{"id":465,"date":"2010-08-20T19:43:00","date_gmt":"2010-08-20T22:43:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=465"},"modified":"2017-08-12T22:37:16","modified_gmt":"2017-08-13T01:37:16","slug":"a-distracao-do-escriba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/08\/a-distracao-do-escriba\/","title":{"rendered":"A Distra\u00e7\u00e3o do Escriba"},"content":{"rendered":"<p>Tii era um funcion\u00e1rio exemplar e se orgulhava disso. Num pa\u00eds de camponeses que tinham de estragar as m\u00e3os na dureza do trabalho para poderem extorquir da terra o seu p\u00e3o, sentia-se feliz por ter um trabalho afastado da faina e do sol: era escriba.<\/p>\n<p>Trabalhava para H\u00e1tor num templo de prov\u00edncia, a administrar os cereais. Devia manter sob rigoroso controle o estoque de gr\u00e3os que sempre devia estar \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do povo nos anos de seca, para grande lucro da deusa e gratid\u00e3o da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Era um templo pequeno, numa cidade sem muita import\u00e2ncia. Talvez isto o diminu\u00edsse aos olhos dos Grandes Sacerdotes de Luxor ou de Karnak, mas era o que dava ao seu posto o toque especial que a Tii tanto prezava: tinha de acumular uma s\u00e9rie de fun\u00e7\u00f5es &#8212; e acumulando-as tornava-se n\u00e3o s\u00f3 mais s\u00e1bio como tamb\u00e9m mais feliz. Era quem redigia as cartas, cuidava dos livros, escrevia as ora\u00e7\u00f5es, mantinha os gatos, ajudava as novi\u00e7as e cobrava os impostos.<\/p>\n<p>Nenhuma destas fun\u00e7\u00f5es o desagradava, embora umas fossem mais favoritas que outras. N\u00e3o era especialmente com ansiedade que ele aguardava o dia de cobrar impostos, mas os rituais inici\u00e1ticos das novi\u00e7as eram algo que valia a pena estar vivo para ver, ainda que apenas de um fresta na porta. Sentia um especial deleite em fazer o estilo correr sobre o papiro, desenhando os hier\u00f3glifos com que registrava o movimento das esta\u00e7\u00f5es e os n\u00edveis dos celeiros e devotava especial cuidado a manter boas rela\u00e7\u00f5es com a sacerdotisa, eventualmente inclusive convidando-a a tomar uma cerveja no terra\u00e7o ao fim de uma tarde quente enquanto os grous e os \u00edbis voavam sobre o leito prateado do Nilo.<\/p>\n<p>A sacerdotisa era uma mulher excepcionalmente feia e apenas a m\u00e1scara de H\u00e1tor que envergava durante os rituais a salvava de ser deposta de representante da pr\u00f3pria deusa da Beleza e da fecundidade. Como muitas mulheres feias, era repleta de recalques e receios; bem como de um forte desejo de poder. Infelizmente para ela, o fato de a necessidade de ser a sacerdotisa da Beleza n\u00e3o ser compat\u00edvel com sua apar\u00eancia f\u00edsica a impediam de exercer t\u00e3o facilmente suas ambi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Tii sabia muito bem de tais limita\u00e7\u00f5es e as ordenhava pacientemente. Mantinha-se sempre pr\u00f3ximo e cordialmente atento. Nas tardes quentes, ajudado pela cerveja vermelha do templo, nunca esquecia de respeitosamente elogiar sua sacerdotisa, subornar com receosos elogios as suas hesita\u00e7\u00f5es e lentamente assegurar-se necess\u00e1rio enquanto o tempo prosseguia, as esta\u00e7\u00f5es se alternavam e o resto de f\u00fatil vi\u00e7o da sacerdotisa fanava e ela febrilmente se agarrava \u00e0 sua tr\u00eamula decis\u00e3o de n\u00e3o desistir.<\/p>\n<p>Naquele dia Tii estava especialmente atarefado. As colheitas se aproximavam e era preciso inventariar o estoque de gr\u00e3os para controlar corretamente a nova safra a entrar. O trabalho mais \u00e1rduo, o de verificar os armaz\u00e9ns para apurar se as quantidades registradas correspondiam \u00e0 realidade, esse j\u00e1 fora feito. Ent\u00e3o era preciso redigir os extensos relat\u00f3rios com o montante de cada produto. Depois os relat\u00f3rios seriam apreciados pela sacerdotisa, que introduziria pequenas mentiras de acordo com seus interesses, e enviado ao grande templo de Tebas, onde os dados nacionais seriam computados pelos Grandes Sacerdotes, que por sua vez produziriam seus providenciais desvios, e postos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do Fara\u00f3, que tentaria enxergar atrav\u00e9s da n\u00e9voa das estat\u00edsticas se seu pa\u00eds estava ou n\u00e3o em seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Mesmo sabendo dos meandros da pol\u00edtica, Tii n\u00e3o se deixa levar pela falta de rigor que o poderia distrair das min\u00facias, criando ainda maiores distor\u00e7\u00f5es e potencialmente destruindo a seguran\u00e7a alimentar de Kem. Afinal, um hier\u00f3glifo ou mais e erros da casa dos milhares poderiam fazer surgir ou desaparecer o trigo que daria para alimentar centenas de fam\u00edlias.