{"id":595,"date":"2013-07-29T23:33:33","date_gmt":"2013-07-30T02:33:33","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=595"},"modified":"2017-11-02T14:08:18","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:18","slug":"no-acougue-das-ideias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/07\/no-acougue-das-ideias\/","title":{"rendered":"No A\u00e7ougue das Ideias"},"content":{"rendered":"<p>Come\u00e7o a semana pensativo sobre muitos problemas pessoais, entre os quais um resfriado desses de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, e me deparo subitamente com mais chorumelas sobre como os escritores nacionais, tadinhos, s\u00e3o maltratados pelos leitores nacionais. O tema n\u00e3o \u00e9 novo e nem \u00e9 simples, o que \u00e9 simples \u00e9 a constata\u00e7\u00e3o de que muitas l\u00e1grimas j\u00e1 foram choradas nesse vel\u00f3rio e ningu\u00e9m enterra o defunto. Nem pretendo eu, n\u00e3o hoje, mas come\u00e7o a &#8220;dar uns toques&#8221; \u00e0s carpideiras de que \u00e9 hora de fechar o caix\u00e3o.<\/p>\n<p>Quem me chamou a aten\u00e7\u00e3o para o caso foi o colega <a href=\"http:\/\/www.blogger.com\/profile\/17600695518958787898\" target=\"_blank\">Thiago Rulius<\/a>, do blog <a href=\"http:\/\/papolivro.blogspot.com\">Papo Livro<\/a>, por sua vez citando uma cr\u00f4nica de Victor Schulde e Raphael Montes, publicada no Jornal do Brasil, um blogue de not\u00edcias que herda o nome de um falecido jornal.<\/p>\n<p>Bem, diz o Victor, que escreve livros infanto-juvenis (mas n\u00e3o cr\u00f4nicas de jornal, diga-se), que presenciou uma cena em certa livraria, na qual uma potencial compradora de livros fez cara de decep\u00e7\u00e3o ao descobrir que uma obra pela qual estivera interessada fora escrita por um autor nacional. A cr\u00f4nica em quest\u00e3o \u00e9 um desses textos que concentram tudo o que t\u00eam a dizer no primeiro par\u00e1grafo, tornando sup\u00e9rflua cada letra posterior. O tal par\u00e1grafo diz o seguinte, com grifos meus (leiam o par\u00e1grafo prestando aten\u00e7\u00e3o aos trechos destacados).<\/p>\n<blockquote><p>Semana passada, <em>fui abordado<\/em> em uma livraria do centro do Rio <em>por uma mo\u00e7a que queria ajuda na escolha de um livro<\/em> de suspense ou de aventura. Entre os lan\u00e7amentos, recomendei A noite maldita (ed. Novo S\u00e9culo), do Andr\u00e9 Vianco, e Fios de prata (selo Fantasy), do Raphael Draccon. <em>A mo\u00e7a estava bastante entusiasmada com as indica\u00e7\u00f5es at\u00e9 ler a biografia dos autores<\/em>. Sua express\u00e3o mudou subitamente e ela largou os livros com um vigoroso &#8220;ai, autor brasileiro n\u00e3o, n\u00e9?&#8221;. Perguntei qual era o problema e <em>ela se defendeu<\/em>, dizendo que o livro n\u00e3o era para ela e que &#8220;dar de presente livro nacional pega mal, n\u00e9?&#8221;. <em>Sem muita paci\u00eancia<\/em>, me afastei, mas fiquei observando quando ela pescou um Harlan Coben na prateleira e enfiou-se na fila para pagar.<\/p><\/blockquote>\n<p>Que tipo de pessoa aborda um desconhecido em uma livraria pedindo indica\u00e7\u00f5es de livros para comprar? Certamente uma pessoa sem no\u00e7\u00e3o das coisas, visto que os vendedores est\u00e3o l\u00e1 exatamente para isso. Uma pessoa s\u00f3 pede ajuda a algu\u00e9m conhecido ou  a algu\u00e9m que pare\u00e7a estar l\u00e1 para isso. Ou a mo\u00e7a em quest\u00e3o conhecia o autor pessoalmente ou ela o o achou com cara de vendedor de livraria ou ela \u00e9 uma sem no\u00e7\u00e3o. Voto no item &#8220;c&#8221;.