{"id":518,"date":"2009-06-06T07:38:00","date_gmt":"2009-06-06T10:38:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=518"},"modified":"2017-11-02T14:10:05","modified_gmt":"2017-11-02T17:10:05","slug":"secretaria-eletronica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2009\/06\/secretaria-eletronica\/","title":{"rendered":"Secret\u00e1ria Eletr\u00f4nica"},"content":{"rendered":"<p>Um dia Mariana abandonou Roberto, sem explica\u00e7\u00f5es e sem rituais. Apenas foi-se embora de sua vida, sem que mesmo fosse para ir viver com outro homem. Revoltado, magoado, diminu\u00eddo, ele passou dias remoendo a raiva, impotente.<\/p>\n<p>Por fim rendeu-se \u00e0 paix\u00e3o: ligou para o aux\u00edlio \u00e0 lista e descobriu seu novo telefone. Sem pensar duas vezes, ligou para fazer juras de amor, na esperan\u00e7a da volta. Debalde, quem atendeu foi a secret\u00e1ria eletr\u00f4nica:<\/p>\n<p>&mdash; Aqui \u00e9 3666\u20134545. Por favor, deixe seu recado ap\u00f3s o sinal.<\/p>\n<p>Mesmo ouvindo a voz met\u00e1lica, suspirou e deu seu recado:<\/p>\n<p>&mdash; Meu amor, preciso de voc\u00ea. Por que me deixou assim? Me ignora\u2026 Se foi algo que disse, algo que fiz, pelo menos me diga para que possa tentar me desculpar e consertar. N\u00e3o tenha receio de mim, abra seu cora\u00e7\u00e3o. Preciso de voc\u00ea. Me responda, por favor\u2026<\/p>\n<p>Disse sem muita esperan\u00e7a, sabendo que estava sendo desastrado. Mas como escolher as palavras certas se o cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 quente e o sangue sobe com for\u00e7a pela car\u00f3tida? Disse o que lhe veio \u00e0 mente, na esperan\u00e7a de funcionar.<\/p>\n<p>N\u00e3o recebeu resposta, l\u00f3gico. Isso o irritou razoavelmente. No dia seguinte tentou de novo, pela manh\u00e3:<\/p>\n<p>&mdash; Aqui \u00e9 3666\u20134545. Por favor, deixe seu recado ap\u00f3s o sinal.<\/p>\n<p>&mdash; Meu amor, sei que n\u00e3o deve achar isso certo, mas preciso falar com voc\u00ea. Entender por que voc\u00ea me rejeita. Por favor, me ligue.<\/p>\n<p>N\u00e3o esperou que respondesse: foi trabalhar. Ligou de novo na hora do almo\u00e7o, ouvindo outra vez aquela sauda\u00e7\u00e3o maquinal. Outra vez protestou juras de afeto perdido, implorando respostas, murmurando esperan\u00e7as v\u00e3s. Declarando amor total.<\/p>\n<p>Voltou ao trabalho e s\u00f3 tentou de novo \u00e0 noite. Ent\u00e3o demorou bem mais, quase meia hora de suaves palavras entrecortas pelos intervalos de rediscagem. Chegou a tocar m\u00fasica, mesmo sabendo que apenas a secret\u00e1ria eletr\u00f4nica ouvia e que quando Mariana voltasse apagaria suas mensagens sem ouvir.<\/p>\n<p>Assim foi pelos dias seguintes, v\u00e1rias vezes. Nunca recebia resposta, mas continuava ligando, pela manh\u00e3, \u00e0 tarde e \u00e0 noite. Duas semanas durou essa rotina de lam\u00farias telef\u00f4nicas. Durou at\u00e9 os cr\u00e9ditos da sua conta telef\u00f4nica pr\u00e9-paga com limitador de custos chegarem ao fim. Ainda voltou a ligar mais umas vezes, usando o telefone m\u00f3vel, mas n\u00e3o foi a mesma coisa. Detestava. Aparelho sem privacidade, desconfort\u00e1vel seu calor na orelha. Desistiu logo da primeira vez, nem chegou a dizer muita coisa.<\/p>\n<p>Chegou um novo m\u00eas e novos cr\u00e9ditos gerados pelo pagamento em dia da conta. Voltou a ligar, mas com menor frequ\u00eancia: somente \u00e0 noite, quando a solid\u00e3o batia mais forte. Por fim ligava apenas semanalmente e foi at\u00e9 que desistiu.<\/p>\n<p>Ficou tr\u00eas semanas sem ligar. Lambia em paz suas feridas e j\u00e1 se sentia at\u00e9 pronto para embarcar em outro relacionamento. Ocasionalmente at\u00e9 sentia um \u00edmpeto de pegar o telefone e ligar outra vez, mas tomara a firme decis\u00e3o de n\u00e3o faz\u00ea-lo nunca mais: &#8220;Sofrerei, mas n\u00e3o mais vou me ajoelhar diante de Mariana&#8221;.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o chegou o sexto s\u00e1bado desde o in\u00edcio de sua solid\u00e3o. Estava em casa assistindo uma com\u00e9dia, mamando leite condensado da lata, enrolado em um cobertor por causa do frio do inverno paulista, quando tocou o telefone, algo que n\u00e3o acontecia h\u00e1 v\u00e1rios dias.<\/p>\n<p>Atendeu devagar, j\u00e1 se perguntando quem poderia ser. Do outro lado uma voz met\u00e1lica familiar, por\u00e9m com alguma coisa que parecia ter mudado, pronunciava entre chiados e est\u00e1tica:<\/p>\n<p>&mdash; Aqui \u00e9 3666\u20134545. <em>Por favor<\/em>, deixe seu recado ap\u00f3s o sinal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dia Mariana abandonou Roberto, sem explica\u00e7\u00f5es e sem rituais. Apenas foi-se embora de sua vida, sem que mesmo fosse para ir viver com outro homem. Revoltado, magoado, diminu\u00eddo, ele passou dias remoendo a raiva, impotente. Por fim rendeu-se \u00e0 paix\u00e3o: ligou para o aux\u00edlio \u00e0 lista e descobriu seu novo telefone. Sem pensar duas vezes, ligou para fazer juras de amor, na esperan\u00e7a da volta. Debalde, quem atendeu foi a secret\u00e1ria eletr\u00f4nica: &mdash; Aqui \u00e9 3666\u20134545. Por favor, deixe seu recado ap\u00f3s o sinal. 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