{"id":5002,"date":"2017-08-20T15:27:49","date_gmt":"2017-08-20T18:27:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5002"},"modified":"2017-11-02T14:07:23","modified_gmt":"2017-11-02T17:07:23","slug":"silencio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/08\/silencio\/","title":{"rendered":"Sil\u00eancio"},"content":{"rendered":"<p>Evaldo compraria todo o seu dinheiro em sil\u00eancio, se houvesse \u00e0 venda em alguma loja. Costumava dizer aos amigos que no ru\u00eddo estava a origem de todo o mal que havia no mundo. Eles achavam que era apenas uma frase de efeito, mas era algo que ele dizia para si mesmo com frequ\u00eancia \u2014 como, por exemplo, na manh\u00e3 modorrenta de vinte de junho.<\/p>\n<p>Sentiu-se como quem \u00e9 arrancado do \u00fatero do sono. Havia um peso nos olhos e um silvo agressivo insistindo nos ouvidos, revoltados com buzinas, gritos, gotas de chuva e motores. A sensa\u00e7\u00e3o dos passos dos vizinhos dos andares superiores incomodava, mesmo quando n\u00e3o era forte, porque anunciava um dia p\u00e9ssimo. Ru\u00eddos significam sempre algo de ruim.<\/p>\n<p>Naquele dia, especialmente, sentiu-se golpeado pelo peso sonoro do mundo. Levantou-se da cama como se os bra\u00e7os e pernas fossem troncos de \u00e1rvores, escovou os dentes sonambulamente, sedado pela saudade do sono e tentando bloquear o estardalha\u00e7o do edif\u00edcio \u2014 aquela mistura de vozes e ru\u00eddos produzidos por felicidades e tristezas empacotadas em apartamentos cont\u00edguos, mas isoladas precariamente. Uma voz xinga, outra sussurra, p\u00e9s que caminham cuidadosos, outros que pisoteiam o ch\u00e3o com calcanhares nus, reflexos sonoros da presen\u00e7a de pessoas, algumas delas completamente insens\u00edveis \u00e0s sensibilidades alheias. \u201cO inferno \u00e9 um grande edif\u00edcio de apartamentos\u201d.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/mountpleasantgranary.net\/blog\/images\/SH-after-tidy.jpg\" width=\"640\" height=\"480\" class=\"alignright size-full\" \/><\/p>\n<p>Abriu a torneira da pia devagar, e pouco, para que n\u00e3o rangesse. Qualquer m\u00ednimo ru\u00eddo acrescentaria uma gota d&#8217;\u00e1gua ao oceano de ofensas e dist\u00farbios que j\u00e1 estava acumulado na manh\u00e3. Guardou a escova e o tubo de creme dental, tamb\u00e9m com um cuidado quase ritual. Lavou as m\u00e3os sem espargir muita \u00e1gua, esfregou-as com sofreguid\u00e3o e esmero, mas no poss\u00edvel sil\u00eancio.<\/p>\n<p>A algazarra acompanhou-o durante o caf\u00e9, atrapalhando at\u00e9 o sorriso belo de Jussara, cujos seios morenos saltavam do roup\u00e3o felpudo, \u00famidos do banho matinal.<\/p>\n<p>Tudo ficou pior depois que abriu a porta. O longo corredor deserto ecoava misteriosos sons que sa\u00edam de dentro das portas fechadas, como o sal\u00e3o de uma caverna ecoando amea\u00e7adores ru\u00eddos de monstros que se ocultam nas profundezas da escurid\u00e3o em um filme de horror. Das janelas vinha o vento quente do ver\u00e3o e o buzina\u00e7o insolente da rua. Teve at\u00e9 medo de premer o bot\u00e3o do elevador, mas ele chegou por si mesmo, trazendo algu\u00e9m que subia. Outra pessoa que vivia perto dele, t\u00e3o perto que nunca se tocavam e nem sabiam o nome um do outro. Precariamente sabiam seus sexos, baseados na hoje incerta infer\u00eancia das roupas.