{"id":52,"date":"2013-04-24T00:16:00","date_gmt":"2013-04-24T03:16:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=52"},"modified":"2017-11-23T21:09:46","modified_gmt":"2017-11-24T00:09:46","slug":"queime-um-livro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/04\/queime-um-livro\/","title":{"rendered":"Queime um Livro"},"content":{"rendered":"<p>Deparei-me hoje com a campanha do <a href=\"http:\/\/litfanbr.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\">Literatura Fant\u00e1stica Brasileira<\/a> contra o que consideram m\u00e1 literatura e me confesso meio espantado com o teor desta. Primeiro porque sou c\u00e9tico quanto a crit\u00e9rios absolutos para avaliar a qualidade de produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas: como todo mundo que conhece a hist\u00f3ria da literatura, tenho uma saud\u00e1vel sensa\u00e7\u00e3o de que a exclus\u00e3o de algo por ser ruim soa como academicismo, que j\u00e1 fez muito mal \u00e0 arte no passado. Segundo porque a ideia de queimar um livro ruim me agride a sensibilidade como algo que lembra os autos de f\u00e9 da Inquisi\u00e7\u00e3o ou a Alemanha nazista.<\/p>\n<div id=\"attachment_1470\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/fahrenheit.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1470\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/fahrenheit-300x231.jpg\" alt=\"Cena do filme Fahrenheit 451, de Fran\u00e7ois Truffaut\" width=\"300\" height=\"231\" class=\"size-medium wp-image-1470\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1470\" class=\"wp-caption-text\">Cena do filme Fahrenheit 451, de Fran\u00e7ois Truffaut.<\/p><\/div>\n<p>Hoje foi o dia do livro, quem quis aderir \u00e0 campanha j\u00e1 aderiu, ent\u00e3o minha postagem ser\u00e1 in\u00f3cua para salvar das chamas alguma obra preconceituada como criatura de um charlat\u00e3o. Escrevo, por\u00e9m, na expectativa de algumas das pessoas envolvidas nisso ponham a m\u00e3o na cabe\u00e7a e reflitam sobre o que dizem.<\/p>\n<h3>Autores como &#8220;charlat\u00e3es&#8221;.<\/h3>\n<p>Suponho educadamente que o autor do texto em quest\u00e3o conhece o significado do termo (supor diferente seria insultuoso), ent\u00e3o tenho de ver nesta discrimina\u00e7\u00e3o a tentativa de dizer que alguns autores cobram dinheiro dos leitores para resolver seus problemas, ou que, supostamente, vendem algo que n\u00e3o entregam. N\u00e3o me parece uma forma correta de analisar o mercado, mesmo que consideremos a literatura de auto-ajuda como uma esp\u00e9cie de engodo para pessoas inseguras.<\/p>\n<p>Charlatanismo \u00e9 crime, ent\u00e3o a acusa\u00e7\u00e3o \u00e9 grave. N\u00e3o no sentido de ensejar repara\u00e7\u00e3o judicial, mas grave no sentido de agredir profundamente a reputa\u00e7\u00e3o de quem a recebe.<\/p>\n<p>O problema de chamar um autor de &#8220;charlat\u00e3o&#8221; n\u00e3o est\u00e1 na ofensa em si, mas na arbitrariedade envolvida em qualquer ju\u00edzo de valor liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>N\u00e3o foram poucos os autores desprezados em seu tempo que tiveram reconhecimento p\u00f3stumo, e nem raros os que come\u00e7aram a ser esquecidos antes que seu cad\u00e1ver acabasse de esfriar. Quando voc\u00ea chama um autor de charlat\u00e3o, corre um grande risco: o de passar a hist\u00f3ria como um S\u00edlvio Romero, que dedicou a vida a difamar Machado de Assis. Voc\u00ea pode estar criando obst\u00e1culos para o desenvolvimento e o reconhecimento de algu\u00e9m que tem um talento maior que o seu e ficar como vil\u00e3o na hist\u00f3ria. Ou pode vir a ser chamado futuramente de &#8220;charlat\u00e3o&#8221; por suas teses sobre o valor liter\u00e1rio das obras n\u00e3o terem valor.