{"id":456,"date":"2010-08-25T07:43:00","date_gmt":"2010-08-25T10:43:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=456"},"modified":"2017-11-02T14:09:26","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:26","slug":"a-noite-com-johnny-walker","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/08\/a-noite-com-johnny-walker\/","title":{"rendered":"A Noite com Johnny Walker"},"content":{"rendered":"<p>Uma das noites que lembro com mais carinho \u00e9 uma noite perdida no tempo, entre 1990 ou pouco depois, em que houve uma noite de m\u00fasica no teatro do Col\u00e9gio, sob o pretexto de comemorar o <em>Halloween<\/em> \u2014 essa absurda tradi\u00e7\u00e3o anglo-sax\u00f4nica que nosso servilismo nos est\u00e1 levando a adotar. Pouco lembro do que aconteceu naquela noite, exceto que tocaram muito da boa estirpe de uma outra absurda tradi\u00e7\u00e3o anglo-sax\u00f4nica que nem o meu pretenso nacionalismo p\u00f4de evitar que eu adotasse \u2014 o <em>rock\u2019n\u2019roll<\/em>. <\/p>\n<p>Depois daquele noite algo mudou dentro de mim, embora eu n\u00e3o saiba muito bem o qu\u00ea. Algo ficou para tr\u00e1s, perdido e pendente, sem que eu trouxesse foto alguma de lembran\u00e7a. E dessas coisas indefinidas \u00e9 que se tem mais saudade. <\/p>\n<p>Anos mais tarde eu estou conversando com um amigo e eis que ele, de passagem por outros assuntos se refere a essa noite em especial. Ele foi o baterista do primeiro grupo que subiu ao palco, ainda pouco depois das nove, e diz ele que foi um dos momentos mais legais de toda a sua vida. <\/p>\n<p>Sempre que algum m\u00fasico amea\u00e7a me contar coisas assim eu estimulo a confid\u00eancia com avidez e rever\u00eancia de quem sofre por n\u00e3o ter aprendido um instrumento. Como se faltasse em mim uma pe\u00e7a que eu sei que deveria ter. <\/p>\n<p>Porque me faz falta nunca ter tido a chance de participar de nada assim\u2026 Mas eu, se nunca pude ter essa mem\u00f3ria de mim mesmo, \u00e0s vezes a tenho atrav\u00e9s de outros. Que sorte t\u00eam, quando faltam sonhos vivos, aqueles que t\u00eam amigos! Se voc\u00ea n\u00e3o tem a pr\u00f3pria vida para se lembrar, invente uma! <\/p>\n<p>Percebendo ou n\u00e3o o tamanho de meu interesse, o meu amigo desfiou a mem\u00f3ria de seus dias de palco. Era como alimentar a um faminto. Enquanto ele me contava cada detalhe, eu me punha em seu lugar, vampirizando a emo\u00e7\u00e3o que ele me transferia, como se assim eu pudesse viver tamb\u00e9m um pouco aquilo. <\/p>\n<p>At\u00e9 que, de repente, eu me vi imerso uma outra vez na atmosfera densa da d\u00e9cada de oitenta, \u00e9poca em que ser livre ainda era uma arte e estar vivo ainda n\u00e3o era t\u00e3o perigoso. \u00c9poca em que o amor ainda n\u00e3o precisava de escudos, em que as deusas n\u00e3o pareciam bonecas de pl\u00e1stico. <\/p>\n<p>De repente me sinto subindo ao palco com eles, como se o esp\u00edrito de um ex-roqueiro baixasse em mim. Ou\u00e7o o rugido das guitarras, escuto l\u00e1 fora a agita\u00e7\u00e3o do p\u00fablico. Uma dose de u\u00edsque virada de um gole s\u00f3 para esquentar o peito e demolir o muro que travava os movimentos. Quatro rapazes ainda com espinhas no rosto entram carregando instrumentos enormes, andando desajeitados enquanto s\u00e3o ca\u00e7ados com frieza pelos olhares de uma plateia que cobrava uma atitude. <\/p>\n<p>Nessa hora Johnny Walker engrossa a coragem que fraqueja e os tr\u00eas se p\u00f5em em seus lugares, engatilharam suas armas, d\u00e3o um \u00faltimo retoque em afina\u00e7\u00f5es emp\u00edricas. Vaias e aplausos d\u00e3o as agridoces boas-vindas, respondidas com sorrisos simples. Cada um \u00e9 um guerreiro em uma grande aventura rumo ao desconhecido: a vida. <\/p>\n<p>A pequena transgress\u00e3o, uma garrafa de r\u00f3tulo negro. Com ela desafiamos as regulamenta\u00e7\u00f5es e as leis. Com ela desobedecemos \u00e0s recomenda\u00e7\u00f5es de nossos pais. A garrafa se transforma em um s\u00edmbolo. Um s\u00edmbolo que \u00e9 ostentado com orgulho quase equivalente ao orgulho de ostentar o instrumento. Erguer a garrafa e sorver direto do gargalo, arrancando aplausos de crian\u00e7as que querem pecar um pouco hoje. <\/p>\n<p>At\u00e9 que, saciado o desejo feroz de intensidade, depositam o Graal no solo e atacam um primeiro acorde para a gl\u00f3ria. O ritmo rompe o murm\u00fario da multid\u00e3o. Imediatamente as fronteiras de um universo que n\u00e3o acaba no horizonte se abrem aos que querem ouvir. E, repetindo Pink Floyd, decretam que \u00e9 confort\u00e1vel estar mudo, e a vida n\u00e3o \u00e9 mais que o roteiro para as l\u00e1grimas de um buf\u00e3o. E todos pareceram