{"id":486,"date":"2010-08-02T22:26:00","date_gmt":"2010-08-03T01:26:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=486"},"modified":"2017-11-02T14:10:00","modified_gmt":"2017-11-02T17:10:00","slug":"jorra-sangue-negro-na-luisiana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/08\/jorra-sangue-negro-na-luisiana\/","title":{"rendered":"Jorra Sangue Negro na Luisiana"},"content":{"rendered":"<p>Sejamos sinceros, para n\u00f3s j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o. Banimos Deus, a raz\u00e3o foi o nosso Detefon. Agora estamos sozinhos em um mundo sem esp\u00edritos, mas ainda cheio de gente que precisa deles. Tocam cornetas, ligam alto-falantes, berram a plenos pulm\u00f5es. O som que vem pode ser o mero zumbido tribal e arquet\u00edpico que tenta acordar Deus de seu sono, pode ser a estrid\u00eancia de uma juventude que se revira do avesso na louca \u00e2nsia de aparecer numa multid\u00e3o cada vez mais inumer\u00e1vel e uniforme, ou pode ser somente o grito sem esperan\u00e7a de quem n\u00e3o tem passagens para a Copa e nem dinheiro para armar seu circo. Talvez Deus n\u00e3o esteja morto, mas apenas dormindo, como dorme a nossa raz\u00e3o diante de escolhas t\u00e3o estranhas.<\/p>\n<p>Escolhemos entrar no mar at\u00e9 al\u00e9m do imagin\u00e1vel e extrair de l\u00e1 o ouro negro, do qual fazemos cornetas e alto-falantes para tentar acordar a Deus; mas tamb\u00e9m ve\u00edculos com que um dia percorremos o mundo tentando encontr\u00e1-lo em tribos antigas ou mosteiros asi\u00e1ticos, infrutiferamente. Do ouro negro se faz a diferen\u00e7a entre a ro\u00e7a e o urbano, entre o mineral e o humano. Do ouro negro se faz a ponte entre as culturas, que transporta ganeses para a Alemanha e japoneses para o Brasil, que leva congoleses a serem cidad\u00e3os belgas e permite aos russos imperar por dois ter\u00e7os da circunfer\u00eancia da terra. Escolhemos isso, a todo custo, ganhamos dinheiro com que subornamos os que tinham medo, com que compramos os que exigiam sua parte.<\/p>\n<p>E enquanto fizemos isso, erguemos barricadas internacionais de nosso sucesso: competi\u00e7\u00f5es, linhas a\u00e9reas, ind\u00fastrias em um lugar que produzem componentes para outras a milhares de quil\u00f4metros.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o um dia rompe-se a veia da terra em um acidente que nem era imprevisto. Por quanto tempo \u00e9 poss\u00edvel ignorar que h\u00e1 tempestades no mar? Que h\u00e1 vida nas florestas? Que temos necessidade de identidade? Jorra o sangue negro nas profundezas, ele nos suja e temos medo, mas ele mata a quem sangra, mais do que nos pune.<\/p>\n<p>Jorra o sangue negro da terra, tal como o sangue dos negros jorrou durante s\u00e9culos: sem que ningu\u00e9m se preocupasse. Como ainda jorra o sangue da Am\u00e9rica, <em>la nuestra, de az\u00facar, cobre y caf\u00e9<\/em>, como jorra ainda o sangue da \u00c1frica.<\/p>\n<p>O esporte, a nova escravid\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sejamos sinceros, para n\u00f3s j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o. Banimos Deus, a raz\u00e3o foi o nosso Detefon. Agora estamos sozinhos em um mundo sem esp\u00edritos, mas ainda cheio de gente que precisa deles. Tocam cornetas, ligam alto-falantes, berram a plenos pulm\u00f5es. 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