{"id":534,"date":"2009-02-23T19:20:00","date_gmt":"2009-02-23T22:20:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=534"},"modified":"2017-11-02T14:10:07","modified_gmt":"2017-11-02T17:10:07","slug":"dois-gringos-na-lapa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2009\/02\/dois-gringos-na-lapa\/","title":{"rendered":"Dois Gringos na Lapa"},"content":{"rendered":"<p>Shaul pensa no buraco negro que se aproxima, interrompe o gole de u\u00edsque para pensar nos tent\u00e1culos da destrui\u00e7\u00e3o que se espraiam pelo cosmos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Terra, prestes a engolf\u00e1-la em breve. Esse pensamento parece arejar sua mente com uma rajada de lucidez. De repente tudo se revela t\u00e3o inst\u00e1vel, e cada vez mais pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0H\u00e1 muitos anos \u2014 confessa a Randall \u2014 eu conheci uma garota l\u00e1 em Minas Gerais. Era uma pobre coitada que vivia com a av\u00f3 caduca e tr\u00eas irm\u00e3os excepcionais. Mas que bonita era a Romilda! Seu pai e m\u00e3e ainda eram vivos, eram gente simples, da ro\u00e7a, gente trabalhadora e honesta. E eu, um estrangeiro p\u00e1lido em uma terra onde cabelos ruivos s\u00e3o mais ou menos como antenas de marcianos\u2026<\/p>\n<p>\u2014\u00a0N\u00e3o me diga que voc\u00eas se envolveram?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Sim!<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Shaul voc\u00ea n\u00e3o me parece o tipo de homem que seduziria uma pobre camponesa e a abandonaria. Nem mesmo uma camponesa <em>goy<\/em> com antecedentes gen\u00e9ticos t\u00e3o aparentemente desfavor\u00e1veis.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Isso foi antes destas leis eug\u00eanicas, bem antes. Naquele tempo as pessoas se acasalavam como animais, e o Estado mantinha a sobrevida dos subprodutos.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Voc\u00ea era ent\u00e3o pouco mais que um moleque, as leis eug\u00eanicas est\u00e3o em vigor no mundo todo h\u00e1 quase quarenta anos!<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Digamos que minha gen\u00e9tica me beneficia, Randall. Eu sou bem mais velho do que voc\u00ea acha que eu sou. Mas n\u00e3o tenho o h\u00e1bito de exibir minha carteira de identidade somente para resolver discuss\u00f5es de bar.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0O que houve entre voc\u00eas?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Ora, o que poderia haver? Ela fascinada por mim, pelo estranho alien\u00edgena de cabelos vermelhos que nunca sa\u00eda ao sol e que falava com um sotaque engra\u00e7ado. Eu me deixei fascinar por ela, a estranha camponesa de cabelos pretos, m\u00e3os calejadas e lindo sorriso. O curioso \u00e9 que hoje nem lembro mais da apar\u00eancia dela.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Ficaram pouco tempo juntos, ent\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Pouco, apenas o suficiente para eu ter que pagar pens\u00e3o a um bastardinho.<\/p>\n<p>Randall ficou chocado com a maneira como Shaul se referia ao pr\u00f3prio filho, e \u00e0 mulher com quem o tivera:<\/p>\n<p>\u2014Shaul, eu n\u00e3o consigo ter sua frieza. Para mim toda mulher com quem transei, a menos que tenha me dado \u00f3timos motivos, \u00e9 como se fosse uma amiga. Eu respeito cada mulher com quem trepei como se fosse a minha esposa.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Voc\u00ea \u00e9 um bobo, Randall.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0E voc\u00ea um niilista.<\/p>\n<p>Riram e continuaram bebendo cacha\u00e7a com lim\u00e3o, sem preocupar-se com azia ou coma alco\u00f3lico. N\u00e3o havia futuro mesmo.