{"id":5010,"date":"2017-08-21T22:55:07","date_gmt":"2017-08-22T01:55:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5010"},"modified":"2018-10-05T18:48:54","modified_gmt":"2018-10-05T21:48:54","slug":"a-campainha-do-apocalipse","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/08\/a-campainha-do-apocalipse\/","title":{"rendered":"A Campainha do Apocalipse"},"content":{"rendered":"<p>Um amigo me perguntou se eu considerava uma boa ideia para uma hist\u00f3ria de fic\u00e7\u00e3o a possibilidade de magicamente matar as piores pessoas do mundo todas de uma vez, at\u00e9 o limite de cinco por cento da popula\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o gosto de solu\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas, ent\u00e3o, como voc\u00ea deve estar a imaginar, convenci-o a encontrar outra maneira de dar in\u00edcio ao fim da civiliza\u00e7\u00e3o humana na Terra. O meu amigo me olhou espantado e disse: \u201cMas eu imaginei que assim eu acabaria com o mal no mundo e o tornaria um lugar quase paradis\u00edaco.\u201d<\/p>\n<p>Meu amigo desconhece uma verdade universal, a de que o inferno \u00e9 o lugar do universo imagin\u00e1rio onde se concentraria a maior quantidade de gente cheia de boas inten\u00e7\u00f5es, como as dele. Em nome do bem j\u00e1 se fez tanta maldade que a gente nem sabe por onde come\u00e7ar a contar. Tudo o que eu lhe disse foi que matar gente n\u00e3o \u00e9 um bom come\u00e7o para uma utopia, que m\u00e3os sujas de sangue n\u00e3o s\u00e3o boas para construir a paz. S\u00e3o palavras vazias, em que eu n\u00e3o acredito muito, mas o meu amigo estava t\u00e3o convencido de que poderia salvar o mundo atrav\u00e9s dessa hecatombe que eu preferi faz\u00ea-lo desistir. Vai que ele \u00e9 algum tipo de ser alien\u00edgena onipotente, capaz de executar o que apenas teorizava?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o a nossa conversa girou sobre as consequ\u00eancias que tamanha mortandade causaria entre a gente de bem.  Que seriam, afinal, as maiores prejudicadas pelo apertar do metaf\u00f3rico bot\u00e3o.<\/p>\n<p>Implica\u00e7\u00f5es morais \u00e0 parte, suspeito que remover a nata suja de um mundo corrupto poderia fazer estragar o leite bom que se esconde abaixo. Primeiramente, tal como lhe disse, cinco por cento da humanidade \u00e9 gente para n\u00e3o se caber mais. Quer dizer uma em cada vinte pessoas em todos os lugares. Do planeta inteiro estar\u00edamos \u201cterminando\u201d as vidas de trezentas e cinquenta milh\u00f5es de pessoas \u2014 uma vez e meia a popula\u00e7\u00e3o do Brasil.<\/p>\n<p>Aqui na cidadezinha onde vivo ter\u00edamos 180 mortos da noite para o dia. Suponho, para efeito dram\u00e1tico, que meu amigo faria ao Brasil o favor de apertar o bot\u00e3o de madrugada, para minimizar a possibilidade de morrer gente \u201cinocente\u201d por causa do passamento inesperado de motoristas, m\u00e9dicos em cirurgia, oper\u00e1rios de constru\u00e7\u00e3o civil etc. Esta \u00e9, ali\u00e1s, a primeira das consequ\u00eancias incontrol\u00e1veis de se dar um fim repentino \u00e0 vida de quem achamos que n\u00e3o merece viver. N\u00e3o h\u00e1 estat\u00edsticas disso, mas de tr\u00e1s da minha orelha eu tiro a ideia de que, talvez, em em cada vinte desses presuntos s\u00fabitos causaria a morte (ou algum tipo de ferimento) em uma certa quantidade de outras pessoas.<\/p>\n<p>Para se ter uma ideia do que 180 mortos significam para a pequena Pequeri, eu vos informo, extraoficialmente, que temos um \u00fanico (e nada gigantesco) cemit\u00e9rio, adequado para uma taxa de mortalidade que gira em torno de um por cento <em>ao ano<\/em>. Isso quer dizer que aqui morrem cerca de 36 pessoas cada doze meses, uma m\u00e9dia de um falecimento a cada semana e meia, mais ou menos. Nesse ritmo de esticamento de canelas, somente um coveiro \u00e9 suficiente para o preparo da propriedade derradeira dos que partem. T\u00e3o suficiente que o homem tem de complementar sua jornada de trabalho realizando obras de conserva\u00e7\u00e3o do dito cemit\u00e9rio, e frequentemente fora dele.