{"id":492,"date":"2010-06-01T21:33:00","date_gmt":"2010-06-02T00:33:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=492"},"modified":"2017-11-02T14:10:02","modified_gmt":"2017-11-02T17:10:02","slug":"tio-gumercindo-e-o-horto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/06\/tio-gumercindo-e-o-horto\/","title":{"rendered":"Tio Gumercindo e o Horto"},"content":{"rendered":"<p>Tio Gumercindo morreu. A not\u00edcia chegou pelo telefone, casual como uma chuva na manh\u00e3 de s\u00e1bado. H\u00e1 pessoas que v\u00e3o morrer na linda manh\u00e3 de um s\u00e1bado de inverno: n\u00e3o \u00e9 uma escolha. H\u00e1 pessoas que preferem as madrugadas chuvosas e quentes do ver\u00e3o. Tio Gumercindo morreu, e fazia dois anos e meio que eu n\u00e3o o via, mesmo ele vivendo a menos de trinta quil\u00f4metros de onde vivo.<\/p>\n<p>Sa\u00ed de casa com outra desculpa. Tinha de fazer tanta coisa na rua, no mundo. Mas minha mulher sabia que eu n\u00e3o voltaria cedo. Eu mesmo ainda n\u00e3o sabia do quanto custaria: quando sa\u00ed de casa, eu ainda n\u00e3o tinha ideia do significado do fato consumado que \u00e9 a morte. Acredito que antes de s\u00e1bado eu nunca tinha visto t\u00e3o feia a sua cara. N\u00e3o falo da dor, falo da humildade: a morte n\u00e3o \u00e9 gl\u00f3ria. Para Tio Gumercindo, e para a maioria, \u00e9 s\u00f3 a \u00faltima de in\u00fameras humilha\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o gosto mais de minha cidade. Nasci l\u00e1, mas hoje me sinto fr\u00e1gil, triste e humilhado quando percorro suas ruas. S\u00e3o apenas cinco os anos que me separam dos tempos em que eu vivia l\u00e1 ainda, mas nesse tempo curto derrubaram muita casa, morreu muita gente que eu conhecia, mudaram-se tantos que eu nem conto e, pior, nasceram ou cresceram ou mudaram de vida uma infinidade de outros. Vejo tanta gente que n\u00e3o conhe\u00e7o, muitos mais que n\u00e3o reconhe\u00e7o. Sempre fui t\u00edmido, hoje sou um estranho. O cheiro destas ruas \u00e9 outro, os meus amigos e inimigos est\u00e3o todos igualados na neblina dos anos: talvez me vejam assim do mesmo modo que os vejo.<\/p>\n<p>Fiquei velho cedo: meus cabelos v\u00e3o dando lugar a essa moita rebelde de c\u00e3s que me fazem parecer meu pai. Minhas antigas namoradas agora j\u00e1 est\u00e3o todas casadas, meus amigos nem sei onde andam. Resta essa gente que eu n\u00e3o conhe\u00e7o nem de nome, rostos de crian\u00e7as que cresceram. Parece at\u00e9 que foi no s\u00e9culo passado que eu sentava naquele banco na avenida para encontrar amigos. Sinto uma vontade louca de fazer isso de novo, mas o banquinho est\u00e1 arruinado e o antigo bar hoje est\u00e1 mais decadente do que eu.<\/p>\n<p><a name=\"more\"><\/a>Dirijo a esmo pela cidade: hoje me deu vontade de ter saudades. Talvez sejam saudades do tempo em que Tio Gumercindo cortou o meu cabelo de menino usando uma tesoura desproporcionalmente grande em suas m\u00e3os pequenas. Talvez seja a falta de quando eu era s\u00f3 um garoto triste por estas ruas: hoje eu sinto at\u00e9 saudades de ter sido triste, era uma tristeza melhor a que eu vivia. Deixo o carro estacionado na pracinha e dou uma volta. Vou comprar o jornal, vou ver se encontro algum conhecido.<\/p>\n<p>Parece que o jornaleiro vendeu o neg\u00f3cio a um estranho. O relojoeiro demitiu a mo\u00e7a loura de rosto comprido que eu paquerava com os olhos quando fazia a faculdade. Ela nem ficou sabendo que eu a achava bonita, talvez nunca tenha sabido de algu\u00e9m que achasse isso. Foi ela que me vendeu o par de alian\u00e7as. Hoje h\u00e1 uma morena de formas superlativas e rosto ensolarado atr\u00e1s do balc\u00e3o e eu n\u00e3o sei se compraria meu par de alian\u00e7as com ela. A dona da lojinha de roupas, eu a achava t\u00e3o bonita. Eu sorria para ela, ela sorria para mim. N\u00e3o sei se era preciso mais que isso: eu n\u00e3o ousaria, ela n\u00e3o ousaria. Eu era um pobre empregado do com\u00e9rcio, ela era mais velha e m\u00e3e solteira. Qual dessas gordas avermelhadas ser\u00e1 ela?