{"id":512,"date":"2009-10-11T07:54:00","date_gmt":"2009-10-11T10:54:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=512"},"modified":"2017-11-02T14:10:05","modified_gmt":"2017-11-02T17:10:05","slug":"panico-eletronico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2009\/10\/panico-eletronico\/","title":{"rendered":"P\u00e2nico Eletr\u00f4nico"},"content":{"rendered":"<p>Quando comecei a comprar meus primeiros CDs, em 1995, ainda eram primordialmente vers\u00f5es importadas, geralmente dos Estados Unidos ou da Alemanha. Havia uma mensagem impressa neles, ao final de uma breve seq\u00fc\u00eancia de instru\u00e7\u00f5es para cuidado e limpeza que, afinal, n\u00e3o era mais do que recomenda\u00e7\u00f5es de bom-senso: &#8220;se voc\u00ea seguir estas instru\u00e7\u00f5es, o CD lhe proporcionar\u00e1 uma vida inteira de puro prazer auditivo&#8221; (<em>If you follow these instructions, the compact disc will provide you with a lifetime of listening enjoyment<\/em>).<\/p>\n<p>Certamente esta promessa era reconfortante. Eu tinha meus vinte e poucos anos e imaginava que viveria, no m\u00ednimo, mais uns sessenta ou setenta. A perspectiva de conservar comigo os meus discos at\u00e9 o fim \u2014 e talvez at\u00e9 leg\u00e1-los a meus descendentes \u2014 era algo que imaginava muito vivamente. Por isso n\u00e3o hesitei em investir milhares de reais em discos. Considerando todos os que ainda tenho e os que cheguei a ter, mas vendi por n\u00e3o ter gostado, devo ter comprado em vida quase novecentos discos. A pre\u00e7os corrigidos para valores atuais, isto quer dizer que eu comprei, facilmente, mais de doze mil reais em m\u00fasica.<\/p>\n<p>Este investimento me proporcionou, de fato, um enorme prazer auditivo. Um r\u00e1pido c\u00e1lculo me diz que os meus CDs cont\u00eam nada menos do que vinte e quatro mil minutos de m\u00fasica, ou quatrocentas horas. Considerando que ouvisse uma m\u00e9dia de uma hora e meia por dia (o equivalente a um \u00e1lbum duplo ou a dois \u00e1lbuns), eu levaria 267 dias para ouvir toda a minha cole\u00e7\u00e3o uma \u00fanica vez. Mas como eu n\u00e3o ouviria todos os dias, posso afirmar sem sombra de d\u00favida que os meus CDs equivalem a um ano do prometido prazer.<\/p>\n<p>Levando mais adiante o c\u00e1lculo, considerei que houve certos \u00e1lbuns que eu certamente ouvi mais de uma vez. \u00c9 imposs\u00edvel ouvir uma vez s\u00f3 certas p\u00e9rolas, como <em>The Dark Side of the Moon<\/em> (Pink Floyd), <em>Trespass<\/em> (Genesis), <em>Argus<\/em> (Wishbone Ash), <em>Bad Company<\/em> (Bad Company), <em>History<\/em> (America), <em>Harbour of Tears<\/em> (Camel), <em>In Rock<\/em> (Deep Purple), <em>Revolu\u00e7\u00f5es por Minuto<\/em> (RPM), <em>Houses of the Holy<\/em> (Led Zeppelin), <em>Molten Gold<\/em> (Free), <em>Power and the Passion<\/em> (Eloy) ou <em>Nightingales and Bombers<\/em> (Manfred Mann\u2019s Earth Band). Desta forma, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar que foram, na verdade, dois anos em vez de um.<\/p>\n<p>E por fim, n\u00e3o comprei os discos para ouvi-los uma \u00fanica vez, ou mesmo para ouvi-los todos repetindo alguns. A conclus\u00e3o a que cheguei foi a de certamente n\u00e3o conseguiria, mesmo que tentasse, enjoar da m\u00fasica neles gravada, pois quando tivesse acabado de ouvir o \u00faltimo j\u00e1 teria quase esquecido do primeiro.