{"id":477,"date":"2010-08-11T22:47:00","date_gmt":"2010-08-12T01:47:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=477"},"modified":"2017-11-02T14:10:00","modified_gmt":"2017-11-02T17:10:00","slug":"por-causa-de-valeria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/08\/por-causa-de-valeria\/","title":{"rendered":"Por Causa de Val\u00e9ria"},"content":{"rendered":"<p>Por causa de Val\u00e9ria estou perdido. Agora pouco me resta fazer, a n\u00e3o ser ficar sentado \u00e0 janela esperando que alguma coisa no horizonte me responda qual o sentido de minha vinda ao mundo. N\u00e3o tenho mais amigos, a casa de meus pais est\u00e1 longe e \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de tempo que seja privado at\u00e9 mesmo de minha liberdade, \u00fanico bem que me restou.<sup id=\"fnref:1\"><a href=\"#fn:1\" rel=\"footnote\">1<\/a><\/sup><\/p>\n<p>Tenho arrependimento em mim. N\u00e3o s\u00f3 por estar em vias de perder tudo, mas tamb\u00e9m por n\u00e3o ter sabido transformar a minha vida em algo diferente deste desespero em que estou mergulhando para nunca mais voltar.<\/p>\n<p>Foi num dia claro que a vi passar tomando um sorvete e a minha vida se incendiou. Ela era luminosa como uma manh\u00e3 e espanou o mofo de minhas entranhas. N\u00e3o resisti e comecei a tentar seduzi-la de todas as formas. Foi obsessivo, intenso, sufocante at\u00e9. Menos de um ano ap\u00f3s j\u00e1 est\u00e1vamos casados e livres para vivermos nosso sonho.<\/p>\n<p>Vivemos dias de incr\u00edveis aventuras pelo mundo e estivemos c\u00famplices at\u00e9 o dia em que o que era aparentemente s\u00f3lido come\u00e7ou a virar fuma\u00e7a: n\u00e3o h\u00e1 amor que resista \u00e0 rotina se n\u00e3o houver para temper\u00e1-lo generosas doses de amizade e entendimento.<\/p>\n<p>Depois de ano e meio de casados, cada dia come\u00e7ou a ser apenas outro dia e aos poucos foi se perdendo o antigo \u00edmpeto. De repente as meias sujas atr\u00e1s da porta e a toalha pingando no banheiro e a poeira do toca-discos e o atol de roupas sujas em torno do tanque; tudo come\u00e7ou a ser motivo para atribuirmos responsabilidades amargas e repostas raivosas.<\/p>\n<p>E tudo piorava na mesma medida em que cheg\u00e1vamos a acordos e p\u00fanhamos ordem nas tarefas e divid\u00edamos os afazeres e regul\u00e1vamos os momentos do dia. Mas demorou um longo tempo at\u00e9 que perceb\u00eassemos que bem pouco sobrara do que antes nos fizera querer a vida juntos.<\/p>\n<p>Quando come\u00e7ou? \u00c9 tudo t\u00e3o vago na mem\u00f3ria\u2026 Sei que um belo dia quando a olhei n\u00e3o vi mais a inoc\u00eancia que me fazia confiar cegamente. Por isso o nosso amor levou-me \u00e0 decad\u00eancia e de repente n\u00e3o foi f\u00e1cil aceitar que pod\u00edamos ser infelizes e que a verdade estava pendendo por um fio\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ter de repente aceitar que todo um ano de sua vida foi investido em v\u00e3o. Eu estava confundido, minha conta banc\u00e1ria exausta e minhas certezas-de-bolso j\u00e1 n\u00e3o serviam mais. Assim como eu perdera a cren\u00e7a nas pequenas felicidades proporcionadas pelo amor, j\u00e1 que para mim ele havia se burocratizado, e perdera a felicidade de crer integramente nas palavras dela, tamb\u00e9m Val\u00e9ria perdeu-se de mim, na mesma medida: est\u00e1vamos juntos, mas juntos como folhas grampeadas e o di\u00e1rio manuseio do amor foi separando-nos.<\/p>\n<p>Seria natural terminarmos tudo e seguirmos nossas vidas sem levar mais que as boas lembran\u00e7as mas\u2026 aos poucos foi surgindo dentro de mim uma certeza, que s\u00f3 agora eu consegui desmentir, uma certeza de que n\u00e3o saberia viver sem Val\u00e9ria tanto quanto n\u00e3o sei viver sem outro dia de beij\u00e1-la e t\u00ea-la em meus bra\u00e7os.