{"id":551,"date":"2008-12-27T20:37:00","date_gmt":"2008-12-27T23:37:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=551"},"modified":"2017-11-02T14:10:08","modified_gmt":"2017-11-02T17:10:08","slug":"murdinta-robotoj","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2008\/12\/murdinta-robotoj\/","title":{"rendered":"Murdinta Robotoj"},"content":{"rendered":"<p>Estamos em um futuro n\u00e3o muito distante (dez, quinze anos) em uma metr\u00f3pole sul-americana qualquer. Temos um personagem, vamos cham\u00e1-lo por num nome simples, bonito e portugu\u00eas: T\u00e9o. Nosso personagem trabalha para um servi\u00e7o secreto da pol\u00edcia, a que, por falta de nome melhor, chamaremos simplesmente de &#8220;P-2&#8221;. Sua atual miss\u00e3o \u00e9 localizar e eliminar quem for o respons\u00e1vel por uma s\u00e9rie de brutais assassinatos de empres\u00e1rios e pol\u00edticos corrupt\u00edssimos, mas fedidos de t\u00e3o ricos (a &#8220;P-2&#8221; n\u00e3o prende, ela \u00e9 a &#8220;briga de gangues&#8221; que elimina os criminosos que se tornaram perigosos demais).<\/p>\n<p>Inicialmente se pensou que os crimes fossem obra da M\u00e1fia, mas T\u00e9o, com suas conex\u00f5es no submundo, logo descartou essa hip\u00f3tese e descobriu que o criminoso era &#8220;independente&#8221;. Mais tarde descobriu que em vez de criminoso eram criminosas, duas, que se faziam de prostitutas de luxo e matavam os clientes da forma mais hedionda poss\u00edvel, sempre deixando o sangue dentro de garrafas e os bagos pendurados no lustre. Mais tarde ainda ele descobriu nem eram elas, mas &#8220;aquilo&#8221;: duas androides assassinas.<\/p>\n<p>Agora que temos essa sinopse em mente, para um filme estilo <em>Blade Runner<\/em>, vamos passar a um breve intervalo lingu\u00edstico. Vamos falar da l\u00edngua que \u00e9 falada na cidade onde se passa a hist\u00f3ria: o esperanto. A circunst\u00e2ncia de se falar esperanto \u00e9 explicada por uma dessas ditaduras de filmes de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, que t\u00eam o poder de impor goela abaixo do povo qualquer projeto porra-louca. S\u00f3 mesmo um totalitarismo extremo convenceria um grande n\u00famero de pessoas a falar esperanto.<\/p>\n<p>Como todo mundo sabe o esperanto \u00e9 uma l\u00edngua artificial, bastante regular e relativamente f\u00e1cil de aprender. O que nem todo mundo sabe \u00e9 que as coisas nem sempre soam bem em esperanto. As dificuldades causadas por isso est\u00e3o sendo um empecilho no caminho de T\u00e9o pois ele est\u00e1 come\u00e7ando a trope\u00e7ar na gram\u00e1tica e na pron\u00fancia, como se alguma coisa dentro dele rejeitasse a artificialidade da <em>prima lingvo internacia<\/em>.<\/p>\n<p>Em esperanto, todas as palavras pertencem a uma classe \u00fanica, e se tornam substantivos, adjetivos, adv\u00e9rbios de modo ou verbos dependendo dos sufixos que usamos nelas. Vamos a um exemplo, a palavra <em>viro<\/em> (ser humano), se torna <em>vira<\/em> (humano), <em>viroj<\/em> (&#8220;seres humanos), <em>virino<\/em> (&#8220;ser humano f\u00eamea&#8221; &#8212; a coisa mais parecida com &#8220;mulher&#8221; que se pode dizer em esperanto) etc. Isto n\u00e3o \u00e9 muito elegante, pois uma &#8220;mulher&#8221; n\u00e3o \u00e9 exatamente um homem feminino, tal como &#8220;m\u00e3e&#8221; n\u00e3o \u00e9 um pai-f\u00eamea (<em>patrino<\/em>).