{"id":471,"date":"2010-08-16T19:43:00","date_gmt":"2010-08-16T22:43:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=471"},"modified":"2017-11-02T14:09:27","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:27","slug":"sobre-caes-e-esses-bichos-esquisitos-seus-donos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/08\/sobre-caes-e-esses-bichos-esquisitos-seus-donos\/","title":{"rendered":"Sobre C\u00e3es e Esses Bichos Esquisitos, Seus Donos"},"content":{"rendered":"<p>Est\u00e1vamos bebendo cerveja e jogando conversa fora. Assunto vai e assunto vem, acabamos chegando a falar sobre a dubiedade do car\u00e1ter humano. A\u00ed algum humorista presente \u00e0 mesa em dia de p\u00e9ssimo humor atalhou:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0O ser humano tamb\u00e9m devia ter cauda. Assim ficaria mais f\u00e1cil identificar o prazer, a alegria, a dor, a contrariedade ou o cansa\u00e7o. N\u00e3o ia ser t\u00e3o frequente esse sofrimento de decepcionar ao outro por n\u00e3o saber como reagir.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Quem tem cauda \u00e9 cachorro, \u00f3 Jo\u00e3o. Deixe de ser besta porque o \u00fanico rabudo aqui \u00e9 voc\u00ea!<\/p>\n<p>\u2014\u00a0E voc\u00ea quer um animal mais afetuoso que o c\u00e3o? Pare para observar esta pequena maravilha que \u00e9 a ra\u00e7a canina. O c\u00e3o de um homem lhe traz mais alegrias que seus filhos!<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Sai dessa! C\u00e3o \u00e9 c\u00e3o, filho \u00e9 filho!<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Concordo com voc\u00ea: c\u00e3es nunca tiram notas baixas na escola, nunca fazem birra na hora do almo\u00e7o porque n\u00e3o querem carne ou n\u00e3o gostaram dos legumes, n\u00e3o insistem pedindo sorvete quando os levamos para passear mesmo que n\u00e3o tenhamos dinheiro, n\u00e3o precisam ouvir historinhas para dormir, n\u00e3o precisam ganhar presentes caros no Natal, n\u00e3o pedem carro emprestado para sair no fim-de-semana, n\u00e3o chegam de madrugada cheirando a \u00e1lcool, n\u00e3o usam drogas, n\u00e3o nos d\u00e3o desgosto quando adotam uma op\u00e7\u00e3o sexual diferente, n\u00e3o causam desgosto em ningu\u00e9m quando tiram a virgindade da filha do vizinho, quando engravidam vagabundas n\u00e3o h\u00e1 problema de pens\u00e3o aliment\u00edcia, etc. e etc.<\/p>\n<p><a name=\"more\"><\/a>\u2014\u00a0Mas cachorro \u00e9 um bicho. E ainda por cima um bicho fedorento. Voc\u00ea n\u00e3o pode beijar cachorro\u2026<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Mas se beijar seu filho pode dar sapinho ou c\u00e1ries.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Cachorro n\u00e3o sabe seu nome\u2026<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Mas n\u00e3o se ofende quando voc\u00ea esquece o dele.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Cachorro nunca vai ser nada na vida e te dar orgulho\u2026<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Mas tamb\u00e9m n\u00e3o vai virar nem maconheiro nem puta.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Ah, Jo\u00e3o, assim n\u00e3o d\u00e1 para conversar com voc\u00ea!<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Mas o Jo\u00e3o aqui tem raz\u00e3o num ponto \u2014 entrou na conversa o Frederico, que andava quieto s\u00f3 escutando \u2014 cachorro \u00e9 um bicho que sabe fazer companhia ao dono. Vira-latas principalmente. Nunca vi nada que se compare a um.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Mas o sentimento que se tem por um cachorro \u00e9 um sentimento meio mercen\u00e1rio, meio seco demais. Eu n\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m que d\u00ea a vida por seu cachorro\u2026<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Alto l\u00e1 que eu conhe\u00e7o! \u2014 atalhou o Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Algum demente, s\u00f3 pode ser!<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Nem t\u00e3o demente assim. Um sujeito perfeitamente normal at\u00e9 o dia em que tudo aconteceu. Quer ouvir a hist\u00f3ria?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Que hist\u00f3ria?