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Quando ocorrer\u00e1 a colis\u00e3o, Shaul?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0N\u00e3o sei, Randall. Ningu\u00e9m sabe. O que sabemos \u00e9 que ela \u00e9 inevit\u00e1vel e que a essa altura nenhum artefato constru\u00eddo pelo homem conseguiria superar a velocidade de escape necess\u00e1ria para sair do horizonte de evento do buraco negro. \u00c9 o fim, amigo.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Como n\u00e3o percebemos antes?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Randall. Voc\u00ea nunca entender\u00e1. Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 astrof\u00edsico como eu, mas um mero jornalista perseguidor de personalidades.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Mas sou esfor\u00e7ado nas minhas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Ent\u00e3o aproveite que eu estou escancarando para o mundo esse segredo. Ningu\u00e9m tinha como saber porque o buraco negro era suficientemente pequeno para ocupar uma regi\u00e3o pequena do c\u00e9u, menor que uma ponta de agulha, mesmo magnificado 100 vezes. Al\u00e9m disso, ele produzia uma lente gravitacional. Voc\u00ea sabe o que \u00e9 isso, n\u00e3o sabe?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Continue falando, Shaul. O que eu n\u00e3o souber eu pergunto depois ou ent\u00e3o vejo na enciclop\u00e9dia.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Muito bem. A lente gravitacional o tornava invis\u00edvel. Somente percebemos que havia algo errado quando as primeiras perturba\u00e7\u00f5es gravitacionais come\u00e7aram a ocorrer, ainda na nuvem de Oort. Mas demorou quase uma d\u00e9cada para que ele se aproximasse o suficiente para que pudesse ser detectado.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0E o que vai acontecer?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0A humanidade est\u00e1 prestes a descobrir, dentro de poucos anos, o que realmente acontece dentro de um buraco negro. Isso se as perturba\u00e7\u00f5es gravitacionais n\u00e3o provocarem colis\u00f5es catastr\u00f3ficas entre os planetas. Com sorte seremos ejetados do sistema solar e ficaremos perdidos no espa\u00e7o interestelar por alguns mil\u00eanios at\u00e9, talvez, sermos capturados por outra estrela. Estas cat\u00e1strofes, qualquer delas, podem ocorrer at\u00e9 antes do pr\u00f3ximo drinque, s\u00f3 no ano que vem, ou daqui a vinte anos. A \u00fanica coisa certa \u00e9 que as crian\u00e7as que hoje nascem nunca chegar\u00e3o a ter carteira de motorista.<\/p>\n<p>Randall sopesou seu copo recentemente cheio de cacha\u00e7a, lambeu a f\u00edmbria de a\u00e7\u00facar na borda e perguntou outra vez:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0E enquanto a cat\u00e1strofe n\u00e3o vem. O que pretende fazer?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Muitas coisas que n\u00e3o tinha feito antes. Talvez at\u00e9 procurar pela Romilda.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0O buraco negro\u2026 De que tamanho \u00e9?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0N\u00e3o sabemos. O buraco inicialmente detectado desapareceu diante dos instrumentos quando o Grande Colisor de H\u00e1drons mediu pela primeira vez sua influ\u00eancia. Mas continuamos sentindo a presen\u00e7a de alguma coisa grande que se aproxima.<\/p>\n<p>Randall agradeceu a entrevista e saiu, enigm\u00e1tico e calmo, levando seu furo de reportagem. Shaul Reismann o observou tomar um t\u00e1xi e desaparecer na noite. &#8220;Esse tolo <em>goy<\/em> n\u00e3o acreditou em uma v\u00edrgula do que eu disse&#8221; \u2014 constatou.