{"id":525,"date":"2009-04-19T22:24:00","date_gmt":"2009-04-20T01:24:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=525"},"modified":"2018-05-23T20:07:02","modified_gmt":"2018-05-23T23:07:02","slug":"a-livraria-do-futuro-do-preterito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2009\/04\/a-livraria-do-futuro-do-preterito\/","title":{"rendered":"A Livraria do Futuro do Pret\u00e9rito"},"content":{"rendered":"<p>Existe uma certa magia nas grandes, labir\u00ednticas cidades e suas ruas. Uma magia que seduz principalmente aos acostumados com os horizontes curtos de Minas Gerais, onde o h\u00e1bito de contemplar montanhas bloqueia os voos da imagina\u00e7\u00e3o de quem n\u00e3o ousa escalar os topos para descortinar uma vista aberta. Certas cidades possuem um ar ainda mais labir\u00edntico e um fasc\u00ednio ainda mais palp\u00e1vel do que outras porque justamente colocam lado a lado coisas diversas e surpresas inesperadas. Tal \u00e9 o caso de Juiz de Fora, com seus quarteir\u00f5es em formatos estranhos, variando entre quadrados, paralelogramos e tri\u00e2ngulos, com suas avenidas retas e, mais que tudo, suas galerias convolutas que escondem lojas e outra galerias que escondem lojas e outras galerias, que escondem, no fim de corredores onde nunca o sol chega diretamente, lugares inauditos, cheios de experi\u00eancias que fazem as pupilas do jovem interiorano se expandirem: lojas e outras galerias.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/319px-Shakespeare_and_Company_bookshop.jpg\" alt=\"\" width=\"319\" height=\"240\" class=\"alignleft size-full wp-image-5909\" srcset=\"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/319px-Shakespeare_and_Company_bookshop.jpg 319w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/319px-Shakespeare_and_Company_bookshop-120x90.jpg 120w, https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2009\/04\/319px-Shakespeare_and_Company_bookshop-250x188.jpg 250w\" sizes=\"(max-width: 319px) 100vw, 319px\" \/><\/p>\n<p>H\u00e1 uma destas que parece a entrada de um universo de fantasia, o portal para um tempo-espa\u00e7o onde as leis da F\u00edsica e o rumo da Hist\u00f3ria seguiram uma dire\u00e7\u00e3o alternativa. Voc\u00ea entra ao lado do Cine Central, passa por entre as mesas de um restaurante, penetra por um sombrio corredor meio iluminado por l\u00e2mpadas fluorescentes onde abundam lojas pequenas, com amplas vitrines de vidro que exp\u00f5em de roupas a discos e bugigangas, tudo de estilos que destoam do comum. As pessoas que frequentam o lugar se vestem de um jeito diferente, maquiam-se mais e cortam o cabelo de jeitos incomuns. Usam acess\u00f3rios e tatuagens que podem chocar at\u00e9 aos olhos de algu\u00e9m acostumado a lugares e mentes pequenas.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 exatamente nesta primeira galeira que se acha aquilo que me levou a escrever. Se chegar ao fim dela, perceber\u00e1 que ali h\u00e1 uma bifurca\u00e7\u00e3o, duas galerias dentro do fim da primeira galeria. Cada uma destas galerias possui outra bifurca\u00e7\u00e3o no final, segundo me disseram, e \u00e9 poss\u00edvel que este esquema fractal se reproduza ao infinito levando a outras dimens\u00f5es. \u00c9 poss\u00edvel porque nunca fui verificar e o desconhecido esconde a