<\/p>\n<p>Raciocinando por este caminho torto eu deixei que o meu ci\u00fame se tornasse mais doentio \u00e0 medida que o meu desejo por Val\u00e9ria se tornava menos espont\u00e2neo e mais uma fic\u00e7\u00e3o de minha teimosia, mais um desdobramento de uma depend\u00eancia quase patol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Passei a odiar quem a retinha longe de mim, os seus amigos se tornaram aos poucos meus inimigos e os seus parentes aos meus olhos pareciam estar sempre conspirando. Cada vez que me lembrava da precariedade do dia seguinte, tinha ganas de prend\u00ea-la \u00e0 cama para que n\u00e3o pudesse sair sem deixar-me certeza de voltar.<\/p>\n<p>Tanto tempo estive submerso nesta loucura que n\u00e3o percebi o quanto eram absurdas as minhas suspeitas, at\u00e9 que finalmente as minhas suspeitas deixaram de ser absurdas, j\u00e1 que ningu\u00e9m \u00e9 capaz de suportar a desconfian\u00e7a aliada \u00e0 uma incapacidade de carinho.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode prender o canto de um can\u00e1rio junto na gaiola. Eu podia insistir e inventar mil artimanhas para convenc\u00ea-la a n\u00e3o me deixar, mas n\u00e3o podia evitar que ela, em algum momento, percebesse que poderia ser mais feliz alhures do que com o que eu oferecia. Minha idolatria passou a ser amea\u00e7ada por sua beleza e pelas promessas de amor que lhe poderiam ser feitas por outros mais sens\u00edveis que eu, capazes mesmo de, talvez, dar-lhe o conforto que eu n\u00e3o dera nunca, o amor que eu mal sabia, uma satisfa\u00e7\u00e3o que eu j\u00e1 n\u00e3o tinha. N\u00e3o ousava perguntar-lhe mais se me amava, n\u00e3o ousava perguntar-me mais se n\u00e3o haveria, ent\u00e3o, apenas um sentimento de pena, aliado \u00e0 impot\u00eancia natural de algu\u00e9m que n\u00e3o sabe deixar\u2026<\/p>\n<p>Como o gato espreita o can\u00e1rio na gaiola sabendo que, preso, n\u00e3o poder\u00e1 ser devorado e, solto, estar\u00e1 inalcan\u00e7\u00e1vel; eu tamb\u00e9m espreitava a Val\u00e9ria sabendo que j\u00e1 n\u00e3o lhe podia fazer feliz, j\u00e1 que n\u00e3o era feliz, ao mesmo tempo n\u00e3o querendo de modo algum que ela me deixasse.<\/p>\n<p>Os dias aumentavam o turvamento de minhas ideias at\u00e9 que um dia eu n\u00e3o pude mais esconder um fato: tinha de decidir o que fazer de nossas vidas. Decis\u00e3o tomada, deixei de esperar um momento que nunca viria e investir o resto de minhas for\u00e7as e de minhas esperan\u00e7as em uma tentativa de trazermos de volta alguma coisa parecida com o que eu achava que havia existido entre n\u00f3s num dia qualquer distante em que nos conhec\u00earamos. Chamei-a \u00e0 praia para passarmos uns dias distantes de todos e podendo viver para n\u00f3s mesmos como viv\u00earamos em nossos primeiros dias.<\/p>\n<p>Mas Val\u00e9ria precisava trabalhar.<\/p>\n<p>Chamei-a para uma noite rom\u00e2ntica num suntuoso quarto de hotel para lembrar as loucuras rom\u00e2nticas de nossas primeiras noites, mas Val\u00e9ria achava necess\u00e1rio pouparmos para trocar o carro. Quis dar-lhe um presente valioso, penhor de minha aten\u00e7\u00e3o, mas ela repreendeu minha prodigalidade dizendo que por isso est\u00e1vamos sempre sem dinheiro\u2026 E de dose em dose, Val\u00e9ria foi desmentindo minhas ilus\u00f5es e rebaixando-me ao desespero. Nem lhe entreguei o novo par de alian\u00e7as de ouro branco que eu havia comprado para tentar renovar a suposta incorruptibilidade de nosso amor.