estar fora de seus corpos, movimentando-se ao ritmo dos rifes. <\/p>\n<p>A m\u00fasica \u00e9 um pranto, um acalanto, um ato de instinto com met\u00e1foras terr\u00edveis e uma grandeza vil. Submergimos em cada acorde como se cada instante fosse o \u00faltimo e nunca fosse amanhecer. Nada mais somos que sonhadores. Cada segundo tinha de durar al\u00e9m de si mesmo, cada nota tinha de suster-se na mem\u00f3ria do ouvinte como um convite eterno. <\/p>\n<p>De repente eu acordei. Aquela noite foi uma das \u00faltimas noites. N\u00e3o haver\u00e1 outra. Aqueles sonhos foram dos \u00faltimos daqueles sonhos. N\u00e3o se sonha mais assim. <\/p>\n<p>Tempos dif\u00edceis vieram, esmagaram nossos sonhos e nos empurraram pelas ruas at\u00e9 um beco sem sa\u00edda. Pessoas que faziam parte de nossas vidas de repente est\u00e3o morando muito longe e ficaram tristes. Gente que nos amava est\u00e1 morta, mudou de rumo ou perdeu seu brilho. Quantas vezes eu vivi eternidades falsas que nem amanheceram; promessas de substituir cada vaga lembran\u00e7a que sumiam antes que eu pudesse ter t\u00e9dio. <\/p>\n<p>Por isso o grupo acabou. Um deles passou num concurso, trabalhou em um banco, adquiriu tendinite, perdeu seu sorriso e hoje, nas noites de lua, toca para sua amada que sempre foi um guerreiro de aluguel e nunca teve tempo de lutar por suas pr\u00f3prias causas. A cada dia \u00e9 maior o ac\u00famulo de dejetos e circunst\u00e2ncias entre n\u00f3s mesmos e quem quisemos ser. <\/p>\n<p>Outro est\u00e1 casado e s\u00f3 Johnny Walker resta para ocasional lembran\u00e7a de um tempo em que a vida, a m\u00fasica e os amigos eram tudo que importava. A bateria talvez enferrujando num canto. Mas os amigos sempre ser\u00e3o amigos. <\/p>\n<p>Outro sumiu. Casou? Teve filhos? Mudou-se para a Gr\u00e9cia ou foi catar coquinho em algum lugar? Nunca se fica sabendo. Perder o rumo \u00e9 quase como perder a vida. <\/p>\n<p>Fico pensando de que modo ser\u00e1 que se sentem quando param para pensar no passado. Ganhar a vida sem sonho nos transforma em tristes, em carne morta que se move e d\u00f3i. <\/p>\n<p>H\u00e1 maneiras aparentemente alegres de sofrer, como h\u00e1 tristes formas de felicidade tamb\u00e9m. <\/p>\n<p>Ou ser\u00e1 que, ao contr\u00e1rio de mim \u2014 que nunca na verdade vivi profundamente nada disso \u2014 eles vivem felizes e n\u00e3o lamentam que o mundo mudou? <\/p>\n<p>Hoje, ao contr\u00e1rio de meus \u00eddolos, eu estou jovem demais para o <em>rock\u2019n\u2019roll<\/em>, embora n\u00e3o velho o bastante para morrer. Mas talvez algu\u00e9m ainda ache de viver. Eu tenho saudades de um mundo de que s\u00f3 vi o crep\u00fasculo. Um mundo em que a juventude n\u00e3o era a plat\u00e9ia de um programa de audit\u00f3rio e n\u00e3o \u00e9ramos revistados por seguran\u00e7as para entrar nos locais de divers\u00e3o porque todo mundo ia l\u00e1 para se divertir apenas. <\/p>\n<p>Tenho saudades de n\u00e3o ter estado nos grandes momentos do pequeno pequeno mundo de que tenho tanta saudade. Tenho saudades de n\u00e3o ter saudades de verdade. Lamento o encanto que nunca encontrei, a noite em que poderia ter ido com Adriana \u00e0 feira de Santa Rita mas, com medo da bronca de minha av\u00f3, preferi ir para casa dormir o sono dos anjos. <\/p>\n<p>Poderia ter conseguido, talvez, conquistar o cora\u00e7\u00e3o de Simone, n\u00e3o fosse t\u00e3o ing\u00eanuo? Lembro-me como hoje da noite em que o dia de ano novo rompeu subitamente a mediocridade e me transformou num med\u00edocre que se acha possuidor de um bom gosto. <\/p>\n<p>Lamento n\u00e3o existir mais ningu\u00e9m capaz de compor uma can\u00e7\u00e3o \u00e0 beira-mar ou de filosofar sobre o tempo que perde a cada dia. <\/p>\n<p>Porque agora a luta de cada noite e dia n\u00e3o tem a mesma capacidade de afogar-nos num mar de aromas e sonhos. <\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil saber se realmente \u00e9 felicidade esta vida feliz que levamos porque n\u00e3o temos como sentar na varando ouvindo no r\u00e1dio a can\u00e7\u00e3o que nos lembra o primeiro beijo, a primeira noite, o primeiro dia, o \u00faltimo instante, que nos remete ao pr\u00f3ximo, que\u2026 <\/p>\n<p>Em homenagem a Luiz Fernando Valverde.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das noites que lembro com mais carinho \u00e9 uma noite perdida no tempo, entre 1990 ou pouco depois, em que houve uma noite de m\u00fasica no teatro do Col\u00e9gio, sob o pretexto de comemorar o Halloween \u2014 essa absurda tradi\u00e7\u00e3o anglo-sax\u00f4nica que nosso servilismo nos est\u00e1 levando a adotar. 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