<\/p>\n<p>Uma dan\u00e7arina se aproximou, usando uma fantasia felina, com rabo grosso firmado por um arame. Tinha c\u00f4micas orelhas presas \u00e0 cabe\u00e7a por um arco de pl\u00e1stico. Acompanhou-a desde o momento em que a viu surgir dos infectos fundos da bai\u00faca, passando atrav\u00e9s da cortina de contas de pl\u00e1stico como se atrav\u00e9s de um esf\u00edncter. Tinha um sorriso assustador e seus olhos verdes artificiais eram um an\u00fancio do que era oferecido por sua p\u00fabis e embalado por sua roupa rid\u00edcula. Shaul a cobi\u00e7ava apenas pela beleza do rosto, apenas pelo que passa. O eterno n\u00e3o tem gra\u00e7a quando morreremos amanh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Deseja alguma coisa especial hoje, gringo?<\/p>\n<p>Shaul ajuntou seus conhecimentos semi-esquecidos de portugu\u00eas para murmurar um agradecimento que quase a ofendeu. N\u00e3o se sentiu mal com isso. Tinha nojo daquela mulher p\u00fablica e malemolente cujos abra\u00e7os eram feiti\u00e7os pestilentos que destru\u00edam fam\u00edlias e reputa\u00e7\u00f5es. Tinha nojo, mas queria. Mas queria uma melhor. Esperaria a vez.<\/p>\n<p>Em algum lugar no fundo de sua contradit\u00f3ria mente a outra metade de sua personalidade teve uma ere\u00e7\u00e3o ao ver a felina afastar-se, maravilhou-se com seu perfume de xampu de farm\u00e1cia. Essa metade era l\u00facida, sabia que somos prec\u00e1rios e que amanh\u00e3 n\u00e3o existiremos. Essa metade sabia que no fundo todos, belos e feios, sujos e limpos, estaremos id\u00eanticos al\u00e9m do horizonte de eventos. Essa metade acenou para a mulher com uma desculpa. E foi ela que a abra\u00e7ou de um jeito que namorados antigamente faziam.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0O que \u00e9 isso, <em>darling<\/em>? \u2013 ela se surpreendeu.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Perguntou se preciso de algo especial hoje. Bem, preciso. Quero alugar uma amiga.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Uma amiga? Para quanto tempo?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0N\u00e3o sei, talvez s\u00f3 por hoje, talvez por dezessete anos, onze meses e nove dias, ou seja, at\u00e9 eu morrer.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Ai, que complicado!<\/p>\n<p>\u2014\u00a0N\u00e3o precisa explicar. O que quero \u00e9 que voc\u00ea venha comigo, ou\u00e7a minha m\u00fasica, me deixe fazer carinho nos seus cabelos, chupe o meu pau devagar e termine a noite sem me roubar nada. Quanto custa isso?<\/p>\n<p>A mulher o olhava at\u00f4nita, certamente pensando que ele era um desses man\u00edacos estrangeiros que v\u00eam ao terceiro mundo brincar de estripar gente nos submundos. Saiu de perto dele sem dar pre\u00e7o e sem olhar de volta.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o sei \u2014 disse Shaul consigo mesmo \u2013 se foi algo que eu disse ou se realmente o que eu quero n\u00e3o tem pre\u00e7o.&#8221;<\/p>\n<p>Saiu de l\u00e1 com uma lata de cerveja na m\u00e3o, andando devagar pela noite da Lapa. \u00c0quela hora a Associated Press j\u00e1 estaria divulgando ao mundo todo que o cientista desaparecido fora encontrado b\u00eabado e com a barba por fazer em um bar do Rio de Janeiro. Talvez o maldito Randall at\u00e9 tivesse coragem de contar a hist\u00f3ria do buraco negro, ou talvez a vendesse para um tabl\u00f3ide.<\/p>\n<p>&#8220;Ainda bem que n\u00e3o vou morrer virgem e com hemorr\u00f3idas \u2014 filosofou enquanto acenava para as putas da rua.&#8221;<\/p>\n<p>O c\u00e9u n\u00e3o dava nenhuma not\u00edcia do iminente cataclisma. Estava t\u00e3o brando como normalmente o c\u00e9u das cidades \u00e9, leitoso e sem estrelas. Pensava nas fronteiras do espa\u00e7o desconhecido, nas dobras do improv\u00e1vel, onde se escondia o misterioso corpo celeste negro e invis\u00edvel que crescia \u00e0 medida em que se aproximava, trazendo consigo o inarred\u00e1vel fim de tudo. &#8220;A \u00faltima viol\u00eancia da natureza contra o homem.