{"id":45,"date":"2013-05-07T22:27:00","date_gmt":"2013-05-08T01:27:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=45"},"modified":"2017-12-12T23:07:49","modified_gmt":"2017-12-13T02:07:49","slug":"traducao-as-abominacoes-de-yondo-clark-ashton-smith","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/05\/traducao-as-abominacoes-de-yondo-clark-ashton-smith\/","title":{"rendered":"As Abomina\u00e7\u00f5es de Yondo"},"content":{"rendered":"<div class=\"epigraph\">Original de Clark Ashton-Smith.<br \/>\nTraduzido a partir da vers\u00e3o online em <a href=\"http:\/\/www.eldritchdark.com\">Eldritch Dark<\/a>.<\/div>\n<p>As areias do deserto de Yondo n\u00e3o s\u00e3o como as areias de outros desertos, pois Yondo est\u00e1 mais perto da borda do mundo e estranhos ventos que sopram dos abismos que nenhum astr\u00f4nomo espera divisar t\u00eam semeado seus campos arruinados com a poeira cinzenta de planetas corro\u00eddos e as cinzas negras de s\u00f3is extintos. As montanhas arredondadas que se erguem, negras, de sua plan\u00edcie enrugada e esburacada n\u00e3o s\u00e3o todas suas, pois algumas s\u00e3o asteroides ca\u00eddos, meio enterrados naquelas areias abissais. Coisas vieram do espa\u00e7o inferior cuja incurs\u00e3o \u00e9 proibida pelos deuses de todas as terras pr\u00f3prias e bem organizadas, mas n\u00e3o h\u00e1 tais deuses em Yondo, onde vivem os p\u00e1lidos g\u00eanios de astros abolidos e os dem\u00f4nios decr\u00e9pitos desabrigados pela destrui\u00e7\u00e3o de antigos infernos.<\/p>\n<p>Era a metade de um dia de primavera quando sa\u00ed da intermin\u00e1vel floresta de cactos em que os Inquisidores de Ong me haviam deixado e vi sob meus p\u00e9s o come\u00e7o cinzento de Yondo. Eu repito, era meio dia na primavera mas naquele bosque fant\u00e1stico eu n\u00e3o achara nenhum sinal ou lembran\u00e7a de primavera e a vegeta\u00e7\u00e3o inchada, fulva, moribunda e apodrecida atrav\u00e9s da qual rompera meu caminho n\u00e3o era como outros cactos, mas exibia deformidades abomin\u00e1veis que mal se pode descrever. O pr\u00f3prio ar estava pesado de odores estagnados de decad\u00eancia e liquens leprosos manchavam o solo negro e as plantas ru\u00e7as com crescente frequ\u00eancia. V\u00edboras verde claras erguiam suas cabe\u00e7as das hastes de cactos ca\u00eddos e me vigiavam com olhos de ocre brilhante que n\u00e3o tinham p\u00e1lpebras nem pupilas. Estas coisas me haviam inquietado por horas e n\u00e3o me agradavam os fungos monstruosos, que me acenavam com caules descoloridos e chap\u00e9us de venenosa cor malva, crescendo nos l\u00e1bios esboroados de lagoas f\u00e9tidas, e as ondas sinistras que se formavam e esvaneciam na \u00e1gua amarela quando eu me aproximava n\u00e3o tranquilizavam a quem tinha os nervos ainda tensos de torturas inomin\u00e1veis. Ent\u00e3o, quando at\u00e9 os cactos mais doentios e manchados ficaram mais esparsos e atrofiados, quando regatos de cinzas arenosas come\u00e7aram a serpentear por entre eles, comecei a suspeitar qu\u00e3o grande fora o \u00f3dio despertado nos sacerdotes de Ong pela minha heresia, e a supor a extrema malignidade de sua vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o detalharei as indiscri\u00e7\u00f5es que me levaram, um descuidado forasteiro de terras distantes, a cair nas garras daqueles tem\u00edveis magos e misteriarcas que servem ao deus-le\u00e3o Ong. Tais indiscri\u00e7\u00f5es, e os detalhes de minha pris\u00e3o, s\u00e3o do\u00eddas de lembrar e menos ainda desejo lembrar os <acronym title=\"tradu\u00e7\u00e3o provis\u00f3ria.