<\/p>\n<p>J\u00e1 estava no meio do preenchimento quando uma das novi\u00e7as entrou no escrit\u00f3rio para varrer. Uma n\u00fabia de pele escura, cabelos encaracolados, talhe altivo e busto proeminente, negra como \u00e9bano, provocante como os Mist\u00e9rios. Ela lhe sorriu e p\u00f5e-se a limpar. Pelo ritmo forte de seu bra\u00e7o a manejar a vassoura percebia-se a for\u00e7a b\u00e1rbara das tribos. E os olhos de Tii interromperam sua aten\u00e7\u00e3o ao desfile dos s\u00edmbolos e a sua boca retribuiu outro sorriso, tentando esconder a c\u00e1rie do canino superior esquerdo.<\/p>\n<p>A jovem usava um vestido longo de linho drapeado cuja cintura terminava logo abaixo do busto pois, como todas as mo\u00e7as a servi\u00e7o da deusa, devia trazer o peito nu. Debaixo do saiote de linho Tii se sentiu acordar, mesmo sabendo que era um pobre homem calvo, de mais de quarenta anos, que tinha uma tarefa a ser terminada e apenas um pouco de tempo. O perfume da jovem o embriagava de t\u00e3o doce e persistente. Imposs\u00edvel n\u00e3o coment\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Que perfume extraordin\u00e1rio!<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Est\u00e1 dando para sentir da\u00ed? &#8212; pergunta ela, com voz potente e grave.<\/p>\n<p>O escrit\u00f3rio era uma sala de ch\u00e3o batido, teto de laje de adobe armado sobre troncos, com paredes grossas e nuas. Era enorme, como tudo l\u00e1, feito para sobrar espa\u00e7o em qualquer circunst\u00e2ncia, para nunca ser abarrotado; feito para ser forte e eterno, n\u00e3o para ser belo. Devia ter uns oito metros de lado mas sua mob\u00edlia se resumia a uma mesa de pernas serradas com um banco sem encosto e uma estante de t\u00e1buas onde os papiros eram armazenados em recipientes de cer\u00e2mica selados com cera. Enormes janelas davam para o nascente e o poente, permitindo que a boa luz de R\u00e1 iluminasse durante o dia todo e Tii pudesse trabalhar do amanhecer ao anoitecer. O \u00fanico ornamento era uma imagem em basalto da deusa com uns dois metros de altura bem no centro do sal\u00e3o e que na verdade servia como sustent\u00e1culo do teto diante da fragilidade do material e o v\u00e3o livre impressionante.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Tem certeza de que \u00e9 o meu? &#8212; ela insistiu.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0S\u00f3 sei que \u00e9 impressionante.<\/p>\n<p>Ela riu, mostrando dentes brancos como a flor do l\u00f3tus, e se aproximou deixando o vestido farfalhar no ch\u00e3o, como um mensageiro do al\u00e9m no escuro da noite. E Tii fechou os olhos para ouvir, sentindo seus cabelos e pelos arrepiados como no terror do sexo.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0\u00c9 o meu? &#8212; ela perguntou, aproximando o pesco\u00e7o forte como uma coluna de Karnak para que ele pudesse sentir o aroma que contaminava o ar.<\/p>\n<p>Seus olhares se cruzaram mas a n\u00fabia n\u00e3o sorriu de novo. Tii estava rendido, nem conseguia sorrir. Mas o senso do dever havia despontado nela, primeiro do que no corpo carente do pobre Tii. Enquanto ele permanecia de olhos quase fechados \u00e0 espera de qualquer coisa ou de nada, ela se afastava, terminava de varrer o ch\u00e3o e sa\u00eda.<\/p>\n<p>Tii contemplou a p\u00e1gina que parecia recoberta de garatujas infantis, esbo\u00e7ou outro sorriso e nem conseguiu distinguir o significado dos s\u00edmbolos negros que se enroscavam como serpentes.