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Eu j\u00e1 contei essa hist\u00f3ria numa cr\u00f4nica que escrevi faz uns dois anos para o Correio da Cidade. Voc\u00ea vai me dizer que n\u00e3o leu na \u00e9poca?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0N\u00e3o tenho o h\u00e1bito de ler os jornais daqui. Eles n\u00e3o s\u00e3o jornais com J mai\u00fasculo. Se juntar os oito n\u00e3o d\u00e1 um.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Discordo! \u2014 interveio outra vez Frederico \u2014 voc\u00ea est\u00e1 sendo injusto. N\u00e3o se pode querer que exista aqui um jornal como O Globo ou o Jornal do Brasil. Ali\u00e1s, aqui nesta cidade quase n\u00e3o acontece nada. De que ia adiantar querer fazer um Jornal com jota mai\u00fasculo, como diz voc\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Estamos saindo do assunto \u2014 relembrou o Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Ent\u00e3o conta logo a tal hist\u00f3ria do sujeito que morreu por causa de um cachorro \u2014 pedimos.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Bem, ele n\u00e3o morreu exatamente por causa de um cachorro. Foi mais ou menos assim\u2026<\/p>\n<p>&#8220;O sujeito era empregado de uma fazenda e levava uma vida normal de tudo. Ele tinha um cachorro vira-latas meio-perdigueiro e meio-terrier que lhe acompanhava para cima e para baixo. Um belo animal, manso como s\u00f3 ele.<\/p>\n<p>&#8220;Um bicho amoroso que at\u00e9 parecia meio gente tamb\u00e9m: brincava com os filhos do cara sem nunca machucar nenhum. Como era grande, as crian\u00e7as menores costumavam tentar cavalg\u00e1-lo. Ele sempre sa\u00eda de baixo com cuidado e nunca nem rosnou.<\/p>\n<p>&#8220;At\u00e9 o dia ficou doente. N\u00e3o se sabe qual doen\u00e7a. O animal foi ficando tristonho e arredio e todo mundo achou que houvesse algum problema. Parecia ser vermes, caso que poderia ser facilmente resolvido com meio comprimido de Ascaridil dissolvido no leite. \u2018Mas eu n\u00e3o vou dar rem\u00e9dio a meu c\u00e3o sem a opini\u00e3o de um doutor \u2014 disse ele.<\/p>\n<p>&#8220;Ele gostava muito do cachorro e resolveu procurar ajuda.<\/p>\n<p>&#8220;Claro que foi dif\u00edcil encontrar. Naquela \u00e9poca, idos de 1970 pouco mais ou menos, n\u00e3o havia veterin\u00e1rio na regi\u00e3o a n\u00e3o ser os que trabalhavam junto \u00e0s cooperativas de produtores de leite. Mas \u00e9 claro que estes estavam interessados em vacas ou, na melhor das hip\u00f3teses, em cavalos, porcos, bodes, ovelhas, etc.<\/p>\n<p>&#8220;E \u00e9 claro tamb\u00e9m que estes veterin\u00e1rios atendiam somente ao particular ou ent\u00e3o por conta das cooperativas. O nosso amigo estava numa situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil porque n\u00e3o podia pagar a consulta, e ningu\u00e9m se importava com a doen\u00e7a do seu cachorro.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c0 medida em que o tempo foi passando e o animal foi piorando, o cara foi ficando cada vez mais alterado. At\u00e9 que um dia chegou no consult\u00f3rio de um veterin\u00e1rio e atirou sobre a mesa o cachorro j\u00e1 meio lambuzado de fezes \u2014 porque havia um pouco de diarreia tamb\u00e9m \u2014 e um ma\u00e7o de notas de pequeno valor, pouca coisa, na verdade. Ele olhou fixamente nos olhos do homenzinho careca e deixou sair de uma s\u00f3 vez: &#8220;O doutor vai curar o Baruio ou n\u00e3o vai?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;E disse isso com tanta convic\u00e7\u00e3o que o veterin\u00e1rio at\u00e9 se assustou. Mas a\u00ed veio a crueldade. Em vez de mandar que o enxotassem do consult\u00f3rio com aquele animal fedido e sujo. O veterin\u00e1rio quis divertir-se com o sofrimento alheio.<\/p>\n<p>&#8220;Mandou que lavasse o cachorro num tanque dos fundos e s\u00f3 depois o trouxesse de volta. Com o cachorro lavado e esticado sobre a mesa de trabalho, o veterin\u00e1rio tomou uma inje\u00e7\u00e3o de verm\u00edfugo das mais potentes e aplicou no bicho. Verm\u00edfugo para boi, vejam voc\u00eas. E para complementar o mal feito, ainda pegou um vidro de azeite de mamona\u2026<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Azeite de qu\u00ea? \u2014 perguntou o Frederico, que era carioca e n\u00e3o conhecia muito das coisas da terra.