{"id":49,"date":"2013-04-28T14:12:00","date_gmt":"2013-04-28T17:12:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=49"},"modified":"2017-12-12T23:12:30","modified_gmt":"2017-12-13T02:12:30","slug":"traducao-a-paisagem-com-salgueiros-clark-ashton-smith","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/04\/traducao-a-paisagem-com-salgueiros-clark-ashton-smith\/","title":{"rendered":"A Paisagem com Salgueiros"},"content":{"rendered":"<div class=\"epigraph\">Original de Clark Ashton-Smith.<br \/>\nTraduzido a partir da vers\u00e3o online em <a href=\"http:\/\/www.eldritchdark.com\">Eldritch Dark<\/a>.<\/div>\n<p>A pintura tinha mais de quinhentos anos e o tempo n\u00e3o mudara suas cores, sen\u00e3o para toc\u00e1-las com a tenra suavidade das horas antigas, com a morbidez acumulada de coisas passadas. Fora pintada por um grande artista da dinastia Sung, em seda da mais fina trama, e montada em uma moldura de \u00e9bano arrematada em prata. Por doze gera\u00e7\u00f5es fora uma das mais queridas posses dos antepassados de Shih Liang e igualmente querida pelo pr\u00f3prio Shih Liang, que, como seus ancestrais, era um erudito, um poeta e um amante da arte e da natureza. \u00c0s vezes, em seus momentos mais sonhadores ou meditativos, desenrolava a pintura e contemplava seu id\u00edlico encanto com o sentimento de algu\u00e9m que se retira para a discri\u00e7\u00e3o e a dist\u00e2ncia de um vale cercado de montanhas. Ela o consolava um pouco pela agita\u00e7\u00e3o e o ru\u00eddo e a intriga da corte imperial, onde ele tinha um posto oficial de n\u00e3o pequena honra, pois ele n\u00e3o era muito afeito a tais coisas e teria preferido, como os s\u00e1bios antigos, a paz filos\u00f3fica de uma ermida coberta de folhas.<\/p>\n<p>A pintura representava uma cena pastoral da mais vision\u00e1ria e idealizada beleza. Ao fundo se erguiam altas montanhas que pareciam vagas devido \u00e0 dissipa\u00e7\u00e3o gradual da neblina matinal, em primeiro plano corria um pequeno riacho que descia em turbul\u00eancia muda at\u00e9 um lago tranquilo e era cruzado em seu percurso por uma r\u00fastica ponte de bambu, mais encantadora do que seria se feita de laca real. Al\u00e9m do riacho e em torno do lago havia salgueiros de um verde vernal mais ador\u00e1vel e delicioso que qualquer coisa contemplada sen\u00e3o em vis\u00f5es ou lembran\u00e7as. Incompar\u00e1vel era a sua gra\u00e7a, inef\u00e1vel o seu balou\u00e7ar: eles eram como os salgueiros de Shou Shan, o para\u00edso tao\u00edsta, e eles deitavam sua folhagem como uma mulher reclinada deixa pender seu cabelo desatado. E escondida entre eles havia uma cabaninha, e uma donzela vestida de braco e rosa pe\u00f4nia cruzava a pequena ponte de bambu. Mas de certa forma a figura era mais do que uma pintura, era mais do que uma cena veross\u00edmil: ela possu\u00eda o encantamento de coisas distantes por que o cora\u00e7\u00e3o anseia em v\u00e3o, de anos e lugares que est\u00e3o perdidos al\u00e9m da lembran\u00e7a. O artista certamente misturara em suas cores a mais divina \u00edris do sonho e da saudade e as l\u00e1grimas doces e inebriantes de uma nostalgia h\u00e1 muito negada.<\/p>\n<p>Shih Liang sentia que conhecia a paisagem mais intimamente que qualquer cena real. Cada vez que ele a contemplava, as suas sensa\u00e7\u00f5es eram as de um viajante que retorna. Ela se tornou para ele o ref\u00fagio fresco e isolado em que achava uma fuga infal\u00edvel do cansa\u00e7o de seus dias. E embora ele fosse de um tipo asc\u00e9tico e nunca tivesse se casado ou buscado a companhia das mulheres, a presen\u00e7a na ponte da donzela vestida de rosa n\u00e3o era de forma alguma dispens\u00e1vel: de fato, a sua figurinha, com seu encanto mais do que mortal, era a seu modo uma parte essencial da composi\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o menos importante \u00e0 sua perfei\u00e7\u00e3o do que o riacho, os salgueiros, o lago ou as distantes montanhas com seus v\u00e9us de neblina rasgados. E ela parecia acompanhar-lhe em suas visitas e viagens de prazer, quando ele se imaginava consertando a pequena cabana ou caminhando sob a folhagem delicada.