{"id":5114,"date":"2017-10-08T13:36:20","date_gmt":"2017-10-08T16:36:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5114"},"modified":"2017-11-02T14:07:22","modified_gmt":"2017-11-02T17:07:22","slug":"o-heroi-irresponsavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/10\/o-heroi-irresponsavel\/","title":{"rendered":"O Her\u00f3i Irrespons\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/freedom-1431380_640-226x300.png\" alt=\"\" width=\"226\" height=\"300\" class=\"alignleft size-medium wp-image-5115\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/freedom-1431380_640-226x300.png 226w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/freedom-1431380_640-113x150.png 113w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/freedom-1431380_640.png 482w\" sizes=\"(max-width: 226px) 100vw, 226px\" \/><\/p>\n<p>No mundo em que vivemos, a liberdade pessoal \u00e9 posta como prioridade e o descarte do outro \u201cdefeituoso\u201d \u00e9 uma coisa normal. N\u00e3o \u00e9 surpresa que a revista \u201cEstilo\u201d resolva <a href=\"https:\/\/estilo.uol.com.br\/comportamento\/noticias\/redacao\/2017\/09\/29\/terminei-o-namoro-porque-ele-tinha-cancer-foi-um-ato-de-amor-proprio.htm\">glamourizar o abandono<\/a> como uma coisa saud\u00e1vel. Se o outro vem \u201ccom defeito\u201d, nada mais normal que descart\u00e1-lo, trocar por outro produto.<\/p>\n<p>Assim o ser humano se desumaniza, reduzido a algo que se adquire, que se usa e que se substitui. Com a ajuda de psic\u00f3logos, porque a culpa at\u00e1vica ainda reside em algum lugar da alma, e precisa ser exorcizada, para que possamos viver a liberdade conquistada pelo \u201camor-pr\u00f3prio\u201d &mdash; novo nome do ego\u00edsmo.<\/p>\n<p>A liberdade \u00e9 sempre relativa. A partir de um certo ponto a liberdade se torna \u201cfuga da responsabilidade\u201d. A ilus\u00e3o de viver sem consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Quando crian\u00e7as, sonh\u00e1vamos a ilus\u00e3o de viver assim, sem enfrentar o retorno do que fiz\u00e9ssemos.<\/p>\n<p>Transar sem gravidez, beber sem cirrose, ser calhordas e ainda ser amados, gritar com os outros sem levar um tap\u00e3o, dar o tap\u00e3o sem levar um soco ou um pipoco, usar droga sem overdose, acelerar a 160 sem morrer numa esquina fechada ou contra-m\u00e3o inesperada.<\/p>\n<p>Crian\u00e7as inicialmente n\u00e3o sabem que existe o outro enquanto pessoa. Ele \u00e9 somente fornecedor do que queremos ou impositor do que rejeitamos.<\/p>\n<p>Exigimos o peito de nossa m\u00e3e. Choramos para que nos troquem a fralda, gritamos para que nos tragam a comida. O outro nos traz o feij\u00e3o, o banho, a hora de dormir a escola.<\/p>\n<p>Achamos que crescer \u00e9 saciar o que queremos, sem sofrer mais com o que o mundo imp\u00f5e e limita.<\/p>\n<p>A realidade \u00e9 o boleto, a nossa vez de trocar a fralda, o patr\u00e3o mais mand\u00e3o que o pai, a igreja pedindo mais b\u00ean\u00e7\u00e3o que a v\u00f3.<\/p>\n<p>Algumas escravid\u00f5es conseguimos sacudir de nossas costas, mas algumas n\u00e3o podemos &mdash; outras n\u00e3o devemos.<\/p>\n<p>Morta a v\u00f3 lamentamos cada b\u00ean\u00e7\u00e3o n\u00e3o pedida. Esse \u00e9 um boleto que nunca vamos pagar.<\/p>\n<p>Alguns evitam filhos, na verdade querem evitar a sua vez de trocar a fralda, porque, por mais que se pague bab\u00e1 para isso, haver\u00e1 madrugadas de diarreia e febre, nas quais n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel terceirizar a maternidade e a paternidade.<\/p>\n<p>O tempo traz a doen\u00e7a que teria sido evitada pelo feij\u00e3o da inf\u00e2ncia, que foi semeada pelas ressacas repetidas e pelas drogas recreativas.<\/p>\n<p>E a solid\u00e3o que n\u00e3o existiria se n\u00e3o atac\u00e1ssemos quem estava perto.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, mesmo essas rea\u00e7\u00f5es e arrependimentos s\u00e3o limites e imposi\u00e7\u00f5es com que o destino entristece as crian\u00e7as. J\u00e1 sem pais que lhes obriguem, mas com dinheiro para comprar confortos, anseiam pela &#8220;soma&#8221;, pagam psic\u00f3logos, desenvolvem explica\u00e7\u00f5es complicadas para disfar\u00e7ar a culpa, e revestir o arrependimento.<\/p>\n<p>Nosso tempo conhece agora o her\u00f3i que vence a humanidade. Os her\u00f3is de antanho matavam monstros. Os her\u00f3is de agora identificam-se com os monstros. Os monstros de antigamente desprezavam e destru\u00edam a humanidade e sua sociedade. Hoje, monstro \u00e9 quem espera uma sociedade funcional, baseada na m\u00fatua responsabilidade.<\/p>\n<p>Porque responsabilidade \u00e9 imposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Portanto \u00e9 ditadura, portanto \u00e9 heroico insurgir-se contra ela.<\/p>\n<p>O her\u00f3i moderno \u00e9 essencialmente um indiv\u00edduo irrespons\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No mundo em que vivemos, a liberdade pessoal \u00e9 posta como prioridade e o descarte do outro \u201cdefeituoso\u201d \u00e9 uma coisa normal. N\u00e3o \u00e9 surpresa que a revista \u201cEstilo\u201d resolva glamourizar o abandono como uma coisa saud\u00e1vel. Se o outro vem \u201ccom defeito\u201d, nada mais normal que descart\u00e1-lo, trocar por outro produto. Assim o ser humano se desumaniza, reduzido a algo que se adquire, que se usa e que se substitui. 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