possibilidade do imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Nem \u00e9 neste improv\u00e1vel labirinto que eu a encontrei, mas em uma escada estreita que aparece, *\u00e0s vezes*, e devo enfatizar essa condi\u00e7\u00e3o, no meio da galeria secund\u00e1ria, \u00e0 direita. Subindo por ali, n\u00e3o h\u00e1 elevador, chega-se a uma sobre-loja, onde c\u00f4modos comerciais abrigam v\u00e1rios tipos de neg\u00f3cios e \u00f3cios e tamb\u00e9m portas vazias que eu nunca abri, outras escadas que parecem e n\u00e3o parecem existir. Estava ali, no segundo andar deste pr\u00e9dio t\u00e3o no centro e ao mesmo tempo t\u00e3o longe a livraria de que lhe falei.<\/p>\n<p>Eu sei, Beto, que voc\u00ea \u00e9 um c\u00e9tico empedernido, desses que descr\u00ea at\u00e9 do caf\u00e9 que toma, mas acredite, pelo menos, em mim que sou seu amigo e conhecido h\u00e1 tantos anos.<\/p>\n<p>&mdash; Voc\u00ea sabe muito bem, meu caro, que n\u00e3o sou dos que aceitam essas coisas m\u00edsticas. Qualquer prova disso seria um disparate, seria quase como, de repente, choverem sapos.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Ent\u00e3o, voc\u00ea tem que ver isso, Beto. \u00c9 o lugar mais estranho onde j\u00e1 estive.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Eu duvido, mas estou indo contigo. N\u00e3o \u00e9 que eu espere ter a prova, ou que desconfie do amigo, mas esse lugar de que fala \u00e9 algo de que j\u00e1 ouvi falar duas vezes.<\/p>\n<p>&mdash; Duas vezes?<\/p>\n<p>&mdash; Sim. Da primeira vez que li sobre esse lugar foi em uma Playboy muito antiga, que estava na cole\u00e7\u00e3o de meu finado pai. Era um conto traduzido, de um americano chamado N\u00e9lson Bond. Eu achei uma hist\u00f3ria do caralho, mas depois descobri que ele e o Jorge Luis Borges tinham se estranhado com acusa\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas de pl\u00e1gio, uma ideia dessas que aparece, \u00e0s vezes, em dois lugares ao mesmo tempo. Jung chamava isso de \u201csincronicidade\u201d, eu chamo de um mero efeito da quantidade limitada de poss\u00edveis hist\u00f3rias que algu\u00e9m pode contar.<\/p>\n<p><center>***<\/center><\/p>\n<p>Eu o encontrara casualmente naquela manh\u00e3, enquanto tomava um caf\u00e9 e comia uma fatia de broa de fub\u00e1 em um bar qualquer da Halfeld. \u00c9ramos amigos de muitos anos, mas fazia um bom tempo j\u00e1 que n\u00e3o nos v\u00edamos. Por isso ele, que me viu pelas costas antes que eu o notasse, fez quest\u00e3o de entrar, cumprimentar-me e pedir para si um caf\u00e9 tamb\u00e9m. Gastamos uma boa hora ali, conversando animados sobre os anos que viv\u00earamos em separado, adiantando planos e, na maior parte do tempo, pondo em revista perspectivas, realizadas ou n\u00e3o, desde que nos fal\u00e1ramos da outra vez.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei direito como foi que o assunto da Livraria surgiu. Lembro-me vagamente de um coment\u00e1rio, n\u00e3o sei dele ou meu, sobre livros que parecem maravilhosos, mas s\u00e3o t\u00e3o ralos e ruins de conte\u00fado que talvez n\u00e3o devessem ter sido escritos, que deviam ter ficado no sonho do autor, mais talentoso em sinopses e t\u00edtulos do que para contar a hist\u00f3ria. N\u00e3o sei nem mesmo se esse coment\u00e1rio aconteceu ou