<\/p>\n<p>Na verdade, Shih Liang precisava de tal ref\u00fagio e de tal companhia, ainda que ilus\u00f3rios. Porque, a n\u00e3o ser por seu irm\u00e3o mais novo, Po Lung, um garoto de dezesseis anos, ele era sozinho e n\u00e3o tinha parentes nem amigos, e a fortuna da fam\u00edlia, declinando atrav\u00e9s de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es, o deixara como herdeiro de muitos d\u00e9bitos e pouca propriedade ou dinheiro, a n\u00e3o ser por um n\u00famero de tesouros art\u00edsticos inestim\u00e1veis. Sua vida era cada vez mais triste e oprimida pela m\u00e1 sa\u00fade e pela pobreza, pois muito de seu sal\u00e1rio em seu posto secretarial na corte era necessariamente devotado ao cancelamento de suas obriga\u00e7\u00f5es herdadas e o restante mal era suficiente para seu pr\u00f3prio sustento e a educa\u00e7\u00e3o de seu irm\u00e3o.<\/p>\n<p>Shih Liang se aproximava da meia idade e o seu honor\u00e1vel cora\u00e7\u00e3o rejubilava ante o pagamento da \u00faltima d\u00edvida da fam\u00edlia quando lhe sobreveio outro golpe de infort\u00fanio. N\u00e3o por qualquer falha ou omiss\u00e3o de sua parte, mas pelas maquina\u00e7\u00f5es de um invejoso colega, Shih Liang foi subitamente privado de sua posi\u00e7\u00e3o e se achou sem meios de sustento. Nenhuma outra posi\u00e7\u00e3o se lhe ofereceu, pois certa medida de desgra\u00e7a imerecida acompanhou a demiss\u00e3o imperial. Para satisfazer as necessidades da vida e continuar a educa\u00e7\u00e3o de seu irm\u00e3o, Shih Liang foi ent\u00e3o for\u00e7ado a vender, um a um, muitas das heran\u00e7as insubstitu\u00edveis, as esculturas antigas em jade e marfim, as raras porcelanas e pinturas da cole\u00e7\u00e3o ancestral. Isto fez com extrema relut\u00e2ncia, com um sentimento de total vergonha e profana\u00e7\u00e3o, tal como o que sente o verdadeiro amante de tais coisas, cuja pr\u00f3pria alma fora consagrada ao passado e \u00e0 mem\u00f3ria de seus pais.<\/p>\n<p>Dias e anos se passaram, a cole\u00e7\u00e3o diminuiu pe\u00e7a a pe\u00e7a e se aproximou o tempo em que os estudos de Po Lung seriam completados, quando ele se tornaria um erudito versado em todos os cl\u00e1ssicos e elig\u00edvel para uma posi\u00e7\u00e3o de honra e riqueza. Mas, ah! As porcelanas e laqueados, os jades e marfins haviam sido todos vendidos e as pinturas tinham se ido tamb\u00e9m, todas exceto a paisagem com salgueiros t\u00e3o adorada por Shih Liang.<\/p>\n<p>Uma tristeza mortal e inconsol\u00e1vel, uma consterna\u00e7\u00e3o mais g\u00e9lida que o pr\u00f3prio frio da morte entrou no cora\u00e7\u00e3o de Shih Liang quando ele percebeu a verdade. Pareceu-lhe que n\u00e3o poderia mais nem viver se vendesse a pintura. Mas se n\u00e3o a vendesse, como poderia completar a obriga\u00e7\u00e3o fraternal que devia a Po Lung? N\u00e3o havia outro caminho poss\u00edvel, e ele fez saber logo ao mandarim Mung Li, um conhecedor que comprara outras pe\u00e7as de sua antiga cole\u00e7\u00e3o, que a pintura dos salgueiros estava ent\u00e3o \u00e0 venda.<\/p>\n<p>Mung Li tinha desejado a pintura por muito tempo. Veio pessoalmente, com os seus olhos brilhando em sua face gorda, com a avidez de um colecionador que cheira uma pechincha, e a transa\u00e7\u00e3o foi logo conclu\u00edda. O dinheiro foi pago imediatamente, mas Shih Liang implorou para ficar com a pintura por mais um dia antes de entreg\u00e1-la ao mandarim. Sabendo que Shih Liang era um homem de honra, Mung Li concordou prontamente com este pedido.<\/p>\n<p>Quando o mandarim saiu, Shih Liang desenrolou a paisagem e a pendurou na parede. Sua solicita\u00e7\u00e3o a Mung Li fora causada pelo sentimento irresist\u00edvel de que deveria ter uma hora a mais em comunh\u00e3o com a cena adorada, deveria reparar mais uma vez no prazer de seu ref\u00fagio inviolado. Depois disso ele estaria sozinho, sem um lar ou um santu\u00e1rio, pois sabia que n\u00e3o havia em todo o mundo nada que pudesse tomar o lugar da pintura dos salgueiros ou conseguir-lhe um asilo para seus sonhos.<\/p>\n<p>Os raios maduros do entardecer precoce se espalharam sobre o volume de seda pendurado na parede nua, mas para Shih Liang, a pintura estava imersa em uma luz de sobrenatural encantamento, tocada por mais do que o esplendor mudo do sol poente. E lhe pareceu que nunca antes a folhagem fora t\u00e3o tenra na primavera imortal, ou a neblina em torno dos morros t\u00e3o glamorosa em sua eterna dissolu\u00e7\u00e3o em luz opala, ou a donzela na ponte r\u00fastica t\u00e3o am\u00e1vel em sua juventude incorrupt\u00edvel. E de algum modo, por uma impercept\u00edvel feiti\u00e7aria da perspectiva, a pr\u00f3pria pintura era maior e mais profunda do que antes, e assumira misteriosamente ainda mais realidade, ou a ilus\u00e3o de um lugar real.