<\/p>\n<p>Mas com a portentosa ocorr\u00eancia de 180 mortes simult\u00e2neas, a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica municipal estar\u00e1 diante de uma crise, humanit\u00e1ria e sanit\u00e1ria, como jamais se viu na hist\u00f3ria do mundo. Para cavar tantas covas seria preciso dar uma cavadeira ou um enxad\u00e3o para cada m\u00e3o eficiente do servi\u00e7o p\u00fablico local. A cidade tem, a qualquer tempo, contanto empregados municipais e estaduais, uns trezentos servidores, mas destes a maioria s\u00e3o pessoas que n\u00e3o sabem cavar ou n\u00e3o cavariam depressa nem por amor de suas vidas: escritur\u00e1rios, professores, secret\u00e1rios&#8230; gente de m\u00e3o fina e que, muitos, nem t\u00eam o h\u00e1bito de jardinagem. Se n\u00e3o plantam nem roseiras, quem dir\u00e1 plantar gente!<\/p>\n<p>Cavar uma sepultura n\u00e3o \u00e9 exatamente um trabalho pequeno. Cavar 180 em um dia s\u00f3 \u00e9 um tarefa digna de uma narrativa mitol\u00f3gica. Uma das dificuldades do servi\u00e7o \u00e9 que ele n\u00e3o pode ser feito cooperativamente: se dois tentam cavar a mesma, acabam se acotovelando ou, pior, acertando-se com p\u00e1s e picaretas. Assim, cada cova ter\u00e1 de ser o trabalho de um homem s\u00f3 (ou de uma mulher, mas raras aguentar\u00e3o cavar mais de uma). Nunca cavei uma sepultura, mas certa vez perguntei a um coveiro, relativamente jovem, quando tempo gastava para preparar uma. Ele, que era de um cemit\u00e9rio de cidade grande e tinha bra\u00e7os de estivador por causa do trabalho frequente, disse que levava cerca de uma hora para abrir regulamentares sete palmos no ch\u00e3o do campo santo, que, como voc\u00ea deve supor, estava localizado no terr\u00e3o mais duro e seco do munic\u00edpio.<\/p>\n<p>Dificilmente ter\u00edamos coveiros t\u00e3o fortes e dedicados, ent\u00e3o o mais prov\u00e1vel \u00e9 que cada unidade ficasse  pronta em cerca de duas horas, ou pouco menos. Seriam, portanto, 360 horas totais de trabalho para apenas terminar a primeira fase do despacho dos defuntos. Para aumentar a dificuldade da tarefa, n\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel supor que algu\u00e9m consiga cavar <em>mais de duas sepulturas<\/em> em um dia s\u00f3, a menos que se economize na fundura proverbial, arriscando a cidade a uma epidemia. Realisticamente, ter\u00edamos a necessidade de 180 homens, ou poucos a menos, para esse verdadeiro trabalho de H\u00e9rcules.<\/p>\n<p>Como o dia, obviamente, n\u00e3o tem 180 horas, ter\u00edamos de fazer os volunt\u00e1rios (porque logo os funcion\u00e1rios p\u00fablicos municipais estariam exaustos) cavar simultaneamente. Para conseguir terminar em um tempo razo\u00e1vel (oito horas, um dia de trabalho),  seria preciso manter vinte e duas escava\u00e7\u00f5es simult\u00e2neas, no m\u00ednimo. Nossa sorte \u00e9 que desses mortos alguns, cerca de um ter\u00e7o, ter\u00e3o jazigos preparados previamente. Mas aqui chegamos ao problema seguinte.<\/p>\n<p>A expans\u00e3o dos cemit\u00e9rios, seja onde for, \u00e9 bem gradual. Mesmo que \u201cs\u00f3\u201d tenhamos de fazer 120 covas, estas provavelmente ocupar\u00e3o o espa\u00e7o que resta no cemit\u00e9rio, afinal, estamos falando de gastar em um dia as covas equivalentes aos pr\u00f3ximos quatro anos ou mais.<\/p>\n<p>Terminada a escava\u00e7\u00e3o, por si s\u00f3 uma tarefa dur\u00edssima, ser\u00e1 preciso jogar terra de volta nos buracos, o que ser\u00e1 outro trabalho ingrato de se fazer, mas, felizmente, n\u00e3o ter\u00e1 de ser feito de uma s\u00f3 vez.<\/p>\n<p>Porque enquanto os servidores p\u00fablicos e mais uns volunt\u00e1rios cavam covas como loucos, h\u00e1 duas outras coisas acontecendo na cidade. A primeira \u00e9 o luto das fam\u00edlias, pois, por cru\u00e9is que sejam esses homens e mulheres aleat\u00f3rios que o bot\u00e3o m\u00e1gico tenha sorteado para bater as botas, eles t\u00eam c\u00f4njuges, filhos, parentada e  tudo o mais. Eles querer\u00e3o saber de que morreram os seus queridos entes, mas provavelmente ficar\u00e3o sem saber, porque os m\u00e9dicos todos da cidade estar\u00e3o, a essa altura, dividindo-se entre preencher  atestados de \u00f3bito e tratar de gente que esteja passando mal pela morte dos parentes.