{"id":57,"date":"2013-04-05T18:30:00","date_gmt":"2013-04-05T21:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=57"},"modified":"2017-11-02T14:08:21","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:21","slug":"aventuras-em-rio-das-ostras-parte-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/04\/aventuras-em-rio-das-ostras-parte-i\/","title":{"rendered":"Aventuras em Rio das Ostras, Parte I"},"content":{"rendered":"<p>S\u00f3 hoje, passadas j\u00e1 algumas semanas de minha \u00fanica viagem de turismo nas f\u00e9rias, \u00e9 que consegui reunir tempo e inspira\u00e7\u00e3o para narrar a verdadeira Odisseia que vivi, s\u00f3 que levando minha Pen\u00e9lope junto. Foi uma viagem dessas que voc\u00ea faz do jeito que n\u00e3o se deve fazer, e houve tanta coisa inesperada que eu quase me surpreendi de ter conseguido voltar inteiro para casa, trazendo a fam\u00edlia e o carro.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou na longa discuss\u00e3o sobre onde ir. Eu queria ir a Iriri, no Esp\u00edrito Santo, praia que j\u00e1 conhecia, caminho por onde j\u00e1 estou mais ou menos habituado a passar. S\u00f3 que minha mulher achou muito percorrer 378 quil\u00f4metros s\u00f3 para mergulhar o corpo em \u00e1gua salgada e insistiu que Rio das Ostras ficava mais perto. De fato, o Google Maps lhe deu raz\u00e3o: 236 quil\u00f4metros. Pela l\u00f3gica de quem n\u00e3o est\u00e1 acostumado a viajar, 138 quil\u00f4metros a menos significam uma economia not\u00e1vel. Ela argumentou e eu acabei concordando. Liguei para uma pousada relativamente barata, localizada atrav\u00e9s da internet e, mesmo com a previs\u00e3o do tempo desfavor\u00e1vel, nos pusemos na estrada. Assim dito, parece que foi r\u00e1pido. N\u00e3o foi. Ficamos at\u00e9 quarta feira esperando a previs\u00e3o do tempo melhorar. Como n\u00e3o melhorava muito, resolvemos ir assim mesmo, para aproveitar o \u00faltimo fim de semana das f\u00e9rias.<\/p>\n<p>Sa\u00edmos de casa \u00e0s sete da manh\u00e3, com a expectativa de uma viagem de quatro horas e meia. Nosso plano era almo\u00e7ar em Rio das Ostras e ainda curtir praia, desde que n\u00e3o estivesse chovendo.<\/p>\n<p>A primeira etapa da viagem foi tranquila. De Pequeri a Mar de Espanha o asfalto \u00e9 bom, apesar da estrada cheia de curvas e morros. Atravessamos at\u00e9 a sa\u00edda para Sapucaia e Chiador, j\u00e1 sabendo que ter\u00edamos um trecho de estrada de terra at\u00e9 cruzarmos a divisa do Rio de Janeiro. Havia dois erros nesse c\u00e1lculo, a parte referente a &#8220;at\u00e9 cruzarmos a divisa&#8221; e a parte referente a &#8220;estrada&#8221;.<\/p>\n<p>Logo depois de passarmos da encruzilhada de acesso ao caminho para Chiador, \u00e0 medida em que nos aproxim\u00e1vamos do estado do Rio de Janeiro, a estrada foi se estreitando e ficando cada vez pior. Pedregosa por causa do muito saibro que v\u00eam jogando h\u00e1 anos ou d\u00e9cadas, cheia de costelas e valetas, cada vez mais estreita, cheia de panelas e ressaltos. A maior parte do tempo tivemos que passar por ela a 20 ou 30 quil\u00f4metros por hora, em vez dos 50 ou 60 que eu esperava conseguir numa estrada de terra. At\u00e9 passamos por lugares bonitos, e por lugares perigosos como as bordas da represa de Simpl\u00edcio, onde se chega \u00e0 beira do abismo em v\u00e1rios lugares, sem prote\u00e7\u00e3o alguma; mas a estrada era sempre ruim, parecendo uma trilha de bodes, em certos lugares assustadora por causa do declive acentuado. Acentuado mesmo, pois do lado mineiro se chega a mil metros de altitude, e a divisa fica a poucas dezenas de metros acima do n\u00edvel do mar. Fato \u00e9 que quando eu cheguei a Sapucaia descendo daquela estrada escabrosa algumas pessoas olharam para o meu carro como se ele fosse um disco voador.