{"id":449,"date":"2010-08-27T21:49:00","date_gmt":"2010-08-28T00:49:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=449"},"modified":"2017-11-02T14:09:25","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:25","slug":"maus-pressagios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/08\/maus-pressagios\/","title":{"rendered":"Maus Press\u00e1gios"},"content":{"rendered":"<p>Quando a noiva finalmente surge \u00e0 porta, banhada na luz externa e com um buqu\u00ea de rosas brancas adoravelmente \u00e0 m\u00e3o, Alberto eu sei o quanto queres sentir conforto por algum tempo. Mas \u00e9s tra\u00eddo pela mem\u00f3ria das dificuldades que viveste entre o dia em que J\u00falia entrou em tua vida sem pedir licen\u00e7a e este bendito instante em que parece que ela resolveu, afinal, acreditar que n\u00e3o \u00e9s o tolo que a primeira impress\u00e3o a fez pensar que eras.<\/p>\n<p>Ela vem andando com gra\u00e7a pela nave da igreja, os olhos fixos no ch\u00e3o, temendo o tombo que o salto alto faz poss\u00edvel. Ent\u00e3o sorris jovialmente junto \u00e0s testemunhas, te sentes agora orgulhoso da beleza de tua mulher, olhas os convidados com superioridade, como o atleta no p\u00f3dio, como o soldado exausto que desfila sua arma na parada depois da guerra. Aparentemente tudo est\u00e1 bem e sob controle. Mais uma vez ajeitas o colarinho para dissipar o nervoso e d\u00e1s teu \u00faltimo suspiro de solteiro diante de quatrocentos convidados.<\/p>\n<p>Mas te lembras, Alberto, cada coisa que aconteceu, cada decep\u00e7\u00e3o e cada despeito? Tu te lembras dos momentos em que te sentiste inferior e aflito em tua solid\u00e3o? Como agora te achas no direito de desfilar este sorriso irrespons\u00e1vel, achar que todos esqueceram tudo que passou? A primeira vez em que ela te viu. Ainda lembras o anivers\u00e1rio de teu sobrinho? Brincavas com os meninos puramente, como eles. Era seu prazer faz\u00ea-los felizes, e com que simplicidade o fazias. Mas te lembras de como ela te olhou quando chegou? De como subitamente te deste conta do vexame e deixaste as crian\u00e7as?<a name=\"more\"><\/a><\/p>\n<p>Que arrependimento, n\u00e3o? Que foi mesmo que pensaste ent\u00e3o? Ah, eu sei que te sentiste o mais reles dos mortais e temeste que ela jamais te olhasse como outra coisa que n\u00e3o uma crian\u00e7a grande. Foi comovente ver teu rosto avermelhado e suas m\u00e3os tremendo.<\/p>\n<p>Como foste tolo! S\u00f3 mesmo tua inseguran\u00e7a te assegurou que o que fazias era algo t\u00e3o errado que mulher alguma poderia considerar inaceit\u00e1vel. Eras apenas um homem bom entre os seus. Apenas algu\u00e9m vivendo a simplicidade da vida. E eras feliz. Podias ter-te erguido do ch\u00e3o com a dignidade intacta, limpado o rosto e distribu\u00eddo outro sorriso. E podias ter simplesmente dito a ela qualquer coisa que sonhasses dizer porque estavas em teu direito. N\u00e3o havia crime ou vergonha. Mas preferiste retrair-te e, assim, te tornaste um pouco a crian\u00e7a que temias que ela pensasse que eras.<\/p>\n<p>Mas ainda assim poderias ter permanecido em paz. Mas em vez de tentar o esquecimento, n\u00e3o a ignoraste quando a viste no s\u00e1bado seguinte com uma lata de refrigerante na m\u00e3o no sagu\u00e3o da discoteca? N\u00e3o. Quiseste provar-lhe que n\u00e3o eras aquele tolo que n\u00e3o eras. E por tentar fazer-te outro, tiveste outra vez no rosto o vermelho da vergonha.<\/p>\n<p>N\u00e3o imaginaste que ela n\u00e3o tinha motivo algum para interessar-se pelo palha\u00e7o da festa? O orgulho te traiu, Alberto. Foi ele que te aconselhou a demonstrar a tua maturidade e a tua capacidade. Imagino que deve ter do\u00eddo muito ouvi-la reagir com frieza \u00e0s tuas tentativas de abrir algum assunto, pobre de ti! S\u00f3 que isso n\u00e3o foi o bastante: por que insististe, Alberto. Havia tantas mulheres no mundo boas o bastante para ti\u2026 E insististe at\u00e9 o fim.<\/p>\n<p>Lembro-me do cruel estratagema que ela empregou para te desiludir naquela noite, para te fazer sair. Lan\u00e7ando m\u00e3o do primeiro desconhecido que a cumprimentou, beijando-o como se ele fosse algu\u00e9m especial e chamando-o para entrar e dan\u00e7arem!\u2026 Com que imenso peso nos ombros tu tiveste de deixar o sagu\u00e3o e refugiar-te no banheiro para lavar do teu rosto aquele ar de pano-de-ch\u00e3o usado!<\/p>\n<p>Mas isto parece ter sido pouco para impedir que perseguisses uma oportunidade que nunca vinha, rebaixando tua dignidade diante de uma mulher que nem todos considerariam digna de tanto. Voltaste a v\u00ea-la e, em vez de te renderes \u00e0 verdade evidente de que ela n\u00e3o te queria, novamente ousaste lan\u00e7ar-lhe olhares de desejo e palavras de convite.