{"id":5884,"date":"2018-05-04T22:14:56","date_gmt":"2018-05-05T01:14:56","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5884"},"modified":"2018-05-04T23:02:50","modified_gmt":"2018-05-05T02:02:50","slug":"antes-que-ele-falasse","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/05\/antes-que-ele-falasse\/","title":{"rendered":"Antes Que Ele Falasse&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Ah, o velho &#8220;ab\u00f3bora&#8221;, nascido em 1982 em S\u00e3o Bernardo do Campo e pintado de verde-claro por fora, forrado de vinil e napa por dentro. O cheiro dos bancos de vinil era inigual\u00e1vel, uma mistura de mofo, p\u00ealo de morcego e perfume entranhado de antigos passageiros. Inesquec\u00edvel lata-velha com aquele buraco no ch\u00e3o do lado do carona, onde certa vez enfiei o p\u00e9 durante um exerc\u00edcio rom\u00e2ntico. O carro em que era imposs\u00edvel fazer baliza porque s\u00f3 tinha retrovisor de um lado.<br \/>\n<img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/Fusca-300x200.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" class=\"alignright size-medium wp-image-5885\" \/><\/p>\n<p>Aquele carrinho de merda mal fazia oitenta por hora e j\u00e1 come\u00e7ava a bater lata como uma m\u00e1quina de lavar roupas dos infernos. Aquelas rodinhas com leque, aquele acelerador que travava embaixo e o freio que j\u00e1 travava em cima. Era uma beleza dirigir em um mundo sem retas, tudo em zigue-zague, por causa da folga na dire\u00e7\u00e3o, que nenhum mec\u00e2nico consertava&#8230;<\/p>\n<p>Grandes aventuras eu padeci e amei naquele tro\u00e7o feio e maravilhoso. Desde o adesivo &#8220;N\u00e3o \u00e9 do papai&#8221; que eu preguei no vidro traseiro at\u00e9 o excelente r\u00e1dio que pus no painel. Como era gostoso sair dele com cheiro de gasolina nas noites de s\u00e1bado e ir \u00e0s festas encontrar as mo\u00e7as. Elas adoravam, ou sei l\u00e1, acho que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Lembro da vez em que fui a S\u00e3o Jo\u00e3o Nepomuceno encontrar uma garota que eu queria namorar. Sa\u00ed de casa \u00e0 sete em uma noite de s\u00e1bado e cheguei l\u00e1 quase \u00e0s nove da noite, e eram s\u00f3 60km de estrada. Uma del\u00edcia, um passeio, com o vento nos cabelos! N\u00e3o, n\u00e3o era um convers\u00edvel, era por causa das gretas na lataria! De madrugada, voltando para casa depois de uns beijos t\u00edmidos, passando pela Serra dos Caramonos, derrapei numa curva em descida onde o ch\u00e3o era cheio de pedregulhos e cascalhos e s\u00f3 n\u00e3o morri porque meu anjo da guarda estava com ins\u00f4nia aquela noite e porque a folga da dire\u00e7\u00e3o impediu o carro de embicar para a ribanceira.<\/p>\n<p>Foi dentro do velho &#8220;ab\u00f3bora&#8221; que eu tive a minha inicia\u00e7\u00e3o na vida adulta, gra\u00e7as a ele que quase morri voltando de Juiz de Fora numa noite de inverno, quando, por causa do vento que entrava pelas gretas, as minhas pernas enregelaram de frio e eu perdi o controle dos pedais em uma descida. Meu anjo da guarda merece umas cervejas, cara!<\/p>\n<p>Lembro de como ele voltou da ret\u00edfica &#8220;falando fino&#8221;, que beleza! Tenho at\u00e9 hoje saudade dos milhares de reais que gastei, s\u00f3 tr\u00eas meses depois de t\u00ea-lo comprado porque o raio do motor bateu.<\/p>\n<p>Domingos eu ia visitar os meus pais na ro\u00e7a, passava o dia conversando com eles, ouvindo r\u00e1dio e lavando o carro com carinho, sem me preocupar com economia, porque era \u00e1gua da nascente, de gra\u00e7a. De tarde voltava para a cidade com o carro lavado, acelerando pouquinho pelas estradas de terra, para n\u00e3o levantar poeira e chegar no asfalto com o carro ainda bonito. Sempre topava com algum exibido em um carr\u00e3o, acelerando como um piloto de rali pelas curvas rurais. Ah, que belos palavr\u00f5es!<\/p>\n<p>Faz muito tempo que vendi o fusquinha. Talvez ele nem exista mais, por acidente ou falta de paci\u00eancia de seu comprador. Depois dele eu tive outros carros, at\u00e9 um outro Fusca, mas nunca tive de volta as coisas que vivi nele, boas e ruins, saudades e vergonhas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ah, o velho &#8220;ab\u00f3bora&#8221;, nascido em 1982 em S\u00e3o Bernardo do Campo e pintado de verde-claro por fora, forrado de vinil e napa por dentro. O cheiro dos bancos de vinil era inigual\u00e1vel, uma mistura de mofo, p\u00ealo de morcego e perfume entranhado de antigos passageiros. Inesquec\u00edvel lata-velha com aquele buraco no ch\u00e3o do lado do carona, onde certa vez enfiei o p\u00e9 durante um exerc\u00edcio rom\u00e2ntico. O carro em que era imposs\u00edvel fazer baliza porque s\u00f3 tinha retrovisor de um lado. 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