<\/p>\n<p>Cumprimentos trocados sem sorrisos. Vizinhos n\u00e3o precisam disso. Vizinhos se conhecem apenas na hora da morte. Ou nem isso. Talvez na hora do crime. Sim, certamente. Mate-se ou seja morto e seus vizinhos todos o conhecem, pelo menos diante das c\u00e2meras da televis\u00e3o, o circo moderno.<\/p>\n<p>Quando chegou no t\u00e9rreo e as portas se abriram recebeu no rosto a pancada do mundo, aquela dose de presen\u00e7as atrevidas que se amassam e se completam em uma grande parede de barulho que se arrasta por entre as ruas esmagando as pessoas e anulando as individualidades.<\/p>\n<p>Era preciso fazer for\u00e7a para erguer um p\u00e9 do ch\u00e3o, mov\u00ea-lo no ar e depois aplicar-se de volta no piso para completar o passo \u2014 e cada ciclo desses tomava uma energia enorme, a ponto de Evaldo j\u00e1 prever que retornaria \u00e0 noite t\u00e3o esgotado que seu sono o despejaria cedo em sua cama, anestesiado se vivesse aquele dia da mesma forma que os outros.<\/p>\n<p>Andava como se estivesse em um escafandro. Apenas n\u00e3o havia peixes nadando em volta, mas seres humanos que pareciam bonecos de madeira expelindo nuvenzinhas de fuma\u00e7a pelas narinas. Em frente a uma loja de eletrodom\u00e9sticos, contemplou as vitrinas cheias das luzes contradit\u00f3rias de dezenas de aparelhos \u2014 um ru\u00eddo silencioso, t\u00e3o inc\u00f4modo quanto os gritos, buzinas e roncos dos motores que disputavam com o canto de p\u00e1ssaros a aten\u00e7\u00e3o das pessoas indistintas que andavam pelas cal\u00e7adas, entre ambulantes e alto-falantes&#8230;<\/p>\n<p>Outra vez sentiu-se quase a perder o controle das emo\u00e7\u00f5es em p\u00fablico. Fez um esfor\u00e7o para manter a cabe\u00e7a sobre o pesco\u00e7o e traiu seus sentimentos apenas atrav\u00e9s de uma careta, que logo passou.<\/p>\n<p>Ajeitou a gravata pendurada no pesco\u00e7o, a forca inversa do homem urbano, e olhou para dentro de si, onde haviam cifras e n\u00fameros e nomes e senhas e t\u00edtulos banc\u00e1rios. A liberdade, a indecente liberdade, a louca e intoler\u00e1vel liberdade&#8230;<\/p>\n<p>Muita coisa mudara, basicamente cifras e n\u00fameros e nomes e senhas e t\u00edtulos banc\u00e1rios. Ou seja, somente as coisas que realmente importam \u2014 ou talvez n\u00e3o. Em sua m\u00e3o luzia o bilhete de loteria como o cupom dourado de Willie Wonka.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabia. Seu plano era perfeito. Esperara cinco semanas, guardando o bilhete no canto mais oculto da carteira. Gastara aqueles dias maquinando o que fazer. Poderia ir \u00e0 forra de tanta gente que o humilhara, poderia comprar tanta coisa e tanta gente&#8230; Mas n\u00e3o. Seria baixeza demais. Decidira, em vez disso, ser feliz, se poss\u00edvel longe.<\/p>\n<p>Tinham sido tantos anos, caminhos errados, bobagens, inoc\u00eancia. Tinha sido tudo, menos feliz. Mas naquela tarde, ao final de trinta e sete tardes de planos, sabia exatamente aonde ir e o que fazer. E fez dessa esperan\u00e7a a sua resist\u00eancia contra a cont\u00ednua agress\u00e3o de tudo contra si: depois do almo\u00e7o ligou para o escrit\u00f3rio e disse, secamente, que tinha um compromisso e que n\u00e3o voltaria. Nem no dia seguinte e nem no outro. Secretamente sabia que na segunda-feira seguinte estariam demitindo-no, finalmente providos de um motivo, os imbecis.<\/p>\n<p><center>*<\/center><\/p>\n<p>Chegou em casa com a gravata bamba, o palet\u00f3 jogado sobre as costas e o cabelo despenteado. Um forte odor de u\u00edsque doze anos puro malte sa\u00eda de sua boca.<\/p>\n<p>\u2014 Meu Deus, Evaldo. O que aconteceu?