{"id":511,"date":"2009-11-09T06:51:00","date_gmt":"2009-11-09T09:51:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=511"},"modified":"2017-11-02T14:10:04","modified_gmt":"2017-11-02T17:10:04","slug":"o-pecado-da-tristeza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2009\/11\/o-pecado-da-tristeza\/","title":{"rendered":"O Pecado da Tristeza"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Como voc\u00ea ousa dizer que andou deprimido?&#8221; \u2014 perguntou-lhe o amigo de muitos anos. Cust\u00f3dio abriu os bra\u00e7os num gesto largo e insignificante, deixou uma palavra no trampolim da l\u00edngua, mas fechou os l\u00e1bios crispados de raiva sem ter dito coisa alguma. O amigo continuou: &#8220;Com um emprego como o que voc\u00ea tem, uma fam\u00edlia linda, cheio de sa\u00fade\u2026&#8221;<\/p>\n<p>Dava vontade de matar o amigo. Como era possivel que algu\u00e9m com quem convivera durante tantos anos se mostrasse incapaz de compreender justamente uma confid\u00eancia t\u00e3o sofrida? A estupefa\u00e7\u00e3o de Constantino s\u00f3 piorava as coisas para o pobre do Cust\u00f3dio. Agora, al\u00e9m da tristeza quase invenc\u00edvel de uma depress\u00e3o cruel que o agrilhoava, tinha de lutar contra a culpa monstruosa por estar deprimido enquanto o amigo de muitos anos invejava seu emprego, sua mulher e seus filhos.<\/p>\n<p>Como explicar para outra pessoa aquelas coisas min\u00fasculas e agonizantes que v\u00e3o gotejando das ab\u00f3badas mais esquecidas da alma at\u00e9 empo\u00e7arem, frias e polu\u00eddas, entre lembran\u00e7as misturadas, decep\u00e7\u00f5es e leviandades cometidas? A tristeza, nenhuma l\u00edngua do universo \u00e9 capaz de explic\u00e1-la. Mesmo os melhores autores s\u00f3 conseguem fazer com que pressintamos sua sombra perpassando versos que s\u00e3o vazios quando os lemos sem estarmos igualmente compungidos.<\/p>\n<p>Cust\u00f3dio estava deprimido e n\u00e3o sabia porque, e n\u00e3o saber porque estava deprimido o deprimia ainda mais. E ningu\u00e9m compreendia nem compreenderia porque poderia estar t\u00e3o triste algu\u00e9m t\u00e3o invejavelmente empregado, mesmo que o emprego de alto sal\u00e1rio envolvesse transa\u00e7\u00f5es escusas e jornadas extenuantes de trabalho. Como poderia estar triste algu\u00e9m casado com uma mulher t\u00e3o bela e t\u00e3o doce, mesmo que a beleza e a do\u00e7ura envolvessem uma insipidez, uma tepidez, epis\u00f3dios de embriaguez\u2026 Como poderia estar triste algu\u00e9m com t\u00e3o belos filhos, se t\u00e3o pouco tempo tinha para conviver com eles, se a conviv\u00eancia com eles concorria com os sonhos nas curtas horas de folga\u2026<\/p>\n<p>Constantino exerceu o seu papel cruel, sem perceber, \u00e9 claro. Somente quando estamos munidos das melhores inten\u00e7\u00f5es \u00e9 que somos capazes de destro\u00e7ar impiedosamente com as m\u00e3os as pessoas a quem amamos. L\u00e1 estava seu amigo, sem perceber, culpando-o por ser triste quando deveria ser feliz, por estar frustrado quando deveria estar realizado. Com a autoridade de quem est\u00e1 de fora e sabe tudo.<\/p>\n<p>&#8220;O que lhe falta \u00e9 orar mais, meu amigo\u2026&#8221;<\/p>\n<p>Esta frase solta no ar lembrou o tempo em que os parentes o provocavam pelas costas com insinua\u00e7\u00f5es de homossexualidade, de insanidade, de ingenuidade\u2026 toques de maldade que s\u00f3 os parentes s\u00e3o capazes de dar a uma adolesc\u00eancia hesitante, em um mundo cheio de alternativas e t\u00e3o vazio de sinais no caminho. Lembrou-o do tempo em que esfolava os joelhos nas missas implorando para que o cad\u00e1ver de Jesus se lembrasse de seu desamparo e lhe desse superpoderes para salvar o mundo, ou pelo menos os n\u00fameros da loto para que n\u00e3o tivesse que continuar se humilhando, pobre e s\u00f3.<\/p>\n<p>Por fim perdeu a sua alma. Furioso, encarou a face fl\u00e1cida de Constantino e esfaqueou-o com uma frase ferozmente afirmativa:<\/p>\n<p>&#8220;Se orar resolvesse alguma coisa, Constantino, voc\u00ea n\u00e3o seria t\u00e3o insensato\u2026&#8221;<\/p>\n<p>Girou nos calcanhares e continuou descendo a rua, com um amigo a menos e com uma escurid\u00e3o ainda mais intensa revoando sobre sua cabe\u00e7a. Nada \u00e9 t\u00e3o solit\u00e1rio quanto a tristeza, pois ningu\u00e9m sabe o que anda nos pensamentos do homem triste. Temei ao homem que \u00e9 triste.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Como voc\u00ea ousa dizer que andou deprimido?&#8221; \u2014 perguntou-lhe o amigo de muitos anos. Cust\u00f3dio abriu os bra\u00e7os num gesto largo e insignificante, deixou uma palavra no trampolim da l\u00edngua, mas fechou os l\u00e1bios crispados de raiva sem ter dito coisa alguma. 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