<\/p>\n<p>Depois de finalmente passarmos a divisa come\u00e7amos a procurar pelo caminho. O fato de pouca gente em Sapucaia saber com certeza como ir a Sumidouro n\u00e3o me foi um bom aug\u00fario. Tive de ficar quase meia hora parado por causa de obras na pista, logo ao sair da cidade, e mais \u00e0 frente, depois de pagar meu primeiro ped\u00e1gio na vida (sempre fui h\u00e1bil em evit\u00e1-los), eu me vi perdido e sem saber como seguir para Sumidouro. Enfim, depois de idas e vindas, achei uma estrada que parecia decente, e que seguia no rumo de l\u00e1. A \u00fanica coisa indecente \u00e9 que a entrada n\u00e3o era sinalizada. Eu s\u00f3 a achei porque um trabalhador da obra me deu a indica\u00e7\u00e3o. Felizmente a entrada ficava depois do ped\u00e1gio, ou minhas meninas teriam me ouvido xingar muito.<\/p>\n<p>Depois de alguns tranquilos quil\u00f4metros de asfalto velho e ruim, viramos \u00e0 esquerda, passamos uma ponte e deixamos de novo a civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A muito custo chegamos \u00e0 Rodovia Santos Dumont, onde tive o prazer de dirigir por cerca de 150 metros antes de pegar o caminho para Sumidouro, uma estrada estreita e lamacenta que mais parece um trilho de vacas. Em certo lugar eu percebi que a estrada parecia seguir paralela com uma outra estrada, separadas as duas por \u00e1rvores. Ent\u00e3o, mais \u00e0 frente, uma encruzilhada indicando o caminho para uma fazenda qualquer e uma placa indicando que para Sumidouro era necess\u00e1rio fazer uma curva \u00e0 esquerda em 180 graus e voltar cerca de quatro ou cinco quil\u00f4metros em paralelo ao caminho seguido at\u00e9 ali.<\/p>\n<p>Aquela estrada \u00e9 a RJ 154, e eu acho que os fluminenses s\u00f3 a batizaram assim para se vingarem dos mineiros que chamaram de MG 126 o horroroso atalho alpino entre Mar de Espanha e Sapucaia. \u00c9 uma estrada surrealista, que mistura trechos de asfalto novo e \u00f3timo com trechos de terra. O asfalto largo e farto, o trecho de terra estreito e enlameado. O asfalto sem nenhuma sinaliza\u00e7\u00e3o, o trecho de terra devidamente sinalizado. Em certo trecho havia no meio de uma curva uma mudan\u00e7a brusca de asfalto para terra, onde quase capotei com o carro. Em outro trecho, uma longa e larga reta asfaltada tinha uma ponte estreita no meio. Imagino o perigo que \u00e9 dirigir nessa estrada \u00e0 noite.<\/p>\n<p>Quando chegamos a Sumidouro j\u00e1 era praticamente dez da manh\u00e3. As quatro horas previstas j\u00e1 tinham ido para a cucuia e eu queria que o mundo acabasse em asfalto para eu n\u00e3o ter mais que pisar em gota alguma de barro. Ah, eu tinha contado para voc\u00eas que estava chovendo fininho a maior parte do tempo?<\/p>\n<p>Em Sumidouro tive ajuda de um carinha que ia para Nova Friburgo em uma Toyota velha. Ele me pediu para segui-lo at\u00e9 o trevo e foi assim que eu definitivamente deixei aquelas estradas cabulosas.<\/p>\n<p>Na sa\u00edda de Sumidouro passamos por dentro daquelas pedras montadas e n\u00e3o tiramos foto. Eu at\u00e9 pedi para a Daniele tirar, mas ela disse que estava sem c\u00e2mera. S\u00f3 bem mais \u00e0 frente descobrimos que a c\u00e2mera estava no porta-luvas.<\/p>\n<p>A estrada de l\u00e1 para Friburgo \u00e9 bem razo\u00e1vel. Razoavelmente perigosa. Muitos desbarrancamentos e desmoronamentos reduziam a faixa \u00fanica em v\u00e1rios trechos. Felizmente n\u00e3o tinha quase ningu\u00e9m passando. Havia coisas bonitas tamb\u00e9m, como infloresc\u00eancias de orqu\u00eddeas na beira da estrada, e pitorescas cascatas que ca\u00edam dos morros e passavam, canalizadas, por baixo do asfalto.<\/p>\n<p>Quando chegamos a Friburgo j\u00e1 era bem onze e meia da manh\u00e3 e est\u00e1vamos todos famintos. Paramos num posto de gasolina para esticar as pernas e comer. Comida boa e barata em um posto de gasolina onde o \u00e1lcool estava a 2,45 o litro. Metros estrada abaixo havia \u00e1lcool a 1,98 e minhas meninas finalmente ouviram o palavr\u00e3o, pois eu tinha enchido o tanque.