<\/p>\n<p>\u2014 Comprei-a \u2014 ele n\u00e3o explicou nada. N\u00e3o precisava. Levaria a mulher a tiracolo em seu sonho.<\/p>\n<p>\u2014 Comprou o qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Aquela casa de que falei. Hoje fui v\u00ea-la. Est\u00e1 legalizada e o pre\u00e7o \u00e9 razo\u00e1vel. Vou financi\u00e1-la em dez anos e usar nossa poupan\u00e7a para reform\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, querido!<\/p>\n<p>Aquele foi um dia feliz. Jussara se entusiasmou com a not\u00edcia da nova casa e mais ainda com o jantar rom\u00e2ntico a dois na <em>trattoria<\/em> do Giuseppe. Seria o \u00faltimo se Evaldo tivesse planos de novo rico. Em vez disso se imaginava ainda comendo a massa caseira do romano bigodudo por muitos anos.<\/p>\n<p>Brindaram com o melhor <em>rosso<\/em> da adega, uma extravag\u00e2ncia:<\/p>\n<p>\u2014 Parece at\u00e9 que voc\u00ea ganhou na loteria, querido.<\/p>\n<p>\u2014 Quando casei com voc\u00ea, sim.<\/p>\n<p>N\u00e3o. Ela n\u00e3o precisava saber. Seria bastante viverem em uma casa maravilhosa, com dinheiro aparecendo magicamente todo m\u00eas. Se ela perguntasse, diria que fora promovido ou que arranjara outra carreira. Talvez fosse boa ideia alugar um escrit\u00f3rio no centro para passar algumas horas por dia fingindo trabalhar. Seria mais f\u00e1cil se os ru\u00eddos da cidade n\u00e3o o incomodassem tanto. Mas daria um jeito.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea me falou muito da tal casa, mas eu nem sei onde \u00e9, meu amor. Ser\u00e1 que vou gostar?<\/p>\n<p>Como n\u00e3o? Ofendeu-se ele. Tinha que gostar. Era \u00f3bvio que adoraria aquele palacete de conto de fadas.<\/p>\n<p>\u2014 Amanh\u00e3 de manh\u00e3 vamos v\u00ea-la. Voc\u00ea vai achar ador\u00e1vel.<\/p>\n<p>A casa era uma imponente constru\u00e7\u00e3o numa dessas ruas tranquilas que foram chiques num passado distante, mas hoje s\u00e3o decadentes e feias. Estava semi-abandonada, mas ainda se podia ver sua beleza atrav\u00e9s do mato e do mofo.<\/p>\n<p>Jussara ficou chocada. N\u00e3o esperava que a casa finalmente comprada ap\u00f3s anos de sacrif\u00edcios fosse aquela constru\u00e7\u00e3o que parecia sa\u00edda de um velho filme de terror. N\u00e3o quis estragar a felicidade quase infantil com que Evaldo contemplava o edif\u00edcio, como se o olhar j\u00e1 bastasse para remover o entulho, as teias de aranha e o mato alto que cobria o quintal. Por isso ficou em sil\u00eancio, vendo-o andar de um lado para outro, sorridente como uma crian\u00e7a mostrando um brinquedo novo.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos completar o muro no mesmo padr\u00e3o. Veja essa constru\u00e7\u00e3o: esse muro resistiria ao choque de um tanque de guerra! \u00c9 todo de pedras e cimento!<\/p>\n<p>\u2014 Para que um muro t\u00e3o grosso e t\u00e3o alto em volta da casa toda, Evaldo? Assim v\u00e3o achar que n\u00f3s queremos nos esconder do mundo!<\/p>\n<p>\u2014 Mas n\u00f3s queremos, ou n\u00e3o?<\/p>\n<p>Jussara engoliu em seco. Ia dizer alguma coisa, mas ele continuava com os planos:<\/p>\n<p>\u2014 Depois de limpar por dentro, vou restaurar das paredes. Reparou que est\u00e3o cobertas de enfeites em estuque?<\/p>\n<p>Jussara olhava os borr\u00f5es que pareciam restos de cimento deixados por um pedreiro porco. Prestando mais aten\u00e7\u00e3o dava para notar algumas formas convencionais: flores, folhas de parreira, asinhas de anjinhos. Faltando peda\u00e7os aqui e ali.