{"id":517,"date":"2009-07-20T08:02:00","date_gmt":"2009-07-20T11:02:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=517"},"modified":"2017-11-02T14:10:05","modified_gmt":"2017-11-02T17:10:05","slug":"a-mulher-do-escritor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2009\/07\/a-mulher-do-escritor\/","title":{"rendered":"A Mulher do Escritor"},"content":{"rendered":"<p>O pobre escritor est\u00e1 h\u00e1 quatro dias sem dormir direito, tentando manter fresca na mente a inspira\u00e7\u00e3o genial que teve para terminar seu romance encalacrado h\u00e1 quatorze meses. Enfrenta dias de desespero diante das p\u00e1ginas desafiadoras, tentando transferir para o papel virtual na tela do computador as palavras novas que lhe chegaram. Uma tarefa ingl\u00f3ria, uma luta contra todas as artimanhas, armadilhas e arapucas de seu grande arqui-inimigo: a esposa.<\/p>\n<p>A esposa do escritor acorda tarde e arruma a casa ao som do r\u00e1dio FM tocando m\u00fasica sertaneja e pagode. Os filhos do escritor acordam cedo e dormem tarde. A fam\u00edlia atravessa o dia em variados ciclos de ru\u00eddo, interrompidos por intervalos de sil\u00eancio que nunca chegam a ser suficientes para que uma ideia amadure\u00e7a.<\/p>\n<p>O pobre escritor tem que fazer o pr\u00f3prio caf\u00e9 porque somente ele \u00e9 capaz de preparar com duas colheres e meia de p\u00f3. Sua mulher faria com apenas uma colher e meia, resultando em um l\u00edquido de cor ligeiramente mais escura que a do guaran\u00e1 Mate Couro e que n\u00e3o acorda nem nen\u00e9m de dois meses. Ele n\u00e3o reclama de ter que buscar o p\u00e3o e fazer o caf\u00e9. Reclama da falta de sil\u00eancio. Como muitos, gastaria cada centavo de seu patrim\u00f4nio para comprar sil\u00eancio. Sempre que algu\u00e9m lhe pergunta o que deseja, mesmo no restaurante, ele sempre inclui como \u00faltimo item &#8220;algumas horas de sil\u00eancio.&#8221;<\/p>\n<p>Pobre diabo, sil\u00eancio \u00e9 mercadoria que est\u00e1 em falta. N\u00e3o vendem no restaurante, nem no supermercado, nem na feira, nem nas lojas especializadas. O ser humano, ao que parece, procura marcar sua presen\u00e7a no mundo com ru\u00eddos, ser silencioso \u00e9 como n\u00e3o existir: somente os barulhentos s\u00e3o notados, e quanto mais alto o grito, melhor. O escritor n\u00e3o compreende porque seu velho toca-discos de 90 watts de pot\u00eancia sonora \u00e9 visto com desd\u00e9m por alguns amigos. Mas imagina.<\/p>\n<p>A esposa do escritor mudou a posi\u00e7\u00e3o de todos os m\u00f3veis da biblioteca sem o seu consentimento. Agora a luz forte da janela incide diretamente sobre a tela do monitor e o arm\u00e1rio cheio de antigos discos de rock e blues est\u00e1 a tr\u00eas metros da escrivaninha, impedindo que ele, sem ter de levantar-se possa ter acesso \u00e0 sua cole\u00e7\u00e3o intermin\u00e1vel de inspira\u00e7\u00e3o musical. Escrever agora \u00e9 um ritual que tem que ser interrompido cada vez que um disco termina. E como s\u00e3o curtos os bons discos. &#8220;Deep Purple in Rock&#8221; tem meros quarenta minutos e nem uma faixa fraca. O \u00faltimo \u00e1lbum sertanejo adquirido por sua mulher tem uma hora e quinze e vende por causa de uma faixa que toca no r\u00e1dio.