<\/p>\n<p>A conseq\u00fc\u00eancia disso \u00e9 que rapidamente percebi que possuo mais discos do que consigo ouvir em uma vida inteira (e eu nem estou considerando os discos que peguei emprestados ou as m\u00fasicas que ouvi efemeramente na Internet). Da mesma forma, hoje percebi que h\u00e1 certos discos que possuo h\u00e1 anos e que nunca ouvi, tal como um obscuro \u00e1lbum de rock progressivo ingl\u00eas que chegou \u00e0s minhas m\u00e3os sei l\u00e1 como, talvez como parte de uma barganha\u2026<\/p>\n<p>Eu poderia estar feliz com isso, imaginando que jamais me fartarei de m\u00fasica enquanto estiver vivo. Mas estou, em vez disso, deprimido por duas raz\u00f5es que apavoram meu senso musical. A primeira \u00e9 que o CD \u00e9 um g\u00eanero em extin\u00e7\u00e3o: dentro de poucos anos j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel comprar discos em formato tang\u00edvel e o antigo prazer de folhear encartes com letras, ler fichas t\u00e9cnicas e contemplar fotos ter\u00e1 desaparecido, inclusive antes que tenha tido dinheiro e tempo para adquirir todos os discos que gostaria de possuir \u2014 e h\u00e1 tantos bons discos no mundo que eu ainda n\u00e3o ouvi. A segunda raz\u00e3o \u00e9 que a promessa feita pelos fabricantes \u00e9 uma mentira.<\/p>\n<p>N\u00e3o, o CD n\u00e3o proporciona, por mais cuidado que tenhamos, &#8220;uma vida inteira&#8221; de puro prazer auditivo. A menos que a vida a que se referem seja a de um c\u00e3o dom\u00e9stico ou de um hamster. O primeiro CD que eu adquiri fora fabricado em 1990, no Canad\u00e1. Sim, ele tinha um &#8220;Made in Canada&#8221; estampado. Em 2006, apenas dezesseis anos depois de feito, come\u00e7ou a se desfazer. O pl\u00e1stico esfarelava, o selo descascava e a grava\u00e7\u00e3o se perdeu. Tive de readquiri-lo, em uma vers\u00e3o nacional inferior (com capa de p\u00e9ssima qualidade gr\u00e1fica, como \u00e9 o compromisso jurado de nossas gravadoras) para poder continuar ouvindo ao \u00e9pico 2112, do Rush.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o submetera o disco a nenhuma intemp\u00e9rie a n\u00e3o ser alguns invernos em uma casa fria. Eu jamais tocara com os dedos a face gravada. Eu jamais o lavara com outra coisa que n\u00e3o \u00e1gua pura e detergente neutro e jamais o secara com outra coisa que n\u00e3o len\u00e7os de papel suav\u00edssimos. E mesmo assim o pl\u00e1stico come\u00e7ara a apodrecer.<\/p>\n<p>Agora, em 2009, percebo que h\u00e1 outros discos com sinais do mesmo mal. Est\u00e3o sob a mesma amea\u00e7a a minha cole\u00e7\u00e3o completa de Deep Purple e minha s\u00e9rie quase inteira do Wishbone Ash \u2014 entre outros. N\u00e3o \u00e9 verdade, os CDs n\u00e3o duram uma vida inteira, tal como nem todos n\u00f3s duramos uma vida inteira.<\/p>\n<p>Melancolicamente os transformo em arquivos digitais, que nunca t\u00eam o calor do original. E melancolicamente espero por esse estranho e imaterial futuro no qual n\u00e3o possuiremos nada fisicamente, para tocar, cheirar e sentir, mas apenas virtualmente, limitadamente. Mas enquanto isso me pergunto: sou eu que estou chegando ao fim da vida, ou foi a promessa do fabricante do pl\u00e1stico dos CDs que furou? <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando comecei a comprar meus primeiros CDs, em 1995, ainda eram primordialmente vers\u00f5es importadas, geralmente dos Estados Unidos ou da Alemanha. Havia uma mensagem impressa neles, ao final de uma breve seq\u00fc\u00eancia de instru\u00e7\u00f5es para cuidado e limpeza que, afinal, n\u00e3o era mais do que recomenda\u00e7\u00f5es de bom-senso: &#8220;se voc\u00ea seguir estas instru\u00e7\u00f5es, o CD lhe proporcionar\u00e1 uma vida inteira de puro prazer auditivo&#8221; (If you follow these instructions, the compact disc will provide you with a lifetime of listening enjoyment). 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