<\/p>\n<p>\u2014 Vai ser um trabalho de paci\u00eancia, uma verdadeira restaura\u00e7\u00e3o. Mas as paredes v\u00e3o ficar lindas! Cada c\u00f4modo tem uma barra de estuque no alto, com figuras mitol\u00f3gicas, que eram coloridas! Voc\u00ea j\u00e1 se imaginou vivendo em uma casa de paredes cobertas de figuras tridimensionais?<\/p>\n<p>Jussara tentou imaginar e s\u00f3 conseguiu ficar desagradada. Nunca fora f\u00e3 de mitologia e temia que aquelas cenas acabassem criando pesadelos.<\/p>\n<p>\u2014 O telhado at\u00e9 que est\u00e1 bom, vai ser barato consertar. N\u00e3o existe mais madeira t\u00e3o boa hoje em dia. Olhe estes caibros e ripas: s\u00e3o de madeira de lei, que absurdo! \u00c9 uma sorte n\u00e3o terem roubado!<\/p>\n<p>\u201cAo menos um telhado\u201d, pensava Jussara.<\/p>\n<p>\u2014 Depois um forro de tabuinhas para os lustres&#8230;<\/p>\n<p>Nos planos de Evaldo, felizmente, a vis\u00e3o horrorosa do lado de dentro do telhado ficaria escondida \u2014 e ainda ganhariam um s\u00f3t\u00e3o para as quinquilharias.<\/p>\n<p>\u2014 Nada de instala\u00e7\u00f5es el\u00e9tricas: deve ter sido abandonada antes que a eletricidade chegasse, ou ent\u00e3o os moradores continuaram com lampi\u00f5es&#8230; ou talvez usaram instala\u00e7\u00f5es improvisadas, que sumiram. Bem, com certeza instala\u00e7\u00f5es internas a casa n\u00e3o teve, deve ter sido constru\u00edda bem uns cinquenta anos antes de inventarem condu\u00edtes.<\/p>\n<p>Naquele momento Jussara j\u00e1 se perguntava se a casa valia o que Evaldo pagara. A reforma \u2014 embora n\u00e3o precisasse incluir novas janelas, portas, paredes ou estrutura do telhado \u2014 prometia ser cara.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o seria mais barato simplesmente raspar estas paredes e pintar tudo de branco ou p\u00f4r gesso?<\/p>\n<p>Evaldo se sentiu ofendido:<\/p>\n<p>\u2014 De jeito maneira! O que voc\u00ea est\u00e1 pensando? Voc\u00ea diria isso se fosse reformar a Capela Sistina?<\/p>\n<p>Jussara se sentiu um tanto burra por ter dito o que dissera e se fechou mais um pouquinho. Saindo para o quintal, ainda maravilhado, Evaldo teve tempo de olhar para tr\u00e1s e comentar:<\/p>\n<p>\u2014 Esse assoalho de t\u00e1buas, depois que for lixado e encerado, vai ficar lindo, vai brilhar ao sol.<\/p>\n<p>Ela olhou para tr\u00e1s tamb\u00e9m e imaginou como seria l\u00fagubre viver em uma casa de ch\u00e3o escuro e reluzente, cujas paredes n\u00e3o eram lisas, mas enfeitadas de cenas v\u00edvidas, e cujas imensas janelas come\u00e7avam a trinta cent\u00edmetros do ch\u00e3o e terminavam a quarenta do teto, deixando entrar uma quantidade obscena de luz. Evaldo ainda a admirava:<\/p>\n<p>\u2014 Que maravilha! Que pechincha! Um im\u00f3vel desses deveria estar tombado pelo patrim\u00f4nio hist\u00f3rico!<\/p>\n<p>\u2014 Bem servia para um museu \u2014 cortou Jussara.<\/p>\n<p>\u2014 Realmente \u2014 concordou Evaldo, meio sem notar o sentido secund\u00e1rio do que ela dissera.<\/p>\n<p>Olhou para o amplo espa\u00e7o do jardim:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea vai querer um jardim cheio de flores aqui? Ou prefere uma piscina? Ou talvez um caramanch\u00e3o?<\/p>\n<p>Ao menos no jardim ela ficava menos alijada do sonho dele:<\/p>\n<p>\u2014 Acho que d\u00e1 para fazer os tr\u00eas: a piscina nos fundos, o caramanch\u00e3o, do lado e o jardim, na frente.