{"id":568,"date":"2007-10-19T23:05:00","date_gmt":"2007-10-20T02:05:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=568"},"modified":"2017-11-02T14:10:10","modified_gmt":"2017-11-02T17:10:10","slug":"passaros-negros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2007\/10\/passaros-negros\/","title":{"rendered":"P\u00e1ssaros Negros"},"content":{"rendered":"<p>A \u00fanica conex\u00e3o que eu consigo fazer \u00e9 entre o desaparecimento dos pardais e o surgimento destas avezinhas negras que infectam nossos carros com seus excrementos azulados, cheios de \u00e1cido clor\u00eddrico, capazes de estragar a mais resistente das pinturas e arranhar os vidros quando escorrem.<\/p>\n<p>In\u00fatil dizer que afugentar estas pestes est\u00e1 sendo bastante dif\u00edcil. Nosso governo ainda n\u00e3o se deu conta da gravidade do perigo que os P\u00e1ssaros Negros representam para a na\u00e7\u00e3o porque eles parecem estar vindo das profundezas do mundo esquecido e passando por nossa terra remota ainda n\u00e3o chegaram \u00e0 capital onde o Supremo come seu caviar e perdoa seus pares.<\/p>\n<p>Sem fumiga\u00e7\u00f5es e armadilhas oficiais, nos vemos obrigados a conviver com eles, a ver nossos ve\u00edculos e telhados irremediavelmente danificados. N\u00e3o h\u00e1 espantalho que os ponha medo: eles parecem ter dentro dos olhos a experi\u00eancia de cada ave que j\u00e1 enganamos em nossa hist\u00f3ria de luta contra a natureza. E nos olham com express\u00f5es de t\u00e9dio quando lhes fazemos barulho, quando brandimos inutilmente varas e lhes atiramos pedregulhos. \u00c0s vezes me causa ainda mais \u00f3dio porque me parece que nos olham com superioridade\u2026 e t\u00e9dio.<\/p>\n<p>Os pardais foram sumindo e eles foram se instalando. Maiores e mais forte que aquelas avezinhas de que tanto gost\u00e1vamos, os P\u00e1ssaros Negros roubaram delas todas as suas fontes de alimento. Por mais que os afugent\u00e1ssemos eles sempre levavam todas as sobras de comida.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastando isso, t\u00eam ainda um sentimento de territorialidade que \u00e9 realmente tr\u00e1gico: divididos em pequenos bandos de cinquenta ou cem, esses pequenos ladr\u00f5es controlam \u00e1reas entre cinquenta e cem metros quadrados (onde abunda o alimento) ou quil\u00f4metros (onde escasseia). E n\u00e3o toleram que outros pilhadores da sujeira urbana se refestelem em seus recursos: T\u00e3o logo detectam a presen\u00e7a de algum salteador emplumado, mandam-lhe ao encal\u00e7o uma verdadeira esquadrilha de jovens r\u00e1pidos e ferozes que invariavelmente perseguem o invasor at\u00e9 quil\u00f4metros al\u00e9m da \u00abfronteira\u00bb (se ele \u00e9 veloz) ou o matam antes, se for o caso, para torn\u00e1-lo tamb\u00e9m parte do permanente banquete de excrementos em que se cevam.<\/p>\n<p>Apenas os urubus rompem o cerco, mas n\u00e3o ousam faz\u00ea-lo individualmente. Geralmente chegam em grupos de doze ou vinte: E deixam algumas sentinelas! Nas poucas vezes em que urubus solit\u00e1rios tentaram comer em um territ\u00f3rio controlado sofreram o mesmo ataque.<\/p>\n<p>Ordeiros e disciplinados, os P\u00e1ssaros Negros n\u00e3o se espalharam pelo campo imenso, que n\u00e3o poderiam controlar. Preferiram instalar-se em uma determinada regi\u00e3o e a\u00ed proliferaram. Quando o bando cresceu, dividiu-se e outros territ\u00f3rios foram ocupados. \u00c9 claro que esta ocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era sedent\u00e1ria. Assim fosse, poder\u00edamos fumig\u00e1-los com venenos ou mat\u00e1-los com nossas espingardas. Se um indiv\u00edduo era morto em determinado local, o bando se mudava. Se algum era mesmo ferido ou sofria s\u00e9ria amea\u00e7a, n\u00e3o ficavam os demais nem mais um dia dormindo no mesmo quarteir\u00e3o.