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio autor, ao final, confessa ter ficado sem muita paci\u00eancia quando suas indica\u00e7\u00f5es foram rejeitadas, embora eu aposte que ele ficou mais ofendido pela afirmativa de que &#8220;dar de presente livro nacional pega mal&#8221;. Mas se voc\u00ea n\u00e3o tem paci\u00eancia para enfrentar esses obst\u00e1culos, como pode esperar que as pessoas o entendam e valorizem? N\u00e3o se trata aqui de implorar, pois isso o escritor nacional estereotipado j\u00e1 faz at\u00e9 demais. Trata-se de ouvir, para entender, porque somente conhecendo \u00e9 poss\u00edvel reagir.  Mas o autor preferiu ficar &#8220;sem paci\u00eancia&#8221; e, em vez de conversar com a potencial leitora e tentar vencer sua resist\u00eancia, preferiu fazer aquilo que o t\u00edpico autor nacional adora fazer: reclamar com outros autores nacionais.<\/p>\n<blockquote><p>Dois dias depois, participei de uma mesa de debates com autores de literatura nacional no monumento Est\u00e1cio de S\u00e1. <em>O evento estava cheio e o entusiasmo dos leitores em ter contato direto com autores era evidente<\/em>. Diante de epis\u00f3dios t\u00e3o d\u00edspares, foi inevit\u00e1vel a pergunta: por que brasileiro n\u00e3o l\u00ea brasileiros? Especifico: <em>por que brasileiro n\u00e3o l\u00ea brasileiros contempor\u00e2neos?<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Coer\u00eancia n\u00e3o \u00e9 o forte dos dois autores deste artigo. Se o evento estava cheio e o entusiasmo dos leitores era t\u00e3o grande, como ainda cabe a pergunta sobre por que o brasileiro n\u00e3o l\u00ea brasileiros contempor\u00e2neos. Algo n\u00e3o se encaixa neste racioc\u00ednio: ou o brasileiro l\u00ea, sim, autores brasileiros contempor\u00e2neos, ou n\u00e3o os l\u00ea. Se n\u00e3o h\u00e1 interesse pela literatura nacional, ent\u00e3o por que estaria cheio um evento de autores nacionais? H\u00e1 tr\u00eas respostas poss\u00edveis: Ou o interesse existe, mas n\u00e3o \u00e9 atendido pela massa dos autores contempor\u00e2neos, ou o evento estava cheio de outros autores apertando reciprocamente as m\u00e3os, ou o evento estava &#8220;cheio&#8221; porque o local era min\u00fasculo, tornando o evento em si irrelevante.<\/p>\n<p>Estas hip\u00f3teses  n\u00e3o s\u00e3o investigadas pelo texto. Suspeito que pouco sejam investigadas pelo t\u00edpico autor nacional. Afinal, ele n\u00e3o tem paci\u00eancia com quem o rejeita inicialmente, gosta de frequentar pequenos ambientes controlados onde encontra um p\u00fablico cativo e entusiasmado.<\/p>\n<p>Mais adiante se afirma: <q>Andr\u00e9 Vianco, por exemplo, chegou na marca de um milh\u00e3o de exemplares com suas hist\u00f3rias de vampiro \u2013 tema bastante explorado em obras estrangeiras tamb\u00e9m.<\/q><\/p>\n<p>O autor poderia ter mencionado Zibia Gasparetto, Paulo Coelho, Chico Buarque e v\u00e1rios autores de n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o \u00e9 claro que o autor nacional vende. O pressuposto do texto \u00e9 intrinsecamente falho: n\u00e3o h\u00e1 necessidade de argumentar sobre um ponto que o pr\u00f3prio texto evidencia falso.<\/p>\n<p>Mas se o autor nacional vende, a ponto de se tornar best-seller, como Paul Rabbit, porque a cont\u00ednua chorumela do autor nacional sobre o desinteresse do p\u00fablico pelo livro nacional? N\u00e3o ser\u00e1 que certos autores nacionais n\u00e3o vendem porque n\u00e3o escrevem aquilo que o p\u00fablico quer ler? Ser\u00e1 obrigat\u00f3rio escrever e vender aquilo que o p\u00fablico quer ler? Ser\u00e1 que todo autor deve ser best-seller?<\/p>\n<p>S\u00e3o muitas as perguntas para se responder, e \u00e9 preciso paci\u00eancia, que o autor confessa n\u00e3o ter muita. O que ele n\u00e3o entende \u00e9 que o sucesso \u00e9 algo dif\u00edcil, que n\u00e3o depende s\u00f3 de talento e nem s\u00f3 de esfor\u00e7o. Nem todo mundo tem a sorte de se tornar best-seller antes dos trinta, como Stephen King. Al\u00e9m dos que nunca se tornar\u00e3o, existem aqueles que ralam uma vida inteira para chegarem ao sucesso j\u00e1 na velhice, como George R. R. Martin. A carreira liter\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 para quem j\u00e1 entra no \u00f4nibus procurando um assento de janela.