<\/p>\n<p>Nem todas as preocupa\u00e7\u00f5es quotidianas s\u00e3o desagrad\u00e1veis. Algumas s\u00e3o, no fundo, inspiradoras. Ontem o escritor saiu para levar o carro ao lava-jato e gastou a manh\u00e3 lendo o jornal enquanto esperava ficar limpo. Depois foi fazer turismo no hipermercado, tendo o cuidado de n\u00e3o passar pelas tentadoras se\u00e7\u00f5es de livros, inform\u00e1tica, papelaria e utilidades dom\u00e9sticas. Por\u00e9m divertiu-se muito na padaria e comprou muitos queijos ex\u00f3ticos para degustar com vinhos baratos. Essas coisas s\u00e3o inspiradoras. Voltou para casa se sentindo renovado e cheio de mais ideias para o livro. A ideia fresca na cabe\u00e7a, agitada permanentemente para n\u00e3o azedar.<\/p>\n<p>O que prejudicou foi a volta para casa. Ver a mulher reclamando de ter ficado sozinha com as crian\u00e7as, ouvi-las chorando querendo presentes que n\u00e3o comprou\u2026 Trocar a fralda do beb\u00ea enquanto a esposa cozinhava, ajudar a menina mais velha a montar o velho castelo de bonecas que j\u00e1 quase n\u00e3o para em p\u00e9. Poderiam ter sa\u00eddo para almo\u00e7ar no restaurante do outro lado da rua, mas gastou muito dinheiro em queijos finos e agora ter\u00e1 que comer o arroz grudento da mulher.<\/p>\n<p>Depois do almo\u00e7o, como todo s\u00e1bado, teve de discutir a rela\u00e7\u00e3o. Toda mulher gosta disso nos fins-de-semana, a menos que tenha ganhado joias, feito algum passeio mirabolante ou cometido uma trai\u00e7\u00e3o conjugal. Come\u00e7a com a reclama\u00e7\u00e3o de indiferen\u00e7a e sempre termina com l\u00e1grimas. O \u00fanico jeito de abreviar \u00e9 chorar junto e depois fazerem amor.<\/p>\n<p>Somente \u00e0s onze da noite o escritor teve paz, mas tamb\u00e9m sono. As crian\u00e7as e a mulher estavam dormindo, mas sua mente estava obtusa. Limitou-se a garatujar algumas id\u00e9ias desconexas numa folha de papel, usando uma caneta verde subtra\u00edda da mochila da menina. &#8220;Amanh\u00e3 termino&#8221; \u2014 ele pensou.<\/p>\n<p>A esposa do escritor acordou cedo este domingo, mas exigiu o computador durante a manh\u00e3 para atualizar seu Orkut. Ele foi compreensivo e deixou, afinal queria ver a corrida de f\u00f3rmula um. Mas depois de terminar a atualiza\u00e7\u00e3o e de checar o hor\u00f3scopo em trinta sites diferentes, ela comunicou que desejava passear. Compreensivo, ele cedeu, afinal \u00e9 domingo. Conformou-se em deixar para a noite o que j\u00e1 vinha deixando para depois a semana inteira, desde que a ideia ressurgira.<\/p>\n<p>A esposa do escritor gastou exatamente quatro horas aprontando-se e fazendo ru\u00eddo pela casa. Ru\u00eddo de secador de cabelos, ru\u00eddo de xingamentos a cada tentativa mal-sucedida de fazer uma tran\u00e7a, ru\u00eddo de coisas caindo, xingamentos para o beb\u00ea que chorava, para a menina que incomodava querendo aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando, finalmente, ficou pronta, desistiu de passear porque j\u00e1 havia ficado muito tarde. Mas talvez se desse por contente por ter conseguido impedir que ele se concentrasse durante aquelas divertidas horas em que passou molhando e secando o cabelo enquanto ele tentava pescar id\u00e9ias. Em vez de exigir um passeio que exigisse o carro, ela saiu com as crian\u00e7as e foi visitar a m\u00e3e, deixando o escritor com duas horas de tempo livre: &#8220;vou te deixar sozinho agora, voc\u00ea vai ter o reeesto da tarde para trabalhar&#8221; \u2014 disse ela, condescendente, ol\u00edmpica, como se duas horas e quinze minutos fossem tempo suficiente para traduzir Guerra e Paz para o turco, inclu\u00eddo o tempo para aprender a l\u00edngua, com flu\u00eancia de nativo.