<\/p>\n<p>Agora que j\u00e1 dominaram toda a cidade e arredores, e outras das cidades e parte do campo que as circunda; este receio desapareceu. Se tornaram frios e s\u00e3o capazes de ver a execu\u00e7\u00e3o de um companheiro cinicamente e sem esbo\u00e7ar rea\u00e7\u00e3o. Se por\u00e9m o agressor est\u00e1 s\u00f3 o bando o agride sem piedade. Houve j\u00e1 casos de pessoas mortas por matarem P\u00e1ssaros Negros. Num dos casos mais impressionantes o morto humano havia investido (dias antes!) contra uma ninhada e matado alguns filhotes. Quando voltava para casa \u00e0 noite foi cercado por dezenas deles e bicado at\u00e9 a morte. Abriram-lhes as veias no meio da rua e perfuraram-lhe o abd\u00f4men e os olhos antes que morresse de hemorragia.<\/p>\n<p>Escusado dizer que poucos s\u00e3o os que se atrevem a atacar os bandos. Quem o faz vai em grupos e usando roupas grossas que cobrem todo o corpo e m\u00e1scaras que n\u00e3o permitem que a face seja desvendada. Usam tamb\u00e9m misturadores de voz porque se teme que os P\u00e1ssaros Negros sejam capazes de identificar humanos pelo tom de voz.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 preciso mencionar a cat\u00e1strofe ecol\u00f3gica que isto est\u00e1 causando. Os P\u00e1ssaros Negros devoram insetos em quantidades exorbitantes e pouco deixam para os outros. Essa escassez produz a fome entre as demais esp\u00e9cies, que inutilmente migram, j\u00e1 que aparentemente estes anjos do Apocalipse se instalaram em toda a regi\u00e3o. Tamb\u00e9m atacam os pequenos animais: j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 ratos-do-campo, nem piri\u00e1s, nem beija-flores, nem porquinhos-da-\u00edndia e nem ratos em parte alguma. Exceto os animais do Zool\u00f3gico, os outros est\u00e3o morrendo de inani\u00e7\u00e3o e v\u00eam desesperadamente \u00e0 cidade, alguns, buscando comida \u00e0s portas dos homens. Muitos s\u00e3o os que se comovem e os alimentam. Muitos s\u00e3o os que os matam para com\u00ea-los, porque tamb\u00e9m para n\u00f3s humanos os P\u00e1ssaros Negros est\u00e3o trazendo perigo: N\u00e3o h\u00e1 horta que se lhes resista e nem planta\u00e7\u00e3o que vingue diante de sua voracidade.<\/p>\n<p>Mais uma vez eu abro a minha janela e contemplo os fios de luz nos postes cheios das odiosas figuras. Agora come\u00e7am a bic\u00e1-los e tamb\u00e9m aos cabos telef\u00f4nicos. Em breve teremos problemas mais graves. O \u00faltimo grito de desespero de uma cidade do interior nos aterrorizou: l\u00e1 j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel viver, dada a prolifera\u00e7\u00e3o de P\u00e1ssaros Negros. J\u00e1 nos chegam retirantes, alguns cegos. E todos contam que os nossos inimigos proliferam mais que coelhos.<\/p>\n<p>Agora na cidade todos voltaram a usar chap\u00e9u e ningu\u00e9m sai de casa sem \u00f3culos escuros por medo de ter o globo ocular trai\u00e7oeiramente perfurado por um desses voadores nojentos. Alguns chegam ao requinte de usar \u00f3culos de mergulho amarrados atr\u00e1s da cabe\u00e7a. Ponho o meu chap\u00e9u e meus \u00f3culos de serralheiro e saio \u00e0 rua. Gosto dos \u00f3culos de serralheiro porque s\u00e3o enormes e me permitem olhar por todo o alcance de meu m\u00fasculo ocular. O c\u00e9u est\u00e1 silencioso hoje, como sempre. Em frente a Igreja o Padre esqu\u00e1lido contempla o c\u00e9u rezando n\u00e3o mais por chuva como antigamente mas para que o fogo divino nos consuma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00fanica conex\u00e3o que eu consigo fazer \u00e9 entre o desaparecimento dos pardais e o surgimento destas avezinhas negras que infectam nossos carros com seus excrementos azulados, cheios de \u00e1cido clor\u00eddrico, capazes de estragar a mais resistente das pinturas e arranhar os vidros quando escorrem. In\u00fatil dizer que afugentar estas pestes est\u00e1 sendo bastante dif\u00edcil. 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