{"id":481,"date":"2010-08-08T19:23:00","date_gmt":"2010-08-08T22:23:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=481"},"modified":"2017-11-02T14:10:00","modified_gmt":"2017-11-02T17:10:00","slug":"saudades-falsas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/08\/saudades-falsas\/","title":{"rendered":"Saudades Falsas"},"content":{"rendered":"<p>Tenho levado uma vida normal, terrivelmente normal at\u00e9. Meus dezoito  anos t\u00eam sido pontuados por experi\u00eancias bem comuns e eu jamais fui \u00e0  praia. Desde que nasci tenho sido uma t\u00edpica criatura do interior, com  uma vida que ressoa a \u00e1rvores e regatos. Mas mudei-me para a Cidade  Grande com meus pais h\u00e1 uns cinco anos e desde ent\u00e3o muito rolou.<\/p>\n<p>Meu jeito tranquilo tem sido sacudido e aos poucos, suavizado pelas  experi\u00eancias comuns de um adolescente de minha idade e minha \u00e9poca:  estudo, trabalho e vou \u00e0s festas nos fins de semana. N\u00e3o fumo, mando uma  cervejinha para dentro de vez em quando e amo, comportada e  casualmente, a Maria Eduarda \u2014 que n\u00e3o me quer nem me nota. <\/p>\n<p>Tenho, por\u00e9m, minha gota de sonhos. Minha vida um dia ser\u00e1 grande.  Tenho vontade de ir aonde jamais foi algu\u00e9m. Desejo de fazer uma obra  que fique para a posteridade. Trazer a felicidade \u00e0lgu\u00e9m. <\/p>\n<p>A Cidade \u00e9 ruim para algu\u00e9m que tem sonhos assim como os meus. \u00c9 um  lugar perdido longe do mar, longe de metr\u00f3poles e longe dos momentos em  que a vida se revolve e os desejos tornam-se realidade. Vivem aqui  milhares de pessoas tristes, feias, apressadas, desprovidas de gosto e  de saudades verdadeiras. Gente que anda corretamente dentro dos velhos  limites e n\u00e3o conhece nenhuma poesia. Gente que trabalha na F\u00e1brica e  vai \u00e0 missa.  <\/p>\n<p>Nesse imenso amontoado de pr\u00e9dios feios circundados por uma floresta  de casinhas baixas e feias e de palafitas debru\u00e7adas sobre o Rio Amarelo  a minha vida escorre pregui\u00e7osamente enquanto meus sonhos v\u00e3o  lentamente desbotando. <\/p>\n<p>Vivo em uma casa comum, nem perto nem longe do centro. Todos as  manh\u00e3s sou acordado pelo ronco do \u00f4nibus que tenta subir a \u00edngreme  encosta e, com os meus sonhos cortados ao meio, des\u00e7o para a minha vida.  Isso \u00e9 frustrante, \u00e0s vezes, pois nunca consigo beijar e nem me  enriquecer a tempo de gozar disso antes de acordar. <\/p>\n<p>Desde que F\u00e1brica fechou as portas e despediu alguns milhares a  cidade est\u00e1 pior de \u00e2nimo, embora se respire melhor. O pessimismo tomou  conta e o clima em geral acabou voltando a ser irrespir\u00e1vel. Os bailes  de s\u00e1bado est\u00e3o menos vazios e as mentes menos dispostas a sorrir. A  minha gera\u00e7\u00e3o \u00e9 infeliz. Os belos sonhos est\u00e3o desbotados pelo confronto  rude com a vida real e com a ditadura dos Generais. O que sobrou de  planos desfeitos sobrevoando as cabe\u00e7as dos jovens agora produz m\u00fasicas  f\u00fanebres e revoltadas; que n\u00e3o trazem solu\u00e7\u00e3o, mas al\u00edvio. <\/p>\n<p>Onde S\u00edlvia entra nisso? Nos conhecemos desde o primeiro ano da  faculdade. S\u00edlvia era j\u00e1 feita aos dezenove anos, eu era um