{"id":460,"date":"2010-08-22T20:49:00","date_gmt":"2010-08-22T23:49:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=460"},"modified":"2017-11-02T14:09:26","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:26","slug":"o-flautista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/08\/o-flautista\/","title":{"rendered":"O Flautista"},"content":{"rendered":"<p>Amaralina tinha sido uma cidadezinha qualquer, com casas entre bananeiras, mulheres entre laranjeiras, pomares e amores para quem quer que soubesse viv\u00ea-los. Seguia sua vida besta bem devagar, entre montanhas bem altas, rios suficientemente trai\u00e7oeiros e solo providencialmente pobre de qualquer coisa que o bicho-homem pudesse querer arrancar \u00e0 for\u00e7a de m\u00e1quinas e dor.<\/p>\n<p>A gente de l\u00e1 era arredia e desconfiada de estranhos. Colonos tricenten\u00e1rios, muito pouco acostumados a quem n\u00e3o tivesse o falar l\u00edquido que eles tinham aprendido com os \u00edndios e os escravos, muito antes das modas de esses e erres que hoje impregnam todos os lugares. Mas mesmo assim eles n\u00e3o deixavam de ser pessoas calorosas, que sabiam aceitar os forasteiros, desde que mostrassem ser de confian\u00e7a.<\/p>\n<p>Um desses homens foi o professor Gualberto Silva. Ningu\u00e9m l\u00e1 nunca soube de onde ele veio, nem precisamente quando chegou. Uma localidade onde quase todos s\u00e3o analfabetos, onde n\u00e3o h\u00e1 jornal e mal h\u00e1 escola &#8212; n\u00e3o \u00e9 surpresa que n\u00e3o tenham feito registro de quando ele apareceu. Por isso eu apenas sei que um belo dia deram por sua presen\u00e7a e ele foi ficando, ficando, ficou at\u00e9 morrer de velho e ningu\u00e9m nunca soube de onde veio.<\/p>\n<p>Gualberto era professor de m\u00fasica. N\u00e3o se explica como ou porque uma criatura dessas foi pedir pouso l\u00e1 em Amaralina, onde mal havia escola e ningu\u00e9m nunca tinha ouvido falar de Bach. Alguns habitantes mais maliciosos do lugar sugerem que ele seria um criminoso fugido, outros que ele seria simplesmente um louco, mas outros, de cora\u00e7\u00e3o mais puro, juram que ele apenas se encantou pelo sil\u00eancio, e pelas ancas morenas de Firmina das Neves. Firmina apenas sorri quando lhe perguntam, dizendo entre dentes que &#8220;n\u00e3o senhor, nunca soube de nada&#8221;. Mas todos sempre souberam que ela lhe cozinhava de dia e lhe aquecia a cama de noite e que eram dele os dois filhos clarinhos que teve solteira, ela que tinha n\u00e3o tinha na pele nenhuma heran\u00e7a que n\u00e3o fosse de \u00edndios ou de negros. Em Amaralina as pessoas n\u00e3o tinham esses escr\u00fapulos: havia os coment\u00e1rios das comadres, mas ningu\u00e9m a censurava porque at\u00e9 padre era coisa que raramente se via por l\u00e1, e viver amigado era t\u00e3o normal que quando ouviam falar de algu\u00e9m casado os habitantes diziam que era &#8220;casado como filho de coronel&#8221;.<\/p>\n<p>Gualberto se tornou mestre-escola e ensinava aos moleques matutos coisas que surpreendiam. At\u00e9 hoje quem passa por aquelas bandas fica besta de ver negros velhos de p\u00e9 no ch\u00e3o que retiram de seus guarda-roupas r\u00fasticas rabecas cortadas ao estilo de violinos &#8212; e que executam nelas m\u00fasicas que n\u00e3o se imagina que algu\u00e9m nos cafund\u00f3s de Minas Gerais possa ter aprendido. Como o velho Heitor dos Santos, que me trouxe l\u00e1grimas aos olhos com uma execu\u00e7\u00e3o agreste e extraordin\u00e1ria dos Concertos de Brandenburgo.<\/p>\n<p>Mas um dia Amaralina foi tomada de assalto pelo r\u00e1dio. Inicialmente ningu\u00e9m notou muita diferen\u00e7a, porque o r\u00e1dio era, no come\u00e7o, meio inocente dos terrores que traria. Basicamente ele trouxe m\u00fasica, um tipo diferente de barulho a que o povo de l\u00e1 n\u00e3o estava acostumado. Claro, eles conheciam viola, pandeiro e outros objetos que produzem ru\u00eddos organizados, mas isso n\u00e3o \u00e9 m\u00fasica, m\u00fasica \u00e9 o que toca no r\u00e1dio, e precisa ser gravado no Rio de Janeiro para ser &#8220;de verdade&#8221;. O r\u00e1dio e o toca-fitas desempregaram os violeiros e fizeram as aulas de m\u00fasica artesanal do professor Gualberto sa\u00edrem de moda.