<\/p>\n<p>Os atestados de \u00f3bito ser\u00e3o um problema real e imediato. Essa s\u00fabita ocorr\u00eancia de 180 mortes em uma dia s\u00f3 n\u00e3o pode ser vista como algo normal. Nem pelas fam\u00edlias e nem pelo poder p\u00fablico respons\u00e1vel. A primeira coisa que um m\u00e9dico consciente pensar\u00e1 \u00e9 que deve existir um nexo entre as 180 mortes. Uma bact\u00e9ria, por exemplo. Considerando que ela matou 180 em uma noite, sem aviso pr\u00e9vio, esse pat\u00f3geno misterioso tem de ser algo terr\u00edvel.<\/p>\n<p>A cidade tem poucos m\u00e9dicos, obviamente, porque em sua maioria os servi\u00e7os m\u00e9dicos s\u00e3o supridos localmente por profissionais de outras cidades que v\u00eam cumprir turnos no hospital local. Esses profissionais certamente estar\u00e3o trabalhando em suas cidades de origem, deixando-nos desguarnecidos. Assim, o idoso casal de m\u00e9dicos que reside na cidade se ver\u00e1 for\u00e7ado, pelo limite humano da capacidade de trabalho, a tomar uma decis\u00e3o impopular: determinar o enterro coletivo e sum\u00e1rio de todos. As fam\u00edlias ficar\u00e3o revoltadas e talvez levem anos a aceitar racionalmente, mas qualquer mente que pense com clareza concluir\u00e1 que quanto mais cedo os mortos estiverem dentro da terra, mais cedo deixar\u00e3o de potencialmente transmitir o que quer que os matou.<\/p>\n<p>Uma alternativa seria preservar os corpos por alguns dias, sob refrigera\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 que a cidade n\u00e3o tem necrot\u00e9rio. A maior parte das cidades do Brasil n\u00e3o tem. Mesmo onde existem, eles n\u00e3o est\u00e3o preparados para o apocalipse, mas para uma demanda de um a dois por cento ao ano.<\/p>\n<p>A essa altura o leitor j\u00e1 ter\u00e1 conclu\u00eddo que os mortos n\u00e3o precisar\u00e3o de 180 covas, na verdade, porque a solu\u00e7\u00e3o sensata \u00e9 jogar todos numa vala comum e usar um trator para cobrir. As fam\u00edlias estar\u00e3o a ponto de matar os m\u00e9dicos e os respons\u00e1veis, e ai daquele que usar sua influ\u00eancia pol\u00edtica ou econ\u00f4mica para tirar seu pai do lote. Ou v\u00e3o todos ou n\u00e3o vai ningu\u00e9m. Indo todos a cidade viver\u00e1 um choque al\u00e9m do luto. Indo ningu\u00e9m estaremos sob risco de tifo e c\u00f3lera muito depressa.<\/p>\n<p>Com todos os corpos devidamente sob a terra, come\u00e7a a fase jur\u00eddica do processo. O cart\u00f3rio local emitir\u00e1 os certificados de \u00f3bito mencionando causas desconhecidas, presumivelmente naturais, sem sinais de viol\u00eancia. S\u00f3 temos um cart\u00f3rio, com uma \u00fanica funcion\u00e1ria. Ela ter\u00e1 de digitar, selar, carimbar e assinar 180 documentos. Trabalho para alguns dias seguidos.<\/p>\n<p>Os certificados, obviamente, ser\u00e3o o primeiro passo para as fam\u00edlias reivindicarem os bens dos falecidos. Para os que possu\u00edam propriedades, a ajuda de um advogado ser\u00e1 imprescind\u00edvel. S\u00f3 temos uns cinco ativos na cidade, exceto algum que eu n\u00e3o conhe\u00e7a ou que atue fora. Todos os processos ser\u00e3o encaminhados ao Juiz da comarca, onde, certamente, o que n\u00e3o falta \u00e9 processo acumulado para se decidir. N\u00e3o custa lembrar que o juiz tamb\u00e9m estar\u00e1 \u00e0s voltas com os processos dos seiscentos mortos da sede da comarca e mil e duzentos dos demais munic\u00edpios.<\/p>\n<p>Agora multiplique toda essa confus\u00e3o por cada cidade do pa\u00eds e do mundo. Voc\u00ea consegue imaginar o tamanho da confus\u00e3o que isso trar\u00e1, a boataria de doen\u00e7as e conspira\u00e7\u00f5es, as disputas por heran\u00e7a, as fam\u00edlias tresloucadas assassinando m\u00e9dicos e funcion\u00e1rios p\u00fablicos para que seus queridos entes n\u00e3o entrem numa vala comum, coisas assim.<\/p>\n<p>Suponha, amigo todo-poderoso e cheio de boas inten\u00e7\u00f5es, que voc\u00ea aperte o bot\u00e3o. Voc\u00ea ainda vai achar que preparou um para\u00edso com essa quantidade de cad\u00e1veres por funda\u00e7\u00e3o?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um amigo me perguntou se eu considerava uma boa ideia para uma hist\u00f3ria de fic\u00e7\u00e3o a possibilidade de magicamente matar as piores pessoas do mundo todas de uma vez, at\u00e9 o limite de cinco por cento da popula\u00e7\u00e3o. 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