<\/p>\n<p>O tr\u00e2nsito continua intenso, fluindo como o martelar do inferno pelas minhas veias. Quando volto para o carro trazendo o jornal, sinto a press\u00e3o de todo esse ru\u00eddo como uma barreira de blasf\u00eamias contra meu ouvido. Passam carros, rugem caminh\u00f5es, gritam ciclistas, urram \u00f4nibus. S\u00e1bado de manh\u00e3: o meu tio Gumercindo est\u00e1 morto e estou perdido sem o que fazer, na cidade que j\u00e1 foi a minha.<\/p>\n<p>Lembrei do horto. Deve fazer cinco anos que eu n\u00e3o vou l\u00e1. Provavelmente bem mais. Tenho de atravessar quase toda a cidade para pegar estrada para l\u00e1. No caminho, vou assistindo ao desfile do passado: fechou a sorveteria, puseram paralelep\u00edpedos no \u00faltimo trecho da Avenida, a loja de brinquedos em que eu via a bela Poliana j\u00e1 n\u00e3o existe mais. O que fizeram com essa pra\u00e7a? Est\u00e1 um brinco, mas n\u00e3o tem mais espa\u00e7o para os meninos da escola jogarem bola. Para que serve tanto monumento, minha gente?<\/p>\n<p>Na Volta da Ferradura come\u00e7o a sentir alguma dor um pouco mais irritante. No peito caiu um aperto que nem se explica: ter saudades \u00e9 uma coisa que a alma quer o tempo todo, mesmo o corpo sabendo que vamos sem freio pela ladeira do futuro abaixo. Mesmo que a sensa\u00e7\u00e3o disso seja pungente, a alma quer \u00e9 olhar para tr\u00e1s e enxergar uma namoradinha de inf\u00e2ncia no corpo desta mulher gorda que desfila descal\u00e7a os seus tr\u00eas filhos.<\/p>\n<p>Todas estas casas novas. Quanta \u00e1rvore se derrubou a\u00ed para abrir espa\u00e7o para todos esses pilares e paredes! Felizmente o horto mesmo tem muros altos, s\u00f3 com muros e campos minados o ser humano se nega a destruir.<\/p>\n<p>S\u00f3 de passar pelo posto da Pol\u00edcia o rosto j\u00e1 pressente uma temperatura que conforta. No horto o cheiro \u00e9 o mesmo ainda, de resinas e de folhas mortas. Aqui n\u00e3o demoliram pessoas nem degeneraram casas. Dentro do horto posso ser, ainda, o jovem que n\u00e3o tinha uma vida, mas tinha um futuro.<\/p>\n<p>\u00c9 quase heresia que um motor assuste os passarinhos. Mesmo que eles estejam acostumados a esse infort\u00fanio. Dirijo devagar, com a acelera\u00e7\u00e3o no m\u00ednimo. Espanta-me que num dia t\u00e3o lindo de inverno esteja tudo t\u00e3o deserto. Para as pessoas esse lugar deve ser um t\u00e9dio. Mas eu n\u00e3o sou as pessoas, essas altas palmeiras me rejuvenescem, estas \u00e1rvores cheias de l\u00edquens e cip\u00f3s&#8230; Gosto desse abandono que existe aqui: n\u00e3o seria bom se houvesse gente. Gente teria a est\u00fapida ideia de ligar um r\u00e1dio em volume alto, acender uma churrasqueira e beber falando muito, assustando os micos, perturbando a serenidade de cada trilha, desarrumando o tecido do sil\u00eancio que a noite teceu com todo cuidado e que, mesmo \u00e0s dez horas da manh\u00e3, ainda n\u00e3o ficou rompido.<\/p>\n<p>Desligo o motor do carro. O sil\u00eancio bate contra mim, como as rajadas de um vento, como o borrifo de uma chuva, como o cheiro de um mar que borbulha. As \u00e1rvores rangem tristemente, como velhos que gemem na espera da morte, mas os macaquinhos assobiam furiosamente, talvez esperando que eu tenha frutas, mas os passarinhos, aos poucos, recome\u00e7am a piar, cantar, grasnar, bulir, voar.<\/p>\n<p>Esse cheiro denso de l\u00edquen, de fungo, de flor&#8230; Deviam demolir toda aquela constru\u00e7\u00e3o est\u00fapida, arrasar at\u00e9 as funda\u00e7\u00f5es. Deixar este pau-ferro como um monumento isolado, aquela aroeira como o marco zero.