<\/p>\n<h3>A Necess\u00e1ria Humildade<\/h3>\n<p>Escritores, como os que cooperam no Literatura Fant\u00e1stica Brasileira, precisam ter uma dose de humildade ao comentar o trabalho alheio, porque \u00e9 sabido que a especializa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma regra entre os literatos, sendo raros os capazes de tudo. Na especializa\u00e7\u00e3o encontramos os grandes romancistas, como Machado (que como cr\u00edtico foi bom a ponto de desancar E\u00e7a de Queir\u00f3s), e de outro um Otto Maria Carpeaux, que nada escreveu de fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, se os bons autores que militam no LitFanBr se acham bons no que fazem, n\u00e3o devem se arrogar muita autoridade para desqualificar a porcaria que outros fa\u00e7am, porque raramente algum M\u00e1rio de Andrade haver\u00e1 por l\u00e1 (que foi bom em poesia, fic\u00e7\u00e3o, estudo folcl\u00f3rico e cr\u00edtica). Se n\u00e3o tiverem humildade correm o risco de cometer injusti\u00e7as ou, pior, fazerem afirma\u00e7\u00f5es absurdas que no futuro depor\u00e3o contra sua reputa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo assim eu nem escreveria este texto caso se limitassem a dizer que h\u00e1 escritores charlat\u00e3es. Porque, embora n\u00e3o cite nomes (tampouco eles citaram), tamb\u00e9m penso que h\u00e1 gente por a\u00ed vendendo livro a quilo.<\/p>\n<h3>A Proposta<\/h3>\n<p>O que me convidou a escrever \u00e9 o convite para queimar, com a desculpa de que \u00e9 preciso <i>evitar a leitura<\/i> do livro ruim:<\/p>\n<blockquote><p>\n  Hoje, dia 23 de abril, comemora-se o dia do livro e n\u00f3s do blog n\u00e3o poder\u00edamos deixar uma data t\u00e3o importante passar em branco.<\/p>\n<p>  Ainda que os ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o tenham ignorado completamente a data (fato compreens\u00edvel uma vez que o tema n\u00e3o se relaciona \u00e0 nenhuma minoria discriminada) n\u00f3s cumpriremos, novamente, nosso papel em prol da &#8220;limpeza&#8221; do meio liter\u00e1rio.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Tenho medo de quem se prop\u00f5e a limpar o mundo, porque a sujeira \u00e9 algo subjetivo. Hoje queremos excluir do mundo os livros ruins, amanh\u00e3 poderemos redefinir ruindade liter\u00e1ria, outro dia poderemos pensar em perseguir obras imorais (vejam a campanha contra o <i>funk<\/i>, que procura criminalizar a incultura do povo). Apesar de concordar que h\u00e1 muito livro que n\u00e3o merece ser lido (e que o <i>funk<\/i> \u00e9 algo que devemos eliminar de nosso seio, em nome dos valores da civiliza\u00e7\u00e3o), acho que as campanhas de limpeza s\u00e3o fascistas. N\u00e3o devemos &#8220;queimar&#8221; o que \u00e9 sujo, devemos criar um mundo no qual a sujeira n\u00e3o fa\u00e7a sentido.<\/p>\n<blockquote><p>\n  At\u00e9 meia-noite (falta pouco, mas d\u00e1 tempo) queime aquele livro terr\u00edvel, mal escrito, mal revisado ou que simplesmente voc\u00ea tenha odiado.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Inicialmente a ideia era queimar os livros <em>objetivamente ruins<\/em>, mas logo o autor se deixa seduzir pelo \u00edmpeto normativo e passa a redefinir a ruindade absoluta como afim a ruindades relativas ou diverg\u00eancias de gosto. Que mundo \u00e9 esse no qual somos convidados a queimar os livros dos quais simplesmente n\u00e3o tenhamos gostado? Ser\u00e1 que outra pessoa n\u00e3o poderia gostar? Ser\u00e1 que a incompet\u00eancia do revisor ou do editor anula o valor liter\u00e1rio do texto entregue pelo autor? Devemos queimar o autor porque n\u00e3o teve a sorte de ser bem editado? Ser\u00e1 que j\u00e1 n\u00e3o tivemos fogueiras demais, de livros e de gente, nesse mundo t\u00e3o intolerante?