a poucos metros de instala\u00e7\u00f5es da petrol\u00edfera. Foi com essa gasolina que cheguei em casa, horas mais tarde.<\/p>\n<p>Porque depois de ter sofrido esse rev\u00e9s, resolvi deixar de lado todo plano de atalho ou abrevia\u00e7\u00e3o e voltar pelo caminho conhecido. A mudan\u00e7a seria que, uma vez em Nova Friburgo, tomaria a estrada para Cordeiro e Cantagalo, de l\u00e1 passando a Al\u00e9m Para\u00edba e finalmente \u00e0s terras por onde me reconhe\u00e7o. Para isso, teria que voltar at\u00e9 Rio das Ostras, atravessar toda a cidade e pegar a estrada Serramar, rumo a Casimiro de Abreu<\/p>\n<p>Quando estava, finalmente, passando em frente ao cruzamento que levava ao hotel onde nos hosped\u00e1ramos, olhei o rel\u00f3gio e constatei que eram nove horas da manh\u00e3. Hav\u00edamos perdido cem minutos de viagem. Em condi\u00e7\u00f5es normais, j\u00e1 dever\u00edamos estar quase no alto da serra, mas ainda est\u00e1vamos saindo, queimando uma gasolina que devia limpar o ar em vez de poluir.<\/p>\n<p>A subida para Friburgo, passando por fora de Casimiro de Abreu, nos permitiu reencontrar a estrada RJ 142, atrav\u00e9s da reserva biol\u00f3gica de Maca\u00e9 de Cima. Foi quando tivemos a oportunidade de verificar que a paisagem \u00e9 bem menos bonita do que parece quando est\u00e1 escondida pela n\u00e9voa. Na verdade h\u00e1 muito de biol\u00f3gico a se reservar por ali: na maior do tempo o que vemos s\u00e3o pastos sujos intercalados por moitas retorcidas e pequenos trechos de mata. Alguns lugares at\u00e9 chegam a ser bonitos, mas \u00e9 dif\u00edcil entender porque criaram a reserva somente depois de terem praticamente destru\u00eddo o lugar<\/p>\n<p>At\u00e9 passarmos por Friburgo a viagem transcorreu sem grandes sustos, incluindo um almo\u00e7o muito bom e inacreditavelmente barato em um restaurante familiar no distrito de Lumiar. N\u00e3o sei se \u00e9 a mesma Lumiar que inspirou Beto Guedes a escrever seu cl\u00e1ssico, mas a m\u00fasica n\u00e3o me saiu da cabe\u00e7a por semanas.<\/p>\n<p>A viagem voltou a ficar interessante quando, a meio caminho entre Friburgo e Cordeiro, minha mulher viu uma placa indicando uma sa\u00edda \u00e0 esquerda para &#8220;Al\u00e9m Para\u00edba&#8221; a 56 quil\u00f4metros. Como eu j\u00e1 havia cometido muita barbeiragem durante todo o passeio, estava meio desmoralizado para resistir quando ela insistiu que tom\u00e1ssemos aquele caminho. Tudo que consegui foi barganhar com ela para perguntarmos a um grupo de estudantes se toda a estrada estava asfaltada. Os estudantes, cariocamente, nos garantiram que sim, e l\u00e1 fui eu a caminho de Duas Barras.<\/p>\n<p>A estrada para Duas Barras passa por alguns dos lugares mais bonitos que j\u00e1 vi em minha vida. Fazendas centen\u00e1rias ou bicenten\u00e1rias, \u00e1rvores gigantescas, alamedas em torno da estrada, cercas pintadas, muita limpeza e ordem. A cidade propriamente dita n\u00e3o \u00e9 grande coisa, nem em tamanho e nem em beleza. Deve ser por isso que Martinho da Vila quase n\u00e3o fala dela em sua m\u00fasica.<\/p>\n<p>Na pra\u00e7a central vimos uma plaquinha indicando &#8220;Carmo&#8221; e encontramos o primeiro nome familiar em nossa volta. O munic\u00edpio de Carmo fica junto \u00e0 divisa, banhado pelos rios Paquequer e Para\u00edba do Sul. Quando se atravessa, em Al\u00e9m Para\u00edba, a ponten Engenheiro R\u00e9gis Bittencourt, h\u00e1 uma placa indicando a dire\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o imaginei, aliviado, que dever\u00edamos estar bem perto de casa. Era j\u00e1 por volta de meio dia e meia. E para nossa alegria a estrada, apesar de n\u00e3o sinalizada e cheia de curvas como um novelo de linha que voc\u00ea joga fora, era asfaltada.