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o os tr\u00eas caminharam at\u00e9 a parte mais pitoresca da constru\u00e7\u00e3o, um lado em que n\u00e3o havia muro, apenas os restos do que fora, muitos anos antes, uma cerquinha baixa de madeira. Ali o terreno da casa terminava em um muro de arrimo e despencava na encosta do morro, pelo menos uns cem metros at\u00e9 uma ruazinha que passava l\u00e1 embaixo. Do outro lado do vale o sol se punha atr\u00e1s de umas colinas baixas.<\/p>\n<p>\u2014 <em>Apesar<\/em> de tudo \u2014 disse Jussara, mais com esperan\u00e7a que com otimismo \u2014 o lugar \u00e9 lindo! Vai ser bom morar aqui!<\/p>\n<p><center>*<\/center><\/p>\n<p>Mudaram-se numa sexta-feira \u00e0 tarde, quatro meses depois. A reforma acabou por custar bem mais do que o planejado, mas Evaldo n\u00e3o se importava, para espanto da mulher. A velha mans\u00e3o  se transformara numa resid\u00eancia apraz\u00edvel, que proporcionava aos moradores o tipo de isolamento que hoje em dia \u00e9 dif\u00edcil conseguir: ficando a uns bons seis quil\u00f4metros do centro da cidade, em um bairro quase rural.<\/p>\n<p>Esse isolamento fora uma das coisas que mais dera assunto para discuss\u00f5es. O casal n\u00e3o conseguira entrar em um acordo e Evaldo resolvera simplesmente bater o p\u00e9 em seu objetivo, o sonho de sua vida. A contragosto Jussara se mudou, conformada com a perspectiva de que o progresso do bairro trouxesse vizinhos e um pouco de delicioso ru\u00eddo urbano.<\/p>\n<p>A casa ficava no fim de uma rua \u00edngreme, ladeada por casas simples e pequenas, sem com\u00e9rcio ou sociedade: somente ao p\u00e9 do morro havia padaria, farm\u00e1cia e prec\u00e1rias comodidades urbanas e um quil\u00f4metro adiante o bairro come\u00e7ava a tomar jeito de cidade. Como era uma ladeira respeit\u00e1vel, o acesso mais usado seria pelos fundos, atrav\u00e9s de uma estrada particular que serpenteava pela encosta, entre v\u00e1rias pequenas ch\u00e1caras, todas com sedes min\u00fasculas e semi-arruinadas.<\/p>\n<p>Durante os meses de reforma Evaldo desencavara a hist\u00f3ria do lugar, que fora sede de uma opulenta fazenda nos tempos do caf\u00e9. Constru\u00edda no alto da colina mais imponente num raio de quil\u00f4metros, permitia ao antigo bar\u00e3o avaliar suas propriedades como o pirata ao tim\u00e3o de um navio. Depois do caf\u00e9, a antiga propriedade fora retalhada em lotes para dar resid\u00eancia a todo tipo de gente que gravitava em torno das novas pequenas propriedades produtoras de rapadura e de leite, ou da estrada de ferro que continuava passando pelo vale. As pequenas ch\u00e1caras eram de propriedade dos descendentes dos primeiros posseiros italianos. O bairro mais pr\u00f3ximo, heran\u00e7a deixada pelos ex-escravos e agregados do bar\u00e3o, pagos em terras quando o dinheiro do velho acabou.<\/p>\n<p>Em uma cidade j\u00e1 de porte bastante grande, aquele bairro parecia uma realidade \u00e0 parte, onde o tempo andava mais devagar. Talvez tenha sido isso que mais desagradou Jussara quando ela chegou \u00e0 janela do que seria seu quarto e contemplou as casas do vale, a ruazinha estreita que descia o morro e o aspecto descorado das ch\u00e1caras decadentes que se espalhavam pelas partes baixas.<\/p>\n<p>Nos primeiros dias p\u00f4de perceber que ali n\u00e3o dava para ser feliz. Havia um sil\u00eancio tumular naquela resid\u00eancia, salpicado, muito raramente, por distantes sons de carros acelerando ou as explos\u00f5es distantes de uma pedreira, que pareciam trov\u00f5es de uma chuva invis\u00edvel. De janelas fechadas n\u00e3o se ouvia nada que houvesse no mundo, como se a casa tivesse entrado por um portal dimensional e ido parar no limbo. E ela era t\u00e3o jovem, t\u00e3o acostumada com festa e alegria.