{"id":444,"date":"2010-08-29T14:17:00","date_gmt":"2010-08-29T17:17:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=444"},"modified":"2017-11-02T14:09:25","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:25","slug":"morrer-nunca-esteve-tao-na-moda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/08\/morrer-nunca-esteve-tao-na-moda\/","title":{"rendered":"Morrer Nunca Esteve T\u00e3o na Moda"},"content":{"rendered":"<p>Aparentemente, os jovens, especificamente os que gostam de escrever, possuem um fasc\u00ednio pela morte digno de nota. Nove em dez jovens autores j\u00e1 escreveram algum texto contemplando a ideia do suic\u00eddio (eu mesmo fiz isso nos meus vinte anos), dez em dez fizeram da morte de algu\u00e9m (real ou imagin\u00e1rio) o tema de algum texto que julgam significativo.<\/p>\n<p>Nada disso \u00e9 novo, no entanto: morrer sempre foi <em>fashion<\/em>. Nos tempos rom\u00e2nticos de antanho, quando as pessoas ainda levavam literatura a s\u00e9rio e a palavra &#8220;antanho&#8221; ainda n\u00e3o era rid\u00edcula, morrer cedo era o que o poeta poderia fazer de mais chique. A modalidade da morte variava de acordo com a escola liter\u00e1ria: os ultra-rom\u00e2nticos preferiam a tuberculose ou o suic\u00eddio, os byronianos sonhavam morrer na guerra e os simbolistas foram os pioneiros da overdose.<\/p>\n<p>A morte est\u00e1 sempre presente no quotidiano do homem, apesar de nossa teimosia em enxergar flores rosadas e c\u00e9us azuis no horizonte. Isto explica porque os jovens sens\u00edveis que se sentem atra\u00eddos pela literatura se sintam igualmente atra\u00eddos por ela que teve mil nomes nos versos dos poetas mortos, quase tantos quanto Satan\u00e1s tem no xingat\u00f3rio popular. Sua presen\u00e7a \u00e9 ainda mais intensa em nossa sociedade injusta, bruta, est\u00fapida e desigual, baseada na for\u00e7a do dinheiro, que compra todos os ideais e esmaga todos os que s\u00e3o puros. Isto explica porque a morte virou uma est\u00e9tica?<\/p>\n<p>Talvez n\u00e3o. A est\u00e9tica da morte n\u00e3o \u00e9 nossa, \u00e9 importada de fora. Reflete ideais e press\u00e1gios de outras culturas, que enfrentam dilemas que podem at\u00e9 ser parecidos, mas n\u00e3o id\u00eanticos. A est\u00e9tica do assassino em s\u00e9rie, da descri\u00e7\u00e3o minuciosa da tortura, da execu\u00e7\u00e3o milim\u00e9trica do crime\u2026 nada disso deriva de nossa viol\u00eancia at\u00e1vica, mas de uma estranha estetiza\u00e7\u00e3o, ou talvez at\u00e9 erotiza\u00e7\u00e3o, da morte em contraposi\u00e7\u00e3o ao sexo. A est\u00e9tica da morte \u00e9 crist\u00e3, por isso ressoa no cat\u00f3lico quieto que existe dentro de cada um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>N\u00f3s que admir\u00e1vamos os santos loucos e suas sete chagas. N\u00f3s choramos com Marcelino P\u00e3o e Vinho, morto aos doze. N\u00f3s que aceitamos como exemplo Santa Teresinha do Menino Jesus, com sua biografia de crian\u00e7a submetida a maus tratos e morta precocemente por desnutri\u00e7\u00e3o e exposi\u00e7\u00e3o aos elementos. N\u00f3s que rez\u00e1vamos para os m\u00e1rtires com admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A v\u00edtima do crime liter\u00e1rio \u00e9 um m\u00e1rtir moderno. N\u00e3o importa se a morte \u00e9 real ou apenas uma narrativa inventada. Os martirol\u00f3gios n\u00e3o eram tampouco factuais: n\u00e3o tinham o objetivo de ensinar hist\u00f3rias, mas de trazer ao crist\u00e3o <em>a experi\u00eancia do sagrado<\/em>. E n\u00e3o h\u00e1 experi\u00eancia mais sagrada do que morrer.<\/p>\n<p>S\u00f3 que o cristianismo mudou. Ficou luminoso, deixou a cripta e a catacumba, fugiu da catedral tumular de granito, saiu da bas\u00edlica cavernosa. Quase que n\u00e3o notamos a morte quando vamos \u00e0s igrejas floridas de hoje, mas ainda queremos experimentar a morte, precisamos dela.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a religi\u00e3o, atenuada por uma tentativa de fugir ao m\u00f3rbido, perde espa\u00e7o para formas n\u00e3o-religiosas de experi\u00eancia do sagrado. Se n\u00e3o posso me martirizar lutando contra sarracenos, ent\u00e3o fa\u00e7o uma tatuagem. Se n\u00e3o posso me encher de cicatrizes de auto-flagela\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o ponho <em>piercing<\/em>. Se n\u00e3o posso ser morto em nome da f\u00e9, me mato em nome do vazio que me engloba e me comprime em uma c\u00e9lula de nada da qual sou apenas o n\u00facleo fl\u00e1cido.<\/p>\n<p>E tudo isso que n\u00e3o fa\u00e7o ainda, ou em que ainda n\u00e3o penso, realizo imaginariamente na escrita. Meus personagens s\u00e3o m\u00e1rtires nos quais me ensaio a morrer (talvez na esperan\u00e7a de que eu mesmo n\u00e3o me mate amanh\u00e3). N\u00e3o escrevo por estar vivo, mas por ansiar n\u00e3o estar mais.<\/p>\n<p>Isto explica o fervor dos f\u00e3s de certos personagens, de certas s\u00e9ries: s\u00e3o paliativos para a dor da falta de morte na religi\u00e3o. Se ao menos houvesse uma Pir\u00e2mide do Sol e se houvesse sacrif\u00edcios humanos\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1. Nossa sociedade n\u00e3o admite mais a viol\u00eancia p\u00fablica. Prefere admitir a viol\u00eancia privada, que a lei n\u00e3o pune. Nossa viol\u00eancia se est\u00e1 aculturando. E n\u00f3s a cultuamos. E n\u00f3s a transformamos em literatura.<\/p>\n<p>Houve um tempo em que os jornais estavam cheios de humoristas. Hoje eles est\u00e3o vazios at\u00e9 de not\u00edcias. Pouca gente leva humoristas a s\u00e9rio se eles n\u00e3o se parecerem com jornalistas. E o pior: os jovens de hoje parecem n\u00e3o saber rir mais. Ande pela rua e confira as caras, amarradas. Ser feliz n\u00e3o est\u00e1 na moda. Est\u00e1 na moda \u00e9 a morte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aparentemente, os jovens, especificamente os que gostam de escrever, possuem um fasc\u00ednio pela morte digno de nota. Nove em dez jovens autores j\u00e1 escreveram algum texto contemplando a ideia do suic\u00eddio (eu mesmo fiz isso nos meus vinte anos), dez em dez fizeram da morte de algu\u00e9m (real ou imagin\u00e1rio) o tema de algum texto que julgam significativo. Nada disso \u00e9 novo, no entanto: morrer sempre foi fashion. 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