<\/p>\n<blockquote><p>\n  Evite que outra pessoa, assim como voc\u00ea, percam seu tempo lendo uma porcaria enquanto poderiam assistir Ana Maria Braga, V\u00eddeo Show ou alguma novela.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Obviamente a alus\u00e3o a esses p\u00e9ssimos programas de televis\u00e3o \u00e9 feita por humorismo, ainda que n\u00e3o tenha gra\u00e7a. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds onde as pessoas acham engra\u00e7ado ofender os outros, voc\u00ea xinga algu\u00e9m indefeso e chama isso de &#8220;humorismo&#8221;. Nada \u00e9 mais engra\u00e7ado que um cachorro morto, na cabe\u00e7a de quem o chuta. Mas que sentido h\u00e1 em fazer humor com a alus\u00e3o de que ver televis\u00e3o seria melhor que ler um livro ruim? J\u00e1 n\u00e3o temos suficiente desest\u00edmulo \u00e0 leitura nesse pa\u00eds? Ser\u00e1 que at\u00e9 na hora de fazer &#8220;humorismo&#8221; a gente deve depreciar a leitura, especialmente considerando que muitos maus leitores n\u00e3o perceber\u00e3o a ironia?<\/p>\n<blockquote><p>\n  Queime tamb\u00e9m na internet, divulgue para seus parentes, amigos (e por que n\u00e3o para os inimigos tamb\u00e9m?) e conhecidos aquele livro p\u00e9ssimo que fez voc\u00ea se arrepender de ter lido.\n<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o gostar de uma obra agora \u00e9 justificativa para iniciar uma cruzada contra o autor. N\u00e3o limitada a opinar, mas tamb\u00e9m incluindo uma campanha de divulga\u00e7\u00e3o negativa.<\/p>\n<blockquote><p>\n  Resumindo: queime o escritor lazarento que o convenceu a comprar a desgra\u00e7ada obra que hoje sequer serve para limpar o traseiro pela qualidade do papel em que foi impresso!\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Por meton\u00edmia, o objetivo \u00e9 queimar o escritor, n\u00e3o a obra. N\u00e3o se trata de atacar a qualidade insuficiente de um livro mal escrito, mal editado ou mal impresso, ou apenas mal amado. A proposta \u00e9 a de ir al\u00e9m, destruir a reputa\u00e7\u00e3o do infeliz autor, n\u00e3o importa se foi enganado por uma editora que parecia competente, n\u00e3o importa se os defeitos de uma estreia n\u00e3o chegam a anular o brilho de um talento que ainda pode ser polido, n\u00e3o importa se sua rejei\u00e7\u00e3o pode ser quest\u00e3o de gosto! Queimemos o lazarento!<\/p>\n<p>O que mais espanta nesta convoca\u00e7\u00e3o \u00e9 que o convite \u00e9 para queimar obras que foram lidas, mas de que o leitor n\u00e3o gostou. Parece claro que o convite reflete mais a frustra\u00e7\u00e3o de encontrar um final insatisfat\u00f3rio ou uma trama que n\u00e3o atende aos anseios do leitor. Um livro realmente ruim n\u00e3o consegue levar o autor pela m\u00e3o at\u00e9 o fim: eu dificilmente chego a vinte p\u00e1ginas se a obra for realmente ruim. <em>Se o livro chegou a ser lido, \u00e9 porque o autor teve a compet\u00eancia de trazer o leitor consigo at\u00e9 o ponto final<\/em>. Ent\u00e3o o livro n\u00e3o \u00e9 &#8220;ruim&#8221; que mere\u00e7a ser queimado.