{"id":440,"date":"2010-08-31T23:42:00","date_gmt":"2010-09-01T02:42:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=440"},"modified":"2017-11-02T14:09:25","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:25","slug":"horas-mortas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/08\/horas-mortas\/","title":{"rendered":"Horas Mortas"},"content":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Tranquilo n\u00e3o era chamado assim por escolha de ningu\u00e9m. Era seu sobrenome, mas n\u00e3o sua vontade e nem o seu destino. Tinha sido metal\u00fargico em uma f\u00e1brica em uma grande cidade, ganhara algum dinheiro e vivera aventuras, mas tivera que voltar, com o rabo entre as pernas, justamente porque perdeu a calma \u2014 e por um triz n\u00e3o perdeu tamb\u00e9m a alma. Voltou para nossa cidade trazendo na bagagem um uniforme azul com o emblema da Volkswagen e foi ser mec\u00e2nico de autom\u00f3veis no Beira-Rio.<\/p>\n<p>Era um homem sem mulher \u2014 e isso exacerbava a tend\u00eancia, comum em mec\u00e2nicos, de deixar as m\u00e3os engrossarem, as unhas ficarem pretas e os poros do rosto se encherem de subst\u00e2ncias escuras. Barbeava-se semanalmente, aos domingos, &#8220;para ir ver Deus&#8221; e era o \u00fanico dia em que n\u00e3o o viam de cara coberta por estranhas sardas escuras. Vivia num apartamento acima da oficina, contemplando os ve\u00edculos estripados em vez de flores plantadas em algum canteiro.<\/p>\n<p>A Rua Nove de Outubro ficava \u00e0 beira de um lama\u00e7al que diziam ser c\u00f3rrego, na parte do bairro mais infestada de mosquitos e de maconheiros. Os primeiros n\u00e3o incomodavam muito ao Tranquilo, porque nenhuma fome de sangue for\u00e7ava os pernilongos a picarem atrav\u00e9s do cheiro permanente de gasolina e de frituras que infestava aquele segundo andar f\u00e9tido e escuro. Os segundos certamente sim, pois o mec\u00e2nico, viciado em trabalho como poucos, n\u00e3o admitiria perder a concentra\u00e7\u00e3o, ou a hora de acordar, devido ao efeito da erva. Por isso n\u00e3o raras vezes apontava a cara de urso \u00e0 janela para berrar palavr\u00f5es aos moleques que pitavam seu baseado abaixo do poste de l\u00e2mpada eternamente quebrada que havia em frente \u00e0 oficina. Sempre a turma da fuma\u00e7a respondia com desconsidera\u00e7\u00e3o e desrespeito, com ofensas e ame\u00e7as, mas acabavam indo fumar na moita de goiabeiras que crescia mais para cima, em dire\u00e7\u00e3o ao Morro dos Macacos. Nenhum deles queria comprar briga com algu\u00e9m que era Tranquilo de nome.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Tranquilo poderia ser um homem irasc\u00edvel e descuidado da apar\u00eancia, mas era cat\u00f3lico como poucos e respeitava a Quaresma, mesmo que n\u00e3o respeitasse par\u00e2metros razo\u00e1veis para cobrar pelos servi\u00e7os. Por isso ningu\u00e9m entendeu quando, num ato de loucura impensada, ele p\u00f4s a perder sua alma, mesmo sem nunca ter desgastado sua calma.