{"id":478,"date":"2010-08-10T23:17:00","date_gmt":"2010-08-11T02:17:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=478"},"modified":"2017-11-02T14:10:00","modified_gmt":"2017-11-02T17:10:00","slug":"um-desaparecimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/08\/um-desaparecimento\/","title":{"rendered":"Um Desaparecimento"},"content":{"rendered":"<p>Hoje desapareceu um cara. Seu nome era Patr\u00edcio Pinto, ou pelo menos era assim que o conheci. Bem, de fato eu n\u00e3o o conheci, apenas acompanhei sua carreira mete\u00f3rica. Talvez mesmo &#8220;acompanhar&#8221; n\u00e3o seja o melhor termo: eu assisti, de longe apenas, a uma parte de suas estripulias. Tornei-me seu f\u00e3 sem nunca t\u00ea-lo visto pessoalmente, admirei-o em cada palavra, mesmo sem saber quais palavras eram realmente suas e quais eram apenas repeti\u00e7\u00f5es de palavras que outras pessoas haviam dito em outras ocasi\u00f5es. Mas hoje Patr\u00edcio Pinto desapareceu sem deixar rastros.<\/p>\n<p>A primeira vez que ouvi falar dele foi h\u00e1 exatos dois anos e tr\u00eas meses. Marquei o dia porque passei a salvar os seus textos. Ele era um debatedor quase inconsequente em um desses f\u00f3runs da rede mundial. Aos poucos, no entanto, ele foi adquirindo uma habilidade rara para expressar opini\u00f5es pol\u00eamicas, sempre de forma bem-humorada, embora \u00e0s vezes ligeiramente ofensiva. Essa combina\u00e7\u00e3o de leveza e brutalidade no uso da l\u00edngua n\u00e3o surgiu da noite para o dia, mas eu a percebi a partir de certo ponto, e logo notei que tornava os seus textos muito atraentes. Foi assim que Patr\u00edcio come\u00e7ou a atrair a aten\u00e7\u00e3o de muita gente que, como eu, frequentava aquele f\u00f3rum espec\u00edfico.<\/p>\n<p>No come\u00e7o foi um fen\u00f4meno localizado. Afinal, h\u00e1 tantos f\u00f3runs perdidos pela rede, s\u00e3o t\u00e3o poucas as pessoas que entram em cada um deles! Mas logo come\u00e7aram a surgir outros f\u00f3runs que congregavam mais pessoas, mesmo oferecendo recursos mais limitados. Ter diante de si um grande palco fez de Patr\u00edcio um fen\u00f4meno, uma esp\u00e9cie de tenor na \u00f3pera bufa da internet. Assim Patr\u00edcio teve a sorte de j\u00e1 entrar nas salas mais amplas dos grandes f\u00f3runs levando consigo a experi\u00eancia e a destreza acumulada nos pequenos valhacoutos virtuais isolados onde tantos debates in\u00fateis chafurdam sem nunca revelar seus patr\u00edcios.<\/p>\n<p>Tornei-me seu &#8220;amigo&#8221; em um desses lugares irreais onde cada um \u00e9 apenas aquilo que uma min\u00fascula imagem de baixa resolu\u00e7\u00e3o consegue comunicar. Ser amigo nestas circunst\u00e2ncias \u00e9 algo meio estranho porque, de fato, jamais soube coisa alguma dele: apenas tinha uma liga\u00e7\u00e3o facilitada com as coisas que ele fazia e escrevia. E como ele escrevia! Logo descobri que tinha um di\u00e1rio virtual, onde estavam guardadas centenas de pequenas e geniais hist\u00f3rias, poemas, relatos da vida quotidiana. Participava dos f\u00f3runs ocasionalmente postando aqueles textos, mas normalmente preferia comentar o que os outros escreviam, interferir em pol\u00eamicas nem sempre pr\u00f3ximas das coisas que ele dizia ser e viver.<\/p>\n<p>Hoje Patr\u00edcio desapareceu. Amanheceu ausente de todos os f\u00f3runs onde participava. Suas mensagens n\u00e3o se encontravam mais, foram todas para o limbo das ideias nunca impressas, para o inferno dos projetos nunca materializados. Circulam entre os seus poucos conhecidos, entre aqueles que uma vez ou outra estiveram realmente diante dele, as teorias mais estranhas, desde abdu\u00e7\u00e3o por alien\u00edgenas at\u00e9 uma simples reca\u00edda na f\u00e9 do culto marginal a que seus pais eram afiliados.<\/p>\n<p>Mas qualquer que tenha sido a causa, a consequ\u00eancia se tornou enormemente mais interessante. Onde est\u00e3o agora aqueles textos todos que ele escreveu? No grande f\u00f3rum n\u00e3o ficaram tra\u00e7os. N\u00e3o h\u00e1 lixeira de onde possam ser recuperados, prateleira onde possam estar perdidos. Em vez disso apenas um vazio n\u00e3o demarcado. Ele se tornou uma impessoa, \u00e9 como se nunca tivesse existido, como se algu\u00e9m tivesse tomado uma borracha e passado sobre dois anos de mem\u00f3rias dele que eu tinha \u2014 e que outros tamb\u00e9m ter\u00e3o. Somos mentirosos agora, pois nunca houve algu\u00e9m chamado Patr\u00edcio Pinto e seus textos, se \u00e9 que algu\u00e9m os colecionou, n\u00e3o podem ter autoria confirmada.<\/p>\n<p>Desde este desaparecimento eu tenho tido medo. Quem estar\u00e1 percorrendo os meandros eletr\u00f4nicos da grande rede e transformando em fantasmas entidades que pareceram existir? Ter\u00e1 mesmo existido um Patr\u00edcio? Estar\u00e1 neste momento algu\u00e9m assim chamado, ou que assim se identificava, rezando em algum banco de igreja ou sendo torturado em algum por\u00e3o de delegacia? Ou ter\u00e1 sido tudo uma grande ilus\u00e3o? Dizem que a exposi\u00e7\u00e3o cont\u00ednua \u00e0 radia\u00e7\u00e3o dos monitores induz a fen\u00f4menos tais.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei nem saberei mais se aquelas coisas que eu li foram verdadeiras. Tenho medo de dizer que foram e ser surpreendido pela mesma causa que me levou Patr\u00edcio. Vou espacejando minhas interven\u00e7\u00f5es nestes arcanos interst\u00edcios por onde vagueiam invis\u00edveis amea\u00e7as. Vou imprimindo e encadernando, de alguma forma preservando da tra\u00e7a eletr\u00f4nica aquilo que eu penso, que escrevo, que sou. Se amanh\u00e3 eu amanhecer tamb\u00e9m transformado em uma impessoa, pelo menos eu mesmo terei provas de que existi.<\/p>\n<p>19 de setembro de 2009<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje desapareceu um cara. Seu nome era Patr\u00edcio Pinto, ou pelo menos era assim que o conheci. Bem, de fato eu n\u00e3o o conheci, apenas acompanhei sua carreira mete\u00f3rica. Talvez mesmo &#8220;acompanhar&#8221; n\u00e3o seja o melhor termo: eu assisti, de longe apenas, a uma parte de suas estripulias. 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