{"id":576,"date":"2007-04-18T21:02:00","date_gmt":"2007-04-19T00:02:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=576"},"modified":"2017-11-02T14:10:11","modified_gmt":"2017-11-02T17:10:11","slug":"o-fascinio-das-papelarias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2007\/04\/o-fascinio-das-papelarias\/","title":{"rendered":"O Fasc\u00ednio das Papelarias"},"content":{"rendered":"<p>Quando eu estudava, ainda n\u00e3o existiam essas pequenas maravilhas eletr\u00f4nicas que hoje caracterizam nosso dia-a-dia. Pesquisas eram feitas em bibliotecas empoeiradas \u2014 o bibliotec\u00e1rio era tido como um reposit\u00e1rio de saber, reverenciado. Os trabalhos eram penosamente manuscritos, depois transcritos \u00e0 m\u00e1quina ou simplesmente passados a limpo por quem tivesse letra bonita. E o trabalho de rascunhar era ainda mais dificultado pelo tipo de material com que t\u00ednhamos de trabalhar.<\/p>\n<p>H\u00e1 vinte anos, n\u00e3o existiam mais que quatro marcas de caneta esferogr\u00e1fica (Bic, FaberFix, Compactor e Pilot). Se haviam mais, eram encontradas s\u00f3 em cidades maiores. As canetas vinham em tr\u00eas cores: preto, azul e vermelho. As pretas eram raras, na maioria das papelarias s\u00f3 havia canetas azuis ou vermelhas. As verdes, quando apareceram pela primeira vez foram uma sensa\u00e7\u00e3o, prontamente banida pela intoler\u00e2ncia de alguns professores que as julgaram inadequadas para qualquer coisa al\u00e9m de rabiscos e desenhos.<\/p>\n<p>N\u00f3s que eramos pobres e compr\u00e1vamos nosso material escolar na Fename t\u00ednhamos de nos contentar com canetas Compactor, que eram mais baratas, os corpos feitos de um pl\u00e1stico opaco e quebradi\u00e7o e a tinta fedorenta e mais clara. As Bic tamb\u00e9m eram baratas, compradas na padaria da esquina quando as canetas da Fename, atendendo ao seu princ\u00edpio de design, deixavam de funcionar ap\u00f3s algumas semanas. Usar canetas FaberFix, e principalmente Pilot, era marca de status.<\/p>\n<p>Os cadernos de noss \u00e9poca tamb\u00e9m n\u00e3o eram nenhuma maravilha comparados aos de hoje. As folhas eram de pautas simples \u2014cinza ou azul \u2014 sem esses desenhos, essas marcas d\u2019\u00e1gua coloridas, esses calend\u00e1rios, essas papagaiadas todas. Eram simplesmente folhas pautadas onde se podia escrever. Com alguma sorte havia um margem esquerda, feita de uma linha vermelha ou preta. E s\u00f3. Em sua maioria eram brochuras de 48 ou 96 p\u00e1ginas. Cadernos de v\u00e1rias mat\u00e9rias com espiral eram coisa de filhinhos de papai. S\u00f3 fui ter meu primeiro caderno espiral quando j\u00e1 estava no segundo grau. Eram caros e os pais n\u00e3o gostavam porque os filhos podiam facilmente subtrair folhas para usos escusos, tais como desenhar, escrever cartinhas de amor ou jogar adedanha?. Alunos mais esnobes, filhos de pais ainda mais esnobes, usavam cadernos Caderflex, encadernados cuidadosamente em capas revestidas de nylon (azuis ou vermelhas, quase sempre).<\/p>\n<p>Borrachas, r\u00e9guas, tudo era simples, com poucas op\u00e7\u00f5es de marcas. Quase todas as borrachas eram brancas e borravam as folhas dos cadernos, especialmente os cadernos dos alunos menos higi\u00eanicos que n\u00e3o lavavam as m\u00e3os antes de estudar. Quem usava borrachas verdes ou verdes\/vermelhas da Mercur tamb\u00e9m tirava onda. As r\u00e9guas eram quase todas transparentes, de pl\u00e1stico fr\u00e1gil e invariavelmente tortas. Descolar uma r\u00e9gua melhor, de madeira ou de alum\u00ednio, era um triunfo. Um de meus traumas de inf\u00e2ncia foi justamente me terem roubado uma r\u00e9gua de alum\u00ednio que ganhar de presente de minha tia.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 preciso nem dizer que o material escolar se limitava a isso. Poucos compr\u00e1vamos livros. Quando o governo passou a fornecer, eram livros horr\u00edveis, impress\u00e3o monocrom\u00e1tica e texto p\u00e9ssimo. Nenhuma das tecnologias hoje comuns, tais como iPod, celular, agenda eletr\u00f4nica, Palmtop, etc. estavam dispon\u00edveis. A coisa mais parecida com um iPod era o walkman, um toca-fitas port\u00e1til que tocava sessenta minutos de m\u00fasica em cada fita cassete (que ocupava individualmente mais espa\u00e7o que um mp3 player que toca horas de m\u00fasica).<\/p>\n<p>Por isso \u00e9 que tenho esse meu fasc\u00ednio por papelarias at\u00e9 hoje. Entrar numa dessas lojas \u00e9 uma esp\u00e9cie de passeio para mim. Gosto de percorrer os corredores olhando as in\u00fameras marcas de canetas, nacionais e, veja s\u00f3 que coisa, importadas! Folhear os cadernos dos mais diversos tipos, pegar em minhas m\u00e3os as r\u00e9guas de precis\u00e3o, as caixas-arquivo, as pastas dos mais diversos modelos, os grampeadores (s\u00f3 os professores os tinham!), os perfuradores de papel (voc\u00ea ia numa papelaria e pagava para que encadernassem o seu trabalho, o que consistia em perfurar e colocar numa pasta-trilho!).<\/p>\n<p>Esse fasc\u00ednio que sinto pelas coisas inimagin\u00e1veis no meu tempo (como por exemplo estar usando esse computador para escrever essa cr\u00f4nica) \u00e9 muito menor do que o fasc\u00ednio de poder ver a realiza\u00e7\u00e3o dos sonhos que eu tive em menino, essa fartura de op\u00e7\u00f5es e de coisas que fazem as papelarias parecerem parque de divers\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o existe nada mais fascinante que isso. Realizar o imposs\u00edvel \u00e9 surpreendente sim, mas \u00e9 meio melanc\u00f3lico tamb\u00e9m. Nos d\u00e1 a impress\u00e3o de que nem sab\u00edamos sonhar. A realiza\u00e7\u00e3o do desejado \u00e9 que nos enfeiti\u00e7a mais, porque \u00e9 como se o destino andasse perguntando \u00e0s pessoas para que lado deveria ir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando eu estudava, ainda n\u00e3o existiam essas pequenas maravilhas eletr\u00f4nicas que hoje caracterizam nosso dia-a-dia. Pesquisas eram feitas em bibliotecas empoeiradas \u2014 o bibliotec\u00e1rio era tido como um reposit\u00e1rio de saber, reverenciado. Os trabalhos eram penosamente manuscritos, depois transcritos \u00e0 m\u00e1quina ou simplesmente passados a limpo por quem tivesse letra bonita. E o trabalho de rascunhar era ainda mais dificultado pelo tipo de material com que t\u00ednhamos de trabalhar. 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