menino ao  seu lado, mesmo sendo s\u00f3 seis meses mais jovem. Mas eu era um menino  ambicioso. Sentia-me atra\u00eddo pela express\u00e3o vaga que havia no seu rosto,  pela sua beleza agressiva e o jeito despojado de se vestir. Sabia que a  olhavam quando passava, que era mais que simplesmente uma mo\u00e7a comum  como as outras. Isso era o que me excitava, mas tamb\u00e9m o que me  desanimava. <\/p>\n<p>At\u00e9 que um dia ousei. Convidei-a para ir ao show e ela  surpreendentemente aceitou. Voltei para casa com os p\u00e9s pisando nuvens e  a cabe\u00e7a cheia de sonhos. Foi a semana mais longa de toda a minha vida,  enquanto me preparava. <\/p>\n<p>Na entrada do Clube, todos pareciam n\u00e3o dar a m\u00ednima. S\u00f3 eu me sentia  especial e imenso. Olhava para S\u00edlvia como se ela fosse um trof\u00e9u que  eu jamais merecera. Como se ela fosse algo que os outros talvez achassem  que eu n\u00e3o devesse ter. <\/p>\n<p>Quando digo trof\u00e9u, gostaria de deixar claro que sabia que ela n\u00e3o  era exatamente a nora que minha m\u00e3e teria sonhado. Sabia da sua fama.  Quando me aproximei de Lu\u00edsa, n\u00e3o fiz isso imaginando que fosse uma  virgem inocente. Sabia que ela estava mais perto de ser uma puta que  qualquer outra menina que eu conhecesse. Mas isso tem o seu fasc\u00ednio.  Ela era uma mulher livre. Ela tinha uma ousadia e uma beleza que  atra\u00edam. <\/p>\n<p>Mas n\u00e3o era isso que me incomodava. Eu podia conviver bem, ou pelo  menos achava que podia, com todo o passado que ela arrastava consigo. O  que me incomodava era que todos me olhassem com ela e pensassem que  comigo era diferente. <\/p>\n<p>Todos os outros com que ela havia estado haviam ficado com ela quase  que unicamente pensando em sexo. Mas eu achava que ela podia ser levada a  s\u00e9rio por um namoro. Eu tinha medo que os outros n\u00e3o entendessem meus  motivos e me achassem um banana. <\/p>\n<p>Mas, pelo menos no come\u00e7o, todos cuidavam de suas vidas e ela mantinha uma certa posi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o causava terremotos demais.  <\/p>\n<p>Gostei de ver que ela parece ter entendido desde o come\u00e7o que havia  algo de diferente em mim. Gostei de ver que ela apreciou isso. A minha  esperan\u00e7a era que ela empregasse a sua ousadia de um modo diferente do  que ela havia feito at\u00e9 ent\u00e3o. Em vez de ousar ficar com muitos caras,  ousar fazer muitas coisas\u2026 Se \u00e9 que voc\u00ea me entende. <\/p>\n<p>Por isso a sensa\u00e7\u00e3o estranha de viver uma irrealidade me perseguiu ao  longo daquela primeira noite. E por isso a noite saiu do controle, pois  sonhos n\u00e3o t\u00eam amanh\u00e3. E foi por isso que deu tudo certo, pois o amor  n\u00e3o nasce quando estamos pensando no futuro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tenho levado uma vida normal, terrivelmente normal at\u00e9. Meus dezoito anos t\u00eam sido pontuados por experi\u00eancias bem comuns e eu jamais fui \u00e0 praia. Desde que nasci tenho sido uma t\u00edpica criatura do interior, com uma vida que ressoa a \u00e1rvores e regatos. Mas mudei-me para a Cidade Grande com meus pais h\u00e1 uns cinco anos e desde ent\u00e3o muito rolou. 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