<\/p>\n<p>Como foi mesmo, Alfredo? N\u00e3o, n\u00e3o esqueci. Foi num bar da Avenida, talvez o d?Angelo, que a viste vestida para a noite. Ela estava a uma mesa com algumas pessoas que te eram, quase todas, desconhecidas.<\/p>\n<p>Mas o destino te foi cruel providenciando a presen\u00e7a de um rosto conhecido \u00e0quela mesa! Utilizaste sem escr\u00fapulo nenhum a amizade da pobre Catarina para teres um modo de entrar na conversa e, sutilmente, falar de novo com a J\u00falia, algo que supunhas ser uma sorte imensur\u00e1vel.<\/p>\n<p>Que foi mesmo que ela te fez, Alberto? Ela n\u00e3o te ignorou? N\u00e3o se retirou da mesa para ir ao banheiro e n\u00e3o voltou? N\u00e3o mandou recado atrav\u00e9s do gar\u00e7om chamando sua maior amiga e desapareceu na noite? Sinceramente creio ter sido uma barra bem pesada suportar a presen\u00e7a daquelas pessoas estranhas, como pudeste conversar depois com a tua amiga, sabendo que ela sabia da desgra\u00e7a que te sucedera?<\/p>\n<p>No entanto, amigo, sabes que o amor n\u00e3o se importa com humilha\u00e7\u00f5es e nem com o desespero, desde que haja dentro de quem ama um resto de energia a ser desperdi\u00e7ado em pat\u00e9ticas tentativas. Pateticamente tentaste, n\u00e3o foi? Com que paci\u00eancia buscaste na lista telef\u00f4nica at\u00e9 descobri-la, a partir de apenas o sobrenome e uma vaga no\u00e7\u00e3o de onde ela morava! Mas que fazer com este tesouro sem valor, um n\u00famero do telefone? Achas razo\u00e1vel que algu\u00e9m ligue a uma desconhecida fazendo juras de amor? Ou que incomode quem lhe rejeita com chamadas insistentes e insistentes convites nunca aceitos? Ent\u00e3o por que fizeste isso? Alberto, foste um palha\u00e7o!<\/p>\n<p>Mas para surpresa minha, tua insist\u00eancia n\u00e3o se perpetuou em desenganos. J\u00falia subitamente abrandou o rigor com que te tratava. N\u00e3o sabes, Alberto. N\u00e3o sabes. A cegueira do amor, a doce cegueira te levou a pensar que finalmente os teus protestos de afeto infindo haviam comovido o cora\u00e7\u00e3o de quem era o teu carrasco e sonhavas ser o teu feitor\u2026<\/p>\n<p>O amor floriu com uma rapidez excessiva, n\u00e3o foi, Alberto? Mas n\u00e3o viste nisso nada de estranho. Menos de uma semana ap\u00f3s o encontro inicial j\u00e1 a tinhas em teus bra\u00e7os, suspirosa ap\u00f3s o esfor\u00e7o gozoso que vos arrebatara. Foi lindo, ou foi perfeito, Alberto? N\u00e3o. Mas nenhuma alegria lhe foi maior que a de receber a not\u00edcia de ser pai! Ah, Alberto. N\u00e3o compartilho de tua alegria.<\/p>\n<p>Agora, ap\u00f3s o parto prematuro de teu filho, ap\u00f3s a recupera\u00e7\u00e3o da plena sa\u00fade de teu bem. Eis que oficializais a uni\u00e3o eterna que lhe havias prometido. Ah, Alberto, uma vez mais n\u00e3o compartilho de tua alegria. De fato, mesmo ap\u00f3s a gravidez, tens uma bela noiva, teu lindo filho lhe sorri dos bra\u00e7os de tua cunhada e te sentes um homem realizado.<\/p>\n<p>Mas em nome de toda a amizade que hemos tido nesses anos todos desde os tempos de escola eu sei que tenho de ferir tua felicidade. Como o farei, Alberto? Como o farei? Por um lado, penso que se est\u00e1s feliz, \u00e9 bom que assim fique a ordem em que as coisas, \u00e0 tua revelia, se puseram.<\/p>\n<p>S\u00f3 te pe\u00e7o, Alberto, que quando raiar o entendimento atrav\u00e9s da penumbra que envolveu tuas percep\u00e7\u00f5es, n\u00e3o me venhas culpar por n\u00e3o te abrir os olhos.<\/p>\n<p>\u00c9 uma pena que n\u00e3o podes ouvir meu silencioso mon\u00f3logo, sou apenas um distante amigo seu que se oculta entre os presentes \u00e0 cerim\u00f4nia e tenta encontrar palavras para to dizer.<\/p>\n<p>Agora eu somente espero que o \u00faltimo dos enganos de J\u00falia seja o alerta que a far\u00e1 acertar o rumo na vida. Que a partir de agora pense menos em futilidades e mais em ser feliz, fazendo assim tamb\u00e9m a quem um dia tanto desprezou, mas a ama. <\/p>\n<div>Texto datado de 2001 ou 2002, originalmente publicado no Mundos &#038; Fundos em 2006.<\/div><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando a noiva finalmente surge \u00e0 porta, banhada na luz externa e com um buqu\u00ea de rosas brancas adoravelmente \u00e0 m\u00e3o, Alberto eu sei o quanto queres sentir conforto por algum tempo. Mas \u00e9s tra\u00eddo pela mem\u00f3ria das dificuldades que viveste entre o dia em que J\u00falia entrou em tua vida sem pedir licen\u00e7a e este bendito instante em que parece que ela resolveu, afinal, acreditar que n\u00e3o \u00e9s o tolo que a primeira impress\u00e3o a fez pensar que eras. 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