<\/p>\n<p>Faz frio aqui. Faz um sil\u00eancio que meus ouvidos agradecem. Eles sibilam como se mil distantes miquinhos vivessem no fundo de minha cabe\u00e7a. Alguma l\u00e1grima desponta, n\u00e3o se sei por Tio Gumercindo ou pela percep\u00e7\u00e3o de que estou velho e os meus ouvidos parecem um r\u00e1dio que chia quando a cortina de ru\u00eddos deste mundo \u00e9 removida.<\/p>\n<p>Recosto o banco do carro e fecho os olhos. O mundo rodopia em torno de mim. Tenho vontade de chorar, o silvo oscila como uma esta\u00e7\u00e3o em ondas curtas. As \u00e1rvores rangem tristemente como velhos que lamentam suas dores.<\/p>\n<p>Ou\u00e7o ru\u00eddo, mas n\u00e3o s\u00e3o passos. S\u00e3o frutas que caem, s\u00e3o passos de animais e s\u00e3o rangidos mais rudes de \u00e1rvores mais fortes. Essas rangem como estrondos, soam inamov\u00edveis, essas s\u00e3o as que demoram mais para cair, mas s\u00e3o tamb\u00e9m as que os homens mais querem matar. Por isso, talvez, s\u00f3 existam nesse lugar, o templo do sil\u00eancio numa cidade que j\u00e1 aprendeu a crueldade do barulho.<\/p>\n<p>Hoje n\u00e3o tenho coragem de penetrar por alguma das trilhas. Estou t\u00e3o sozinho que n\u00e3o tenho vontade de fazer nada. Esperava que o sil\u00eancio meditasse algo que me salvasse, mas j\u00e1 s\u00e3o quinze para onze e eu n\u00e3o fiz nada e nem ouvi a voz de Deus. Em algum lugar est\u00e3o vestindo Tio Gumercindo para a sua \u00faltima viagem e eu n\u00e3o o vejo faz cinco anos.<\/p>\n<p>Queria interromper esse dia aqui, mas vou \u00e0 capela contemplar seu rosto que eu quase esqueci. Depois, quando voltar para casa, estarei levando comigo um pouco desse sil\u00eancio daqui. Somente com um pouco de sil\u00eancio dentro de mim \u00e9 que vou conseguir enfrentar o vozerio contradit\u00f3rio das pessoas, a pressa de morrer que elas t\u00eam. Dizem que sou obcecado, o deprimido. Mas de verdade eu sou o \u00fanico que gosta da vida: eles que dizem isso v\u00e3o jogando-a fora e n\u00e3o t\u00eam remorso. Ter saudades e remorsos \u00e9 no fundo a mesma coisa: somente quem \u00e9 bom consegue isso, somente quem entende o valor das coisas sente saudades delas. Dizem que isso \u00e9 ser negativo, mas eu levo este sil\u00eancio e esta treva como um tesouro para os momentos em que o mundo ruge como um mar de areia no horizonte cinza. Quando eu voltar da capela terei remorsos a mais de tudo o que n\u00e3o disse a Tio Gumercindo, mas isso \u00e9 melhor do que deix\u00e1-lo ir embora, sem saudades e sem li\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>L\u00e1, na capela p\u00fablica do cemit\u00e9rio, est\u00e1 um homem alegre que morreu triste. As maiores trag\u00e9dias acontecem com as pessoas felizes. As maiores trag\u00e9dias s\u00e3o as menores: como n\u00e3o ter filhos e ficar sem amigos.<\/p>\n<p>Vestiram-no com o roup\u00e3o barato e humilhante do asilo. O m\u00ednimo que um homem merece na morte \u00e9 um terno, ou pelo menos uma camisa. Vestiram-lhe uma roupa tamanho \u00fanico com seu nome estampado, grafado errado. O m\u00ednimo que se deve a um homem \u00e9 escrever seu nome certo. Pobre Tio Gumercindo, morreu sem filhos, sem amigos e com o nome errado no roup\u00e3o barato do asilo p\u00fablico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tio Gumercindo morreu. A not\u00edcia chegou pelo telefone, casual como uma chuva na manh\u00e3 de s\u00e1bado. H\u00e1 pessoas que v\u00e3o morrer na linda manh\u00e3 de um s\u00e1bado de inverno: n\u00e3o \u00e9 uma escolha. H\u00e1 pessoas que preferem as madrugadas chuvosas e quentes do ver\u00e3o. Tio Gumercindo morreu, e fazia dois anos e meio que eu n\u00e3o o via, mesmo ele vivendo a menos de trinta quil\u00f4metros de onde vivo. Sa\u00ed de casa com outra desculpa. Tinha de fazer tanta coisa na rua, no mundo. 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