{"id":469,"date":"2010-08-18T07:30:00","date_gmt":"2010-08-18T10:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=469"},"modified":"2017-11-02T14:09:27","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:27","slug":"nas-alturas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/08\/nas-alturas\/","title":{"rendered":"Nas Alturas"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;N\u00e3o h\u00e1 uma hist\u00f3ria para contar&#8221; &#8212; disse o homem depois de olhar nos olhos os amigos que o rodeavam. &#8220;L\u00e1 em cima \u00e9 frio e solit\u00e1rio, n\u00e3o h\u00e1 nada para ver e aquele vento que vem n\u00e3o te traz nenhuma sensa\u00e7\u00e3o al\u00e9m do desespero. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma sensa\u00e7\u00e3o m\u00edstica, nenhuma experi\u00eancia espiritual.&#8221;<\/p>\n<p>E desceu, ainda com as botinas molhadas de orvalho, carregando nas costas a enorme mochila de acampamento. Os demais permaneceram ao p\u00e9 do monte observando o ac\u00famulo de nuvens brancas em torno do pico, temendo e ansiando pelo desafio de tocar com as m\u00e3os a ponta de pedra que diziam haver ali, oculta por aquela n\u00e9voa sobrenatural que nunca desaparecia.<\/p>\n<p>&#8220;Vento? De que diabos ele estar\u00e1 falando? N\u00e3o pode haver vento l\u00e1 em cima, ou n\u00e3o haveria aquelas nuvens&#8221;. O l\u00edder da expedi\u00e7\u00e3o parecia confiante, embora algo ainda o fizesse hesitar: a lembran\u00e7a dos gritos que ouvira logo que o guia atingira o cume para fixar as garras de metal.<\/p>\n<p>&#8220;Esse homem s\u00f3 pode ser mesmo um louco&#8221; &#8212; disse um outro, um jovem de cabelos crespos e olhar luminoso.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o todos concordaram em ir e fixaram-se \u00e0 corda que bamboleava, seduzindo e assustando, saindo como uma serpente vermelha de dentro da n\u00e9voa branca.<\/p>\n<p>&#8220;Os \u00faltimos passos sempre s\u00e3o os mais dif\u00edceis\u2026 &#8212; pensou o l\u00edder &#8212; O ar falta, as pernas j\u00e1 n\u00e3o querem obedecer e ainda nos vem esta sensa\u00e7\u00e3o estranha de que algo est\u00e1 acabando dentro de n\u00f3s e que j\u00e1 dev\u00edamos voltar.&#8221;<\/p>\n<p>A tr\u00eas mil metros de altitude falar torna-se penoso. Exaurida a \u00faltima dose de tenacidade, todos lamentavam o excesso de ambi\u00e7\u00e3o. Talvez tivesse sido bastante contentarem-se com a vista deslumbrante da plan\u00edcie verde pontilhada de coisinhas brancas e fitas de prata que pareciam rios serpenteando em meio \u00e0s arvores.<\/p>\n<p>&#8220;Estamos chegando.&#8221;<\/p>\n<p>E a n\u00e9voa aos poucos foi se abrindo, como bra\u00e7os. Deixando atr\u00e1s deles uma luz cada vez mais difusa e fazendo as moitas de capim parecerem negras l\u00ednguas emitidas pela terra raramente tocada pelo sol.<\/p>\n<p>Ou pelo som de vozes, que pareciam amortecidas pela neblina.<\/p>\n<p>Talvez aquelas pedras fossem a parte mais trai\u00e7oeira da subida, dif\u00edcil enxerg\u00e1-las em meio \u00e0 brancura densa e \u00famida que se apegava a tudo e trazia para perto o limite da vis\u00e3o. Em qual delas pisar, de qual desconfiar.<\/p>\n<p>Subitamente tudo parecia lindo, &#8220;como peixes nadando num aqu\u00e1rio de leite&#8221;. Os homens subiam respirando com pulm\u00f5es mais limpos, de tantos dias longe da humanidade, ali naquele lugar em que todos somos estrangeiros.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o viram.<\/p>\n<p>Veio como um murm\u00fario surdo, talvez de\u2026 n\u00e3o. N\u00e3o podia ser. Assobiava como a ventania de agosto nas folhas finas do capim-navalha. Um assobio de fantasmas mesmo, algo como voc\u00ea ouviria se estivesse sonhando estar em uma montanha distante, sem nenhum telefone e sem a lembran\u00e7a de deuses. Eles o sentiram contra suas barbas e cabelos, um frio mais fundo os tocou, um frio desses de alma, desses que a pele n\u00e3o sente, apenas pelo arrepio da nuca.<\/p>\n<p>Subia e rodopiava, r\u00e1pido o bastante para agitar seus cabelos, para fazer aquele assobio tenebroso nas folhas do capim. Lento, por\u00e9m, para afastar aquela n\u00e9voa dura que partia-os do mundo.