<a name=\"more\"><\/a><\/p>\n<p>O Beira-Rio era tido, naquela \u00e9poca, como um lugar assombrado. Contavam hist\u00f3rias de coisas que apareciam na noite, coisas horr\u00edveis realmente. Uma dessas coisas certamente foi horr\u00edvel, sem ser sobrenatural: o pobre Totonho Pires, capado pelo delegado Hon\u00f3rio, nas trevas do regime militar, fugindo nu pelos pastos e berrando &#8220;Valei-me Nosssa Senhora&#8221;. Quem viu a cena nunca esqueceu. E nunca acharam o corpo de Totonho Pires, mesmo tendo achado sangue nos pastos. Disseram que tinha sido um fantasma. Mesmo os fantasmas n\u00e3o sangrando. Mas essa hist\u00f3ria de fantasmas era mais antiga, e n\u00e3o tinha s\u00f3 hist\u00f3rias f\u00e1ceis de explicar como essa. Nas horas mortas escutava-se um grito. Um grito rouco e animalesco vindo de algum lugar imprecisamente fora dos limites da cidade, dos altos pastos que se perdiam na borda da Mata dos Puris. Esse grito se ouvia desde a \u00e9poca da coloniza\u00e7\u00e3o \u2014 e n\u00e3o havia delegado nem l\u00edder sindical capado que explicassem porque.<\/p>\n<p>O grito n\u00e3o acontecia toda noite, claro. Em mais de cem anos de cidade ningu\u00e9m nunca conseguiu ter certeza de quando se ouvia. Certamente alguns sabiam que ele nunca fora ouvido em noites que n\u00e3o fossem de sexta ou de ter\u00e7a. Mas n\u00e3o dava para ter seguran\u00e7a disso, porque nem era toda ter\u00e7a ou sexta. Mesmo assim eram muitos os que o tinham ouvido, mas poucos os bastante corajosos para segui-lo na escurid\u00e3o. Diziam os mais antigos que o grito era coisa dos italianos, que tinha vindo com eles l\u00e1 de onde vinham, uma terra fria e povoada de terrores antigos. Os italianos, por sua vez, diziam que o grito estava antes deles, e que nem mesmo nos pavorosos cemit\u00e9rios abandonados dos etruscos, que alguns tinham conhecido, se ouvira jamais alguma coisa t\u00e3o aterrorizante. Por\u00e9m, curiosamente, ningu\u00e9m jamais morreu de forma estranha nas noites do Bairro Beira Rio, nem jamais algu\u00e9m encontrou a causa do grito.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Tranquilo, por\u00e9m, resolveu que precisava de descobrir a raz\u00e3o daquilo. Cansou-se de acordar assustado uma vez ou duas por m\u00eas, com o grito propriamente dito, ou com a algazarra de alguns maconheiros desavisados que vinham rolando do Morro dos Macacos abaixo como patos tocados pelo pasto com pressa. Os p\u00e1ssaros nas gaiolas ficavam irrequietos, os gatos nos muros miavam feio como se estivessem sendo estuprados e as pombas que dormem no campan\u00e1rio da igreja voavam para os lados da Torre de Televis\u00e3o, no Centro. Depois tudo se aquietava e a manh\u00e3 chegava de leve, como se nem tivesse havido nada.<\/p>\n<p>Na missa de Domingo, na Capela de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, o padre lia alguma homilia sobre a necessidade de estarmos &#8220;em guarda pelo esp\u00edrito&#8221; quando as portas duplas se abriram num golpe de ar e as beatas ficaram hist\u00e9ricas. Mesmo com o Padre Bernardo minimizando com uma frase de efeito, dizendo que &#8220;anjos passaram por aqui&#8221;, a gente simples daquele bairro afastado saiu de l\u00e1 ressabiada \u2014 e Jos\u00e9 Tranquilo cheio da certeza de que havia alguma coisa que precisava ser feita.<\/p>\n<p>Na segunda feira comprou uma lanterna dessas que usam para ca\u00e7ar r\u00e3s, tirou da mala um agasalho de l\u00e3 de alpaca que tinha usado em S\u00e3o Paulo nos tempos frios em que fora mec\u00e2nico de f\u00e1brica, e esperou a noite de ter\u00e7a para fazer sua explora\u00e7\u00e3o pelo escuro.