{"id":485,"date":"2010-05-14T07:27:00","date_gmt":"2010-05-14T10:27:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=485"},"modified":"2017-11-02T14:10:02","modified_gmt":"2017-11-02T17:10:02","slug":"psicologia-do-grito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/05\/psicologia-do-grito\/","title":{"rendered":"Psicologia do Grito"},"content":{"rendered":"<p>Da pr\u00f3xima vez que entrar em algum f\u00f3rum p\u00fablico na Internet, reservem alguns minutos para analisar a primeira p\u00e1gina. Garanto que estar\u00e1 cheia de T\u00d3PICOS COM T\u00cdTULOS EM MAI\u00daSCULAS FIXAS.<\/p>\n<p>Da pr\u00f3xima vez em que sair \u00e0 rua, reserve alguma aten\u00e7\u00e3o para as pessoas que passam por voc\u00ea: a maioria estar\u00e1 usando roupas em cores berrantes, com acess\u00f3rios exagerados, <em>piercings<\/em>, tatuagens, cabelos descoloridos ou alisados, tamancos de salto alto, m\u00fasculos \u00e0 mostra e imensas tatuagens.<\/p>\n<p>Quando puder, ou\u00e7a o mundo \u00e0 sua volta: seus ouvidos, quase sem voc\u00ea perceber, andam cheios de ru\u00eddos de carros com sistemas de som potentes despejando m\u00fasica pop barata na cabe\u00e7a de todos.<\/p>\n<p>Quando estiver entre seus amigos ou colegas, preste aten\u00e7\u00e3o neles, n\u00e3o no que dizem, mas em como dizem. A maioria fala gritando, especialmente os jovens e as crian\u00e7as. Gargantas que se movem em f\u00faria, pesco\u00e7os de veias retesadas.<\/p>\n<p>Qualquer dia desses ligue o r\u00e1dio e observe bem: os locutores falam rapidamente, aos berros e urros, usando frases telegr\u00e1ficas. Apresentam m\u00fasicas curtas, de arranjos simples, sem sutileza. Uma voz esgani\u00e7ada, em agudos intoler\u00e1veis ou ejacula\u00e7\u00f5es guturais, lutando contra instrumentos estridentes, baterias furiosas, mesmo na m\u00fasica rom\u00e2ntica, que hoje \u00e9 t\u00e3o aer\u00f3bica quanto a discoteca de trinta anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Em todo lugar aonde v\u00e1, estar\u00e1 diante de sinaliza\u00e7\u00f5es sonoras que competem entre si pela vit\u00f3ria no campo de batalha do seu ouvido: buzinas, apitos, vozes, trilados, campainhas, motores roncando, m\u00fasica barata, vozes de crian\u00e7as. As pessoas, especialmente as mais jovens, andam conversando aos berros como se fossem gorilas na selva.<\/p>\n<p>O mundo se transformou numa esp\u00e9cie de guerra sonora: s\u00f3 \u00e9 ouvido quem grita mais alto. Os professores n\u00e3o s\u00e3o ouvidos nas salas de aula porque n\u00e3o conseguem gritar o suficiente para superar a barreira sonora de vozerio e os ru\u00eddos externos que invadem o ambiente. As pessoas na rua n\u00e3o s\u00e3o ouvidas na rua porque est\u00e3o imersas num oceano de barulho. As fam\u00edlias j\u00e1 n\u00e3o conseguem conversar porque tem que competir com televisores com milhares de watts de som, com objetos sem nome que fazem ru\u00eddo, com a falta de educa\u00e7\u00e3o dos vizinhos.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m para a ouvir algu\u00e9m que fale baixo, como antigamente se fazia: falar baixo \u00e9 sinal de submiss\u00e3o e n\u00e3o de autoridade moral. Houve um tempo em que falar baixo impunha sil\u00eancio: poder falar baixo era sinal de poder. &#8220;O Poderoso Chef\u00e3o&#8221; se comunicava atrav\u00e9s de um t\u00eanue sussurro que metia medo em todo mundo. Hoje em dia mesmo o chef\u00e3o do crime n\u00e3o consegue isso: ele precisa da aparelhagem de um baile funk com milhares de watts, suficiente para derrubar paredes, a fim de conseguir ser ouvido.<\/p>\n<p>A surdez da humanidade se agrava. Ningu\u00e9m quer ouvir, mas cada um quer ser ouvido. Eu preciso que o meu carro tenha o som mais potente a fim de se impor ao carro do meu vizinho, para que todos ou\u00e7am a m\u00fasica que EU QUERO. Eu preciso ser a pessoa mais espalhafatosa da festa para que EU seja notado. Meu produto precisa ser anunciado no maior e mais vermelho dos <em>out-doors<\/em>. Nessa competi\u00e7\u00e3o imbecil as pot\u00eancias seguem aumentando e as cidades se transformam em ilhas de ru\u00eddo que cada vez se expandem mais na paisagem do mundo. Deveria haver algum tipo de Tratado de N\u00e3o Prolifera\u00e7\u00e3o de Armas Sonoras, algum tipo de Acordo de Redu\u00e7\u00e3o de M\u00edsseis Sonoros Interpessoais. N\u00e3o h\u00e1 porque os barulhos n\u00e3o est\u00e3o a servi\u00e7o de na\u00e7\u00f5es, mas de indiv\u00edduos. \u00c9 a Lei da Selva.<\/p>\n<p>Eu preciso que meu t\u00f3pico tenha <big>letras grandes, de prefer\u00eancia <span style=\"color: red\">vermelhas, e, se poss\u00edvel,<strong> em negrito<\/strong><\/span><\/big>, a fim de que <em>somente ele<\/em> seja lido. Eu n\u00e3o quero ler o t\u00f3pico alheio, eu vim aqui mostrar o meu, tal como o <em>playboy<\/em> que chega na esquina com um sistema de som mais potente que o de um concerto de <em>rock<\/em> e arremessa aquele muro de vibra\u00e7\u00f5es contra os presentes, marcando seu territ\u00f3rio como um cachorro que mija no seu quintal. Esse \u00e9 o sonho do jovem de hoje, gritar at\u00e9 for\u00e7ar o resto do mundo a se calar. Mostrar que est\u00e1 podendo.<\/p>\n<p>Infelizmente, nessa \u00e2nsia de ser ouvido, a maioria se esquece do que tem a dizer. Da\u00ed, quando surpreendidos coma chance de dizer algo, n\u00e3o conseguem coer\u00eancia nenhuma, acabam fazendo o que fez o lend\u00e1rio &#8220;MC Maluco&#8221;, que invadiu o palco de um baile <em>funk<\/em> e pegou o microfone. Mas ao fazer isso, surpreso por ter conseguido faz\u00ea-lo, n\u00e3o sabia o que fazer a seguir e ent\u00e3o apenas berrou &#8220;Ah, eu t\u00f4 maluco&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Da pr\u00f3xima vez que entrar em algum f\u00f3rum p\u00fablico na Internet, reservem alguns minutos para analisar a primeira p\u00e1gina. Garanto que estar\u00e1 cheia de T\u00d3PICOS COM T\u00cdTULOS EM MAI\u00daSCULAS FIXAS. 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