<\/p>\n<p>Um dia quando voltei do trabalho encontrei a desola\u00e7\u00e3o intoler\u00e1vel: ela me deixara. O apartamento que eu alugara para ser o nosso estava despido de tudo que n\u00e3o fora eu quem comprara: a televis\u00e3o, os sof\u00e1s de vime, a cama de solteira em que dormia antes de viver comigo e onde agora embalaria de novo seus sonhos com outro homem do mesmo modo que um dia sonhou comigo e talvez fosse a cama em que amaria em breve \u00e0lgu\u00e9m que n\u00e3o a mim\u2026 E uma multid\u00e3o de que coisas avulsas que poderiam n\u00e3o me fazer falta se eu n\u00e3o sentisse falta de cada coisa\u2026<\/p>\n<p>Val\u00e9ria deixara-me um bilhete, n\u00e3o um endere\u00e7o. Nenhuma explica\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de que era melhor n\u00e3o falarmos sobre aquilo. O telefone que havia era o de um advogado e o encontro que ela marcava comigo era apenas a proposta de um div\u00f3rcio amig\u00e1vel diante do juiz-de-paz.<\/p>\n<p>Naquela noite longa, a voz de Val\u00e9ria esteve dentro de mim sussurrando vertiginosamente &#8220;\u00e9 melhor n\u00e3o falarmos sobre isso&#8221;, &#8220;tinha mesmo que acabar assim&#8221;, &#8220;n\u00e3o dava mais para salvarmos nosso casamento&#8221; e outras frases doloridas. Enquanto ela falara e eu n\u00e3o ouvira, voavam diante de meus olhos, como fotografias sopradas pelo vento, os pequenos instantes de felicidade que tiv\u00e9ramos, cada vez mais pequenos e amarelados. Val\u00e9ria se dedicara a desmont\u00e1-los ao dizer que n\u00e3o suportava mais e o peso desta palavra terr\u00edvel me destronara de minha ilus\u00e3o e eu ca\u00edra de volta a meu mundo que se fazia em peda\u00e7os aos p\u00e9s dela\u2026<\/p>\n<p>Abri uma garrafa de vodca e tomei tudo que pude antes de adormecer involuntariamente. N\u00e3o consegui que se produzisse o coma alco\u00f3lico. Dormi uma noite p\u00e9ssima e no dia seguinte n\u00e3o havia nada de novo em mim \u2014 a n\u00e3o ser uma terr\u00edvel dor de cabe\u00e7a. Sa\u00ed e comprei os tranquilizantes que h\u00e1 por a\u00ed. \u00c9 f\u00e1cil conseguir qualquer coisa quando se procura no lugar certo e se vai pagar a dinheiro. Quem me vendeu s\u00f3 perguntou se pagaria com cheque ou com cart\u00e3o de cr\u00e9dito, e apenas sorriu quando eu respondi pondo-lhe na m\u00e3o suada e peluda cinco mil cruzeiros em esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>Eu fui trabalhar normalmente, o peso em meu rosto n\u00e3o fazia bem \u00e0 minha apar\u00eancia, mas as pessoas j\u00e1 haviam se acostumado a me ver carrancudo h\u00e1 tanto tempo que ningu\u00e9m se lembrou de me perguntar coisa nenhuma.<\/p>\n<p>Desfrutei do abandono sem que ningu\u00e9m interrompesse com amizade. Para se reunir coragem \u00e9 bom ser novo em uma cidade estranha, \u00e9 bom ter dado o telefone apenas no trabalho, e \u00e9 bom ter apenas quem lhe forne\u00e7a o necess\u00e1rio, al\u00e9m do rancor e do ci\u00fame.<\/p>\n<p>Compareci perante o juiz com uma coragem verdadeiramente impositiva em meu rosto, fui duro ao alegar que estava me sentindo realmente ultrajado por Val\u00e9ria ter sa\u00eddo de minha casa daquela maneira covarde, como se fosse necess\u00e1rio fugir como uma ladra. Adicionei que desejava fazer um invent\u00e1rio mais detalhado dos bens em comum a fim de verificar a exatid\u00e3o da partilha que ela fizera por seu pr\u00f3prio julgamento ao levar parte dos m\u00f3veis e utens\u00edlios.<\/p>\n<p>Ela baixou os olhos enquanto eu a acusava e n\u00e3o falou palavra, Aguardou que eu terminasse e depois disp\u00f4s-se a entrar em acordo, permitindo-me manter uma esperan\u00e7a de que os outros n\u00e3o soubessem que eu teria me matado mas n\u00e3o a teria deixado sair. As conversa\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o, entraram em bom caminho e ao final de algumas horas j\u00e1 era poss\u00edvel entrever um acordo proveitoso para ambas as partes.