se minha mem\u00f3ria seletiva deturpou o registro da conversa inserindo esta explica\u00e7\u00e3o racional para o fato de, apenas sa\u00eddos do bar, termos subido a rua juntos, entre gargalhadas, como dois colegiais narrando perip\u00e9cias de fim de semana, e entrado pela obscura galeria. S\u00f3 sei que come\u00e7amos nosso p\u00e9riplo com um convite meu, cujos termos ainda tenho em mente:<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Ent\u00e3o tem um lugar, aqui bem perto, que voc\u00ea gostaria muito de conhecer. Vamos l\u00e1 comigo. Eu o conheci por acaso, n\u00e3o sei exatamente o que estava procurando. Entrei por uma galeria e peguei uma escada diferente, que nunca tinha visto. De repente eu estava no corredor do segundo andar, entre uma loja de discos antigos e raros e uma de artesanatos ex\u00f3ticos. Dobrei a esquina do corredor e vi uma porta entreaberta, com um cartaz improvisado em sulfite e escrito com pincel at\u00f4mico verde, em letras que imitavam pessimamente uma caligrafia cursiva medieval: &#8220;Livraria Futuro do Pret\u00e9rito&#8221;.<\/p>\n<p>&#8212; &#8220;Futuro do Pret\u00e9rito&#8221; \u00e9 mesmo um nome genial para uma livraria. Se eu visse esse cartaz pensaria de imediato que era uma livraria onde se vendem livros que teriam sido escritos.<\/p>\n<p>&#8212; \u00a0Voc\u00ea \u00e9 mais perspicaz do que eu, Beto. J\u00e1 lhe disse isso um monte de vezes. Eu n\u00e3o tenho a sua imagina\u00e7\u00e3o, sou s\u00f3 um ledor compulsivo que j\u00e1 n\u00e3o fantasia. Por isso, quando vi o cartaz na porta, a \u00faltima coisa em que pensei foi em algo al\u00e9m do normal. Entrei pensando que encontraria ali apenas livros comuns.<\/p>\n<p>&#8212; E n\u00e3o foram?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0De forma alguma. Quando entrei havia ali apenas uma fileira de estantes, todas iguais, de madeira escura, todas cheias de volumes dos mais variados estilos. Capas de couro, cetim, cart\u00e3o e verg\u00ea. Coloridas, monocrom\u00e1ticas, em tons de cinza, em toda variedade de projetos gr\u00e1ficos que se possa conceber. Comecei a andar por entre as prateleiras fascinado por aqueles livros t\u00e3o bonitos. Havia alguns grossos como b\u00edblias, outros finos como folhetos. Os t\u00edtulos vinham em variadas fontes, desde desenhos rebuscados, g\u00f3ticos, barrocos, renascentistas, bauhaus ou modernistas, at\u00e9 s\u00f3brias letras humanistas, geom\u00e9tricas ou textuais.<\/p>\n<p>&#8212; E eram livros bons?<\/p>\n<p>&#8212; \u00a0Ah, essa \u00e9 a pergunta que vale um milh\u00e3o. Eu n\u00e3o sabia e nem tinha como saber, pois ao examinar, um a um, aqueles livros todos ali colecionados, eu n\u00e3o consegui encontrar, entre eles, sequer um t\u00edtulo de que ouvira falar, embora alguns at\u00e9 soassem familiares, embora alguns autores at\u00e9 fossem conhecidos.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Nenhum livro conhecido? Que esp\u00e9cie de livraria \u00e9 essa?<\/p>\n<p>&#8212; A princ\u00edpio eu imaginei que aqueles livros fossem obras raras, dessas edi\u00e7\u00f5es de poucas centenas de volumes que algumas editoras fazem, geralmente edi\u00e7\u00f5es luxuosas, ilustradas, autografadas pelos escritores. Por isso logo supus ter encontrado um tesouro. Senti algo doer em meu bolso, s\u00f3 de imaginar quanto me custariam aqueles livros, mas tinha uma vontade feroz de comprar alguns. De voltar sempre e comprar mais, mesmo sem ainda saber de que se tratava.