<\/p>\n<p>&#8220;Lugar feio mesmo&#8221; &#8212; concordou algu\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8220;A partir dali parece que j\u00e1 \u00e9 plano, n\u00e3o vamos precisar de corda nos \u00faltimos metros&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Ainda bem, porque a que temos precisamos deixar presa para usarmos como guia na volta, ou nos perdemos nessa neblina do c\u2026&#8221;<\/p>\n<p>A frase foi cortada pelo recrudescer do vento.<\/p>\n<p>&#8220;Como se a montanha n\u00e3o gostasse de n\u00f3s.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea n\u00e3o devia ficar lendo estes livros malucos, eles ficam pirando sua cabe\u00e7a com essas id\u00e9ias m\u00edsticas.&#8221;<\/p>\n<p>Mas de repente era ineg\u00e1vel que estavam s\u00f3s em um plat\u00f4 desnudo, junto ao \u00faltimo lance de subida daquele pico sempre oculto pela n\u00e9voa, que ningu\u00e9m sabia quanto alto era e nem se estava em nosso lado da fronteira.<\/p>\n<p>&#8220;As b\u00fassolas n\u00e3o est\u00e3o funcionando.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Esta rocha em que estamos deve ser quase pura magnetita, um verdadeira \u00edm\u00e3 natural gigantesco!&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;O GPS tamb\u00e9m est\u00e1 estranho.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Interferencia magn\u00e9tica. Deus sabe em cima do que n\u00f3s estamos!&#8221;<\/p>\n<p>Os \u00faltimos metros de subida n\u00e3o foram os mais f\u00e1ceis, talvez pelo ar t\u00e3o ralo, aquele vento estranho e aquela neblina que n\u00e3o parecia pertencer ali. Tiveram de apoiar-se muito, escorregavam e por sorte havia aquela muralha de pedra t\u00e3o perto da superf\u00edcie lisa da encosta.<\/p>\n<p>&#8220;Liso demais isso aqui. E frio como\u2026 vidro?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;S\u00edlica vitrificada pela a\u00e7\u00e3o do calor, e talvez da press\u00e3o. Este lugar parece ter sido mais interessante.&#8221;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o chegaram ao topo e ali viram. Viram o que n\u00e3o queriam e n\u00e3o podiam ver. Viram o que viram e acabaram por esquecer: ali havia nada mais que uma rocha nua, de formato mais ou menos triangular. E sobre ela, em \u00e2ngulo de quase 45\u00b0, uma lisa haste de material escuro terminando em um globo. Firmemente fixada. Inquestionavalmente ali.<\/p>\n<p>Justo ali onde as nuvens chegavam ao seu teto e eles podiam ver o c\u00e9u viol\u00e1ceo estendido acima, como um pergaminho m\u00edstico.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o, ele tinha raz\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma experi\u00eancia m\u00edstica nisso.&#8221;<\/p>\n<p>E desceriam, calados e temerosos, retornando \u00e0s suas vidas normais, n\u00e3o sendo mais eles normais como antes. Mas enquanto se recompunham para a longa jornada de volta, o l\u00edder, fatidicamente, lembrou-se de dizer: &#8220;Vale a pena voltar aqui&#8221;.<\/p>\n<p>Os demais o encararam, surpresos. Tinha sido t\u00e3o dif\u00edcil subir e t\u00e3o dif\u00edcil a experi\u00eancia de contemplar a cena em que estavam. Pensar em retornar era at\u00e9 desagrad\u00e1vel.<\/p>\n<p>Mas \u00e0 mera sugest\u00e3o de que valia a pena voltar, a ideia come\u00e7ou a tomar forma em cada um. E todos perceberam, desde aquele momento, que fatalmente voltariam.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;N\u00e3o h\u00e1 uma hist\u00f3ria para contar&#8221; &#8212; disse o homem depois de olhar nos olhos os amigos que o rodeavam. &#8220;L\u00e1 em cima \u00e9 frio e solit\u00e1rio, n\u00e3o h\u00e1 nada para ver e aquele vento que vem n\u00e3o te traz nenhuma sensa\u00e7\u00e3o al\u00e9m do desespero. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma sensa\u00e7\u00e3o m\u00edstica, nenhuma experi\u00eancia espiritual.&#8221; E desceu, ainda com as botinas molhadas de orvalho, carregando nas costas a enorme mochila de acampamento. 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