{"id":504,"date":"2010-01-25T06:32:00","date_gmt":"2010-01-25T09:32:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=504"},"modified":"2017-11-02T14:10:04","modified_gmt":"2017-11-02T17:10:04","slug":"detesto-viajar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/01\/detesto-viajar\/","title":{"rendered":"Detesto Viajar"},"content":{"rendered":"<p>Odeio terminais rodovi\u00e1rios, o cheiro de gente e de \u00f3leo diesel derramado, os banheiros sem qualquer tra\u00e7o de personalidade, as pessoas exclusivamente preocupadas em retornarem ou irem, andando de um lado para outro com suas malas. Detesto \u00f4nibus, trens e avi\u00f5es. Detesto esta\u00e7\u00f5es e aeroportos. Custa-me p\u00f4r em movimento a minha vida, ter de retirar meus p\u00e9s do ch\u00e3o. Tornei-me meio \u00e1rvore, tanto tempo estando nesta mesma cidade e nesta rua mesma.<\/p>\n<p>Quando escuto os ve\u00edculos que passam levando gente atr\u00e1s de seus destinos, lembro-me dos vag\u00f5es de Auschwitz, dos caminh\u00f5es de gado que chegam aos abatedouros. \u00c0s vezes eu mesmo me sinto uma carca\u00e7a ainda n\u00e3o abatida.<\/p>\n<p>Quando me vejo for\u00e7ado a viajar, bate um desconforto imediato e extremo logo que compro a passagem. Dispara-me o cora\u00e7\u00e3o, revolve-se-me o est\u00f4mago e os meus olhos giram como se quisessem desparafusar-se e cair. Espremo-me no assento, rendo-me ao desconforto e deixo-me ser jogado a bombordo e a estibordo pelos movimentos do ve\u00edculo que se esgueira pelas curvas da estrada, tit\u00e2nico e agressor. Desce um frio pela minha nuca e se me aquece o rosto quando a paisagem atemorizante desfila pela janela ex\u00edgua e os outros passageiros se distraem, sem perceber que, vertiginosamente, passamos por paisagens sempre outras; o que causaria n\u00e1usea, mas ningu\u00e9m est\u00e1 ciente da velocidade e suas m\u00e1s inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Agora tenho de viajar semanalmente, como uma forma de tentar ganhar a minha vida. Cada vez que me assento neste ve\u00edculo perigoso e inst\u00e1vel, que agora \u00e9 inacreditavelmente meu, para tentar dirigi-lo at\u00e9 o destino, o mal me envolve em seus ternos bra\u00e7os e em seu beijo fl\u00e1cido me perco de minha consci\u00eancia, sendo assim capaz de atravessar o deserto cheio de escorpi\u00f5es sem medo e portador da mesma ira e habilidade que os outros. Adquiri a agressividade normal dos condutores e, anestesiado, percorro as estradas \u00e0 ca\u00e7a de meu destino.<\/p>\n<p>A paisagem nestas montanhas \u00e9 triste. Ao longe se v\u00ea a marca das a\u00e7\u00f5es humanas: estradas que rasgam sangue nas encostas, casas e aglomera\u00e7\u00f5es de casas que brotam do ch\u00e3o como ossos de fraturas expostas, eros\u00f5es que s\u00e3o como cad\u00e1veres decompondo-se. Longe se v\u00ea alguma m\u00e1cula de natureza onde, no entanto, can\u00e1rio algum ainda pia.<\/p>\n<p>Triste terra essa que tenta reter a riqueza que estes vermes ambicionam: rasgam-lhe a fr\u00e1gil pele, arrancam-lhe a morna carne at\u00e9 trazerem \u00e0 tona as migalhas com que erguem suas col\u00f4nias. E deixam atr\u00e1s de si o esqueleto das serras, nu contra o c\u00e9u, abismos com po\u00e7as de \u00e1gua ao fundo. Tristes encostas de onde desce lama quando chove para assorear os rios. Triste terra a que produz riqueza: cedo varrem-lhe da face os animais e as flores e deixam-na sem agasalho e sem frescor, rendida \u00e0s cidades e \u00e0s fezes e aos ve\u00edculos que a percorrem levando e trazendo os males que alimentam os parasitas\u2026<\/p>\n<p>Vivendo aqui as pessoas parecem acostumar-se a morrer. Todos os dias se faz presente alguma morte. As montanhas parecem ter adquirido a normalidade de permanecerem, apesar do sangue que as contamina. A estrada aqui \u00e9 um ros\u00e1rio de pr\u00e1ticas esp\u00farias que determinam estas manchas de petr\u00f3leo e de sangue. Recorda\u00e7\u00f5es de erros que levaram vidas: as trevas est\u00e3o ganhando terreno enquanto o homem se instala e viceja. Cada vez que passo por aqui, sinto-me um intruso em um nevoeiro de dores que se cristaliza em cada gota de orvalho. Vidros esfarinhados, cacos de carros e marcas de ferro nos galhos das \u00e1rvores. Em rel\u00e2mpagos revejo bra\u00e7os que acenaram pelo socorro inexistente no breve segundo que antecedeu a morte. Corpos que vicejaram e se fanaram.<\/p>\n<p>E o \u00f4nibus passa lentamente, como que fazendo contin\u00eancia \u00e0s v\u00edtimas, e expondo-nos \u00e0 dor de estarmos vivos neste mundo em que morreremos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Odeio terminais rodovi\u00e1rios, o cheiro de gente e de \u00f3leo diesel derramado, os banheiros sem qualquer tra\u00e7o de personalidade, as pessoas exclusivamente preocupadas em retornarem ou irem, andando de um lado para outro com suas malas. Detesto \u00f4nibus, trens e avi\u00f5es. Detesto esta\u00e7\u00f5es e aeroportos. Custa-me p\u00f4r em movimento a minha vida, ter de retirar meus p\u00e9s do ch\u00e3o. Tornei-me meio \u00e1rvore, tanto tempo estando nesta mesma cidade e nesta rua mesma. 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