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0De mamona. Antigamente se usava isso para dar purgante em animais, e \u00e0s vezes at\u00e9 em gente.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Cruz-credo!<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Mas deixe eu continuar.<\/p>\n<p>&#8220;Ele tacou todo o azeite pela boca abaixo do c\u00e3o usando um funil de pl\u00e1stico. Como o vidro estava sem r\u00f3tulo, foi s\u00f3 na hora em que o l\u00edquido j\u00e1 estava descendo viscoso pelo es\u00f4fago do animal que seu dono percebeu o que estava acontecendo.<\/p>\n<p>&#8220;Indignado ele interpelou: &#8220;Doutor, o senhor n\u00e3o devia estar dando purgante pro meu c\u00e3o, ele j\u00e1 \u2018t\u00e1 com caganeira demais.&#8221;<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Voc\u00ea est\u00e1 enganado, este purgante vai ajudar a limp\u00e1-lo por dentro.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Que revoltante \u2014 inclui Frederico.<\/p>\n<p>&#8220;O cara tamb\u00e9m n\u00e3o gostou nem um pouquinho e come\u00e7ou a discutir com o veterin\u00e1rio e a falar muitas palavras duras com ele. At\u00e9 que o veterin\u00e1rio perdeu a paci\u00eancia e resolveu mandar o cara ir plantar batatas.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0N\u00e3o \u00e9 justo! \u2014 adicionei.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Cale a boca que comunista n\u00e3o entende de justi\u00e7a, e me deixe terminar:<\/p>\n<p>&#8220;Foi preciso chamar a pol\u00edcia para tirar o cara de l\u00e1. E os policiais, como era costume na \u00e9poca, aproveitaram para dar uma surra de cassetete no pobre coitado. Tiveram o requinte de dar umas bordoadas no cachorro tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8220;Nosso ar de desaprova\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava a ponto de nos fazer declarar amor aos c\u00e3es, contrariamente \u00e0s coisas que hav\u00edamos estado dizendo minutos antes.<\/p>\n<p>&#8220;Aquela noite ele passou ao relento na cidade porque j\u00e1 era muito tarde para voltar para casa. Passou-a ao lado de seu c\u00e3o, afagando-lhe a cabe\u00e7a e lavando-o continuamente a cada jato de fezes misturadas com lombrigas que o animal expelia.<\/p>\n<p>&#8220;Milagrosamente, ou talvez porque o veterin\u00e1rio tivesse \u2014 sem querer \u2014 feito a coisa certa, o c\u00e3o sobreviveu.<\/p>\n<p>&#8220;Quando o dia amanheceu ele se p\u00f4s a caminho de casa. Chegou ali pela hora do almo\u00e7o, cerca de meio-dia e meia, mais ou menos. Infelizmente o seu sofrimento mal havia acabado de come\u00e7ar\u2026<\/p>\n<p>&#8220;Sua mulher o esperava \u00e0 porta quando ele chegou. Ela estava impaciente e n\u00e3o aceitou desculpas e nem explica\u00e7\u00f5es. Xingou-o de todos os nomes que voc\u00ea conhece e mais alguns que inventou na hora. Botou o marido para fora de casa dizendo que era um absurdo que um sujeito passasse tr\u00eas dias fora de casa atr\u00e1s de rem\u00e9dio para um cachorro in\u00fatil que nem doente estava.<\/p>\n<p>&#8220;Ele ent\u00e3o procurou seu patr\u00e3o para perguntar se podia construir para si outra casinha de pau-a-pique \u2014 j\u00e1 conformado em procurar outra cara-metade. Mas a sorte madrasta ainda n\u00e3o tinha terminado. Nos tr\u00eas dias em que estivera fora, o patr\u00e3o havia decidido despedi-lo e j\u00e1 havia outro trabalhando em seu lugar. Tamanhos eram os requintes de crueldade do destino que o seu substituto no servi\u00e7o havia tamb\u00e9m passado a substitui-lo na cama da esposa.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o havia para onde ir e nem o que fazer. Tinha de deixar o pr\u00f3prio filho nos bra\u00e7os da m\u00e3e ad\u00faltera porque n\u00e3o tinha como conseguir ainda um lugar para dormir a noite.<\/p>\n<p>&#8220;Daquele dia em diante ele n\u00e3o foi mais o mesmo. Mas ainda queria consertar a vida. Passou a andar pelas estradas em companhia do cachorro pedindo emprego nas fazendas por que passava e, se n\u00e3o davam o emprego, pelo menos um prato de comida e uma caneca de leite.