<\/p>\n<p>Evaldo, por\u00e9m, amava cada vez mais tudo aquilo: o sil\u00eancio j\u00e1 o fazia feliz. Muitas vezes se pegava deitado num dos grossos tapetes que comprara e ficava por muito tempo de olhos fechados, deleitando-se em n\u00e3o ouvir coisa alguma. Tudo que fizera naquela casa parecia justamente conspirar para que fosse at\u00e9 mais silenciosa do que normalmente seria: o assoalho fora cuidadosamente assentado sob uma camada de serragem para que os passos n\u00e3o ressoassem, as janelas haviam sido reguladas para que tivessem encaixes perfeitos e n\u00e3o deixassem ru\u00eddo passar e tinham pain\u00e9is retr\u00e1teis de madeira que cobriam os vidros para sufocar alguma intrusa luz que ousasse algo.<\/p>\n<p>Todas as manh\u00e3s ele sa\u00eda para trabalhar taciturno, mas quando quando voltava, era como se estivesse retornando aos bra\u00e7os do amor de sua vida. Jussara n\u00e3o se enganou pensando que fosse de felicidade ao rev\u00ea-la, sentia que estava intrusa de algum modo, que sua presen\u00e7a incomodava. Por fim, suspirando, achou em si a constata\u00e7\u00e3o do quanto \u00e9 injusto que o homem compre a casa de seus sonhos, mas a mulher tenha que viver nela a maior parte do tempo.<\/p>\n<p>Evaldo argumentava que aquela tranquilidade toda era o que Jussara precisava para dedicar-se aos estudos, para aprender, para ler, escrever, para, enfim, buscar seus sonhos. Ela, no entanto, em vez de se sentir convidada ao aprendizado, sentia naquele sil\u00eancio atordoante antes uma anestesia que a tolhia em tudo, que parecia apagar o brilho de seus pensamentos e matava seus sonhos. Inebriada ou atenuada pela atmosfera sedativa do lugar, recolhia-se cada vez mais. Sentia-se como Rapunzel na torre, numa hist\u00f3ria em que Evaldo ocupava o lugar da feiticeira com a sua maleta e o terno rigoroso fazendo \u00e0s vezes de vassoura e manto negro.<\/p>\n<p>No come\u00e7o sonhara que seria bom morar em um lugar com tanto espa\u00e7o para tudo; mas logo sentiu muito diferente. Os c\u00f4modos enormes, alguns t\u00e3o grandes que pareciam caber apartamentos dentro; as portas de tr\u00eas metros de altura; as janelas que rasgavam as paredes do teto at\u00e9 o ch\u00e3o; eram coisas que a faziam sentir-se pequena, insuficiente, inst\u00e1vel.<\/p>\n<p>Parte do problema era que Evaldo n\u00e3o se importou em mobiliar toda a casa, embora tivesse esbanjado na reforma. Jussara supunha que havia ficado sem dinheiro, mas com o tempo passou a supor coisas piores. Enquanto acalentava receios, contemplava os c\u00f4modos preenchidos ralamente pela mob\u00edlia pequena do apartamento de rec\u00e9m casados, que ficava perdida na imensidade. Ele tamb\u00e9m restaurara os poucos m\u00f3veis originais da casa que os cupins n\u00e3o tinham comprometido:  rudes pe\u00e7as de madeira maci\u00e7a que pareciam sa\u00eddas de um filme de vampiros \u2014 uma mesa retangular onde vinte pessoas jantariam sem aperto, um guarda-roupas de portas entalhadas em madeira escura, estantes que caberiam uma biblioteca. Por todo lado ela via aquelas pe\u00e7as que haviam pertencido a estranhos, gente cujas almas eram t\u00e3o distantes. E havia tamb\u00e9m c\u00f4modos vazios, ou onde um m\u00f3vel sozinho imperava. Nesses a voz ecoava alto, tinha-se a impress\u00e3o de que fantasmas respondiam das paredes. Poderia dar uma festa em cada c\u00f4modo e a casa ainda pareceria uma solit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Sua sa\u00edda para isso foi longe de casa. Adquiriu o h\u00e1bito de visitar m\u00e3e, irm\u00e3os, amigas, todo mundo que conhecesse. Reatou amizades, convencendo cada conhecida a retribuir visita. Essa rotina consumia os dias inteiros, tornando necess\u00e1rio voltar para casa com comida comprada, mas eram momentos felizes os que passava longe.