<\/p>\n<p>Os primeiros oito ou nove quil\u00f4metros foram de pura felicidade, apesar de as curvas e a m\u00e1 qualidade do asfalto nunca permitirem mais que cinquenta quil\u00f4metros por hora. T\u00ednhamos esperan\u00e7a de chegar a Al\u00e9m Para\u00edba ainda com o sol quente. E ele estava j\u00e1 bem quente. O problema foi que, de repente,  na sa\u00edda de uma curva, o asfalto acabou e nos deparamos com uma estrada de cascalho que foi ficando sempre mais estreita e com menos cascalho at\u00e9 que, para nossa tristeza, come\u00e7ou uma descida cinematogr\u00e1fica por uma estrada que serpenteava morro abaixo em uma serra portentosa. N\u00e3o se via sinal de povoa\u00e7\u00e3o no horizonte, e nem de Rio Para\u00edba.<\/p>\n<p>A descida foi uma desgra\u00e7a. O carro derrapava praticamente em cada curva, sobre um barro arenoso j\u00e1 meio seco, escavado pelas rodas dos muitos ve\u00edculos que haviam passado desde a \u00faltima chuva. Era preciso descer de segunda marcha e com o p\u00e9 no freio, sem tempo de enxergar a beleza da paisagem. Quando, meia hora depois, chegamos a um lugar mais ou menos plano, olhei para tr\u00e1s e vi, azulando na dist\u00e2ncia, o come\u00e7o da descida que acabara. A estrada estreita desaparecia entre o capim alto e as \u00e1rvores que sujavam os pastos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, finalmente, contemplamos Carmo, marcada por um CIEP no alto de um morro. A cidade, meio confusa e me parecendo ser bem pequena e bem pouco desenvolvida, tinha um cal\u00e7amento irregular e era ligada a Al\u00e9m Para\u00edba por uma estrada em p\u00e9ssimo estado de conserva\u00e7\u00e3o, a RJ 144. Mas, se considerarmos que a trilha de bodes pela qual cheg\u00e1ramos a Carmo tamb\u00e9m era marcada no mapa como &#8220;RJ 144&#8221;, at\u00e9 que t\u00ednhamos sorte. Com um pouco mais de azar ter\u00edamos sido indicados pelo Google Maps a uma estrada virtual, como <span class=\"removed_link\" title=\"http:\/\/www.alexweblog.com\/2009\/09\/los-angeles-to-tokyo-kayaking-way\">a que liga Los Angeles a T\u00f3quio<\/span>.<\/p>\n<p>Quando, finalmente, passamos pelo &#8220;Trevo de Carmo&#8221; a viagem acabou. Sim, porque n\u00e3o havia mais, a partir daquele marco m\u00e1gico do mundo real a que estou acostumado, nenhuma surpresa que me pudesse atrasar. Pelo menos enquanto meu valente Fiat Uno n\u00e3o abrisse o bico (mas ele estava abrindo). Minhas mulher at\u00e9 pensou em passarmos na casa de sua m\u00e3e para botar as fofocas em dia, mas ela pensara isso quando ainda est\u00e1vamos em Friburgo: quando chegamos ao trevo de Leopoldina, j\u00e1 pelas tr\u00eas e meia da tarde, ela queria que o mundo acabasse em colch\u00e3o para ela terminar dormindo. E para mal dos pecados o trecho final da viagem foi marcado pelo medo de que o carro n\u00e3o conseguisse subir mais nenhum morro, de t\u00e3o fraco que estava. Quando finalmente o estacionei dentro da garagem e pisei de novo, aliviado, o bom solo mineiro, percebi que teria que me livrar do Xinxinho (apelido do meu Fiat, devido a ter sido comprado de um cara que tem o apelido de Xinx\u00e3o) porque ele estava doentinho e eu n\u00e3o queria gastar com ele. Mas isso j\u00e1 \u00e9 outra hist\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de apenas um dia e meio de praia, a segunda feira amanheceu vestida de um som t\u00e3o lindo que dava vontade de xingar, pois n\u00e3o t\u00ednhamos mais roupa limpa &#8212; e nem onde lavar. Como n\u00e3o quer\u00edamos comprar roupas novas para cada novo dia, e tamb\u00e9m porque a semana era a \u00faltima das f\u00e9rias, com muita pend\u00eancia ainda a resolver, pusemos as bagagens na mala e pegamos a estrada.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[46],"tags":[45,42,40,41,43,44],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=44"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1894,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44\/revisions\/1894"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=44"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=44"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=44"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}