<\/p>\n<p>&#8220;Isso n\u00e3o o ajudou em nada a melhorar a sorte. Ningu\u00e9m achava boa ideia contratar um homem t\u00e3o estranho; sujo e usando sempre a mesma roupa porque era apenas uma muda de roupa que possu\u00eda \u2014 j\u00e1 que nada pudera retirar de casa.<\/p>\n<p>&#8220;O cachorro era outra raz\u00e3o de desconfian\u00e7a. &#8220;Por que algu\u00e9m andar\u00e1 pelas estradas levando um animal desses?&#8221; \u2014 a gente se perguntava.<\/p>\n<p>&#8220;Quando o dono estava dormindo, o c\u00e3o lhe montava guarda com fidelidade extrema. Atacava com toda ferocidade qualquer um que tentasse se aproximar. Com o tempo circulou a not\u00edcia de que havia um mendigo louco vagando pelas estradas com um cachorro zangado. Logo se disse que o pr\u00f3prio mendigo teria contra\u00eddo a hidrofobia. Definitivamente as portas da vida se fecharam para o pobre coitado.<\/p>\n<p>&#8220;Um dia um fazendeiro local se cansou da hist\u00f3ria e mandou chamarem o hospital psiqui\u00e1trico do munic\u00edpio vizinho. Internaram o mendigo louco sob seus raivosos protestos, em que insistia que n\u00e3o era louco, que tinha mulher e filho, que queria um emprego para ganhar a vida e que n\u00e3o era crime ter um animal de estima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Sob os protestos tamb\u00e9m do c\u00e3o. Foi preciso dar tiro para tudo quanto \u00e9 lado para afugent\u00e1-lo. Mas n\u00e3o o mataram porque ele era esperto: estava acostumado a ca\u00e7ar e sabia o que eram espingardas.<\/p>\n<p>&#8220;No hosp\u00edcio lhe deram o tratamento-padr\u00e3o da \u00e9poca: eletrochoques, barbit\u00faricos, sedativos e surras. Sua revolta contra o fato de o estarem tratando como um louco s\u00f3 fez com que mais ainda lhe dessem o chamado &#8220;sossega-le\u00e3o&#8221;. At\u00e9 que finalmente ele deve mesmo ter perdido o ju\u00edzo.<\/p>\n<p>&#8220;Depois que ele se acalmou e se conformou com a sua situa\u00e7\u00e3o, as coisas ficaram mais f\u00e1ceis e dentro de poucos meses j\u00e1 o estavam pondo de volta no mundo.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Mas para qu\u00ea? \u2014 perguntei \u2014 o cara n\u00e3o tinha mais fam\u00edlia, n\u00e3o tinha emprego, todo mundo o chamava de doido. Que vida o coitado podia ainda ter?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Nenhuma. E foi exatamente assim que aconteceu.<\/p>\n<p>&#8220;Pelo menos lhe deram uma muda de roupas nova e alguns trocados &#8220;para recome\u00e7ar a vida, agora que est\u00e1 curado&#8221;. Ele voltou \u00e0 mesma regi\u00e3o onde antes vivera. Queria reecontrar o filho que deixara nos bra\u00e7os da m\u00e3e com menos de dois anos de idade e queria tamb\u00e9m procurar pelo seu c\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;As coisas come\u00e7aram, ent\u00e3o, a ficar ainda mais tristes para ele. Imaginem voc\u00eas qual foi a rea\u00e7\u00e3o da ex-mulher ao v\u00ea-lo chegar, ainda de cabe\u00e7a raspada?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Foi ao port\u00e3o receb\u00ea-lo rindo? \u2014 disse Frederico.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0N\u00e3o. N\u00e3o acredito nisso \u2014 disse eu. Esse tipo de hist\u00f3ria nunca tem final feliz.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0N\u00e3o tem mesmo.<\/p>\n<p>&#8220;Ela trancou-se em casa. Trancou-se com o filho e mandou que pedissem socorro ao patr\u00e3o porque o louco de seu ex-marido estava perambulando em torno da casa querendo roubar-lhe o filho.<\/p>\n<p>&#8220;Alguns empregados da fazenda vieram e o expulsaram a chutes na bunda. E o pobre estava de novo jogado ao vento.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Parece mesmo que o cachorro era o \u00fanico amigo que ele tinha. Pobre diabo \u2014 disse eu.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Tinha. Voc\u00ea disse bem. Porque j\u00e1 haviam encontrado uma maneira de acabar com a ra\u00e7a do Baruio.