\">potros de tripa de drag\u00e3o salpicados de p\u00f3 cortante,<\/acronym> nos quais os homens s\u00e3o estirados nus, ou aquela sala com janelas de de quinze cent\u00edmetros ao r\u00e9s do ch\u00e3o, por onde gordos vermes de cad\u00e1veres entravam, \u00e0s centenas, de uma catacumba vizinha. Basta que diga que, depois de esgotar os recursos de sua criatividade horr\u00edvel, meus algozes me levaram vendado, no lombo de um camelo, por horas incomput\u00e1veis, para me deixarem \u00e0 luz do amanhecer naquela floresta sinistra. Eu estava livre, disseram-me, para ir aonde quisesse, e por sinal da clem\u00eancia de Ong deram-me \u00e0 guisa de provis\u00f5es uma bisnaga de p\u00e3o duro e um cantil de couro cheio de \u00e1gua malcheirosa. Foi na metade daquele mesmo dia que eu cheguei ao deserto de Yondo.<\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o eu n\u00e3o pensava em voltar, por todo o horror daqueles cactos putrescentes e das coisas malignas que viviam entre eles. Ent\u00e3o me detive a contemplar a terra legendariamente abomin\u00e1vel a que  chegara, porque Yondo \u00e9 um lugar aonde poucos se aventuraram conscientemente e por sua vontade. Ainda menos s\u00e3o os que retornaram \u2014 balbuciando hist\u00f3rias de horrores desconhecidos e tesouros estranhos \u2014 e a incur\u00e1vel paralisia que agita seus membros debilitados, a express\u00e3o torturada de seu olhar perdido, emoldurado de sobrancelhas embranquecidas, n\u00e3o \u00e9 incentivo para que outros os sigam. Foi por isso que hesitei \u00e0 borda daquelas areias cinzentas, sentindo o tremor de um medo ainda maior movimentando minhas entranhas. Era horr\u00edvel prosseguir e horr\u00edvel retornar, porque tinha a certeza de que os sacerdotes haviam tomado provid\u00eancias contra esta possibilidade. Ent\u00e3o, ap\u00f3s um breve momento, segui em frente, cantarolando no ritmo de meus passos, com uma voz suavemente asquerosa, seguido por certos insetos de pernas longas que j\u00e1 encontrara entre os cactos. Tais insetos tinham a cor de um cad\u00e1ver de sete dias e eram grandes como tar\u00e2ntulas, mas quando pisoteava os mais avan\u00e7ados, erguia-se um odor mef\u00edtico que era ainda mais nauseabundo do que a sua cor. Por causa disso, eu os ignorava, na medida do poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Na verdade, essas coisas eram horrores menores na minha condi\u00e7\u00e3o. \u00c0 minha frente, sob um enorme sol doentiamente rubro, estendia-se Yondo, intermin\u00e1vel, a terra das alucina\u00e7\u00f5es pr\u00f3xima aos os c\u00e9us negros. Ao longe, na borda mais distante, havia aquelas montanhas redondas de que falei, mas antes delas, feios vazios de desola\u00e7\u00e3o acinzentada e colinas baixas e nuas, como os dorsos de monstros enterrados na areia. For\u00e7ando-me a seguir, vi grandes crateras nas quais meteoros haviam desaparecido, e pedras preciosas de cores diversas cujos nomes eu n\u00e3o conhe\u00e7o, brilhavam e se destacavam do p\u00f3. Havia ciprestes tombados que apodreciam junto a mausol\u00e9us arruinados, sobre cujo m\u00e1rmore manchado de liquens rastejavam gordos camale\u00f5es com p\u00e9rolas reais em suas bocas. Escondidas al\u00e9m das serranias baixas havia cidades nas quais nenhuma coluna restava intacta &#8212; imensas e antigas urbes que desapareciam, lasca a lasca, \u00e1tomo a \u00e1tomo, para alimentar os infinitos da desola\u00e7\u00e3o. Arrastei meus membros fragilizados pela tortura e pela fome sobre monturos de detrito que haviam sido um dia templos altivos e vi deuses ca\u00eddos franzirem a testa em passamita rachada ou rirem em p\u00f3rfiro partido aos meus p\u00e9s. Sobre tudo havia um sil\u00eancio mau, rompido apenas pela risada sat\u00e2nica das hienas e pelo arrastar das \u00e1spides nas moitas de espinheiros mortos ou jardins antigos abandonados ao per galhos dos espinheiros mortos em jardins antigos, abandonados \u00e0 urtiga agonizante e \u00e0 fumaria.