<\/p>\n<p>Para piorar as coisas, o esperanto s\u00f3 usa um artigo (sem no\u00e7\u00e3o de n\u00famero nem g\u00eanero) e ainda tem o &#8220;caso acusativo&#8221; (os objetos diretos devem ser marcados com o sufixo &#8220;n&#8221;). Somando tudo isso, \u00e9 muito f\u00e1cil formar palavras longas em esperanto &#8212; e estas nem sempre soam bem.<\/p>\n<p>Outra coisa estranha do esperanto \u00e9 o prefixo &#8220;bo&#8221; usado para formar palavras que indicam semelhan\u00e7a incompleta. Por exemplo, um <em>bopatro<\/em> \u00e9 um padrasto, ou seja, algo &#8220;mais ou menos&#8221; como um pai. Certamente um androide deve ser um <em>boviro<\/em> (algo &#8220;quase&#8221; humano). Pelo menos \u00e9 o racioc\u00ednio que Te\u00f3 est\u00e1 tendo nesse momento.<\/p>\n<p>Para piorar as coisas, algumas palavras de uso muito comum acabam sendo dif\u00edceis de pronunciar. Quando terminou de transcrever a grava\u00e7\u00e3o de um grampo telef\u00f4nico, T\u00e9o teve de dizer a seu chefe <em>Mi transskribis la konversacio<\/em>. Agora ele est\u00e1 quebrando a l\u00edngua para tentar dizer &#8220;procurar&#8221; (<em>\u0109er\u0109ar<\/em>) porque \u00e9 exatamente isso que ele est\u00e1 fazendo, embora n\u00e3o o saiba dizer sem morder os l\u00e1bios.<\/p>\n<p>Neste exato momento nosso her\u00f3i est\u00e1 sob a chuva, usando uma capa de pl\u00e1stico e um guarda chuva preto, em frente a um cassino clandestino da temida Zona Leste. \u00c0 m\u00e3o, oculta dentro da capa, uma pistola com balas de ur\u00e2nio enriquecido, doze tiros fatais que penetram at\u00e9 a\u00e7o inoxid\u00e1vel. Seus informantes foram perempt\u00f3rios: as duas androides assassinas est\u00e3o em uma orgia com executivos ped\u00f3filos de um grupo empresarial grego e pol\u00edticos nordestinos homossexuais, que se desenrola em uma sauna gay de fachada que pertence a um cartel de lavanderias paquistanesas.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que ele n\u00e3o sabe como s\u00e3o essas androides, ainda. N\u00e3o tem fotos, apenas retratos falados. Se entrar na festinha n\u00e3o saber\u00e1 dizer quem s\u00e3o. Mas o que realmente o deixa nervoso n\u00e3o \u00e9 nem isso, \u00e9 o tremendo mico que ele vai pagar quando entrar no inferninho e gritar com sua voz de detetive de hist\u00f3ria em quadrinhos:<\/p>\n<p>&#8212;<em>Mi \u0109er\u0109as la bovirinojn!<\/em><\/p>\n<p>&#8220;\u00c0s vezes&#8221; &#8212; pensa T\u00e9o, no bom e velho portugu\u00eas brasileiro, dialeto mineiro &#8212; &#8220;me d\u00e1 uma vontade de largar tudo isso e voltar para Barbacena\u2026&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estamos em um futuro n\u00e3o muito distante (dez, quinze anos) em uma metr\u00f3pole sul-americana qualquer. Temos um personagem, vamos cham\u00e1-lo por num nome simples, bonito e portugu\u00eas: T\u00e9o. Nosso personagem trabalha para um servi\u00e7o secreto da pol\u00edcia, a que, por falta de nome melhor, chamaremos simplesmente de &#8220;P-2&#8221;. 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