<\/p>\n<p>Sozinho em casa, verificou, espantado, que a ideia batera as asas, como uma borboleta \u2014 que \u00e9 lenta, mas n\u00e3o permanece no jardim pela eternidade. Raivoso diante da p\u00e1gina em branco que zombava de sua urg\u00eancia de terminar o romance, o escritor se vinga torturando os vizinhos com <em>heavy metal<\/em> enquanto l\u00ea piadas idiotas em um <em>blog<\/em> escrito por um adolescente <em>nerd<\/em>. Talvez uma sacudida nos neur\u00f4nios fa\u00e7a a ideia &#8220;pegar&#8221; no tranco, como um velho fusca de bateria arriada. Como n\u00e3o d\u00e1 para sacudir a cabe\u00e7a, bota m\u00fasica em alto volume para sacudir o pr\u00e9dio com a bateria de John Bonham. &#8220;Vamos ensinar bom gosto a esses abor\u00edgines&#8221;.<\/p>\n<p>Em algum lugar algu\u00e9m reage usando armas cru\u00e9is, proibidas pela conven\u00e7\u00e3o de genebra: um grupo de pagode gospel. E finalmente o escritor entende porque 90 watts s\u00e3o pouco, mesmo sendo mais do que seus sens\u00edveis ouvidos aguentam. A \u00fanica coisa a fazer \u00e9 desligar o <em>heavy metal<\/em> e ir assistir futebol. A desgra\u00e7a se completa com a derrota de seu time, que perde a lideran\u00e7a do campeonato.<\/p>\n<p>Terminado o domingo, finda a ideia, morta a inspira\u00e7\u00e3o. A esposa retorna e lhe pergunta, ternamente, como foi a tarde liter\u00e1ria: &#8220;conseguiu terminar o romance, querido?&#8221;. Ele a contempla desolado, quase indiferente. Tem vontade de perguntar se ela teria conseguido aprender a cozinhar durante o passeio na casa da m\u00e3e, mas lembra-se que n\u00e3o tem dinheiro para pagar um advogado de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>&#8220;Querido, quando vai sair o novo livro? Conseguiu um bom contrato?&#8221;<\/p>\n<p>Quando ele responde que n\u00e3o h\u00e1 novo livro (s\u00e3o j\u00e1 quatorze meses sem novo livro) e que n\u00e3o h\u00e1 contrato (a editora rescindiu por n\u00e3o cumprimento do prazo) ela sobe nas tamancas: &#8220;Mas o que voc\u00ea fica fazendo quatorze horas por dia nesse computador, vagabundo? Fica vendo porn\u00f4, aposto! E o que foi que fez hoje? Assistiu futebol?&#8221;<\/p>\n<p>O escritor ainda est\u00e1 pensando se \u00e9 mais barato divorciar-se ou cometer um assassinato.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O pobre escritor est\u00e1 h\u00e1 quatro dias sem dormir direito, tentando manter fresca na mente a inspira\u00e7\u00e3o genial que teve para terminar seu romance encalacrado h\u00e1 quatorze meses. Enfrenta dias de desespero diante das p\u00e1ginas desafiadoras, tentando transferir para o papel virtual na tela do computador as palavras novas que lhe chegaram. Uma tarefa ingl\u00f3ria, uma luta contra todas as artimanhas, armadilhas e arapucas de seu grande arqui-inimigo: a esposa. 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