&#8221;<\/p>\n<p>\u2014\u00a0No fim, n\u00e3o conseguimos nocautear voc\u00ea, sua vagabunda. O que \u00e9 uma reles polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica contra esses tent\u00e1culos de morte que voc\u00ea joga contra n\u00f3s?<\/p>\n<p>Brandiu os punhos contra o c\u00e9u, os olhos marejados de l\u00e1grimas. Pela primeira vez na vida sentiu remorsos por Romilda, pelo filho cujo nome nem sabia, ali\u00e1s, nem o sexo. De repente, diante da perspectiva de morrer t\u00e3o logo, certas coisas pareciam t\u00e3o eternas, t\u00e3o importantes. Alugaria um carro no dia seguinte e tentaria encontrar a min\u00fascula cidadezinha onde ela morava. Tentaria saber como estava, como estava seu filho. Decerto estavam bastante bem, pois lhes mandava mensalmente o equivalente a tr\u00eas sal\u00e1rios m\u00ednimos do Brasil. Com esse dinheiro, e mais o que o resto dos moradores da casa recebesse, de aposentadoria ou de sal\u00e1rio, certamente a crian\u00e7a teria tudo do bom e do melhor. Talvez at\u00e9 um pai. Uma mulher com tr\u00eas sal\u00e1rios m\u00ednimos de renda \u00e9 um excelente partido em lugar pequeno. Instintivamente voltou a odiar Romilda. Mas depois teve a certeza de que alugaria mesmo o carro.<\/p>\n<p>Lembrou-se de uma antiga palestra que ouvira de uma f\u00edsica indiana durante umas f\u00e9rias que tiraram em Fiji:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Tudo o que somos j\u00e1 foi parte de alguma outra coisa, deste planeta, em outro momento no passado. Cada \u00e1tomo j\u00e1 esteve em cada lugar que voc\u00ea v\u00ea, se voc\u00ea pensar na escala de bilh\u00f5es de anos que \u00e9 o tempo que a Terra tem durado. Hoje voc\u00ea \u00e9 voc\u00ea, mas seus \u00e1tomos j\u00e1 foram lava, dinossauros, \u00e1rvores, fezes, asteroides\u2026 Eu penso que talvez esta seja uma forma racional de conciliar o conceito hindu de transmigra\u00e7\u00e3o com a ci\u00eancia.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca Reismann apenas sentira asco de pensar que os \u00e1tomos de seu corpo j\u00e1 haviam sido todo tipo de coisas nojentas. Especialmente os \u00e1tomos de carbono. Estes n\u00e3o s\u00e3o mesmo confi\u00e1veis.<\/p>\n<p>Chegou ao hotel e subiu at\u00e9 seu apartamento. Despiu-se e tomou um longo banho. &#8220;Para que economizar \u00e1gua? Logo n\u00e3o existir\u00e1 mais \u00e1gua nem aquecimento global, nem nada para me atazanar a consci\u00eancia.&#8221; Enquanto se enxugava o telefone tocou. Era Randall.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Como me achou aqui nesse hotel?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Tenho minhas fontes, Shaul. Quer jantar comigo hoje?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Por que eu quereria jantar com um cara que conheci hoje?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Sei l\u00e1, esse cara n\u00e3o ter mais ningu\u00e9m conhecido no Rio de Janeiro \u00e9 uma boa raz\u00e3o para voc\u00ea lhe dar uma recep\u00e7\u00e3o civilizada.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Tudo bem, mas que seja no restaurante do hotel mesmo.<\/p>\n<p>Eram onze da noite quando Randall chegou. Desta vez n\u00e3o estava fantasiado de turista americano.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Certamente voc\u00ea j\u00e1 deve ter conhecido algum brasileiro, e certamente um de bom cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Por que?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Porque j\u00e1 lhe explicaram como se vestir nesse pa\u00eds sem ser visto como um palha\u00e7o gringo.