<\/p>\n<p>Chegando ao topo de um dos morros maiores, vi as \u00e1guas de um lago misterioso, impenetravelmente opaco, verde como malaquita e ladeado por colunas brilhantes de sal. Aquelas \u00e1guas estavam muito abaixo de mim, em uma depress\u00e3o em forma de ta\u00e7a, mas montes de sal chegavam \u00e0s bordas erodidas, quase at\u00e9 os meus p\u00e9s, e eu percebi que o lago era apenas o resto amargo e vazante de um mar anterior. Descendo, cheguei at\u00e9 \u00e0s \u00e1guas escuras e comecei a lavar as minhas m\u00e3os, por\u00e9m havia uma intensidade aguda e corrosiva naquela salmoura imemorial e eu logo desisti, preferindo a poeira do deserto que havia me coberto e aderido lentamente \u00e0 minha pele como se fora uma roupa. Ali decidi  descansar um pouco e a fome me for\u00e7ou a consumir um pouco da magra e indecente provis\u00e3o que os sacerdotes me haviam dado. Era minha inten\u00e7\u00e3o continuar, se minhas for\u00e7as o permitissem, e chegar \u00e0s terras que ficam ao norte de Yondo. Essas terras s\u00e3o desoladas, tamb\u00e9m, mas a sua desola\u00e7\u00e3o \u00e9 de um tipo mais normal e sabe-se que certas tribos de n\u00f4mades as visitam ocasionalmente. Se a sorte me favorecesse, eu poderia encontrar uma destas tribos.<\/p>\n<p>A magra ra\u00e7\u00e3o me reviveu e pela primeira vez em semanas de que perdera conta, ouvi o sussurro de uma leve esperan\u00e7a. Os insetos de cor cadav\u00e9rica tinham j\u00e1 deixado h\u00e1 muito de me seguir, e at\u00e9 ent\u00e3o, apesar da estranheza do sil\u00eancio sepulcral e a poeira amontoada de ru\u00edna intemporal, n\u00e3o encontrara nada que fosse a metade do horror daqueles insetos. Comecei a pensar que os terrores de Yondo eram um tanto exagerados. Foi ent\u00e3o que ouvi um gargalhar diab\u00f3lico na escarpa da colina, acima de mim. O som come\u00e7ou t\u00e3o marcadamente brusco que me assustou al\u00e9m da raz\u00e3o e continuou sem parar, nunca variando sua nota \u00fanica, como a risada de um dem\u00f4nio idiota. Virei-me e vi a boca de uma caverna que n\u00e3o percebera antes, dentada de estalactites verdes. O som parecia vindo de dentro dela.<\/p>\n<p>Com uma resolu\u00e7\u00e3o amedrontada eu contemplei a negra abertura. O som risada ficou mais alto, mas por um momento eu n\u00e3o pude ver nada. Por fim eu captei um brilho esbranqui\u00e7ado no escuro, ent\u00e3o, com toda a rapidez de um pesadelo, uma Coisa monstruosa emergiu. Tinha um corpo p\u00e1lido, pelado e ovalado, grande como o de uma cabra prenha, e esse corpo estava montado em nove longas pernas ondulantes com muitas rebarbas, como as pernas de uma enorme aranha. A criatura passou correndo por mim e foi at\u00e9 a beira da \u00e1gua e vi que n\u00e3o havia olhos em sua face curiosamente inclinada, apenas duas orelhas apontavam como facas do alto de sua cabe\u00e7a e um focinho enrugado pendia sobre a sua boca, cujos l\u00e1bios fl\u00e1cidos, separados naquela gargalhada eterna, revelavam carreiras de dentes de morcego. Ela bebeu avidamente do lago amargo e ent\u00e3o, com a sede satisfeita, virou-se e pareceu sentir a minha presen\u00e7a,  porque o focinho enrugado se ergueu e apontou para mim, farejando ruidosamente. Se a criatura teria fugido ou se pretendia me atacar eu n\u00e3o sei, porque n\u00e3o pude mais suportar a vis\u00e3o e corri com as pernas tr\u00eamulas atrav\u00e9s das pedras massivas e das grandes colunas de sal pr\u00f3ximas \u00e0 margem do lago.