<\/p>\n<h3>O Leitor Ruim<\/h3>\n<p>O leitor, mesmo que tamb\u00e9m seja escritor (ou pense ser), n\u00e3o tem o direito de se sentir assim. O autor n\u00e3o escreve pensando em satisfazer cada um dos milh\u00f5es de egos que o ler\u00e3o. Quem pense nisso gastar\u00e1 mais tempo refletindo sobre o que deveria escrever do que escrevendo. Se voc\u00ea achou frustrante a obra que leu, isto, claro, pode significar que ela \u00e9 ruim, mas pode tamb\u00e9m significar que voc\u00ea \u00e9 um <em>leitor ruim<\/em>.<\/p>\n<p>Um leitor ruim \u00e9 aquele que n\u00e3o seleciona o que l\u00ea, que aceita ser enganado por um &#8220;charlat\u00e3o&#8221; porque n\u00e3o tem a capacidade de abandonar uma leitura insatisfat\u00f3ria porque respeita excessivamente o fetiche do livro. Precisa ir at\u00e9 o final para concluir que a obra n\u00e3o presta, tal como a v\u00edtima do charlat\u00e3o chega a lhe entregar im\u00f3veis e fortunas em troca de promessas de curas ou prazeres, antes de se convencer de que talvez ele n\u00e3o seja mensageiro de Deus. O leitor ruim \u00e9 aquele que acha que todas as obras precisam satisfaz\u00ea-lo superficialmente, atendendo aos rumos que ele queria que a hist\u00f3ria tomasse.<\/p>\n<h3>O Livro Ruim<\/h3>\n<p>Mas nem toda frustra\u00e7\u00e3o com um livro \u00e9 resultado da ruindade de quem l\u00ea. Livros ruins n\u00e3o s\u00e3o lenda. Muito embora alguns sejam t\u00e3o ruins que causem c\u00e2ncer. Por\u00e9m toda frustra\u00e7\u00e3o com um livro reflete uma postura acr\u00edtica, uma falta de distanciamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 obra.<\/p>\n<p>O leitor ruim n\u00e3o consegue criticar com propriedade porque ele acha que o livro \u00e9 um rem\u00e9dio para suas car\u00eancias (afetivas ou emocionais) e que a falha em supri-las \u00e9 um crime (da\u00ed achar que o autor \u00e9 um charlat\u00e3o). Por isso, antes de queimar os livros de que n\u00e3o gosta, convido-o a do\u00e1-los a uma biblioteca. Os que realmente forem ruins n\u00e3o ser\u00e3o lidos, ou l\u00e1 encontrar\u00e3o um merecido algoz. Do espa\u00e7o aberto em sua prateleira o leitor dependente poder\u00e1 fazer bom uso, com vasos de flores ou estatuetas de cer\u00e2mica. <em>N\u00e3o aumentemos a temperatura do mundo queimando aquilo que achamos que n\u00e3o presta. Chamas n\u00e3o s\u00e3o argumentos, a n\u00e3o ser contra os que as acendem.<\/em><\/p>\n<h3>Uma Proposta Melhor<\/h3>\n<p>Em vez de reclamar que muitos de seus livros s\u00e3o ruins, que tal come\u00e7armos um exerc\u00edcio de julgamento antes de empatar dezesseis horas lendo um romance mal escrito? Se tem uma coisa na qual os livros ruins s\u00e3o realmente bons \u00e9 na ruindade: ruindade n\u00e3o precisa de costume, voc\u00ea enxerga o abantesma em poucos par\u00e1grafos, \u00e0s vezes at\u00e9 na sinopse. Se voc\u00ea escolhe casar com o livro e depois se frustra, \u00e9 porque n\u00e3o escolheu bem no come\u00e7o, deixou-se levar pelo que era acess\u00f3rio (como capas, meu Deus, como se vende livro pela capa!) ou pelo que era ilus\u00f3rio (como campanhas compradas de divulga\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Em nome da paz e da reciclagem de papel (e de ideias), n\u00e3o queime. Mas continue gostando e n\u00e3o gostando do que quiser. Apenas reconhe\u00e7a que todos n\u00f3s podemos estar enganados. N\u00f3s s\u00f3 damos ao mundo a <i>certeza <\/i>de que realmente estamos quando procuramos impedir tudo que de n\u00f3s discorde.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Deparei-me hoje com a campanha do Literatura Fant\u00e1stica Brasileira contra o que consideram m\u00e1 literatura e me confesso meio espantado com o teor desta. 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