<\/p>\n<p>&#8220;Mais ou menos nos mesmos dias em que o haviam levado ao hosp\u00edcio, algumas pessoas resolveram tomar o encargo de livrar a regi\u00e3o do &#8220;cachorro do louco&#8221; e come\u00e7aram a p\u00f4r-lhe armadilhas. Muitas falharam at\u00e9 que uma &#8220;bola&#8221; o pegou.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0O que \u00e9 uma &#8220;bola&#8221; \u2014 interrompeu o Frederico.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Xi, o carioca \u2018t\u00e1 vendido outra vez\u2026 \u2014 disse o Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Uma &#8220;bola&#8221; \u2014 eu expliquei \u2014 \u00e9 um peda\u00e7o de comida, geralmente carne, com veneno dentro. Se usava l\u00e1 na ro\u00e7a antigamente para matar o cachorro dos outros quando ele se acostumava a vir comer nossas galinhas.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Pois deram veneno assim?! Isso n\u00e3o se faz! Covardia!<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Muita covardia \u2014 disse Jo\u00e3o. Mas era uma coisa necess\u00e1ria quando o dono n\u00e3o tomava provid\u00eancias para impedir seu c\u00e3o de alimentar-se no galinheiro do vizinho. Mesmo assim, muita covardia. E no nosso caso foi algo muito gratuito. O tal cachorro o que fazia era andar pelas estradas uivando de saudades do dono e ca\u00e7ado um animalzinho aqui e ali para comer: piri\u00e1, jacu, tatu, etc\u2026<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Mas ent\u00e3o deram uma bola ao c\u00e3o\u2026 \u2014 insisti.<\/p>\n<p>&#8220;A vida do pobre homem, a partir de ent\u00e3o, passou a resumir-se \u00e0 procura por seu c\u00e3o. Ele nunca ficou sabendo que o haviam matado e nem como fora. Acredito que depois de um tempo ele come\u00e7ou a desconfiar, mas \u00e0 medida em que essa desconfian\u00e7a ia se formando ele ia perdendo a no\u00e7\u00e3o das coisas e se perdendo nos labirintos de si mesmo.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Mas n\u00e3o morreu por causa do c\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Ah, foi mais ou menos.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Um dia algu\u00e9m, de gaiato ou querendo vingar-se, disse-lhe que o c\u00e3o estava preso na propriedade de um certo Ant\u00f4nio Alves. Isso parece que renovou as energias do coitado. Achando que sabia do paradeiro do querido animal ele passou a viver em fun\u00e7\u00e3o de fazer planos para ir busc\u00e1-lo.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Chegava nas vendas, nos bares, nas esquinas, em todo lugar onde houvesse concentra\u00e7\u00e3o de pessoas e propunha: &#8220;Quem quer me arranjar uma arma para eu ir matar o T\u00f5e Arve e pegar meu c\u00e3o?&#8221;<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Um dia lhe deram a arma. Satan\u00e1s sabe como escrever torto por linhas tortas. Apareceu um louco mais louco que o louco e lhe deu uma arma de fogo. E, de garrucha \u00e0 m\u00e3o, ele se dirigiu \u00e0 fazenda do tal &#8220;T\u00f5e Arve&#8221;.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0E o tal &#8220;T\u00f5e Arve&#8221; tinha alguma culpa na hist\u00f3ria? \u2014 perguntamos os tr\u00eas.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Provavelmente nenhuma porque era um sujeito do tipo que n\u00e3o se metia na vida dos outros por nada. E sua fazenda era uma das fazendas aonde o pobre &#8220;louco&#8221; nunca fora nem buscando emprego e nem pedindo comida, j\u00e1 que ficava num canto ainda pouco desenvolvido perto de um mato.<\/p>\n<p>&#8220;Logo a not\u00edcia correu de que o louco estava indo armado \u00e0 fazenda do Ant\u00f4nio Alves para mat\u00e1-lo e roubar seu c\u00e3o. Chamaram a pol\u00edcia e o &#8220;louco&#8221; foi perseguido por um batalh\u00e3o de soldados com fuzis em punho.<\/p>\n<p>&#8220;Quando ficou sabendo o que estava acontecendo ele ficou apavorado. Odiava policiais, mas n\u00e3o gostava de se meter em encrenca. Ou talvez tivesse lhe passado pela cabe\u00e7a um raio de serenidade e lucidez no meio da tempestade de loucura em que vivera por meses.<\/p>\n<p>&#8220;Decidiu abandonar a sua busca e ir render-se. Foi em dire\u00e7\u00e3o ao lugar onde, lhe disseram, os soldados estavam procurando.<\/p>\n<p>&#8220;Quando os viu, gritou-lhes: &#8220;Ei, estou aqui!