<\/p>\n<p>Completamente sem f\u00f4lego eu finalmente parei, e vi que n\u00e3o fora perseguido. Sentei-me, ainda tremendo, \u00e0 sombra de uma grande pedra. Mas n\u00e3o encontraria muito al\u00edvio, porque come\u00e7ou o segundo dos bizarros acontecimentos que me for\u00e7aram a crer em todas as loucas lendas que ouvira. Mais assustador, por\u00e9m, que a risada diab\u00f3lica foi o grito que surgiu bem junto a meu cotovelo, sa\u00eddo da areia salgada, o grito de uma mulher possu\u00edda por alguma agonia atroz, ou desesperadamente sob o dom\u00ednio de dem\u00f4nios. Ao me voltar, eu vi uma verdadeira V\u00eanus, nua em sua alva perfei\u00e7\u00e3o que n\u00e3o temeria nenhum escrut\u00ednio, mas imersa at\u00e9 o umbigo na areia. Seus olhos arregalados de terror me imploravam e suas m\u00e3os de l\u00f3tus se estendiam em um gesto suplicante. Saltei para junto dela e toquei uma est\u00e1tua de m\u00e1rmore, cujas p\u00e1lpebras esculpidas estavam semicerradas em algum enigm\u00e1tico sonho de eras mortas, e cujas m\u00e3os estavam enterradas com beleza perdida de suas n\u00e1degas e coxas. Outra vez eu fugi, abalado por um novo medo, e outra vez ouvi o grito de uma mulher em agonia. Mas desta vez eu n\u00e3o me virei para ver os olhos e m\u00e3os que me imploravam.<\/p>\n<p>Subi pela longa escarpa ao norte daquele lago amaldi\u00e7oado, trope\u00e7ando em rochas de basalto e sali\u00eancias agudas e cobertas de metais esverdeados, rolando em buracos cheios de sal, em eleva\u00e7\u00f5es escavados pelas mar\u00e9s de antigas idades. Fugi como um homem que foge de um sonho funesto para outro, em uma noite infestada de dem\u00f4nios. \u00c0s vezes havia um frio sussurro em minha orelha, que n\u00e3o vinha do vento de minha corrida, e olhando para tr\u00e1s quando alcan\u00e7ava um dos eleva\u00e7\u00f5es mais altas, percebi uma sombra singular que corria passo a passo com a minha. Essa n\u00e3o era a sombra de um homem ou macaco, ou de qualquer outro animal, a cabe\u00e7a era um tanto grotescamente alongada, o corpo atarracado era muito corcunda e eu n\u00e3o podia determinar se tinha cinco pernas ou se o que parecia ser a quinta era s\u00f3 um rabo.<\/p>\n<p>O terror me emprestou novas for\u00e7as e eu chegara ao topo da colina quando ousei olhar outra vez para tr\u00e1s. Mas a fant\u00e1stica sombra ainda seguia a minha, passo a passo, e ent\u00e3o eu senti um odor curioso e completamente nauseante, forte como o cheiro de morcegos que se penduraram em um matadouro entre os monturos de carni\u00e7a. Corri por l\u00e9guas, enquanto o sol vermelho subia sobre as montanhas asteroidais a oeste e a estranha sombra crescia com a minha, mas mantinha sempre a mesma dist\u00e2ncia atr\u00e1s de mim.<\/p>\n<p>Cerca de uma hora antes do p\u00f4r-do-sol eu cheguei a um c\u00edrculo de pequenos pilares que se erguiam miraculosamente inteiros entre as ru\u00ednas que pareciam uma vasta pilha de cacos de cer\u00e2mica. Ao passar por entre esses pilares eu ouvi um ganido como o de um animal feroz, entre a raiva e o medo, e vi que a sombra n\u00e3o me seguira para dentro do c\u00edrculo. Parei e esperei, conjeturando logo que havia encontrado um santu\u00e1rio aonde o meu companheiro indesejado n\u00e3o ousaria entrar, e nisto a a\u00e7\u00e3o da sombra me confirmou, pois a Coisa hesitava, e ent\u00e3o corria em torno do c\u00edrculo de colunas, \u00e0s vezes parando entre elas, e sempre ganindo, at\u00e9 finalmente ir embora e desaparecer no deserto em dira\u00e7\u00e3o ao sol poente<\/p>\n<p>Por meio hora eu n\u00e3o ousei me mover, ent\u00e3o, a imin\u00eancia da noite, com todas as suas possibilidades de novos horrores, me for\u00e7ou a seguir tanto quanto pudesse na dire\u00e7\u00e3o do norte. Pois eu estava no pr\u00f3prio meio de Yondo, onde podem viver dem\u00f4nios e fantasmas que n\u00e3o respeitem o santu\u00e1rio das colunas inteiras. Ent\u00e3o, ao me for\u00e7ar adiante, a luz do sol se alterou estranhamente, pois o c\u00edrculo vermelho, ao se aproximar do horizonte cravado de montanhas, afundou e crepitou em um cintur\u00e3o de n\u00e9voa miasm\u00e1tica, em que flutuava a poeira de todos os templos e necr\u00f3poles desintegrados de Yondo se misturava a vapores malignos que espiralavam em dire\u00e7\u00e3o ao c\u00e9u, subindo de abismos que jazem al\u00e9m da \u00faltima borda do mundo. Naquela luz, toda a vastid\u00e3o, as montanhas redondas, as colinas serpenteantes, as cidades perdidas, tudo se dissolveu em um escarlate fantasmag\u00f3rico e obscuro.