{"id":472,"date":"2010-08-15T13:54:00","date_gmt":"2010-08-15T16:54:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=472"},"modified":"2017-11-02T14:09:59","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:59","slug":"pregando-na-praca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/08\/pregando-na-praca\/","title":{"rendered":"Pregando na Pra\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>Dia desses eu vi uma cena deprimente. Saindo do banco vi um pastor pregando na pra\u00e7a. Ele tinha uma b\u00edblia esgar\u00e7ada, um terno pu\u00eddo e uma gravata v\u00e1rios n\u00fameros maiores que o dele pendendo do pesco\u00e7o magro.\n<\/p>\n<p>Eu conhe\u00e7o esse pastor, \u00e9 um homem solteiro e solit\u00e1rio, j\u00e1 al\u00e9m dos quarenta anos de idade, que trabalha como marceneiro. Todos os domingos e eventualmente durante a semana ele pega sua velha b\u00edblia, um caixote de madeira e seu terno preto j\u00e1 quase perdido e vai para a pra\u00e7a. L\u00e1 ele sobe no caixote, abre a B\u00edblia em um livro qualquer, l\u00ea e come\u00e7a a pregar.\n<\/p>\n<p>Pregar\u00e1 durante horas, fa\u00e7a chuva ou sol, sempre entre o hor\u00e1rio do almo\u00e7o e o do jantar. Raramente algu\u00e9m parar\u00e1 para ouvi-lo, geralmente as mesmas pessoas: uma senhora gorda e morena, um velho negro curvado e de ar tristonho e uma adolescente feiosa e vesga que manca de uma perna. Levam-lhe \u00e1gua, caf\u00e9 e p\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele prega sem parar, at\u00e9 a garganta doer e as palavras se misturarem em sua boca, at\u00e9 l\u00e1grimas correrem de seus olhos e ele quase desfalecer no ch\u00e3o. H\u00e1 muitos anos que ele faz isso. Sua voz j\u00e1 est\u00e1 prejudicada por calos nas cordas vocais, sua pele est\u00e1 cheia de queimaduras de sol, mas ele insiste.<\/p>\n<p>Conclama ao arrependimento e \u00e0 cren\u00e7a, mas recebe a dura indiferen\u00e7a deste pa\u00eds onde supostamente 98% da popula\u00e7\u00e3o cr\u00ea em Deus. As meninas passam fazendo-lhe piadas, os meninos lhe atiram cascas de frutas, os adultos passam rindo ou olhando com ironia nos olhos.<\/p>\n<p>Raramente algu\u00e9m lhe dar\u00e1 alguma recompensa. Dizem que um conhecido comerciante certa vez lhe deu o terno, com a condi\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o mais pregasse diante de sua loja. N\u00e3o tenho not\u00edcia de que jamais tenha convertido algu\u00e9m pois tamb\u00e9m conhe\u00e7o a igreja que ele freq\u00fcenta: \u00e9 um miser\u00e1vel cub\u00edculo de nove metros quadrados no subterr\u00e2neo de um barraco em um bairro miser\u00e1vel onde s\u00f3 aparecem a mo\u00e7a vesga, a senhora morena e o negro idoso. Nunca o vi pregar em outro lugar.<\/p>\n<p>Quando vejo este homem pregando na pra\u00e7a, destruindo sua voz e sua sa\u00fade sob o inclemente sol de Minas Gerais em dezembro, eu tamb\u00e9m me pergunto o que o leva a isto. Que esp\u00e9cie de desgra\u00e7a o tornou t\u00e3o desesperadoramente infeliz, matou suas esperan\u00e7as de felicidade terrena, negou-lhe o desejo do amor, acabou com planos de filhos?<\/p>\n<p>\u00c9 preciso ser profundamente infeliz para render-se a uma vida t\u00e3o miser\u00e1vel, t\u00e3o santa. Os santos s\u00e3o infelizes, e s\u00e3o loucos. Com sua infelicidade eles compram sua esperan\u00e7a de c\u00e9u, com sua loucura eles acham que s\u00e3o felizes enquanto sofrem caninamente.<\/p>\n<p>Tenho muita pena do pastor que prega na pra\u00e7a. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dia desses eu vi uma cena deprimente. Saindo do banco vi um pastor pregando na pra\u00e7a. Ele tinha uma b\u00edblia esgar\u00e7ada, um terno pu\u00eddo e uma gravata v\u00e1rios n\u00fameros maiores que o dele pendendo do pesco\u00e7o magro. 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