<\/p>\n<p>Com o cora\u00e7\u00e3o banhado em l\u00e1grimas incontidas, como um exilado que d\u00e1 adeus ao vale natal, Shih Liang experimentou a lux\u00faria triste de contemplar a paisagem dos salgueiros pela \u00faltima vez. Tal como em milhares de vezes anteriores, sua fantasia se perdeu entre os galhos e al\u00e9m do normal ela habitou a pequena cabana cujo teto t\u00e3o tantalizante revelava e ocultava, ela observou os cimos das montanhas por detr\u00e1s da folhagem pendente, ou pausou sobre a ponte para conversar com a donzela vestida de rosa.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o aconteceu uma coisa estranha e inexplic\u00e1vel. Embora o sol tivesse se posto enquanto Shih Liang continuava a olhar e sonhar, e o crep\u00fasculo tivesse adentrado o quarto, a pintura mesmo n\u00e3o estava menos clara e luminosa do que antes, tal como se fosse iluminada por outro sol que do tempo e o do espa\u00e7o contempor\u00e2neos. E a paisagem tinha se tornado ainda maior, at\u00e9 que pareceu a Shih Liang que ele a contemplava atrav\u00e9s de uma porta para a pr\u00f3pria cena real.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, enquanto a perplexidade o assaltava, ele ouviu um sussurro que n\u00e3o era o de uma voz verdadeira, mas parecia emanado da pr\u00f3pria paisagem e tornado aud\u00edvel como um pensamento dentro de sua mente mais profunda. E o sussurro disse:<\/p>\n<p>&#8220;Porque tu me amaste tanto e por tanto tempo, e porque teu cora\u00e7\u00e3o aqui se encontra natural, mas \u00e9 alheio a todo o mundo, agora \u00e9 permitido que eu me torne para ti o ref\u00fagio inviol\u00e1vel que sonhaste, um lugar onde poder\u00e1s vagar e viver para sempre.&#8221;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, com a alegria incomensur\u00e1vel daquele cuja mais desejada vis\u00e3o se torna verdade, o arrebatamento de algu\u00e9m que herda o para\u00edso dos prazeres, Shih Liang passou da sala crepuscular para a pintura matinal. E o ch\u00e3o era macio com uma relva bordada de flores sob seu calcanhar, e as folhas dos salgueiros murmuravam ao vento de Abril que soprava h\u00e1 muito tempo, e ele viu a porta da cabana semioculta de uma forma que ele nunca a vira a n\u00e3o ser na fantasia, e a donzela vestida de rosa sorriu e respondeu ao seu cumprimento quando ele se aproximou, e sua voz era como a fala dos salgueiros e das flores.<\/p>\n<p>O desaparecimento de Shih Liang foi assunto de breve e leve preocupa\u00e7\u00e3o para os que o conheceram. Logo se concluiu que seus percal\u00e7os financeiros o haviam impelido ao suic\u00eddio, provavelmente por afogamento no grande rio que atravessava a capital.<\/p>\n<p>Po Lung, tendo recebido o dinheiro deixado por seu irm\u00e3o pela venda da \u00faltima pintura, p\u00f4de terminar sua educa\u00e7\u00e3o e a paisagem com salgueiros, que fora achada pendurada na parede da morada de Shih Liang, foi prontamente reclamada pelo mandarim Mung Li, seu comprador.<\/p>\n<p>Mung Li estava deliciado com sua aquisi\u00e7\u00e3o, mas houve um detalhe que o intrigou consideravelmente quando desenrolou o volume e o examinou. Lembrava-se de ser somente uma figura, uma donzela vestida de branco e rosa, na pequena ponte de bambu, e havia duas figuras! Mung Li inspecionou a segunda figura com muita curiosidade e ficou mais do que surpreso quando notou que ela tinha uma semelhan\u00e7a singular com Shih Liang. Mas era muito pequena, tal como a da donzela, e os seus olhos estavam ba\u00e7os de tanto contemplarem porcelanas e laqueados e pinturas, de forma que ele n\u00e3o p\u00f4de se certificar totalmente. De qualquer maneira, a pintura era muito antiga, ele deveria ter se enganado sobre a quantidade das figuras. Mesmo assim, era indubitavelmente peculiar.<\/p>\n<p>Mung Li poderia ter achado o assunto realmente estranho se tivesse o h\u00e1bito de contemplar a pintura mais frequentemente. Ele poderia ter notado que a donzela de rosa e a pessoa que parecia Shih Liang estavam, \u00e0s vezes, entretidos em outras divers\u00f5es que n\u00e3o o mero passar do dia na ponte de bambu!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Original de Clark Ashton-Smith. Traduzido a partir da vers\u00e3o online em Eldritch Dark. 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