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Mas por que voc\u00ea queria comprar se n\u00e3o conhecia? Eu teria querido conhecer primeiro.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea \u00e9 um maldito c\u00e9tico, Beto. Voc\u00ea exigiria enfiar o dedo nas chagas de Jesus para crer na Ressurrei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Mais que isso, exigiria um DNA. Outra pessoa parecida com ele poderia ter ressuscitado.<\/p>\n<p><center>***<\/center><\/p>\n<p>Assim gargalhamos e chegamos \u00e0 escada e eu terminei de convenc\u00ea-lo a subir comigo em busca da livraria.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Eu queria comprar, Beto, porque aqueles livros tinham t\u00edtulos fascinantes, capas bel\u00edssimas, sinopses que prometiam leituras interessantes &#8212; o diabo \u00e9 que mal consigo me lembrar de algum dos t\u00edtulos, e olha que alguns at\u00e9 me fizeram rir quando li.<\/p>\n<p>Paramos em frente \u00e0 loja de discos raros e apontei para o corredor, \u00e0 direita, onde ficava a livraria.<\/p>\n<p>&#8212; Bem, aqui a coisa come\u00e7a a ficar estranha. Alguns livros tinham sinopses na contracapa. Sinopses que prometiam mundos e fundos. Outros n\u00e3o tinham nada ali, s\u00f3 outra figura, ou um curioso espa\u00e7o em branco, ou meramente recoberto por uma cor ou textura. Folheei alguns daqueles livros tentando descobrir do que se tratavam e, para meu espanto, n\u00e3o estavam completos. Alguns tinham s\u00f3 n\u00fameros de p\u00e1ginas, outros s\u00f3 os t\u00edtulos de cap\u00edtulos, raros tinham algum cap\u00edtulo escrito no in\u00edcio, pouqu\u00edssimos tinham outro no fim tamb\u00e9m, um ou outro mal tinham o \u00edndice inteiro, havia muitos com pref\u00e1cios escritos por gente at\u00e9 famosa, mas nenhum conte\u00fado depois. E havia aqueles, tamb\u00e9m, que s\u00f3 tinham rabiscos, borr\u00f5es e dobraduras que lembravam p\u00e1ginas amassadas.<\/p>\n<p>&#8212; Amigo, o que voc\u00ea tinha bebido nesse dia? Ser\u00e1 que n\u00e3o batizaram sua cerveja?<\/p>\n<p>&#8212; S\u00f3 \u00e1gua mineral, e a tampinha n\u00e3o estava violada.<\/p>\n<p>&#8212; Isto que voc\u00ea est\u00e1 me contando n\u00e3o faz nenhum sentido! Agora vejo que n\u00e3o \u00e9 bem a mesma coisa de que j\u00e1 tinha ouvido falar.<\/p>\n<p>&#8212; Pode ser dif\u00edcil de crer, Beto. Mas fazer sentido faz. Afinal, era a &#8220;Livraria Futuro do Pret\u00e9rito&#8221;, o lugar onde est\u00e3o expostos os livros que os autores nunca terminaram, os que teriam sido escritos, que seriam publicados, que seriam os mais vendidos, que transformariam desconhecidos em celebridades, obras que revelariam novos g\u00eanios, talvez at\u00e9 algum novo Nobel liter\u00e1rio para o hemisf\u00e9rio sul.<\/p>\n<p>Meu amigo sorriu, desacreditando com todas as suas maquina\u00e7\u00f5es c\u00e9ticas. Acenou decididamente um &#8220;n\u00e3o&#8221; com a cabe\u00e7a enquanto inspirava forte e declarou, como S\u00e3o Tom\u00e9 diante de Jesus:<\/p>\n<p>&#8212; Eis algo que s\u00f3 acredito vendo.