<\/p>\n<p>Saiu de casa \u00e0 meia-noite, depois de ter dormido boas horas de sono, depois de um jantar carregado de carboidratos. Foi a primeira vez, nos anos que vivia em Bom Porto, que ousou subir at\u00e9 o Morro dos Macacos, passando pela Esquadrilha da Fuma\u00e7a nas goiabeiras. Surpreendentemente eles o respeitaram, s\u00f3 de ver que ele ia ao encontro da noite e do Grito, levando s\u00f3 uma lanterna e um pul\u00f4ver. Jos\u00e9 os cumprimentou, com uma leve censura pelos olhos &#8220;vermelhos do capeta&#8221; e foi subindo o morro, ofegando, sentindo-se como se tivesse mais do que os trinta e nove anos que tinha.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do Morro n\u00e3o havia nada demais, apenas estradinhas, como as que sempre h\u00e1 em torno das cidadezinhas. Mas havia uma lua linda no c\u00e9u e curiangos curiosos que piavam e pulavam quando seus p\u00e9s se aproximavam. No frio regular daquela noite de setembro a paisagem parecia t\u00e3o humana, t\u00e3o bela. &#8220;\u00c9 quase um sacril\u00e9gio imaginar que mesmo em noites dessas tem gente fazendo ruindade no mundo&#8221;, lamentou o Jos\u00e9, pensando no saco rasgado do pobre Totonho. Resmungando o nome do falecido delegado, decretou que a terra n\u00e3o lhe fosse leve e continuou trotando pela estrada, achando bonito cada cacho branco nas paineiras, cada perfume estranho de madeira, cada bosta de vaca seca num canto. De madrugada voltou para casa sem nada para contar, ali\u00e1s nem tinha a quem.<\/p>\n<p>Mas disso fez um ritual, e rituais acabam dando resultado. Afinal, um belo dia Deus pode estar a fim de nos dar o que pedimos cada dia, desde que seja algo pequeno. No caso dele, n\u00e3o era.<\/p>\n<p>Estava de novo passando pelas paineiras quando ouviu nas horas mortas um trotar nervoso. Ele, que sempre fora t\u00e3o tranquilo, teve medo daquele trotar esquisito e apagou a lanterna. Enfiou-se entre dois angicos espinhentos, \u00fanico abrigo que podia alcan\u00e7ar sem pular a cerca e fazer barulho, e ficou esperando. E fez mal de esperar, como mal tinha feito de ter ido. Voc\u00eas h\u00e3o de imaginar quem era, pois bem. Era ela. A Mula. J\u00e1 frouxa de uma noite de trote pelos infernos do mundo, vinha resfoleguenta e pregui\u00e7osa, louca de vontade de ver a barra do dia, mas o dia ainda vinha bem longe porque o sol s\u00f3 nascia \u00e0s seis da manh\u00e3. Distra\u00edda a mula, apesar do fogo morti\u00e7o que lhe servia de cabe\u00e7a, um fogo vermelho escuro, de pouco lume e de pouca labareda.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Tranquilo viu aquilo e come\u00e7ou a ficar ambicioso. Ele que sempre tinha sido um homem t\u00e3o avesso, t\u00e3o estranho. Ora, quem \u00e9 mais avessa e estranha que a Mula? Dizem que uma Mula Sem Cabe\u00e7a \u00e9 uma mulher bonita que pecou com padre, nos tempos em que isso era esc\u00e2ndalo. &#8220;Foda-se isso, eu n\u00e3o sou de frescuras. Quem gosta de selo \u00e9 carteiro.&#8221; E dizia isso o Jos\u00e9 porque tentava se lembra de hist\u00f3rias antigas de sua m\u00e3e, mulata dos sert\u00f5es do Mucuri. &#8220;Ah, senhora mula, como fazer para quebrar vosso encanto?&#8221;, ele se perguntava, de brincadeira, achando-se rid\u00edculo, e de repente descobrindo que devia estar sonhando.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ela o viu, por descuido. Dizem que a mula enxerga qualquer brilho. N\u00e3o teria visto a l\u00e3 fosca do agasalho e nem os olhos deixados na sombra da \u00e1rvore, mas a maldita fivela do cinto luzira e denunciara-o. Diante disso n\u00e3o havia muito que pensar, a monstra se voltou com suas patas de a\u00e7o e relinchou de um jeito que arrepiou cada pelo do corpo de cada bicho que havia em volta. Veio empinando com seus cascos pontiagudos e riscou-os no angico, arrancando casca e deixando aquele cheiro de madeira fresca no ar.