<\/p>\n<p>Finda a audi\u00eancia, armado um acordo que nos deixou a ambos com m\u00ednimas perdas m\u00fatuas, a n\u00e3o ser por um ano e meio de nossas vidas, voltei para casa e fui beber at\u00e9 cair na tola esperan\u00e7a de esquecer. Pedi uma pizza pelo telefone e a comi como \u00faltima refei\u00e7\u00e3o de um condenado a n\u00e3o viver mais.<\/p>\n<p>Com m\u00ednima coer\u00eancia restando em minha mente nublada de tanto rum e vodca, com vontades contradit\u00f3rias rugindo dentro de mim e um sono atroz cobrindo minha raz\u00e3o, sa\u00ed para encontrar a rua, fazer amigos e sofrer mais. A\u00ed me dei conta do quanto sou estrangeiro nessa terra em que os pr\u00f3prios naturais se sentem alijados. Se ao menos conhecesse o traficante, poderia intoxicar-me at\u00e9 uma morte doce no reino das fadas de dietilamida e dos opi\u00e1ceos.<\/p>\n<p>No meio da noite eu me descobri ridiculamente sentado a um balc\u00e3o de bar com uma dose dupla de u\u00edsque paraguaio cujo aroma mais lembrava \u00e1lcool combust\u00edvel que alguma coisa de se beber. Olhei em torno e tive a certeza de estar sozinho no meio daquela gente toda. Pisquei os olhos mortificados de sono, paguei e sa\u00ed. E ningu\u00e9m pareceu deter-se em mim quando passei.<\/p>\n<p>Como foi que de repente eu me lembrei de me matar? Que ideia foi essa que passou pela minha est\u00fapida cabe\u00e7a? Cheguei com o meu carro ao alto de um morro para olhar o tapete de luzes espalhadas entre os morros e \u00e1rvores ao longo do rio sujo e sob a lua linda e triste do inverno mineiro.<\/p>\n<p>Tivesse eu ali um meio e teria sido uma morte po\u00e9tica, &#8220;\u00faltima obra de arte&#8221;, como a chamou Kawabata num de seus rompantes de l\u00fagubre lucidez antes de encontrar-se com a Dona Branca que o surpreendeu no p\u00e2ntano. A mim ela jamais surpreenderia junto \u00e0 natureza.<\/p>\n<p>Foi em casa que a encontrei. Estava em um frasco de veneno para ratos que eu guardava sob a pia. Eu a tomei com um ritual pecaminoso e cuidado, comendo cada migalha como se uma h\u00f3stia. Acompanhando leite-com-a\u00e7\u00facar como se fossem sucrilhos.<\/p>\n<p>Esperei o efeito lendo os jornais do dia para me distrair, enquanto tocava <span>Stairway to Heaven<\/span> em <em>auto-repeat<\/em>. Saboreava cada acorde com a boca e a mente entreabertas e os olhos cada vez menos ansiosos de ver.<\/p>\n<p>Foi apenas gradativamente que a fui sentindo instalar-se, como um frio subindo dos p\u00e9s, um calor fugindo pelas orelhas, uma do\u00e7ura na l\u00edngua amortecida e pesada, um latejar nos olhos que at\u00e9 fazia c\u00f3cegas e a lembran\u00e7a de que Val\u00e9ria, talvez, tivesse podido me salvar se viesse buscar alguma das muitas coisa que deixara para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Mas coisa alguma havia que buscar pois o que ela deixara era tudo que j\u00e1 n\u00e3o mais queria. Viria a Dama Branca, viria a foz de minha vida em um mar de mansas ondas ao som macio dos acordes l\u00edricos e l\u00edmpidos do Led Zeppelin\u2026<\/p>\n<div class=\"footnotes\">\n<hr \/>\n<ol>\n<li id=\"fn:1\">\n<p>Cataguases, 26 de agosto de 2004&#160;<a href=\"#fnref:1\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por causa de Val\u00e9ria estou perdido. Agora pouco me resta fazer, a n\u00e3o ser ficar sentado \u00e0 janela esperando que alguma coisa no horizonte me responda qual o sentido de minha vinda ao mundo. N\u00e3o tenho mais amigos, a casa de meus pais est\u00e1 longe e \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de tempo que seja privado at\u00e9 mesmo de minha liberdade, \u00fanico bem que me restou.1 Tenho arrependimento em mim. 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