{"id":5129,"date":"2017-10-15T13:45:21","date_gmt":"2017-10-15T16:45:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5129"},"modified":"2019-06-05T22:25:05","modified_gmt":"2019-06-06T01:25:05","slug":"da-obrigacao-de-criar-personagens-negros-na-literatura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/10\/da-obrigacao-de-criar-personagens-negros-na-literatura\/","title":{"rendered":"Da Obriga\u00e7\u00e3o de Criar Personagens Negros na Literatura"},"content":{"rendered":"\n<p>Como n\u00e3o tenho mais participando ativamente dos grupos ditos de \u201cescritores\u201d em redes sociais, n\u00e3o acompanhei de perto a \u00faltima pol\u00eamica que houve, sobre uma suposta obriga\u00e7\u00e3o do autor branco escrever bons personagens negros, motivada por mais uma vez que postaram o <em>link<\/em> de um <a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/cultura\/livros\/estudo-sobre-romances-brasileiros-aponta-pequena-presenca-de-personagens-negros-15909151\">estudo acad\u00eamico sobre a diversidade<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Das trevas do debate, deletado pela modera\u00e7\u00e3o somente salvaram-se tr\u00eas <em>prints<\/em> sintom\u00e1ticos de uma limita\u00e7\u00e3o da literatura do Brasil: o autor brasileiro t\u00edpico est\u00e1 distante da realidade do pa\u00eds e reproduz isso em sua cria\u00e7\u00e3o. Haveria poucos personagens negros significativos na literatura brasileira <em>porque<\/em> uns 96% dos autores brasileiros publicados s\u00e3o \u201c<a href=\"https:\/\/www.ufmg.br\/boletim\/bol1619\/5.shtml\">homens, brancos, ricos e heterossexuais<\/a>\u201d (palavras da autora do estudo).<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que se possa argumentar que n\u00e3o podemos relacionar sempre as coisas, ainda que cada autor possa se defender negando o seu racismo e argumentando que apenas reproduz a realidade imediata em que se insere, \u00e9 dif\u00edcil demolir com anedotas uma correla\u00e7\u00e3o t\u00e3o forte: 96% dos autores e 79% dos personagens s\u00e3o brancos.<\/p>\n\n\n\n<p>Se considerarmos que uma parte desses personagens n\u00e3o-brancos \u00e9 composta por personagens que tampouco s\u00e3o negros, \u00e9 at\u00e9 f\u00e1cil a conclus\u00e3o de que o autor brasileiro t\u00edpico n\u00e3o est\u00e1 interessado em escrever sobre negros, ou mesmo inseri-los marginalmente nas suas hist\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Vivemos em uma sociedade profundamente racista, e exatamente os maiores perpetradores e <em>perpetuadores<\/em> desse racismo esfor\u00e7am-se tremendamente para negar sua exist\u00eancia e apagar sua mem\u00f3ria definitivamente, evocando Rui Barbosa, que mandou destruir toda a documenta\u00e7\u00e3o sobre a escravid\u00e3o que havia no Arquivo Nacional (como se por meio desse ato se pudesse cancelar seus efeitos).<\/p>\n\n\n\n<p>Por muito tempo a pol\u00edtica oficial do governo brasileiro era de \u201cbranqueamento\u201d da popula\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da imigra\u00e7\u00e3o europeia. Aos rec\u00e9m-chegados, que tinham a cor de pele certa, eram concedidos empregos na ind\u00fastria, para os quais o negro n\u00e3o servia. Tinha-se, talvez, a esperan\u00e7a de que afastando o negro da civiliza\u00e7\u00e3o e seus avan\u00e7os ele acabasse por morrer ao deus-dar\u00e1, finalmente resolvendo a \u201cquest\u00e3o racial\u201d do Brasil. O negro era visto como um indesej\u00e1vel, um \u201cproblem\u00e3o\u201d, visto que era invi\u00e1vel mand\u00e1-lo de volta \u00e0 \u00c1frica e seria caro e impopular extermin\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>A solu\u00e7\u00e3o encontrada para esse \u201cproblema\u201d foi tamb\u00e9m branquear, na medida do poss\u00edvel, o pr\u00f3prio negro. A miscigena\u00e7\u00e3o foi logo vista como solu\u00e7\u00e3o, permitindo que, ap\u00f3s duas ou tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es, todos fossem considerados \u201cbrancos\u201d, pelo menos no aspecto mais tang\u00edvel do conceito.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto o negro n\u00e3o se branqueia o suficiente para ser visto e referido como um \u201cbranco\u201d, ele \u00e9 ignorado, a n\u00e3o ser onde a sua presen\u00e7a \u00e9 consp\u00edcua: a m\u00fasica, o crime, a favela. A literatura brasileira est\u00e1 cheia de obras nas quais o negro comparece como um acess\u00f3rio, at\u00e9 dif\u00edcil de notar. Em alguns dos romances mais famosos de nossas letras o negro \u00e9 um elemento da paisagem, uma parte da \u201ccor local\u201d (quando o autor resolve us\u00e1-la).