&#8221; e visivelmente mostrou-lhes a arma que pretendia deixar cair ao ch\u00e3o. Mais tarde se soube que ele sempre morrera de medo da pol\u00edcia, mesmo antes de ter tomado a surra do come\u00e7o da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&#8220;Mas antes que tentasse qualquer coisa j\u00e1 o haviam enchido com uma rajada de tiros de fuzil que n\u00e3o lhe deixou nenhuma parte do corpo intacta.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Que revoltante \u2014 disse Frederico. Mas como voc\u00ea sabe que ele pretendia largar a arma?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Por que eu era um dos soldados naquele dia. Quando eu olhei para o homenzinho que apareceu no alto de uma eleva\u00e7\u00e3o mostrando uma garrucha eu entendi imediatamente que aquilo n\u00e3o era um gesto de amea\u00e7a, mas de rendi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Essa \u00e9 a sua opini\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Ele poderia ter chegado atirando.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Isso \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o nos demos conta de que toda a alegria inicial havia se dissipado \u00e0 medida em que a hist\u00f3ria fora desfiada pelo Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Algu\u00e9m sabe o nome do pobre coitado?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Dizem que ele se chamava Pedro.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Pedro de qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Sei l\u00e1. Talvez Pedro Silva, mais um dos muitos que h\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Vamos erguer um brinde em mem\u00f3ria desse cara. E desejar que na pr\u00f3xima encarna\u00e7\u00e3o ele n\u00e3o nas\u00e7a para viver outra &#8220;vida de cachorro&#8221; como essa.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0N\u00e3o, meu amigo \u2014 disse o Jo\u00e3o \u2014 n\u00e3o d\u00e1 para levantar um brinde ao homem e esquecer a hist\u00f3ria. Ela est\u00e1 queimando dentro de mim faz quinze anos e nada a apaga.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Voc\u00ea atirou tamb\u00e9m?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Sim.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Depois que eu vi que todos haviam atirado e ele ia morrer mesmo de tanta bala, achei melhor dar um tiro porque o sargento estava me olhando feio.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Solidariedade no crime \u2014 observei.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Se algum de n\u00f3s n\u00e3o atirasse poderia depois recriminar aos outros, especialmente porque quase que imediatamente todo mundo percebeu a inutilidade e o absurdo daqueles tiros.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Ent\u00e3o voc\u00ea abdicou do direito de apontar o erro alheio, errando de prop\u00f3sito junto com eles? \u2014 disse Frederico.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Jo\u00e3o \u2014 eu acrescentei \u2014 voc\u00ea \u00e9 pior que os seus companheiros. Eles erraram, voc\u00ea calculou.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Voc\u00eas vejam se v\u00e3o \u00e0 merda! \u2014 disse Jo\u00e3o e se levantou da mesa e foi embora.<\/p>\n<p>Troquei um r\u00e1pido olhar com Frederico.<\/p>\n<p>&#8220;Merda de mundo esse em que gente de bem \u00e0s vezes se v\u00ea obrigada a fazer maldades para continuar vivendo!&#8221;<\/p>\n<p>dezembro de 2003<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Est\u00e1vamos bebendo cerveja e jogando conversa fora. Assunto vai e assunto vem, acabamos chegando a falar sobre a dubiedade do car\u00e1ter humano. A\u00ed algum humorista presente \u00e0 mesa em dia de p\u00e9ssimo humor atalhou: \u2014\u00a0O ser humano tamb\u00e9m devia ter cauda. Assim ficaria mais f\u00e1cil identificar o prazer, a alegria, a dor, a contrariedade ou o cansa\u00e7o. N\u00e3o ia ser t\u00e3o frequente esse sofrimento de decepcionar ao outro por n\u00e3o saber como reagir. \u2014\u00a0Quem tem cauda \u00e9 cachorro, \u00f3 Jo\u00e3o. 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