{"id":573,"date":"2007-05-28T09:00:00","date_gmt":"2007-05-28T12:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=573"},"modified":"2017-11-02T14:10:11","modified_gmt":"2017-11-02T17:10:11","slug":"o-monstrinho-no-armario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2007\/05\/o-monstrinho-no-armario\/","title":{"rendered":"O Monstrinho no Arm\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p>J\u00falia era uma menina cheia de manias. Principalmente era cheia de manias ruins ou esquisitas. Manias que aprendia de seus colegas, parentes, vizinhos, etc. Recentemente J\u00falia aprendeu a chorar.<\/p>\n<p>Nas primeiras vezes ela chorou naturalmente. O choro que as crian\u00e7as choram quando perdem ou quando n\u00e3o acham, quando n\u00e3o t\u00eam ou quando quebram, quando querem e n\u00e3o podem ou quando n\u00e3o querem e t\u00eam que fazer.<\/p>\n<p>Mas a m\u00e3e de J\u00falia n\u00e3o tinha paci\u00eancia e tinha tanta pressa em se livrar logo do choro da menina que J\u00falia acabou percebendo que entre chorar e ganhar o que queria era muito pouco tempo. E menos tempo ainda entre chorar e deixar de ter que fazer algo que n\u00e3o queria. Assim foi que J\u00falia aprendeu a chorar.<\/p>\n<p>Depois que aprendeu a chorar J\u00falia come\u00e7ou a tentar o controle sobre sua vida. Chorava para n\u00e3o comer cedo, depois chorava porque estava com fome. Chorava para n\u00e3o ter que comer tudo, depois chorava para poder comer biscoito. Chorava para n\u00e3o ter que dormir no escuro, depois acordava de noite chorando com dor de cabe\u00e7a porque a luz estava acesa.<\/p>\n<p>Os pobres pais de J\u00falia nem conseguiam mais dormir direito, pois toda noite ela chorava pelo menos duas vezes. E pelo menos duas vezes por noite l\u00e1 vinha um pai ou uma m\u00e3e com cara de sono e p\u00e9s pesadas pisando o ch\u00e3o. Vinha ver o que havia com a menina manhosa que chorava at\u00e9 encher.<\/p>\n<p>E n\u00e3o adiantava eles amea\u00e7arem com castigos, n\u00e3o adiantava dizerem que Papai do C\u00e9u n\u00e3o gostava, que Papai Noel n\u00e3o gostava, que o Coelhinho da P\u00e1scoa n\u00e3o gostava, nada funcionava. Por fim a m\u00e3e de J\u00falia se lembrou de uma antiga hist\u00f3ria de quando era crian\u00e7a, sobre monstrinhos que v\u00eam morar no quarto das crian\u00e7as que choram durante a noite, mas nem essa hist\u00f3ria adiantou: s\u00f3 fez a menina ficar com mais medo.<\/p>\n<p>Havia duas coisas importantes que faziam J\u00falia chorar de noite. Primeiro era vontade de mamar outra vez \u2014 mas tinha noite que ela n\u00e3o conseguia acordar para pedir a mamadeira. Outra era quando ela tinha pesadelos e acordava com medo de tudo.<\/p>\n<p>Os medos de J\u00falia eram de qualquer coisa que houvesse no escuro \u2014 ou que pudesse haver. Teve uma noite em que ela acordou, viu um vulto se mexendo no ch\u00e3o e acordou o pr\u00e9dio inteiro com berros desesperados de tanto medo. Mas era s\u00f3 a sombra de um galho de \u00e1rvore \u00e0 luz da lua. Tomou um castigo de ficar uma semana sem brincar com as coleguinhas e depois de muito tempo ficou com receio de seus pais.<\/p>\n<p>Depois disso J\u00falia ficou com medo do arm\u00e1rio de madeira em que guardava seus brinquedos. Muitas vezes ela acordava solu\u00e7ando de muito medo, jurava que ouvia o barulho de unhas na madeira ou uma respira\u00e7\u00e3o barulhenta, respira\u00e7\u00e3o de monstro. Nunca tinha coragem de ir ver o que era. E tamb\u00e9m tinha medo de chamar os pais desde o castigo que levou por ter feito esc\u00e2ndalo com a sombra da \u00e1rvore.<\/p>\n<p>Mas os pais de J\u00falia logo viram que havia alguma coisa errada com a menina. Ela acordava todas as manh\u00e3s com os olhos vermelhos, o rosto amassado de quem n\u00e3o dormiu. Nunca respondia \u00e0s perguntas e isso come\u00e7ou a incomodar-lhes muito.<\/p>\n<p>Uma noite a mam\u00e3e de J\u00falia acordou no meio da noite e foi \u00e0 cozinha tomar um pouco de \u00e1gua. Ao voltar escutou uma respira\u00e7\u00e3ozinha medrosa dentro do quarto da menina e abriu a porta para ver o que era. J\u00falia estava sentada na cama, encostada \u00e0 cabeceira. Tinha os olhos arregalados e o rosto cheio de l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Minha filha, o que est\u00e1 acontecendo?<\/p>\n<p>\u2014\u00a0O monstro, mam\u00e3e. O monstro do arm\u00e1rio \u2014 disse, apontando com o dedinho.<\/p>\n<p>A m\u00e3e de J\u00falia abanou a cabe\u00e7a:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Filhinha, essa hist\u00f3ria de monstro morando no arm\u00e1rio \u00e9 s\u00f3 uma historinha\u2026<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Mas foi a senhora que me disse.