<\/p>\n\n\n\n<p>Se isso j\u00e1 \u00e9 evidente na literatura dita \u201crealista\u201d (aquela que ignora a exist\u00eancia de uma \u201cminoria\u201d que perfaz uns 51% do povo do Brasil), torna-se acintoso nas literaturas especulativas. Os brasileiros, quando fantasiam o mundo conforme o seu agrado, se \u201cesquecem\u201d do Brasil, invariavelmente deixando o negro de fora. D\u00e1 para contar nos dedos os personagens de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ou de fantasia negros &#8212; mesmo em obras de cunho dist\u00f3pico, o que nos faz pensar que para muitos o negro n\u00e3o faz parte nem de seu pior pesadelo.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma rejei\u00e7\u00e3o t\u00e3o completa a retratar personagens negros, que se estende at\u00e9 mesmo a n\u00e3o inseri-los em obras de cunho dist\u00f3pico, n\u00e3o pode ser explicada pelo recurso aned\u00f3tico do \u201cmundinho\u201d com o qual o autor est\u00e1 acostumada &#8212; j\u00e1 \u00e9 caso para se pensar num silenciamento deliberado a respeito de uma parte da realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Principalmente porque o \u201cmundinho\u201d \u00e9 uma limita\u00e7\u00e3o. De um autor (ainda mais um de fic\u00e7\u00e3o especulativa) se espera uma capacidade de \u201cpensar fora da caixa\u201d. Essa \u201ccaixa\u201d n\u00e3o \u00e9 nada mais que uma met\u00e1fora insolente o pr\u00f3prio conceito do \u201cmundinho\u201d. Se voc\u00ea se limita a escrever sobre o lado de dentro de sua \u201ccaixa\u201d, \u00e9 meio rude dizer, mas \u00e9 necess\u00e1rio, voc\u00ea n\u00e3o merece se identificar um autor de \u201cfantasia\u201d, porque voc\u00ea n\u00e3o tem imagina\u00e7\u00e3o, a fantasia est\u00e1 morta e mumificada em voc\u00ea e tudo isso a que est\u00e1 chamando de sua \u201cobra\u201d nada mais \u00e9 que uma cal\u00fania contra aqueles que no passado definiram esse r\u00f3tulo.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/22448162_327584467706980_3550965514733086619_n.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5130\" width=\"362\" height=\"157\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/22448162_327584467706980_3550965514733086619_n.jpg 483w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/22448162_327584467706980_3550965514733086619_n-120x52.jpg 120w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/22448162_327584467706980_3550965514733086619_n-250x108.jpg 250w\" sizes=\"(max-width: 362px) 100vw, 362px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, o autor, <em>principalmente o autor de fantasia<\/em>, tem, sim, a obriga\u00e7\u00e3o de trabalhar com personagens negros. N\u00e3o importa se o autor \u00e9 negro, branco, oriental ou ind\u00edgena. Quem nasce, vive ou escreve no Brasil (ou sobre o Brasil) n\u00e3o pode ignorar que a nossa popula\u00e7\u00e3o cont\u00e9m, pelo menos, 50% de pessoas com qualquer grau de miscigena\u00e7\u00e3o negra, e aqui me limito \u00e0quelas pessoa que s\u00e3o ostensivamente negras ou mesti\u00e7as, deliberadamente deixo de fora os outros 50% de \u201cbrancos\u201d, dentre os quais muitos, <em>como eu<\/em>, tiveram antepassados negros.<\/p>\n\n\n\n<p>Por que digo que essa \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o principalmente de autores de literatura fant\u00e1stica? Porque os ditos \u201crealistas\u201d podem ter a desculpa de descrever o interior fascinante de sua caixa, seu lugar especial, seu mundinho. N\u00e3o s\u00e3o esses, no fim das contas, que se definem como rompedores de paradigmas, \u201cespeculadores\u201d e provocadores de reflex\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como n\u00e3o tenho mais participando ativamente dos grupos ditos de \u201cescritores\u201d em redes sociais, n\u00e3o acompanhei de perto a \u00faltima pol\u00eamica que houve, sobre uma suposta obriga\u00e7\u00e3o do autor branco escrever bons personagens negros, motivada por mais uma vez que postaram o link de um estudo acad\u00eamico sobre a diversidade. Das trevas do debate, deletado pela modera\u00e7\u00e3o somente salvaram-se tr\u00eas prints sintom\u00e1ticos de uma limita\u00e7\u00e3o da literatura do Brasil: o autor brasileiro t\u00edpico est\u00e1 distante da realidade do pa\u00eds e reproduz isso em sua cria\u00e7\u00e3o. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[181],"tags":[55,27,57,206],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5129"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5129"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5129\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6737,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5129\/revisions\/6737"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5129"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5129"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5129"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}