<\/p>\n<p>Veio, ent\u00e3o, do norte, onde as sombras se ajuntavam, a curiosa figura de um homem alto, todo paramentado em cota de malha, ou aquilo que eu imaginei ser um homem. \u00c0 medida que a figura se aproximou de mim, retinindo medonhos a cada pisada no ch\u00e3o coberto de cacos, eu vi que sua armadura era de bronze manchado de azinhavre e que havia cobrindo sua cabe\u00e7a um elmo do mesmo metal, ornado de cornos em espiral e uma crista falhada. Digo sua cabe\u00e7a porque a crep\u00fasculo estava escurecendo e n\u00e3o se podia enxergar claramente \u00e0 dist\u00e2ncia, mas quando a apari\u00e7\u00e3o se emparelhou comigo eu percebi que n\u00e3o havia face abaixo da viseira do bizarro elmo cujos bordas foram delineadas por um momento contra a luz l\u00e2nguida. Ent\u00e3o a figura passou, ainda retinindo medonhamente ao pisar, e desapareceu.<\/p>\n<p>Mas em seus calcanhares, antes que o sol se apagasse, veio uma segunda apari\u00e7\u00e3o, saltitando com pulos incr\u00edveis e parando quando j\u00e1 quase estava sobre mim no crep\u00fasculo vermelho: a monstruosa m\u00famia de algum antigo rei, ainda coroada por ouro impoluto, mas mostrando ao meu olhar uma face que tinha sido comida por mais do que o tempo ou os vermes. Faixas arrebentadas balan\u00e7avam em volta das pernas do esqueleto, e acima da coroa engastada de safiras e rubis alaranjados alguma coisa negra oscilava e acenava horrivelmente, mas, por um instante, eu n\u00e3o sonhei o que poderia ser. Ent\u00e3o, no meio dela, dois olhos obl\u00edquos e avermelhados se abriram e brilharam como carv\u00f5es do inferno, e duas presas of\u00eddicas brilharam em uma boca simiesca. Uma cabe\u00e7a atarracada e sem pelos, em um pesco\u00e7o de tamanho desproporcional, inclinou-se de maneira abomin\u00e1vel e sussurrou no ouvido da m\u00famia. Ent\u00e3o, em um salto, o morto-vivo percorreu metade da dist\u00e2ncia at\u00e9 mim, e das dobras e rebarbas da mortalha esfarrapada e um bra\u00e7o descarnado, com dedos \u00f3sseos ainda carregados de gemas brilhantes, foi estendido e veio tateando em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 minha garganta\u2026<\/p>\n<p>Voltei, voltei atrav\u00e9s de eras de loucura e medo, em uma corrida desabalada e claudicante, fugi daqueles dedos tateantes que sempre estavam pendurados no ar, na escurid\u00e3o atr\u00e1s de mim, para tr\u00e1s, para tr\u00e1s, sem pensar, sem hesitar, atravessando todas as abomina\u00e7\u00f5es porque j\u00e1 passara, voltando pela escurid\u00e3o que se adensava, em dire\u00e7\u00e3o as ru\u00ednas sem nome, cobertas de cacos, o lago assombrado, a floresta de cactos malignos, e para os cru\u00e9is e c\u00ednicos inquisitores de Ong que esperavam pelo meu retorno.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Original de Clark Ashton-Smith. Traduzido a partir da vers\u00e3o online em Eldritch Dark. As areias do deserto de Yondo n\u00e3o s\u00e3o como as areias de outros desertos, pois Yondo est\u00e1 mais perto da borda do mundo e estranhos ventos que sopram dos abismos que nenhum astr\u00f4nomo espera divisar t\u00eam semeado seus campos arruinados com a poeira cinzenta de planetas corro\u00eddos e as cinzas negras de s\u00f3is extintos. 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