{"id":544,"date":"2009-01-13T22:13:00","date_gmt":"2009-01-14T01:13:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=544"},"modified":"2017-11-02T14:10:07","modified_gmt":"2017-11-02T17:10:07","slug":"cogumelos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2009\/01\/cogumelos\/","title":{"rendered":"Cogumelos"},"content":{"rendered":"<p>Jonas \u00e9 um verdadeira &#8220;figura&#8221;. Conheci-o h\u00e1 v\u00e1rios anos, na \u00e9poca em que eu era rico e tinha um carro novo. Fomos colegas de noitada por muito tempo at\u00e9 que o destino nos separou e nesse meio tempo vivemos muitos momentos divertidos dos quais eu me lembro com razo\u00e1vel saudade.<\/p>\n<p>Entre as suas esquisitices estava sua fixa\u00e7\u00e3o por cogumelos. Lembro-me que quando pass\u00e1vamos perto de algum lugar onde houvesse umidade e sombra ele cheirava o ar e dizia: &#8220;aqui nasce cogumelo do bom\u2026&#8221;<\/p>\n<p>Da primeira vez eu nem fiz nada al\u00e9m de rir, mas depois fiquei curioso e comecei a perguntar como ele sabia tanto de cogumelos. Ele ent\u00e3o come\u00e7ou a a me confidenciar suas aventuras com &#8220;ch\u00e1s&#8221; e outras subst\u00e2ncias. E no meio de tantas aventuras ele acabou contando uma que jamais me esqueci devido \u00e0s imagens marcantes que me traz \u00e0 mente toda vez que a relembro.<\/p>\n<p>Fora um menino t\u00edmido e um pr\u00e9-adolescente contido. Filho de m\u00e3e solteira casada com pastor evang\u00e9lico, desde cedo era estimulado a comportar-se como devia, a ser um &#8220;bom menino&#8221; e evitar as inclina\u00e7\u00f5es m\u00e1s trazidas pelo &#8220;sangue ruim&#8221; do pai que nunca conhecera.<\/p>\n<p>Mas quando os horm\u00f4nios come\u00e7aram a manifestar-se e a voz deixou de ser aquele falsete bonitinho de crian\u00e7a ele entrou numa longa fase de rebeldia da qual n\u00e3o tinha sa\u00eddo at\u00e9 quinta-feira passada. Foi mais ou menos nessa \u00e9poca que conheceu uma turma de amigos pouco recomend\u00e1veis, que o apresentou a sensa\u00e7\u00f5es, tratados e experi\u00eancias que um filhinho de pastor vivendo em cidade do interior normalmente n\u00e3o experimentaria.<\/p>\n<p>Certa vez ele e os amigos pegaram a Bras\u00edlia do pai de Jonas e foram para a ro\u00e7a tomar ch\u00e1. N\u00e3o, n\u00e3o era chazinho de menta e nem de camomila, era de cogumelo mesmo.<\/p>\n<p>Foram at\u00e9 um s\u00edtio localizado a uns cinco quil\u00f4metros do per\u00edmetro urbano, um lugar bem bonito, cercado de morros cobertos de pastos verdejantes, cortado por um tranquilo regato. Do alto de um dos morros se descortinava uma paisagem linda e l\u00e1 tamb\u00e9m havia uma pedra de formato curioso que eles chamaram de &#8220;Grande Sap\u00e3o&#8221;, ao p\u00e9 da qual acenderam uma fogueirinha.<\/p>\n<p>Da\u00ed pegaram os benditos cogumelos (e at\u00e9 acharam outros no lugar) e prepararam o &#8220;xarope&#8221;. Pronta a beberagem, tomaram-na e ficaram olhando para a paisagem tentando ver fadinhas de a\u00e7\u00facar. Dali a pouco come\u00e7aram a acontecer aquelas coisas que s\u00f3 acontecem nessas viagens psicod\u00e9licas: montanhas sa\u00edam voando, v\u00e1rios s\u00f3is de cores diferentes perfumavam o c\u00e9u, nuvens que escorriam gotejantes e empo\u00e7avam nas \u00e1rvores, pedras pulsavam com olhos chamejantes de l\u00edrios, a grama sussurrava sensualmente enquanto crescia e trovejava macias palavras azedas\u2026<\/p>\n<p>De repente Jonas viu um &#8220;duende&#8221;, um serzinho de pele azul e gorrinho colorido na cabe\u00e7a (n\u00e3o sei se era mesmo um duende ou um smurf, mas isto \u00e9 detalhe). O trocinho olhava para ele e ria, dizendo bobagens em uma l\u00edngua cheia de consoantes. Ofendido meu amigo se levantou, xingou a apari\u00e7\u00e3o e resolveu pisotear Papai Smurf, digo, o duende, mas logo notou que n\u00e3o adiantava pois ele reaparecia sempre em outro lugar. E l\u00e1 se foi Jonas a pisotear de novo, depois de xingar de novo, e logo Papai Smurf aparecia em outro lugar ainda cacarejando consoantes concatenadas.