<\/p>\n<p>Foi pura sorte, ou azar, que Deus permitisse ao Jos\u00e9 a presen\u00e7a de esp\u00edrito para usar contra ela, \u00e0 guisa de arma, a lanterna de corpo met\u00e1lico, fr\u00e1gil e fria, mas com borda cortante quando quebrada. Gotas ferventes ca\u00edram ao ch\u00e3o, queimando a poeira com cheiro de maldi\u00e7\u00e3o. O relincho se transformou em um berro, humano e horr\u00edvel, e num piscar de olhos l\u00e1 estava, refestelando-se no p\u00f3 imundo, como uma porca no cio, uma mulher morena e assustada.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 se sentiu muito forte naquele momento. Como se tivesse derrotado um Minotauro, ou coisa parecida. Saiu do esconderijo, ousado, cavalheiro, galanteador. A mulher, nua, sangrava, suja e fria do ar da noite.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0A mo\u00e7a me fa\u00e7a o favor de desculpar o mau jeito\u2026<\/p>\n<p>A mo\u00e7a engasgava com a poeira e solu\u00e7os. Por fim se ergueu, sem vergonha de nada, e o olhou com dois olhos que pareciam brasas:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Por amor de que um filho de Deus me libertou?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Por amor de minha vida primeiro, que os teus cascos j\u00e1 quase me degolavam. Mas agora eu vejo que bem devia haver outros amores no caso.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Voc\u00ea me quebrou o encanto, mas foi muito longe de casa. Estou aqui em p\u00ealo que nem um bicho no mato e logo amanhece. Que vai ser de mim?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Se a mo\u00e7a puder confiar em um estranho, vou em casa e ainda volto, para buscar a senhorita.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Confiar \u00e9 o que eu tenho que fazer. Mas n\u00e3o deixe de vir, que tem muita gente ruim nesse mundo.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Tranquilo a escondeu numa moita e foi embora, voando pelos pastos como se fosse um fantasma. Quando desceu o Morro dos Macacos e chegou no fim da rua Nove de Outubro j\u00e1 n\u00e3o havia ningu\u00e9m fumando maconha nas goiabeiras, e nem pombas no campan\u00e1rio. Entrou na velha Bras\u00edlia azul, ligou-a com muito barulho e saiu acelerado. Tinha setenta minutos antes do sol nascer. Setenta preciosos minutos durante os quais algu\u00e9m poderia encontrar a Mula Sem Cabe\u00e7a na estrada. Tinha que acelerar o quanto pudesse, para dar a volta e buscar a mulher. O macac\u00e3o de mec\u00e2nico estava no banco de tr\u00e1s: serviria para vesti-la na volta, com pouca suspeita. E depois vinha uma vida, um monte de coisas que podiam mudar, ou n\u00e3o. &#8220;Ai meu Deus, me ajuda a chegar logo, antes que maldade do mundo acabe com tudo&#8221;. E acelerava com raiva, com pressa, com tes\u00e3o e com muito cuidado para n\u00e3o parar numa curva da estrada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Tranquilo n\u00e3o era chamado assim por escolha de ningu\u00e9m. Era seu sobrenome, mas n\u00e3o sua vontade e nem o seu destino. Tinha sido metal\u00fargico em uma f\u00e1brica em uma grande cidade, ganhara algum dinheiro e vivera aventuras, mas tivera que voltar, com o rabo entre as pernas, justamente porque perdeu a calma \u2014 e por um triz n\u00e3o perdeu tamb\u00e9m a alma. 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