<\/p>\n<p>&#8212; Pois \u00e9 ali, vamos at\u00e9 l\u00e1 que, de repente, at\u00e9 aquele seu livro est\u00e1 \u00e0 venda junto com os outros.<\/p>\n<p>Estendi o bra\u00e7o convidando-o ao primeiro passo e ele, como ousado descrente que sabia ser, praticamente me deixou para tr\u00e1s. Dobramos a esquina e l\u00e1 estava a porta, entreaberta, ainda com as marcas da fita adesiva que n\u00e3o me deixavam mentir, mas sem cartaz algum escrito em letras fora de moda.<\/p>\n<p>Empurrei a porta e constatei, com irremedi\u00e1vel desola\u00e7\u00e3o, que o lugar estava deserto, as paredes rec\u00e9m pintadas e o ch\u00e3o, coberto de jornais antigos, cheios de not\u00edcias que ningu\u00e9m leria.<\/p>\n<p>&#8212; Parece, meu caro amigo, que a sua livraria n\u00e3o est\u00e1 mais aqui.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tinha o que dizer, meu rosto estava quente como se uma mal\u00e1ria impiedosa me tivesse contaminado. Levei \u00e0s m\u00e3os a cabe\u00e7a e n\u00e3o soube o que dizer para diminuir a minha vergonha. Sa\u00ed de l\u00e1 derrotado, sentindo at\u00e9 vertigens. Meu amigo, sol\u00edcito como s\u00f3 os bons amigos sabem ser, percebeu minha consterna\u00e7\u00e3o e desviou de assunto:<\/p>\n<p>&#8212; Eu vi uns discos interessantes \u00e0 venda na galeria l\u00e1 embaixo. Larga m\u00e3o disso e vamos ver o que tem?<\/p>\n<p>Satisfeito em poder falar de m\u00fasica eu puxei a porta e fui saindo, n\u00e3o antes de olhar de novo para dentro da maldita sala comercial. Ao faz\u00ea-lo, notei, com o cora\u00e7\u00e3o batendo arrebentado e fora de ritmo, que as manchetes dos jornais pareciam sa\u00eddas do mesmo universo que produzira os curiosos livros que ningu\u00e9m escrevera: &#8220;Juscelino Recebe a Faixa de Jango e Promete Fazer o Pa\u00eds Avan\u00e7ar Mais Cinquenta Anos em Cinco&#8221;, &#8220;Eti\u00f3pia Lidera C\u00fapula Africana e Isola Ditaduras&#8221;, &#8220;Reino do Hava\u00ed Comemora 200 anos de Independ\u00eancia&#8221;, &#8220;Pol\u00f4nia Concede Cidadania Plena aos Alem\u00e3es de Gda\u0144sk&#8221;.<\/p>\n<p>Ainda tive tempo, antes de fechar a porta, de notar no cesto de lixo, rasgado em pequenas tiras, um cartaz amarelado escrito em verde. N\u00e3o tive nenhuma curiosidade de tentar saber o que nele estava escrito. O Futuro do Pret\u00e9rito sempre fora o meu tempo verbal mais odiado, e eu acabara de ter mais imensas raz\u00f5es para aprofundar o meu \u00f3dio. Fechei a porta do Futuro do Pret\u00e9rito e fui comprar as vers\u00f5es &#8220;remasterizadas&#8221; dos antigos discos que meus pais ouviam.<\/p>\n<p>Mas desde ent\u00e3o fico imaginando se esta curiosa livraria n\u00e3o perambula pelas cidades do mundo, exibindo para quem queira ver o fracasso de autores que tiveram excelentes ideias mas n\u00e3o conseguiram transform\u00e1-las em nada mais que sonhos de livros que teriam centenas de p\u00e1ginas, bonitas capas e pref\u00e1cios de amigos famosos. Talvez algum dia eu a reencontre em minha cidade. Talvez o leitor a encontre em algum lugar discreto de sua cidade.<\/p>\n<p>Se isto ocorrer, n\u00e3o fa\u00e7a como eu. Compre um livro para ver o que acontece.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existe uma certa magia nas grandes, labir\u00ednticas cidades e suas ruas. 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