<\/p>\n<p>Quando Evaldo percebeu, certa tristeza o nublou: n\u00e3o imaginava que a mulher fosse detestar a casa. Mas superou pensando que era at\u00e9 melhor que n\u00e3o ficasse t\u00e3o absorta, afinal. Por isso resolveu substituir a tristeza por um forte est\u00edmulo aos projetos dela, e  enfim contou-lhe da loteria, do real prop\u00f3sito das longas horas em que ficava longe de casa, tantas coisas que lhe ocultara.<\/p>\n<p>Ela ouviu tudo, evidentemente espantada. Quando ele terminou, se disse aliviada. Talvez estivesse mesmo. Saiu de perto dele e caminhou pela casa, contemplando fixamente tudo, como uma crian\u00e7a perdida na casa de espelhos de um parque. Estranhamente, por\u00e9m, os espelhos metaf\u00f3ricos que havia por toda parte n\u00e3o a refletiam, mas a um homem que tinha apenas a apar\u00eancia do Evaldo com quem se casara.<\/p>\n<p><center>*<\/center><\/p>\n<p>Evaldo estava pela rua, mais uma vez buscando bons investimentos, quando o celular tocou: \u201cMam\u00e3e n\u00e3o est\u00e1 bem, fico com ela de companhia hoje\u201d. Dada assim, sem jeito, a not\u00edcia feria, parecia promessa de algo mais. Mas nada que empalidecesse a beleza de estar sozinho no sil\u00eancio da mans\u00e3o que aos poucos se tornava no prazer maior da vida.<\/p>\n<p>Chegou em casa e encontrou solid\u00e3o densa, quase l\u00edquida, embebendo os m\u00f3veis e as paredes. Sentou-se \u00e0 imensa mesa de jantar, espalhou sobre ela alguns livros e o <em>notebook<\/em>. Cada objeto que ca\u00eda parecia tocar a corda de algum instrumento no al\u00e9m. Comeu um lanche encomendado pelo telefone e conectou-se \u00e0 internet. Que bom ouvir o toque de cada tecla receosamente como se ele fosse despertar fantasmas!<\/p>\n<p style=\"text-align: right; font-style: italic\">Cataguases, agosto de 2003<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Evaldo compraria todo o seu dinheiro em sil\u00eancio, se houvesse \u00e0 venda em alguma loja. Costumava dizer aos amigos que no ru\u00eddo estava a origem de todo o mal que havia no mundo. Eles achavam que era apenas uma frase de efeito, mas era algo que ele dizia para si mesmo com frequ\u00eancia \u2014 como, por exemplo, na manh\u00e3 modorrenta de vinte de junho. Sentiu-se como quem \u00e9 arrancado do \u00fatero do sono. Havia um peso nos olhos e um silvo agressivo insistindo nos ouvidos, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[149],"tags":[30,41,125,44],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5002"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5002"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5002\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5027,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5002\/revisions\/5027"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5002"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5002"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5002"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}