<\/p>\n<p><center>**Quatro Mil Anos Depois**<\/center><\/p>\n<p>Com pilhas de velhos livros abertos \u00e0 frente, Francisco procura os dados para a pesquisa escolar. \u00c9 preciso efici\u00eancia para agradar \u00e0s exig\u00eancias est\u00fapidas do professor de biologia que pediu aos alunos que montassem uma &#8220;\u00e1rvore&#8221; com os ramos da taxonomia em um belo cartaz acompanhado de um texto explicativo relacionado a cada item.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 nem preciso dizer que o nosso pobre Francisco est\u00e1 queimando pestanas em quase desespero, afinal, n\u00e3o \u00e9 um aluno brilhante, embora seu esfor\u00e7o seja normalmente recompensado por boas notas.<\/p>\n<p>Desnecess\u00e1rio dizer que todos est\u00e3o aproveitando a tarde de sol no inverno para passear, namorar, assistir \u00e0 televis\u00e3o, jogar futebol ou falar da vida dos outros, enquanto o pobre est\u00e1 sozinho fazendo o que deveria ser um trabalho em equipe.<\/p>\n<p>Mas no momento em que mais uma vez resmunga alguma coisa impublic\u00e1vel a respeito dos ausentes. No momento em que a aridez da sala de estudos mais se evidencia e a solid\u00e3o parece mais insuport\u00e1vel, eis que ela entra, cheia de promessas como uma manh\u00e3 de s\u00e1bado. Celena, a bela. Cujos olhos brilham como sem\u00e1foros, cujo corpo tem o traquejo natural das mulheres que seduzem sem querer. Ela \u00e9 o que se pode facilmente reconhecer como &#8220;a bela&#8221;, o alvo da inveja das simples mortais, objeto de adora\u00e7\u00e3o dos jovens que nem mesmo ousam p\u00f4r em palavras monologadas os poss\u00edveis desdobramentos de seus desejos. Em seus quinze anos ainda n\u00e3o teve de passar pelas agruras que vincam a express\u00e3o do rosto e fazem aparentar a idade. Toda ela respira frescor e alegria. Sua voz ainda se mant\u00e9m no tom precioso das mulheres em forma\u00e7\u00e3o, esse tom \u00fanico e t\u00edmido que as meninas perdiam por volta dos dezoito anos, mas foi definitivamente perdido de qualquer idade a partir de algum triste momento localizado em algum lugar dos anos oitenta.<\/p>\n<p>Ela usa um perfume leve, incapaz de embriagar sequer a uma abelha. Mas capaz de alcan\u00e7ar a profundeza mais rec\u00f4ndita da alma, um aguilh\u00e3o suave, apavorante e venenoso justamente por sua indefesa inoc\u00eancia. Francisco ergue os olhos do trabalho e subitamente o professor de biologia lhe parece uma criatura fant\u00e1stica da mitologia grega e as notas do bimestre, t\u00e3o sem sentido quanto os nomes cient\u00edficos das criaturas vivas que regurgitam na mente como as impreca\u00e7\u00f5es dos profetas que amaldi\u00e7oavam Jerusal\u00e9m: *Canis lupus familiaris, Panthera leo, Zea mays, C\u00e6salpinea echinatta, Entham\u0153ba histolytica, Rododendrum nordicum, Rattus rattus rattus*!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a biblioteca p\u00fablica deixou, por um momento, de ser o severo templo da sabedoria para ser a praia em que Afrodite nasceu das espumas do Oceano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tii era um funcion\u00e1rio exemplar e se orgulhava disso. Num pa\u00eds de camponeses que tinham de estragar as m\u00e3os na dureza do trabalho para poderem extorquir da terra o seu p\u00e3o, sentia-se feliz por ter um trabalho afastado da faina e do sol: era escriba. Trabalhava para H\u00e1tor num templo de prov\u00edncia, a administrar os cereais. Devia manter sob rigoroso controle o estoque de gr\u00e3os que sempre devia estar \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do povo nos anos de seca, para grande lucro da deusa e gratid\u00e3o da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[149],"tags":[22,17,39,11],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/465"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=465"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/465\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4506,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/465\/revisions\/4506"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=465"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=465"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=465"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}