<\/p>\n<p>Imagino que deve ter sido uma cena muito linda de se ver aquele momento: um adolescente meio cabeludo, com olhos arregalados e &#8220;mucho loco&#8221; de &#8220;ch\u00e1 de caramelo&#8221; pisoteando duendezinhos azuis imagin\u00e1rios no alto de um morro, perto de uma pedra. Pelo menos deve ter sido engra\u00e7ado at\u00e9 que Jonas trope\u00e7ou e rolou morro abaixo, bateu a cabe\u00e7a e perdeu os sentidos.<\/p>\n<p>Quando acordou Jesus Cristo o estava chamando e dizendo alguma coisa em h\u00fangaro. Jonas n\u00e3o entendia nada de h\u00fangaro e jamais vira Jesus Cristo antes \u2014 s\u00f3 o reconheceu por causa do bon\u00e9 azul, da camiseta fluorescente que faiscava com figuras de cobras e elefantes iridescentes que efervesciam num mar de olhares \u00famidos e m\u00e3os nervosas.<\/p>\n<p>Olhou nos olhos de Jesus Cristo e lhe disse &#8220;Sacanagem, J.C., se eu soubesse que voc\u00ea vinha eu tinha feito a barba&#8221;. E tendo proferido tais s\u00e1bias considera\u00e7\u00f5es sucumbiu definitivamente \u00e0s alucina\u00e7\u00f5es cada vez mais complicadas que pousavam.<\/p>\n<p>Sentiu-se flutuar acima do capim como Aladin sobre as areias do deserto em seu tapete m\u00e1gico, s\u00f3 que em vez de sentado ia deitado de costas e por alguma raz\u00e3o suas costas esfregavam de vez em quando em algo duro.<\/p>\n<p>Acordou duas horas depois e &#8220;Jesus Cristo&#8221; lhe dava caf\u00e9 numa caneca de esmalte, um caf\u00e9 t\u00e3o forte que agarrava na l\u00edngua e n\u00e3o queria descer pelo es\u00f4fago. Estava todo frio, como se lhe tivessem dado trinta banhos de \u00e1gua gelada \u2014 o que n\u00e3o estava t\u00e3o longe da verdade, principalmente considerando que urinara nas cal\u00e7as e vomitara v\u00e1rias vezes num intervalo de menos de uma hora.<\/p>\n<p>Ainda estava vendo coisas coloridas e sussurrantes nas esquinas das coisas e no rabo dos olhos. Mas j\u00e1 conseguia perceber que havia se arranhado todo nas costas e estava todo sujo e fedendo a v\u00f4mito e a bosta de vaca.<\/p>\n<p>Mesmo temendo a resposta, perguntou a um dos amigos o que ocorrera.<\/p>\n<p>&#8220;De repente voc\u00ea come\u00e7ou a gritar desesperado em esperanto e a correr para l\u00e1 e para c\u00e1 pulando em cima de tudo quanto era bosta de boi que via pela frente, ent\u00e3o escorregou numa que tava fresca e desceu rolando uns duzentos metros de morro abaixo at\u00e9 que bateu numa cerca na beira do c\u00f3rrego\u2026&#8221;<\/p>\n<p>Jonas lembrava-se vagamente de alguma coisa. Alguma voz id\u00eantica \u00e0 sua que gritava coisas como <em>Vi stulta elfo, feku al vi!<\/em> e <em>Viaj fratrinoj estas malgrandajn<\/em>!<\/p>\n<p>Depois de recuperar-se Jonas jurou nunca mais tomar ch\u00e1 de cogumelo e abandonou para sempre seus estudos de esperanto. S\u00f3 depois que ele me contou essa hist\u00f3ria entendi porque de vez em quando algu\u00e9m lhe gritava na rua: <em>stulta elfo<\/em>!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jonas \u00e9 um verdadeira &#8220;figura&#8221;. Conheci-o h\u00e1 v\u00e1rios anos, na \u00e9poca em que eu era rico e tinha um carro novo. Fomos colegas de noitada por muito tempo at\u00e9 que o destino nos separou e nesse meio tempo vivemos muitos momentos divertidos dos quais eu me lembro com razo\u00e1vel saudade. Entre as suas esquisitices estava sua fixa\u00e7\u00e3o por cogumelos. 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