<\/p>\n<p>A rejei\u00e7\u00e3o do nacional n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno espec\u00edfico da literatura, e portanto n\u00e3o h\u00e1 nada que n\u00f3s autores possamos fazer. Por mais que participemos de mesas-redondas, oficinais, palestras, feiras e leil\u00f5es, a verdade \u00e9 que o povo continuar\u00e1 dando mais valor ao estrangeiro do que o nacional. Ainda somos um povo de mente colonizada, e isso foi refor\u00e7ado nos \u00faltimos cinquenta ou sessenta anos, pela invas\u00e3o das marcas multinacionais, com o benepl\u00e1cito da ditadura. O autor estrangeiro \u00e9 desejado pelo mesmo motivo por que o carro importado \u00e9 cobi\u00e7ado, o perfume franc\u00eas, os vinhos europeus, o u\u00edsque escoc\u00eas, a vodca russa. Os Estados Unidos s\u00e3o a na\u00e7\u00e3o dominante no mundo, ent\u00e3o a l\u00edngua de l\u00e1, o ingl\u00eas, est\u00e1 para a cultura liter\u00e1ria da mesma forma que a vodca russa est\u00e1 para o Conhaque de Alcatr\u00e3o de S\u00e3o Jo\u00e3o da Barra. Ter o estrangeiro \u00e9 mostra de status. Quem tem dinheiro no bolso, mas pouca no\u00e7\u00e3o na cabe\u00e7a (como parece ser o caso da mo\u00e7a da livraria) n\u00e3o quer um objeto para dele usufruir, mas para o ostentar.<\/p>\n<p>A ostenta\u00e7\u00e3o \u00e9 a chave. N\u00e3o se ostenta um autor obscuro, por mais que gostemos do livro. Ostenta-se o autor cujos livros viram filmes, esses a gente quer ter na prateleira. N\u00e3o h\u00e1 como competir contra isso: \u00e9 preciso uma mudan\u00e7a cultural profunda, ou a paci\u00eancia de tentar convencer de que o nosso livro merece um canto da aten\u00e7\u00e3o do fregu\u00eas. Sem paci\u00eancia \u00e9 natural que a mo\u00e7a v\u00e1 comprar um livro qualquer que tenha nome de estrangeiro na capa (e muito autor nacional mutreteiro trata de arranjar um pseud\u00f4nimo pseudogringo para isso mesmo).<\/p>\n<blockquote><p>P\u00f3s escrito maldoso, \u00e0 la Mill\u00f4r: <i>Mestre, confio em ti, mas n\u00e3o em tua obra. Que autor \u00e9 esse que precisa de ajuda para fazer uma cr\u00f4nica de jornal?<\/i>.<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Come\u00e7o a semana pensativo sobre muitos problemas pessoais, entre os quais um resfriado desses de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, e me deparo subitamente com mais chorumelas sobre como os escritores nacionais, tadinhos, s\u00e3o maltratados pelos leitores nacionais. O tema n\u00e3o \u00e9 novo e nem \u00e9 simples, o que \u00e9 simples \u00e9 a constata\u00e7\u00e3o de que muitas l\u00e1grimas j\u00e1 foram choradas nesse vel\u00f3rio e ningu\u00e9m enterra o defunto. Nem pretendo eu, n\u00e3o hoje, mas come\u00e7o a &#8220;dar uns toques&#8221; \u00e0s carpideiras de que \u00e9 hora de fechar o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[183,142],"tags":[103,20,109,61,28,76],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/595"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=595"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/595\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4762,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/595\/revisions\/4762"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=595"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=595"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=595"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}