{"id":514,"date":"2009-08-26T23:28:00","date_gmt":"2009-08-27T02:28:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=514"},"modified":"2017-11-02T14:10:05","modified_gmt":"2017-11-02T17:10:05","slug":"cruzar-a-ponte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2009\/08\/cruzar-a-ponte\/","title":{"rendered":"Cruzar a Ponte"},"content":{"rendered":"<p>Quando passo pela ponte sinto uma vertigem que me atrai em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e1gua. \u00c9 um instante de terror em que quase me imobilizo. N\u00e3o posso correr, pois isso me desequilibraria. Tenho de ir devagar, medindo os passos e ignorando o rio ao mesmo tempo em que mantenho o olhar fixo em suas \u00e1guas regurgitantes.<\/p>\n<p>Cruzo a ponte todos os dias para ir ao trabalho. Se n\u00e3o me causasse tanta vergonha minha vertigem eu poderia encontrar algum meio de evitar cruzar a p\u00e9, mas de minha casa ao meu trabalho s\u00e3o apenas tr\u00eas minutos de caminhada e n\u00e3o seria plaus\u00edvel que eu gastasse uma passagem de \u00f4nibus para isso.<\/p>\n<p>Hoje, ao cruz\u00e1-la pela cent\u00e9sima quadrag\u00e9sima quinta vez esse ano, deparei-me com uma constata\u00e7\u00e3o bastante desconfort\u00e1vel: o rio est\u00e1 baixando. \u00c9 vis\u00edvel que a \u00e1gua j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 suficiente para cobrir as pedras do leito e que a cor das \u00e1guas, antes escura, se rarefaz aos poucos.<\/p>\n<p>A mudan\u00e7a n\u00e3o me consola e n\u00e3o muda o fato de que eu temo cruzar a ponte: se antes era terr\u00edvel o temor de talvez cair e nas \u00e1guas agitadas e turvas, agora a perspectiva \u00e9 at\u00e9 mais imediatamente terr\u00edvel: bater contra o fino len\u00e7ol l\u00edquido e atravess\u00e1-lo, atingindo as pedras do fundo ou mesmo o leito de areia compactado pela \u00e1gua de s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Estive lendo no Informativo dos Poderes Municipais que a Ponte Nova foi constru\u00edda em 1946. Isso me inquieta mais. Como pode ser Nova tendo j\u00e1 mais de cinquenta anos em seus ossos de concreto armado e em sua pele de fino asfalto? Imagino se est\u00e3o ainda firmes cada um de seus pilares, se n\u00e3o corremos o risco despencarmos todos, com nossos carros ao a atravessarmos a passeio ou a trabalho.<\/p>\n<p>No norte de Portugal uma ponte bem mais respeit\u00e1vel que esta (embora centen\u00e1ria e mais longa) ruiu e causou mortes. At\u00e9 o primeiro ministro teve de se pronunciar a respeito. Sempre que estou passando sinto a agita\u00e7\u00e3o das placas de concreto com o peso dos ve\u00edculos. \u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o nos inspira bons sentimentos. \u00c0s vezes a ponte toda se agita, com a passagem de um caminh\u00e3o ou de um \u00f4nibus lotado, como uma daquelas pontes de corda que aparecem nos filmes.<\/p>\n<p>Mas apesar do terror que me invade quotidianamente, estou preso a continuar atravessando-a todos os dias para entregar-me \u00e0 venda de minhas for\u00e7as em troca do p\u00e3o que me conserva vivo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando passo pela ponte sinto uma vertigem que me atrai em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e1gua. \u00c9 um instante de terror em que quase me imobilizo. N\u00e3o posso correr, pois isso me desequilibraria. Tenho de ir devagar, medindo os passos e ignorando o rio ao mesmo tempo em que mantenho o olhar fixo em suas \u00e1guas regurgitantes. Cruzo a ponte todos os dias para ir ao trabalho. 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