<\/p>\n<p>A m\u00e3e de J\u00falia se sentia p\u00e9ssima por ter mentido \u00e0 filha e, meio envergonhada, confessou:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Filhinha, algumas coisas s\u00e3o s\u00f3 historinhas. As que s\u00e3o de verdade n\u00e3o t\u00eam monstros, n\u00e3o t\u00eam fadinhas, n\u00e3o t\u00eam nada que voc\u00ea n\u00e3o tenha visto.<\/p>\n<p>E tendo dito isto foi dormir.<\/p>\n<p>J\u00falia ainda ficou uma meia hora ou mais na mesma posi\u00e7\u00e3o, olhando firmemente para o arm\u00e1rio. Ent\u00e3o levantou-se, foi at\u00e9 ele e, agitando o dedinho, falou atrav\u00e9s da greta entreaberta da porta do arm\u00e1rio:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Eu sei que voc\u00ea n\u00e3o existe. Mam\u00e3e me disse que voc\u00ea \u00e9 s\u00f3 uma historinha. Ent\u00e3o fa\u00e7a o favor de ir embora porque a historinha j\u00e1 acabou. Se voc\u00ea ficar a\u00ed eu vou dizer para a minha m\u00e3e que tem baratas no arm\u00e1rio e ela vai te encher de veneno!<\/p>\n<p>E dizendo isso, fazendo beicinho, ela deitou na cama e dormiu.<\/p>\n<p>Algumas horas se passaram, a lua come\u00e7ou a baixar no c\u00e9u e J\u00falia dormia calmamente. Havia um sil\u00eancio enorme no pr\u00e9dio, um sil\u00eancio do tipo que s\u00f3 h\u00e1 nas cidadezinhas. Ent\u00e3o uma m\u00e3ozinha peluda e verruguenta apareceu atrav\u00e9s da greta da porta entreaberta do arm\u00e1rio de J\u00falia. Logo veio tamb\u00e9m um nariz comprido e brilhoso, que ficava na ponta de um focinho bigodudo e engra\u00e7ado. Ent\u00e3o apareceram dois olhinhos vermelhos, que pareciam muito ferozes no escuro.<\/p>\n<p>O monstrinho farejou o ar, sentiu pelo cheiro da respira\u00e7\u00e3o e do suor que J\u00falia estava mesmo dormindo. Ent\u00e3o criou coragem e pulou para fora do arm\u00e1rio, tendo o cuidado de cair no tapete fofo e n\u00e3o no ch\u00e3o de ard\u00f3sia dura.<\/p>\n<p>Era uma criaturinha medonha, mas ridiculamente engra\u00e7ada. Uma mistura de rato com gamb\u00e1, gato e porco-espinho. Tinha m\u00e3ozinhas de esquilo e orelhas que pareciam de coelho. Seu corpo era todo peludo, mas de um pelo que parecia muito sujo porque a cor variava entre diversos tons de marrom, de preto e de bege. Uma longa cauda que parecia um rabo de lagarto ficava o tempo todo se mexendo. Quem visse aquela coisinha de repente poderia bem pensar que era um bonequinho de pl\u00e1stico que ca\u00edra numa chapa quente e ficara todo deformado \u2014 ou ent\u00e3o que eram peda\u00e7os de muitos bichinhos de pel\u00facia e de alguns animais mortos que haviam se juntado numa coisa s\u00f3.<\/p>\n<p>O monstrinho co\u00e7ou a cabe\u00e7a, depois a barriga, e resmungou com uma vozinha rouca e solu\u00e7ando:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Primeiro essa chatinha me chama l\u00e1 da terra do escuro. Fica noites e noites chorando para eu vir. E agora me espanta assim! Isso n\u00e3o se faz.<\/p>\n<p>Depois olhou para o arm\u00e1rio de brinquedos e pequenas l\u00e1grimas cor-de-rosa se formaram nos seus olhinhos vermelhos:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Adeus macaquinha do lacinho de fita, adeus urs\u00e3o fofo. Vou sentir muitas saudades de voc\u00ea, bonequinha de pano.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ele retirou de dentro do arm\u00e1rio uma trouxinha de trapos cheia de coisas impossivelmente nojentas. Suspirou e come\u00e7ou a usar uma cadeirinha para alcan\u00e7ar a janela.<\/p>\n<p>Quando chegou \u00e0 janela, olhou para tr\u00e1s, fez um gesto ofensivo em dire\u00e7\u00e3o a J\u00falia e resmungou outra vez:<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Onde vou achar outro arm\u00e1rio t\u00e3o grande, t\u00e3o escuro, t\u00e3o quentinho e t\u00e3o cheio de brinquedos velhos?!\u2026<\/p>\n<p>E dizendo isso, come\u00e7ou a desdobrar asinhas de morcego que logo bateram e o fizeram voar no resto de madrugada, de volta \u00e0 Terra do Escuro, de onde os pesadelos e os monstrinhos de arm\u00e1rio v\u00eam.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00falia era uma menina cheia de manias. Principalmente era cheia de manias ruins ou esquisitas. Manias que aprendia de seus colegas, parentes, vizinhos, etc. Recentemente J\u00falia aprendeu a chorar. Nas primeiras vezes ela chorou naturalmente. O choro que as crian\u00e7as choram quando perdem ou quando n\u00e3o acham, quando n\u00e3o t\u00eam ou quando quebram, quando querem e n\u00e3o podem ou quando n\u00e3o querem e t\u00eam que fazer. 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