<\/p>\n<p>Gualberto tinha especial predile\u00e7\u00e3o por instrumentos de sopro. Era um flautista folcl\u00f3rico, que fazia firulas e vozes no instrumento, flertando com melodias fugidias, mas nunca f\u00fateis. Costumava passar pelas estradas \u00e0 noite com o seu fr\u00e1gil flautim de bambu, e as notas das cantatas de Haydn flutuavam naquele sert\u00e3o perdido, como almas penadas. Ele era o \u00fanico que n\u00e3o tinha medo de fantasmas e nem de mulas sem cabe\u00e7a &#8212; e nisso conseguiu convencer a Firmina, que muita vez saiu com ele pelas trevas silenciosas fazendo indec\u00eancias nas moitas. Gualberto era um homem exc\u00eantrico, mas querido. Junto com o cora\u00e7\u00e3o de Firmina tinha conquistado a amizade de muita gente &#8212; e a sua m\u00fasica era parte disso: humildemente aceitava tocar nas festas dos santos e nas festas improvisadas de &#8220;amigamento&#8221;.<\/p>\n<p>A chegada da &#8220;m\u00fasica&#8221; n\u00e3o o desempregou, apenas lhe fez ficar melanc\u00f3lico. Antes as crian\u00e7as paravam para ouvi-lo imitar pios de p\u00e1ssaros na flauta. Com a chegada da m\u00fasica as pessoas nem querem mais ouvir os pr\u00f3prios p\u00e1ssaros. Foi ficando perigoso andar de noite, especialmente a fazer indec\u00eancias nas moitas, porque mais gente tamb\u00e9m andava, indo e vindo de bailes aqui e ali, nem sempre com boas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Preso em casa com sua cabocla e seus dois meninos, Gualberto se sentiu de novo como um p\u00e1ssaro. Nunca disse a ningu\u00e9m quando tinha se sentido antes do mesmo jeito, mas as m\u00e1s l\u00ednguas inventaram hip\u00f3teses que envolviam sempre sangue. Com o tempo foi definhando, ficando afastado das pessoas, enfadado do flautim. Ele sempre fora um solit\u00e1rio, desde que sua mulher morrera de parto antes mesmo que ele fosse para Amarelinha. Tinha Firmina, mas n\u00e3o tinha amigos. A companhia das pessoas nas festas eram todos os amigos que tinha. A flauta lhe abria portas, que o r\u00e1dio e sua m\u00fasica fecharam. Ele deixara de ser o homem que enfeiti\u00e7ava a todos com seus floreios e restou o magro e esquisito forasteiro, com seu jeito diferente e suas manias. At\u00e9 a Firmina, um dia, achou-se aflita com tudo e, insuflada por um intrigante, saiu de casa e foi viver com Valentino Silva, o valent\u00e3o local, na casa que ele ganhara de um coronel, pagamento de mortes, segundo diziam.<\/p>\n<p>Aposentou-se da escola o Gualberto. O governo do Estado lhe deu uma pens\u00e3o, devidamente miser\u00e1vel, como conv\u00e9m ao pagamento digno. No lugar da velha escola de terra batida, ergueram um col\u00e9gio, onde pedagogos formados ensinavam muitas coisas, mas nenhum tocava flauta nem conhecia os p\u00e1ssaros.<\/p>\n<p>Gualberto passava as tardes no alpendre da velha casa, sozinho com sua flauta, sofrendo a saudade de Firmina e a catarata que lentamente vinha. N\u00e3o aceitou nunca ter sido abandonado, sempre repetiu que ela lhe fora tirada \u00e0 for\u00e7a. Muita gente acreditou nisso quando Valentino, num instante de desespero, a matou a foi\u00e7adas. Estranhamente a morte ocorreu na estrada da Fonte, que seguia at\u00e9 a casinha de Gualberto.<\/p>\n<p>Pela primeira em muitas d\u00e9cadas deu pol\u00edcia no lugar. Vieram doze soldados com um mandado e um oficial, para prender o Valentino, que diziam procurado em outro estado. Nunca o acharam, dizem que se matou na Represa da On\u00e7a, ou ali o mataram, para que nunca falasse. Mas os soldados trouxeram terror a Gualberto, n\u00e3o se sabe o porqu\u00ea. De saber que andavam por perto perguntando \u00e0s pessoas por pistas do pistoleiro ele ficou af\u00f4nico e afinal, definhado como estava, falhou-lhe no peito o ventr\u00edculo esquerdo, segundo disse o doutor que o enterrou.<\/p>\n<p>Morto Gualberto, morta Firmina, os meninos sumidos no mundo, n\u00e3o sobrou ningu\u00e9m que lhe fizesse vel\u00f3rio. Apenas a Domingas, irm\u00e3 da Firmina, chorou o seu corpo quando o puseram na cova.<\/p>\n<p>Isso foi tudo h\u00e1 umas tr\u00eas d\u00e9cadas, e ningu\u00e9m mais fala em Firmina nem meninos e nem Gualberto. O flautista est\u00e1 esquecido, n\u00e3o lhe sabem sequer o nome. Dizem que foi um perdedor apenas, que ficou sem nada no fim. Eu acho que foi o mundo que perdeu, que somos n\u00f3s que nada mais temos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amaralina tinha sido uma cidadezinha qualquer, com casas entre bananeiras, mulheres entre laranjeiras, pomares e amores para quem quer que soubesse viv\u00ea-los. 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