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Ora, eu posso ter sido um palha\u00e7o gringo quando arrumei minha mala, mas eu aprendo r\u00e1pido observando os outros.<\/p>\n<p>Era verdade. Seus \u00f3culos discretos e a feliz coincid\u00eancia de ser negro o tornavam indistingu\u00edvel de um brasileiro, desde que n\u00e3o abrisse a boca, pois s\u00f3 sabia falar um carregado <em>scots.<\/em><\/p>\n<p>A \u00fanica mulher no sagu\u00e3o era uma africana alta que falava aos cochichos em seu telefone celular.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Aquela mulher, Randall. Voc\u00ea a conhece?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0J\u00e1 a notei. N\u00e3o conhe\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Tenho certeza de que \u00e9 uma agente de algum servi\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Como sabe disso?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0A gente fica vidente quando sabe que vai morrer.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Shaul, em nome desses velhos tempos\u2026<\/p>\n<p>Reismann ergueu o brinde mecanicamente.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Voc\u00ea est\u00e1 querendo alguma coisa, Randall. Eu pressinto.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Sim. Quis falar com voc\u00ea por causa de algo que me ocorreu. Se \u00e9 verdade que \u00e9 imposs\u00edvel observar o estado de um objeto a n\u00edvel qu\u00e2ntico sem mudar sua trajet\u00f3ria, e imposs\u00edvel observar sua trajet\u00f3ria sem mudar eu estado, n\u00e3o ser\u00e1 que a observa\u00e7\u00e3o do estado desse buraco negro o desviou de sua trajet\u00f3ria original? Qual \u00e9 o tamanho dele? Quanta energia seria necess\u00e1ria? Quanticamente falando n\u00e3o se pode interagir sem influ\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Randall, voc\u00ea \u00e9 um jornalista. N\u00e3o \u00e9 um f\u00edsico. Ent\u00e3o n\u00e3o se preocupe com esses detalhes. Voc\u00ea nem sabe calcular, talvez ningu\u00e9m saiba sem a ajuda de um poderoso computador. E eu nem tenho os dados completos comigo.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Voc\u00ea quer que eu n\u00e3o me preocupe, mas esse &#8220;pequeno buraco negro&#8221; vai destruir o mundo.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Mesmo assim \u00e9 uma p\u00e9ssima ocasi\u00e3o para querer aprender sobre o assunto.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0N\u00e3o existe ocasi\u00e3o ruim para aprender, Shaul.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Antes da morte.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Se fosse assim n\u00e3o valia a pena aprender nada. Toda a vida de um ser humano \u00e9 &#8220;antes da morte&#8221;. Shaul, s\u00e3o dezoito anos. Vamos fazer o que nesses dezoito anos. Esperar a morte chegar?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Bem, Randall. Uma coisa eu sei. Quero morrer antes. De prefer\u00eancia, b\u00eabado.<\/p>\n<p>E virou a dose de cacha\u00e7a pura que o gar\u00e7om lhe trouxera.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Shaul pensa no buraco negro que se aproxima, interrompe o gole de u\u00edsque para pensar nos tent\u00e1culos da destrui\u00e7\u00e3o que se espraiam pelo cosmos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Terra, prestes a engolf\u00e1-la em breve. Esse pensamento parece arejar sua mente com uma rajada de lucidez. De repente tudo se revela t\u00e3o inst\u00e1vel, e cada vez mais pr\u00f3ximo. \u2014\u00a0H\u00e1 muitos anos \u2014 confessa a Randall \u2014 eu conheci uma garota l\u00e1 em Minas Gerais. 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