<\/p>\n<p>Foi em Friburgo que eu comecei a acreditar que os fluminenses devem querer desforrar dos mineiros a fama de que n\u00f3s dizemos que tudo \u00e9 &#8220;logo ali&#8221;. Primeiro pedimos a informa\u00e7\u00e3o no posto e nos disseram que para achar o caminho de Rio das Ostras era s\u00f3 ir seguindo as placas que apontassem &#8220;Rio de Janeiro&#8221; e, logo ao chegarmos a Mury, pegar a sa\u00edda para Lumiar. Dito assim parece f\u00e1cil, especialmente porque o carinha do posto n\u00e3o mencionou que para chegar a Mury ter\u00edamos que atravessar Nova Friburgo inteira. Para minha sorte, eu entrei em um lugar errado e, em vez de fazer essa travessia por uma larga avenida asfaltada, eu a fiz por ruas estreitas cal\u00e7adas com paralelep\u00edpedos, subindo e descendo morros e favelas. E em toda esquina tinha um friburguense para nos dizer que era &#8220;logo ali&#8221;. Quando, finalmente, vi uma placa escrito &#8220;Mury&#8221; eu j\u00e1 estava duvidando que existisse um lugar com esse nome.<\/p>\n<p>Em um complicado cruzamento, tomei um caminho que passava por uma ponte e virei \u00e0 esquerda sem ver nenhuma sa\u00edda para Lumiar. Parei ent\u00e3o para pedir informa\u00e7\u00e3o e me disseram &#8220;segue reto&#8221;. Por alguma raz\u00e3o minha mulher duvidou da informa\u00e7\u00e3o e me pediu para perguntar num posto. Tamb\u00e9m mandaram seguir reto, s\u00f3 que na dire\u00e7\u00e3o oposta. Voltando, ao passar pelo lugar onde ped\u00edramos informa\u00e7\u00e3o, verifiquei que havia uma placa ENORME indicando a sa\u00edda de Mury e Lumiar. Ela estava bem \u00e0s minhas costas quando eu pedi informa\u00e7\u00e3o ao friburguense que estava lanchando dentro do carro.<\/p>\n<p>Da\u00ed para a frente a viagem foi mais f\u00e1cil. N\u00e3o me perdi nenhuma vez, foi asfalto direto e ningu\u00e9m estava com fome. S\u00f3 cansa\u00e7o. Atravessamos a reserva biol\u00f3gica de Maca\u00e9 de Cima, entre Friburgo e Casimiro de Abreu, com uma chuva renitente que escondia toda a paisagem. Paisagem bonita, mas a estrada \u00e9 um perigo, e quanto mais eu descia mais eu tinha medo de lembrar que teria que subir de volta.<\/p>\n<p>Lumiar \u00e9 um lugarejo ador\u00e1vel que parece uma cidadezinha do interior de Minas Gerais, s\u00f3 que habitado por muitos descendentes de italianos e su\u00ed\u00e7os. Outra parada para esticar as pernas e seguimos adiante, at\u00e9 pegarmos a estrada Serramar e come\u00e7ar a sentir cheirinho de maresia.<\/p>\n<p>Chegamos a Rio das Ostras \u00e0s tr\u00eas da tarde, depois de percorridos exatos 244 quil\u00f4metros. Considerando as vezes em que me perdi no caminho, desconfio que devo ter achado algum atalho em algum lugar, talvez at\u00e9 passando por alguma contram\u00e3o. Estava chovendo forte e tivemos que passar o resto do dia dentro do quarto da pousada, sem praticamente nada para fazer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00f3 hoje, passadas j\u00e1 algumas semanas de minha \u00fanica viagem de turismo nas f\u00e9rias, \u00e9 que consegui reunir tempo e inspira\u00e7\u00e3o para narrar a verdadeira Odisseia que vivi, s\u00f3 que levando minha Pen\u00e9lope junto. Foi uma viagem dessas que voc\u00ea faz do jeito que n\u00e3o se deve fazer, e houve tanta coisa inesperada que eu quase me surpreendi de ter conseguido voltar inteiro para casa, trazendo a fam\u00edlia e o carro.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[46],"tags":[45,42,40,41,43,44],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4140,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57\/revisions\/4140"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}