{"id":5179,"date":"2017-11-02T11:59:50","date_gmt":"2017-11-02T14:59:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5179"},"modified":"2017-11-02T14:09:59","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:59","slug":"os-vendedores-os-mascates-e-os-vendilhoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/11\/os-vendedores-os-mascates-e-os-vendilhoes\/","title":{"rendered":"Os Vendedores, os Mascates e os Vendilh\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>No cen\u00e1rio liter\u00e1rio de hoje existe hoje uma cren\u00e7a generalizada de que tudo deva ser vendido <em>pela mesma pessoa que produz<\/em>. Na pr\u00e1tica, isso coloca o &#8220;vender&#8221; acima do &#8220;produzir&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 uma vis\u00e3o diferente de outras artes. Por exemplo: no cinema existem produtores, roteiristas, diretores, atores, contra-regras, oper\u00e1rios, etc. Papeis muito bem compartimentados. H\u00e1 quem trabalhe em mais de um (atores que tamb\u00e9m s\u00e3o diretores, diretores que tamb\u00e9m fazem roteiro, roteiristas que tamb\u00e9m produzem, produtores que tamb\u00e9m dirigem etc.), nem sempre em um mesmo filme.<\/p>\n<p>Sabemos muito bem que, na arte, a especializa\u00e7\u00e3o \u00e9 um fator que conduz \u00e0 qualidade. Voc\u00ea mesmo j\u00e1 deu esse conselho aqui no grupo, v\u00e1rias vezes: &#8220;fa\u00e7a aquilo que mais gosta de fazer&#8221;, &#8220;dedique-se ao que faz de melhor&#8221; etc.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/vendedor-223x300.jpg\" alt=\"\" width=\"223\" height=\"300\" class=\"alignright size-medium wp-image-5180\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/vendedor-223x300.jpg 223w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/vendedor-112x150.jpg 112w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/vendedor.jpg 363w\" sizes=\"(max-width: 223px) 100vw, 223px\" \/><\/p>\n<p>A especializa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m significa que nos sa\u00edmos bem naquilo em que nos especializamos <em>e naquilo que se parece com aquilo em que nos especializamos<\/em>. Existe uma raz\u00e3o pela qual tantos professores e jornalistas escrevem: \u00e9 que eles j\u00e1 trabalham com palavras, j\u00e1 t\u00eam contato com fontes de hist\u00f3rias e frequentemente s\u00e3o cobrados a produzir conte\u00fado bem estruturado.<\/p>\n<p>Quando somos for\u00e7ados a fazer simultaneamente duas coisas muito diferentes, a qualidade de pelo menos uma delas necessariamente sofre. N\u00e3o se pode assobiar e chupar cana. N\u00e3o se pode ter uma &#8220;f\u00e1brica de biscoitos amanteigados e detergente l\u00edquido&#8221;.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o \u00f3bvia \u00e9 que se o autor precisar ser ao mesmo tempo o autor e o divulgador\/vendedor da pr\u00f3pria obra, uma das duas coisas ele far\u00e1 mal ou, no m\u00e1ximo, n\u00e3o far\u00e1 t\u00e3o bem quanto poderia fazer se tivesse a possibilidade de maior dedica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em um mundo ideal haveria profissionais da escrita (escritores) e profissionais da divulga\u00e7\u00e3o (agentes), relacionados a profissionais da produ\u00e7\u00e3o\/dire\u00e7\u00e3o (editores) e profissionais das vendas (livreiros, marketeiros).<\/p>\n<p>Sabemos que esse mundo ideal n\u00e3o existe e que no Brasil o mercado editorial padece de muitas deformidades. Ent\u00e3o deixemos de lado o idealismo.<\/p>\n<p>No mundo real muitos dos editores n\u00e3o querem produzir\/dirigir, dos agentes n\u00e3o querem procurar talentos, dos vendedores n\u00e3o querem se esfor\u00e7ar e dos escritores n\u00e3o querem escrever.<\/p>\n<p>Isso leva ao cinismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s possibilidades do mercado editorial, visto que muitas vezes a procura por uma editora termina na &#8220;porta&#8221; metaf\u00f3rica de uma &#8220;vanity press&#8221;.<\/p>\n<p>O autor \u00e9 levado, ent\u00e3o, \u00e0 ideia de escrever, produzir, divulgar e vender a pr\u00f3pria obra (autopublica\u00e7\u00e3o). Alguns s\u00e3o bem sucedidos nisso (os que t\u00eam talento para a parte comercial). Outros n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o bem sucedidos (n\u00e3o t\u00eam o mesmo talento ou s\u00e3o desfavorecidos por sua localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, sua forma\u00e7\u00e3o cultural ou por escreverem para um nicho).<\/p>\n<p>Os autores mais bem-sucedidos v\u00e3o se dedicar a difundir a pr\u00f3pria obra, mesmo que seja ruim, e frequentemente usar\u00e3o o poder influ\u00eancia que conseguem para <em>prejudicar<\/em> autores mais talentosos, por\u00e9m n\u00e3o t\u00e3o bem sucedidos, a quem invejam ou contra quem guardam rancor por cr\u00edticas do passado.<\/p>\n<p>Paulo Coelho admite que tem um &#8220;livro negro&#8221; com nomes de pessoas contra quem revidar\u00e1 se elas algum dia dependerem dele para algo. Raphael Draccon j\u00e1 deu entrevista dizendo que procura para os selos editoriais onde tem influencia somente autores que n\u00e3o criticam ningu\u00e9m e que, sim, pesquisa a influ\u00eancia do autor nas redes sociais, n\u00e3o s\u00f3 para avaliar seu alcance, mas tamb\u00e9m para verificar se suas opini\u00f5es n\u00e3o se chocam com as dele.<\/p>\n<p>O resultado final desse estado de coisas \u00e9 que temos uma literatura dominada por bons vendedores em vez de bons produtores de conte\u00fado. Porque aqueles que s\u00e3o bons em difundir n\u00e3o admitem exercer um papel de ponte entre o mercado e o trabalho daqueles que s\u00e3o bons em produzir porque, ehem, isso requereria a qualidade mais rara dos dias atuais, a humildade.<\/p>\n<p>N\u00e3o que eu ache que seja <em>poss\u00edvel<\/em> no contexto capitalista, existir um outro estado de coisas. Eu n\u00e3o acho.<\/p>\n<p>A falta de humildade \u00e9 um requisito do capitalismo competitivo: todos precisam dar-se valor, precisam apregoar as pr\u00f3prias qualidades (e denegrir as dos outros) para buscarem um escasso lugar ao sol. Apesar do que dizem os gurus da autoajuda, n\u00e3o h\u00e1 lugar para todo mundo. Quem vai chegar l\u00e1? Aqueles que conseguirem abrir o caminho a cotoveladas.<\/p>\n<p>Talvez a grande novidade que temos visto nos \u00faltimos anos \u00e9 que os autores comercialmente bem-sucedidos &mdash; que antes se contentavam em vender mais, ficar ricos, comprar iates e namorar gente bonita &mdash; agora exigem tamb\u00e9m aquilo que antes se dava como pr\u00eamio de consolo aos &#8220;fracassados&#8221;: trof\u00e9us, elogios da cr\u00edtica, vagas em academias etc.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No cen\u00e1rio liter\u00e1rio de hoje existe hoje uma cren\u00e7a generalizada de que tudo deva ser vendido pela mesma pessoa que produz. 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